Papo Furado by Jairo Lima
PAPO SOLTOQUEM É JAIRO LIMAJAIRO PARTICIPEFEIRALINKS


Banca do Antonio Nahud Júnior
Banca do Chico Guedes
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do João da Mata Costa
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Leonardo Neves
Banca do Márcio de Lima Dantas
Banca do Marcos Silva
Banca da Sonia Bierbard


Banca do Jairo Lima
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De Daniel Piza

Luis Inácio Lula da Silva vive disparando contra os que “torcem contra”, sugerindo que a imprensa é um obstáculo entre a classe política e o povo, de acordo com o mais antigo ideário populista. Ele acha que a imprensa não dá as boas notícias, mas isso é porque, como confessou, não lê os jornais; todo dia há fotos suas, nas mais diversas situações e lugares, e ao menos um índice positivo nas primeiras páginas, em geral vindos de institutos públicos claramente a serviço da propaganda oficial. Se sua popularidade é superior a 73%, em boa parte é por causa da mídia, e não apesar dela. Afinal, se a imprensa é porta-voz da “zelite”, é porta-voz da indisfarçável felicidade de banqueiros e empresários com seu governo.

Eppur, o Grande Timoneiro, membro indiscutível das zelite e beijoqueiro oficial dos mais repugnantes ditadores,continua fazendo da sua condição de analfabeto intencional o grande emblema que oferece à juventude do país, dividida entre jogar futebol, ser presidente da república ou petista em "cargo de confiança", ocupações que, sabidamente, não exigem qualquer aprendizado, mas tão somente boa forma física, a primeira,  esperteza e ampla complacência ética, as duas últimas.

JL

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Amigo Jairo,

Não faz muito tempo li no seu blog um artigo bem preconceituoso contra o que eu considero umas das áreas mais bem sucedidas do governo Lula. Tratava, se lembro bem, do "incompreensível" e "pretensioso" envolvimento do Brasil com a política do Oriente Médio, escrito por uma figura de quem esqueço o nome agora.
Eu costumo ler política internacional na imprensa internacional e os elogios à política do governo Lula, sobretudo à atuação do brilhante Chanceler Celso Amorim se amontoam, com as raras e esperadas exceções dos guardiães dos interesses tradicionais dos "donos do mundo", que são postos em cheque pela atuação inovadora e "atrevida" do Brasil.
Você tem todo o direito de não gostar de nada que diz respeito a esse governo e só postar o lado da história que bate com sua visão. Mas quem sabe encontra um tempinho pra ler este "outro lado", de uma fonte surpreendente, que tem a vantagem adicional de estar em português.

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-cobertura-de-lula-em-israel

Aguardo sua visita pra gente ouvir juntos a 5a e a 7a sob a batuta da nova sensação mundial, o jovem venezuelando Gurstavo Dudamel http://www.gustavodudamel.com/, Diretor Musical da Filarmônica de Los Angeles e cria do sensacional projeto social-musical

http://www.fesnojiv.gob.ve/es/el-sistema.html
 
que rola hoje na Venezuela.

• Caro Chico, meu desconforto com ditadores vem de longe. Porisso, quando vejo o nosso, ou melhor, o vosso Grande Timoneiro aos beijinhos e abraços com Ahmadinejad, Fidel, Chavez & Cia. não consigo vencer minha repugnância por este conterrâneo que parecia encarnar, com o seu partido, a grande reserva moral da política deste país, pobrinho mas decente. E aí, como nos CDs, só consigo ouvir um lado. Sorry.

JL

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De Rogers Silva

Conheço (todos conhecemos) indivíduos que ganham R$ 800 mensais e compram celulares de R$ 1.000. Pagamos R$ 40 para assistir uma partida de futebol, mas não pagamos o mesmo valor por um livro. Tanto o futebol quanto o livro possuem a sua importância e proporcionam prazeres, embora diferentes. Muitos pagam R$ 100 por sexo, mas não têm coragem de pagar menos da metade disso pelo prazer proporcionado por um bom livro. Em época de Copa, dividimos – em 12 parcelas – uma televisão de 42 polegadas de mais de R$ 2.000, mas não compramos livros. Compramos roupas caras; não compramos livros baratos vendidos em sebos. Pagamos TV a cabo com seus canais – a maioria – inúteis. Não compramos livros. Juntamos em armários, gavetas e guarda-roupas quinquilharias compradas mas nunca usadas. Mulheres pagam caro por plumagens, balaiagens, reflexos, hidratações, manicure, pedicure, escova progressiva, cauterização etc. Na noite, gastamos de R$ 50 a R$ 100 com boates e bebidas. Bêbados, não compramos livros. Comemos, felizes, sanduíches ruins do McDonald’s, e pagamos por eles. Há famílias que tomam uma coca-cola de 2 litros por dia; com isso gastam aproximadamente R$ 120 por mês. Muitos pagam R$ 25 por um cd do Zezé di Camargo e Luciano. Alguns, os que preferem outros tipos de drogas, gastam dinheiro com maconha, craque, cocaína etc. Drogados, não compramos livros.

Pura verdade. Sempre disse que o problema de livro no Brasil não é o preço, mas o valor. Quer dizer: livro é  merda, não vale nada, ergo, é caro! Nos tempos da Kriterion eu ficava puto quando via um cara com um tênis de 500 paus, camisa Lacoste de 150, calça de mais de 200 e cérebro de ultra baixo teor de inteligência dizer que um livro de 30 mirréis era caro. Não comprava e saía indignado gastando a sola do seu custoso tênis.

JL


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Marcela em azul
Jairo Lima

a montanha te quer em azul como dália apenas anunciada
nos vapores do longe

te quer azul o rio sobre a hora desnublada
azul te quer a fonte

entre águas e águas o teu azul cantante se faz sol
nascido
lenta cantata vela o mapa do teu nome

e por dizer-te as pedras guardam em vigília memórias de água e vento
o teu hoje acorda inundado de luz entre trovões e sinos

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Banda Pixies cancela concerto em Israel

Uma boa notí­cia para Israel, no meio do caos em que se meteu pelas merdas que andou fazendo. O cancelamento da turnê da banda, pelo menos, tem a virtude de de manter o ní­vel de idiotia do paí­s estável.

JL

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Meu caro Gustavo de Castro

Lisonjeado pela citação do meu nome no seu belo texto*, quero completar aquela nossa conversa com um trecho da primeira elegia de Rilke que, por sinal, publico hoje no meu site: (…) “Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos, e o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha destruir-nos”.
Já senti isto, na pele e no sangue, no final de Tannhauser, quando a sensação de esmagamento, de vórtice, de dilaceramento nos lança sem transição na imobilidade atônita do tal “mundo real”. O caba tem que ter estampa pra aguentar o tranco.
O fato é que este cabinha mofino de hoje, anêmico, neurastênico, vazio, amedrontado, ineficaz e barulhento, recolhido covardemente aos desvãos mais escuros da vida, não tem sustança nem para uma furada de agulha num exame de sangue, quanto mais para a violência suprema e bendita da Arte.
Para esta galera só vale o entretenimento anestésico que se sorve revirando os olhos e, nos desvarios de bêbado, chama-se de arte.

* Publicado no site do Tácito Costa
www.substantivoplural.com.br  no dia 25 de maio de 2010, sob o título "Poesia é uma palavra plural", transcrito neste site na mesma data.

JL

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Jairo Lima e as novas diretrizes da CNBB

Agora ficou bem melhor: padre não pode mais comer menino, só pode comer menina.

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Jairo Lima e a multi-ideologia

Pois é, gente, não tem nada que reclamar, é a multi-ideologia do Grande Timoneiro. Mas pode também chamar de multi-oportunismo, multi-safadeza, multi-esperteza, multi-fuleragem... Proponho que os multi-ideológicos também não possam adotar. Que acham?

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De Felipe Pena

Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação de sua vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado e pretensamente erudito, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.

O autor deste "conceito" não é chato, hermético ou besta. É simplesmente estúpido. Se os escritores o ouvissem teríamos uma porrada de paulos coelhos e nenhum Joyce, Niestzche, Montale ou Monteiro e, rigorosamente, NENHUM filósofo. Na alta literatura não há livro chato, mas leitor prequiçoso; não há livro hermético, mas leitor burro; não há livro metido a besta, mas leitor medíocre. Felipe Pena prefere acreditar que as uvas estão verdes a constatar que as raposas são fuleiras. Para um artista, ô Felipão, ganhar dinheiro é consequência, não escopo da obra. Êpa, falei "escopo". Será que o hômi vai me achar hermético? Que pena, Felipe, falou, falou e só disse merda!

JL

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Canção da Pedra
Jairo Lima

despojos
de luna avara

estampido seco
sobre o palco de areias quentes onde a mão

onde a mão minando lágrimas
pensa a dor da palavra

o gesto imerso em leite de alvorada
constrói minuciosa pátina

os vidros claros da vida se arrebentam
um grito árido se recosta num portal de águas

doce é a cantiga dessas pedras enlunadas
onde a mão dá um claro vermelho para o sol e um azul ainda úmido

para as águas

doce é a canção dessas pedras enlunadas

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De Jairo Lima

Novela é como merda pausterizada: pára de feder mas continua imprópria para consumo.

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Crianças, vocês ouviram a Lakmé?
Jairo Lima

Se não ouviram ou se não gostaram, paciência, vamos continuar o nosso curso "Porque Ivete Sangalo é uma Bosta - menos a Bunda e as Coxas - e Vocês Não Notam". Todo bat dia aqui neste bat site.

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O paleolítico é aqui. E agora.
Jairo Lima

Tá vendo, negão? Arte do paleolítico, saca? Isso pra tu perceber que TODA arte é moderna e contemporânea, ó infiel. Agora, quando tu cisma que a bunduda, peituda e gostosuda Beyoncé faz arte, aí a coisa complica. Se vocês acham que produto industrial e produto artístico não têm diferença, então bom McDonald pra vocês que eu vou pra peixada da cumade.

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Beyoncé quase cai
Durante o show em Florianópolis, a diva escorregou e quase caiu.

Tu pode? Uma merda desta ser notícia na imprensa mundial? Acho que o mundo vai acabar mesmo em 2012, mas vai ser com uma chuva de cangalhas. E não ficará um jumento vivo sobre a face da terra para assistir aos shows da "diva".
O que me lembra um edificante provérbio dos meus matos: merda é bosta, você come porque gosta.

JL


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Jairo: Longe, sempre perto.
Marcos Silva

Prezado Jairo:

Como eu não moro em Natal, lamentarei sua mudança apenas pelos que ali residem. Sempre estou perto de vc no espaço virtual, todos os natalenses continuarão a desfrutar desse privilégio. Desejo grandes felicidades para vc em qualquer endereço.

Abraços.

É verdade, Marcos, somos amigos virtuais. Com um breve momento de "desvirtualização" quando, em visita ao Mercado de Petrópolis com uns amigos, você nos concedeu alguns momentos de sua atenção em uma breve mas proveitosa visita ao Papo Furado. Que espero se repita em algum barzim do Recife ou aqui mesmo de Natal, se nossas agendas coincidirem. Na pauta uma pequena questão que quero discutir com vc: na tradução de poesia, lê-se o tradutor ou o traduzido? Bom, assunto a gente já tem. Só falta providenciar o encontro e a cachacinha.

JL


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Homenagem a Jairo Lima
Cleido Freire

Escutarei Wagner;
Assistirei Salomé, Madama Butterfly, Tannhäuser;
Beberei vinho, cachaça, uísque doze anos e outras coisas;
Comerei ginga com tapioca no mercado da redinha, carne de sol no farol bar e buchada de bode da Dona Maria que voce não saboreou, mas um dia irá conhecer;

E, acima de tudo, lerei Dostoievski.

Esses não são versos de saudades e melancolias, e sim, constatacões de uma amizade verdadeira.

P.S. Ah! já estou quase embriagado com coca-cola e gelo, pois ela pura é muito forte.

Cleido é tão abstêmio quanto três mulçumanos e um testemunha de Jeová juntos. Só bebe coca-cola. Sentava no bar, pedia uma latinha, depois outra, depois outra, e lá pras tantas já soltava o verbo como o que mais desvairadamente bêbado estivesse à mesa. Amigão. Amigo daqueles de parachoque de caminhão. Público. Escancarado. Definitivo.
Devo-lhe, além da amizade com um cara inteligente e refinado, favores impagáveis. Amigos que levava ao bar. Ele próprio, de cadeira cativa, literalmente: na Kriterion, a penúltima cadeira do lado direito de quem entrava; no Papo Furado, que tinha mesa redonda, uma cadeira que ficava a nordeste, acho, nunca fui bom com a rosa-dos-ventos.
Dizer obrigado é pouco. Adeus é muito. Então fico com um até logo, amigão, ainda nos reuniremos muito pra conversar lezeira entre cocas e vinhos. Que Dioniso, o deus papudinho, abençõe a ti e te perdoe, oh amante da coca-cola.

JL


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Enviado por Rodrigo Levino

Natal

ja disseram uma vez que natal cospe os bons. pode ser. taí sua partida pra testemunhar a favor da tese.

a cidade perde e a perda é irreparável.

haja prejuízo a ser contabilizado.

de cá fica o desejo de sorte no retorno e a saudade de sempre.

um beijo e um abraço

A morte sugere as grandes confissões. As viagens reclamam as pequenas, as mesquinhas e, porisso mesmo, as mais vergonhosas. Confesso. Tenho orgulho de avô babão por este menino Levino. Como se ele fosse minha cria, bicho nascido e cevado nos meus cercados. E sempre usei impudicamente a sua amizade. Rodrigo Levino? Amigo do peito, sabe, aquele que escreve na Piauí, na Playboy, aquele que escreveu o mais belo livro de crônicas de que se tem notícia por estas partes. Pois é. Usei e abusei do Levino pra me promover, pra fazer inveja pro povo, pra me apropriar de um latifúndio afetivo que só existe na alma. Um dia esse cabra me chega com a notícia que vai pra São Paulo. Fiquei triste pra caralho. Aí, acendi o olho. São Paulo? Ele vai se mostrar muito mais por lá. E eu vou me amostrar muito mais aqui na província, como amigo dele. Rodrigo Levino? Sou assim com aquele menino!
Caba bom, ele. Eu, caba safado.
O mundo é assim.

JL

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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br

Jairo Lima
Por Moacy Cirne

Como você, caro Tácito, também desejo boa sorte a Jairo Lima, grande figura humana e um papo excelente. (O seu conhecimento sobre literatura, cinema e música erudita é digno de louvor.) Ainda bem que o seu blogue vai continuar.

Um abraço em todos.

Basta dizer uma coisa: só tem dois sites que leio diariamente, que nem breviário ou missal . O teu, Cirne, e o de Tácito.

JL

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De Ulisses
Pedro Lucas Bezerra

Pra Jairo, François e quem mais tiver tempo a perder sobre 'Ulisses'

É compreensível que nem todos curtam Ulisses, e vejo normalmente o fato de alguém não gostar, não entender, e até não respeitar devidamente o livro de Joyce. Não acho uma heresia e nem pecado não gostar da salada de palavras, pensamentos e soluções estéticas propostas por Joyce. Vou ver se pinço umas coisas que talvez sirvam à degustação do 'Ulisses', se isso é possível a mais alguém. Pra mim é.
Primeiro, compreendamos que o livro é quase uma piada. É uma história simples, um dia na vida de um pacato dublinense, que vai se arrastando por meio de pequenos acontecimentos, e não passando disso. Não passa disso mesmo, são quase 900 páginas daquilo que qualquer um pode chamar de enrolação. Quem for lê-lo pensando numa Odisséia como a que se inspirou (e tenho certeza de que ninguém vai ler assim, e seria inocência da minha parte pensar desse modo), claro que vai largar o livro a partir do terceiro capítulo, no máximo. O 'Ulisses' é um dos primeiros livros a ser escrito com total comprometimento na elaboração da linguagem. A graça é justamente essa. A graça é perceber as vozes das personagens, é entender aquilo como uma grande feira assistida, ou uma foda muito demorada que por pouco não chega ao gozo. Por pouco. Acho que não há como não gostar pelo menos do monólogo de Molly Bloom, esse sim chegando ao gozo. Pelo menos trezentas vezes.
Então, quem não aguentar uma overdose de frases muitas vezes sem sentido, caminhadas aleatórias, e também com destino, conversas pesadas em uma biblioteca, piadas intelectuais (que, vejam só, não me parecem chatas), livros inventados, listas quase sem sentido, sexo e mais sexo, ver o protagonista defecando e também se masturbando, ouvir uma orquestra distribuída em parágrafos de uma frase só, bebedeiras e sonhos acordados, fumaça e cheiro de chocolate e abacaxi, e gritos de pessoas na rua, e um sabonete derretendo no bolso de Leopold Bloom, entre outras perdas de tempo (que vejo como recompensadoras), leia só o monólogo final, na voz de Molly Bloom. Acredite, amigo, vale a pena.

Minha bronca com Ulisses é que ele não é "difícil" por complexidade funcional, mas por deliberada ocultação dos elementos estruturadores. Uma enorme palavras-cruzadas que me entedia por absoluto desinteresse. Diferente, por exemplo, da complexidade de uma fuga de Bach, "dificílima" também, mas de uma "necessidade" absoluta. Bach é como uma máquina de mecânica extremamente complexa por onde se introduz um porco e se retira, ao fim, salsicha. Joyca criou um mecanismo no qual vc introduz um porco, o bicho gira, gira, passa por mil engrenagens, é beliscado, puxado, empurrado de lá para cá e no fim resulta que ele sai do outro lado tão porco quanto entrou. Pra quê? Pra nada. Então, continuo a admirar o Joyce pre-ulisses. E a vc, Pedro, que estás escrevendo bem pra cararalho.

JL

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Enviado por François Silvestre

Pode montar o detector de mentira que eu topo. Não entendi nada do ulisses e achei uma boa bosta. Não passei da metade. Ulísses bom é do Homero. Viu a intimidade? E A espera de Penélope de um certo poeta mauriciano. Abraço do irmão.

François Silvestre falou, tá falado. Também acho o Ulisses de Joyce uma bosta. François leu a metade, eu não consegui vencer trinta páginas daquele saco. E acho Homero o cara! Agora que tenho o apoio do maior romancista destas plagas, quero ver quem vai me olhar atravessado. Viva François Silvestre. Morra o Ulisses de Joyce.

JL


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Falou e disse: Fernando Monteiro

Gosto do Joyce pré-“Ulisses” – e acho que ele não entendeu toda a lição de Dujardin (pelo menos em Os loureiros estão cortados, que é de 1888). E, sim, Joyce ainda tinha outro grave defeito: acreditava que era Joyce!

Também gosto do Joyce dos "Dublinenses". E submeteria, numa boa, cada apologista do "Ulisses" ao teste do detetor de mentiras. Quem topa?

JL

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Parque Dona Linu? Porque não Parque Dona Edith,

que vem a ser minha mãe? Ou Dona Maria, que é mãe da Lúcia? Não é para homenagear mães valentes e devotas? Fico puto com esta canalha que faz puxasaquismo político com a MINHA cidade. E a tal Av. Norte José Arraes de Alencar? Nem discutir a homenagem a Dr. Arraes. Ele merece. Mas precisava se perpetrar este horror? Hem, Bandeira, hem Carlos Pena Filho, hem Capiba? Recife não tem mais recifenses?

JL

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Discordo do Marcelo Coelho quando ele diz que ninguém gosta de ser enganado. Ningúem, não. Intelectual-de-Shopping gosta. Adora. O jogo dele é o máximo de afetação "intelectual" com o mínimo de esforço mental. Esta, aliás, é a chave para se entender certa "arte" contemporânea. Posar de conhecedor profundo de águas rasas é a meta suprema. E haja bosta no urinol de Duchamp.

JL

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Comentário sobre o post Eu e o Poeta de Laurence Bittencourt

Querido e corajoso amigo, vc comprou uma briga sem tamanho com um bando de analfabetos musicais que, em nome do politicamente (argh!) correto afirmam candidamente que os sapos são iguais aos navios porque são vistos sempre próximos à água. Moliere, em frase lapidar de sua peça "As Sabichonas", fala dos que, para se mostrarem iguais aos gênios, imitam-lhes o modo de escarrar. Os shoppings intelectuais estão cheios destes cuspidores que, falseando a mais elementar verdade, tiram do povo a possibilidade de acesso aos bens culturais superiores (superiores, sim, vocês podem estourar de raiva, mas são superiores, sim) sugerindo que a arte popular é tão importante quanto a suposta, para eles, arte erudita. Ou que, simplesmente, não existe diferença entre Meu Limão, Meu Limoeiro e a Tocata e Fuga em Ré. A tchurma confunde, deliberadamente, arte, artesanato, ritos sociais tradicionais, indústria do entretenimento, o caralho a quatro; botam tudo num mesmo saco e sentam em cima. São os defensores da "cultura" este tudo que é nada. Assim, é só deixar o povo como está. Pobre, explorado, submisso e, sobretudo, ignorante. Afinal, para que se esforçar se futebol é arte, jogador é herói, motorista de carro de corrida é gênio e Michael Jacson foi o mais importante fenômeno artístico do século passado? Ou seja: para que estudar, ou fazer qualquer outro esforço intelectual se já nascemos institivamente habilitados para o usufruto das mais ricas benesses do espírito? E esta turma, reaça e conservadora, pasme, posa de esquerda. Combine isto com governantes analfabetos e o resultado é a consagração institucional deste abestalhamento abissal que nos retira da penumbra contemplativa do teatro para a vulgaridade ensolarada e participativa do circo.

P.S. Quer fazer um teste? Pergunte a um abestalhado destes, sem dar tempo para ele consultar a Wilkipedia, o que é uma fuga. E depois me diga.

JL


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Comentário sobre um post do Coronel Maciel

Talvez, Coronel, o preconceito estúpido, desculpe o pleonasmo, favoreça os tratantes ainda mais do que a loucura. E para ele não podemos ter a compreensão que temos para quem se encontra num estado de alteração da consciência do qual não tem culpa. Já o preconceituoso, sempre covarde, sempre solerte, afirma e proclama um demérito inexistente só para, denegrindo o caluniado, exaltar o pequeno canalha que se julga superior.

JL

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Padres, putas, pilotos e heróis.
Jairo Lima

Além de dirigir carros e comer loiras, não se sabe de mais nada que seja feito pelos chamados pilotos de Fórmula I que possa ser assinalado como socialmente relevante. Nem por isso, a cidade de Natal deixou de dedicar uma avenida a um motorista milionário chamado Ayrton Senna. Natal só, não, tudo o que foi cidade do Brasil dedicou pontes, hospitais, vulcões, fontes, hoteis, puteiros, ao intrépido motorista de São Paulo.
A imbecilidade, realmente, não tem limite. Se era para dar nome de motorista a uma avenida de Natal, porque não falaram comigo que eu iria sugerir seu Edson, este sim um herói, valente pai de família que sustenta mulher e filho com seu trabalho pesado e mora em Emaús, bem perto da tal avenida?
Agora, o que acho mais engraçado neste filhos das putas que enaltecem e enriquecem inutilidades como padres e jogadores de futebol, é que, quando têm uma gripe, recorrem à ciência e aos cientistas que tanto desprezam. Porque não vão se tratar com uma destas celebridades vazia produzidas aos milhares, todos dias, pela indústria cultural?
Alias, até onde eu sei, lixo cultural é o único tipo de dejeto não reciclável. E que pode permanecer contaminando a natureza humana por muitos e muitos anos.

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Ética (ou falta de ética) potencial
Por Marcos Silva
Caro Jairo:

Comentando o romance de François Silvestre, vc assinalou que tanto a puta quanto o político de elite não têm ética. Penso que a puta e o político de elite podem não ter ética, comumente não têm. Mas também podem ter, é só querer. Eu ainda penso que algumas pessoas no planeta – eu e vc, por exemplo – têm (temos) ética.

Sobre a ética das putas, recomendo a velha peça de Sartre “A puta respeitosa” – ele não era grande dramaturgo mas tinha umas idéias interessantes.

Sobre a ética dos políticos, não me ocorre nada agora. Mas deve haver algum com ética, como na bela canção “Infidelidade”, de Ataulfo Alves:

“Não julgo todas por uma
Pode ser que haja alguma
Com pudor e coração”

(Matéria postada no site www.substantivoplural.com.br)

Meu caro Silva, como vc diz no título do seu post, a falta de ética entre putas e políticos (e, por extensão, entre cidadãos de qualquer classe social) é potencial, não obrigatória.
Na verdade, a minha manifestação foi contra uma certa visão maniqueísta do mundo em que se elitiza os pobres e se exclui os ricos. Ao meu ver, pura hipocrisia. Não se faz justiça social com inversão axiológica de marcadores sociais, mas sim com um estado de direito que assegure o exercício pleno da democracia. Né não?

JL

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Entrevista de Jairo Lima para Sérgio Vilar

O poeta, dramaturgo e publicitário Jairo Lima teceu comentário a respeito do que considerou o seu destaque do ano entre os livros lidos: Remanso da Piracema (Editora Bakunin), de François Silvestre. Embora o melhor livro na opinião do poeta, as críticas à obra vieram à proporção dos elogios. "Discordo e adoro esse livro. Como discordo da idéia de estado e igreja de Dostoievski ou do conceito de imortalidade da alma de Sócrates. Mas são autores que admiro. Talvez por isso o livro de François tenha sido o melhor", iniciou.

Segundo Jairo, Remando da Piracema peca pelo maniqueísmo entre a elite demonizada e a maravilhosa plebe. "A falta de ética está presente em qualquer classe social: na puta ou no político. François erra já na primeira frase do livro quando diz: 'Este livro não foi escrito para intelectuais insulares'. Ora, o livro foi escrito exatamente para eles. O povo que ele tanto enaltece despreza seu trabalho". Outra falha apontada pelo poeta está nos textos "maravilhosamente bem escritos" por personagens simples, teoricamente incapazes de tal verve literária.

Apesar das críticas, Jairo reconhece no livro uma prosa poética de qualidade."François não abusou da metáfora. É um livro extremamente equilibrado, bem escrito. O que vale na literatura é a forma. E esse foi o melhor livro dele. É de não se conseguir parar de ler, um texto gostoso, ritmado. A passagem de um cara que chega de bicicleta em Caicó é digna dos grandes escritores". E conclui: "Não aprecio os ingredientes do livro, mas a sopa ficou maravilhosa".

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Tortura nunca mais?
Jairo Lima

Me adverte um entusiasmadíssimo João da Mata da existência, em Natal, de um bar que atende pelo nome de Bar do Rei e cuja especialidade é tocar, o tempo todo, música (sic) de Roberto Carlos.
Como diria Duchamp, pra quem gosta de merda é penico cheio.

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Agenda de um abestalhado
Jairo Lima

Avatar? Hoje assisti foi Aida, sob a regência iluminada de James Levine, com Aprile Millo no papel-título. Coisa de bestalhão, como eu – lembrem-se que intelectual é quem usa o intelecto (rs) e, como eu evidentemente não uso, sou uma ameba que consegue “perceber” Arte e assistir ópera se embebedando com Chateauneuf du Papes.

E agora vou parar que amanhã vou ter um dia cheio. Tenho que falar com um intelectual que conserta sapatos (o meu descolou o solado) e depois com outro intelectual que vende cachaça la pro bar. Ah, sim, e tenho que passar no Hiper para falar com o intelectual responsável pela troca de produtos, pois hoje comprei um ventilador lá e o bicho chegou em casa sem funcionar.

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Errata
Jairo Lima

Ontem, na feijoada do Papo Furado, Cleido mandou que eu retirasse o povo que não gosta de coca zero e de beber, como ele, da mesma categoria dos que não gostam de literatura, conforme publicado no post "Santa Hiporcrisia". Por puxasaquismo e por ser Cleido um dos melhores clientes do bar fica aqui publicado o seu protesto e aceita a sua ponderação. Tenho dito.

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Santa hipocrisia
Jairo Lima

Tenho pavor das pessoas que dizem que a literatura não serve para nada. Ora, caralho, nunca vi um livro escrito por outro livro, livro é escrito por gente e é nisto que se cifra o seu esplendor ou sua ruína.

Quem não gosta de livro, não gosta, certamente de gente. Não confio. Um caba desse ou está querendo ser 31 de fevereiro, para se jactar de inteligente, original, ou santarão social, ou está rompendo em definitivo com o humanismo, e aí, saia de baixo que ele está a um passo da monstruosidade.

Tem leitor erudito que é fila da puta? Claro, porque livro é gente e tem gente que é fila da puta. Agora, querer viver num mundo ágrafo só para construir um mito pessoal em que o universo começa no dia em que o idiota nasceu, não é apenas uma estupidez. É um perigo. Não gosto de caba que não gosta de livro, que não bebe, que não fode, que não gosta de coca zero, que despreza buchada e detesta tapioca, sobretudo com ginga. Queria ver se esse fila da puta tivesse um câncer se ele procuraria um médico “formado na escola da vida”.

Para isto, a academia presta. Mas, quando se trata da alta cultura, que nossa sociedade relega a última posição em sua invertida escala da valores, aí acadêmico só do Salgueiro.

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Meu ministério por uma peruca
Jairo Lima

Gente, vocês roubam tanto, não dava pra pedir para uma empreiteira descolar uma peruca decente para La Roussef? Porque o capacete capilar que a ungida usa, coitada, tá de lascar.

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Ainda o erudito e o popular
Jairo Lima

Concordo:
Um trem de passageiros não é superior a uma jaboticabeira florida.
Discordo:
Um trem de passageiros não é igual a uma jaboticabeira florida. Entenderam, crianças? Se não entenderam o tio repete.

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Comentário sobre um texto de Luiz Felipe Pondé
Jairo Lima

Você tem toda a razão, Pondé, a repressão da diferença que faz diferença chega ao auge, na verdade, na idéia fenomenal de que não existe diferença entre arte erudita e popular. Só para a preguiça intelectual posar de opção estética e não se sentir hierarquicamente discriminada. E viva a jumentice!

JL

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Vai ser do caralho
Jairo Lima

Como não há diferença reconhecível entre arte popular e erudita, vou propor pra Prefeitura de Natal que, para o ano, em vez do Carnatal, se encene, no mesmo local, o ciclo completo das óperas wagnerianas. Cada ato será apresentado num trio elétrico diferente. Nos camarotes especiais haverá apresentação de um quarteto de cordas no intervalo entre um trio e outro. Vamos lá, gente, vamos começar a produzir os abadás para a multidão que vai superlotar o corredor da folia. Não é tudo a mesma coisa? Então vai ser o maior sucesso!

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O triunfo da imbecilidade
Jairo Lima

Nem a campanha contra o cigarro é tão sistemática e antiga quanto a campanha contra a inteligência. O mito do imbecil iluminado está em todo super-heroi (vide Capitão Marvel, Superhomem etc) cuja mutação se dá a partir de um rematado idiota (Clark Kent & Cia); já os bandidos, estes são inteligentes e cultos, ou melhor, "gênios do mal". Outra figura repetida à exaustão é o imbecil cochilando na apresentação de uma ópera ou ballet, talvez um dos mais recorrentes clichês do cinema americano (o detalhe é que o dito imbecil, claro, é o herói da história).

JL

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A meio pau
Jairo Lima

Vão cair de pau em mim, mas prefiro o Bandeira tradutor (de poesia) à própria produção do poeta. Sua obra-prima é a tradução do Macbeth, texto que, a exemplo do de Arrigo Boito, com a sua tradução do Otelo para a língua de Dante, supera o próprio Shakespeare. Fico imaginando o alto nível que teria sido alcançado por Bandeira se não se sentisse obrigado a criar seus porquinhos, da Índia ou não, dentro do chiqueiro ideológico do modernismo.

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Achismo
Jairo Lima

Acho o Augusto dos Anjos a apoteose do kitsch. Mas o povo acha que não. E quem sou eu, obscuro poetinha provinciano, para achar nada? Eu, hem...

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Mia Couto e eu
Jairo Lima

Mia Couto me fez ler 277 páginas da mais enfadonha literatice para me dizer que só o sexo dá sentido à vida. Eu já sabia.

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O sim e o não
Jairo Lima

Calma, calma, gosto da arte popular, sim. Não gosto de monocultura, não.

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Falou e disse: Luciano Trigo.

Embora a arte (...) exalte o pluralismo e o relativismo, isto é, o convívio pacífico das mais variadas propostas, mesmo as mutuamente excludentes, na prática o que prevalece é o que chamo no livro de “arte por designação” – ou seja, aquela arte que não depende mais do talento, da vocação, da técnica, do aprendizado, mas simplesmente da declaração pelo artista de que alguma coisa é arte – e da sua capacidade de inserção no “sistema da arte”.
Contudo, a origem do procedimento da “arte por designação” não é nada contemporânea: está na roda de bicleta e no urinol que Marcel Duchamp designou como obras de arte em 1913 (!) e 1917 (!), respectivamente.

Tá vendo o que o hômi tá dizendo? Agora, quando eu falo disso todo mundo espia de banda. Insisto: o problema não está em existirem tais manifestações "artísticas" mas, sim, nessa merda, colhida diretamente do urinol de Duchamp, ser chamada de arte. Isso é o que confunde a cabeça da rapaziada. E produz sempre mais "artistas" quase que no mesmo número da população. E haja lançamento na Siciliano!

JL


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Miolo de pote.
Jairo Lima

Estou acabando de ler Antes de Nascer o Mundo de Mia Couto. O de sempre. Alta confeitaria, baixos teores nutritivos. Se a gente continuar a consumir este tipo de literatura ornamental e indigente vai morrer de desnutrição intelectual.
Ou de diabetes, haja visto o alto teor de açúcares líricos despejados com mão pesada pelo autor sobre o escrito. Chato. Chato de doer este Guimarães Rosa de segunda água.

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Só faltava essa.
Jairo Lima

Depois da fraude do DVD, o suporte menos confiável criado pelo homem desde o papiro, do CD, com o seu som que parece saído de uma lata de leite Ninho, agora é a vez da TV Digital, interrompida a cada minuto por congelamentos de imagem e pulos de áudio.
A nova tecnologia não serve nem para assistir novela, o gênero mais redundante que existe, pois congela tanto e pula tanto que vc nunca vai saber quem é o verdadeiro pai da doidinha. Já pensou?

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Lula, o filho do Brasil.
Jairo Lima

Nunca antes, na história deste país, um filme teve um título tão idiota e uma rima tão óbvia.

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De Jairo Lima

Mantenha a burrice em lugar seguro, fora do alcance das crianças.

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De Jairo Lima

Poesia virou bolo de liquidificador. Todo mundo sabe fazer.

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Rimbaud
Jairo Lima

era uma mulher sem nexo
mas com filhos
de olhos duros vidros
aspeados
por sobrancelhas de pó enegrecido

era um sol deslembrado de sombras
e de mundos amanhecidos
e eu dizia aos seus olhos pequenos e incompassivos
que rimbaud já foi rimbaud
e eu não precisava de pedras nem de vidraças
para escrever um livro
nem de tetas negras ou deserto infame
nem de calvários para purgar meu sangue
ali, naquela hora afastada
eu ouvia sorrindo o seu gemido
e lhe negava o verso que implorava
e, como o dia apaga da noite os vestígios,
eu esmagava, um a um, os acordes que conduziam a lembrança de suas dores
para o olvido

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A foto que eu vi
Jairo Lima
A Fernando Monteiro

vi o sangue e o pus de Anna Akhmátova
celebrados em duras taças de granito
e ali estava um corpo de suores
feito poema
transformado em mito
ou salmo de escárnio e maldições ferozes
ou ainda em memória de gritos

vi a grande mordaça cujo número é vinte e dois
jogada inútil num monte de pó
para que um canto, uma blasfêmia
fosse buscar sua têmpera
nas próprias fornalhas do sol

ah, estes clarões de sangue
como iluminam
e rasgam
as rimas, os risos, os guizos
a sensibilidade em febre, assustada
de minúsculos passarinhos
que negam o trovão da Grande Mágoa
e se entretêm em cantar pequenas insolências
ritmadas
em versos ruiz

vi, de fato, a foto ensangüentada
enclausurada num sacrário ateu
e vi escrito em suas carnes devastadas
queste parole di colore oscuro
que dante um dia no inferno viu

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Tia
Jairo Lima

Com pelos de cachorro
minha tia enchia
almofadas para alfinete
pensando utilizá-las algum dia
(se o pelo for de cachorro
o alfinete não enferruja,
dizia)
não sei de que vale esta ciência
não sei de que vale esta ciência hoje em dia
sei apenas
que eram vivas almofadas
que eram vivas almofadas da minha tia

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Certidão
Jairo Lima

Constato
que o verdadeiro cristão
é o que tem em cada face
uma escoriação

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Apocalipse
Jairo Lima

Os justos herdarão os clamores dos injustiçados
e vestirão togas negras
sob o fogo dos desertos

e serão juízes
tristes e severos
de querelas milenares
e decidirão
a causa dos fantasmas
e olharão desconfiados
os deuses
que cheios de evasivas
explicarão seus desígnios
e seus evangelhos
aos que sobreviverem
sem mérito

e logo se erquerão
do poente ao levante
hordas de magistrados
de capelo e martelo
de cabeças empoadas
pelo pó da terra estéril

e à noite aos luares sorrirão enviezado
sob a luz verde do frio
e meditarão por toda a eternidade
em cada parábola contada nas noites insones
que anteciparam o dia dos vulcões em lava
dos raios e dos trovões

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Poeminha antigo
Jairo Lima

Em estado de amor
veio à janela
branca, branca, virou tela
em sua moldura de paus

só que o tempo
impiedoso
de moças e telas
fez ver que já era tarde
pra surgirem tais visagens
nas janelas da cidade
de sete portas
sete chaves
mas sem janelas

morre, moça, enquanto és bela
que janelas
sois
e tardes
já não há nesta cidade

morre, morre, enquanto és bela

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Fica bem dizer assim?
Jairo Lima

Poema
lapidado
não vale a pena
poema
lapidado
é lápide
de poema

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Preço e valor
Jairo Lima

Engraçado. Quando eu era sebista me entrava um cara com uma camisinha de malha Lacoste de 150 mirréis, um tênis de 400 paus, um óculos escuro de 150 reais e pegava um livro de míseros 30 reais para reclamar que era caro. Livro não é caro porra nenhuma. Livro, no Brasil, não tem valor. Isto é outra coisa. Ou seja: livro não serve para comer ninguém, nem para enganar o chefe no trabalho, nem pra dar status na conversinha no bar da esquina e, por isso, não merece qualquer "sacrifício" financeiro. Livro não serve pra nada. Só pra ler, pensa o imbecil e revira os olhos.

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Faca
Jairo Lima

Além do coração somente o coração
além da veia pulsante só o pulsar da veia
além do sangue vermelho só o vermelho sangue
faca/faca
sem silêncios esperas ou sombras de fantasmas
faca/faca
a faca total
que se compraz no espelho do seu aço
diante desta faca nada é imortal
tudo é entranhas e medo
nesta faca sem profetas
nesta faca que não se anuncia
a não ser quando cava a sua mina de sangue
vermelho/vermelho
esta faca que faz medo
esta faca sem bainha
esta faca mata deus

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Monólogo do unicórnio
Jairo Lima

Um ou dois?
eis a questão
um
(sem dúvida)
chama mais
a atenção

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Ofício
Jairo Lima

Calma
não quero emocionar ninguém

faço poemas de página
porque grandes sagas
provocam alvoroço
e me obrigam a atravessar um pátio
uma cozinha
um pequeno corredor
uma sala nua
um corredor maior que olha para a rua
até chegar a uma sala
onde uma secretária
me empresta um grampeador

portanto, calma,
não quero emocionar ninguém

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Cantiga do vinho
Jairo Lima

agora que o vidro fino do ar
está em Teu lugar
como o murmúrio de um sol ausente

agora que entre mim e o elo de Tua mão
se interpõe uma antiga canção
e um caminho de ventos
e tua Ausência pesa como um deus
a quem negaram febres e incensos

agora que só restam as garras da memória
para me manterem preso ao Teu nome
faz desta dor cravada em minhas horas
uma porta que me leve ao Teu agora

pássaro da noite, ateu,
se em teus poderes cabe
a glória de esquecer
o que te roubou a tarde
no esplendor do teu ninho

faz desta dor uma taça
para uma urgência de vinhos

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O nome do filme
Jairo Lima

Na minha lista de Filmes de Câncer, esqueci o nome de um filme que acabo de assistir no Hallmark Channel de novo: chama-se "Um Amor para Recordar" e a mocinha não morre do coração, não, morre de leucemia mesmo, bem no gênero, e o sonho dela é ter um telescópio maior (ela já tinha um meio mixuruca que ela mesma tinha coisado), que é construído pelo mocinho que ainda casa com a bichinha antes dela morrer. O nome dele é Dalton, o nome dela é Jamie e o nome do pai dela ou eu já esqueci ou não falam no filme.

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Os dez melhores Filmes Bestinhas de Todos os Tempos
Jairo Lima

(Definição: Filme Bestinha é aquele que você sai encantado do cinema, feliz da vida, pisando em nuvens e diz pra todo mundo que o filme é uma idiotice, alienado, alienante, piegas, escapista, uma merda.)

Campeão: Sissi, a Imperatriz

A noviça Rebelde

Mamma Mia

O Mágico de Oz

Em cada coraçao uma saudade

Marcelino, pão e vinho

Quando o coração floresce

La violetera

Os dez mandamentos

Música e lágrimas

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O dez melhores Filmes de Pipoco de Todos os Tempos
Jairo Lima

(Definição: filmes de alta tecnologia com efeitos sonoros especiais e que só prestam para serem assistidos em cinemas com dolby sorround. Vistos na TV, ou nos cinemas com sistemas de som comuns, passam imediatamente para a categoria de Filme Bestinha.)

Campeão: Terremoto

Armagedon

Independence Day

Guerra nas Estrelas

Tora, Tora

Guerra dos Mundos (foto)

Matrix

Jurassic Park

Volcan

Godzila

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Os dez melhores Filmes de Câncer de Todos os Tempos
Jairo Lima

(Definição: Filme de Câncer e todo aquele filme em que o protagonista contrai uma doença incurável e morre. Portanto, se o personagem se curar a película passa imediatamente pra categoria de Filme Bestinha.)

Campeão: Love Story (foto)

Lado a Lado

Flores de Aço

The Philadelphia story

As baleias do outono

O Mestre

Suplício de uma saudade (este é uma forçada de barra porque o caba morre é na guerra, mas, por analogia, cabe na categoria, desde que vc considere a guerra uma doença incurável, pelo menos metaforicamente).

Este filme eu não lembro o nome, passou na televisão, é de uma mocinha doente do coração que tem um sonho, que não lembro também qual é, e que este sonho é realizado, com grande sacrifício, pelo namorado também adolescente. No fim a bichinha morre, incluindo o filme na categoria.

Melodia Imortal

Tarde de Mais para Esquecer (neste filme Deborah Kerr não morre, fica paralítica, mas no fim a gente não sabe se Cary Grant vai ou não casar com ela. Como ela não se cura, o filme não pode ir para a categoria de Filme Bestinha, logo...

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A hora anunciada
Jairo Lima

De outra vez
traga-me
o trem noturno
que vara as trevas
confiado tão somente
no brilho do seu trilho

traga-me o sol
facho
o leite de pendente luna
mas venha só
e embrulhe seus presentes
em papel crepom
fita verde ou encarnada
para que o imprevisto
de tua chegada
seja calmo como um lago
sem ventos
lento, calado, lento
como coisa anunciada

para que esse trem, esse sol e essa luna
pareçam coisas simples
pareçam coisas tuas

para que essas luzes
amordaçadas
no papel de presente
se tornem previsíveis
e marquem, simplesmente,
o dia, a hora, o minuto,
de tua chegada

ou ainda
como se o tempo
saltasse sobre as asas da noite
e lhe cravasse os dentes


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Noturno
Jairo Lima

Galos verdes
gatos plácidos
quietas sementes de luna
brotam brandas
pele azul acidez do espaço

pálios brónzeos limpos traços
astro flácido
galos verdes trinos vários
vaga serpente de aço
vozes brancas rosas rubras
verde amarelo azul
mormaço

verde (chão) azul (espaço)
varandas de fria luna
silêncios súbitos
verde azul azul espaço
galos
gatos galos gatos galos
crinas azuis
verdes mormaços
pálios pátios

tropel cansaços
traços brancos
galos verdes gatos plácidos
quietas sementes de luna
brotam brandas
pela azul acidez do espaço

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Futuro
Jairo Lima

Quem vai para o futuro sem saudades
não deixa marcas na carne
do tempo ido
nem se compraz em fantasmas
como se cada dia tivesse renascido

quem vai para o futuro sem saudades
vai desfazendo a teia da memória
essa espiã do tempo
vai mastigando os próprios nervos
indo só porque se vai
sem pressa, sem vontade,
assim como nascendo

sem suores noturnos sobressaltos
sem deuses nem guias
assim sem agonia
sem misticismo, sem fé
assim se vai para o futuro sem saudades

se vai só pelo ir
sem volúpia de caminhos e chegadas
se vai porque o sangue
escava suas minas sem perguntas
e se tem que ir

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Amaretti di Saronno
Jairo Lima

Vi à luz da lâmpada fluorescente
a embalagem pálida
do amaretti di saronno
com os seus sonhos de mares e de naves

vi com que coragem se anuncia
antica fabbrica
infância à deriva na luz atemporal do lume imprevisível
que não diz de muitos dias tardes

tocada pelo vento
a vela então se abre
e reconduz o rótulo do amaretti di saronno
antica fabbrica
à condição de ave

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Para você não dizer que não falei dos festivais ditos literários.
Jairo Lima

Aprovo com entusiasmo toda badalação em torno de livros. Porque parte ínfima deles trata de literatura, um troço que eu adoro. Então, se aumenta o venda de livros, aumenta também o bolinho dedicado à arte de escrever. Isto é uma coisa. Outra coisa é me abalar pra Pipa pra ouvir Lobão e Danuza Leão falarem merda. Aí, me poupe, camarada.

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Lírica
Jairo Lima

De noite toquei pandeiros
por ti
de noite acendi luzeiros
por ti
de noite vaguei no ermo
da escuridão mais escura
cavalguei cavalo negro
venci o medo por ti

pastos raros de cristais amanhecidos
conheci
o hálito da noite desenhou-me azul na pele
e me perdi

percorri sete reinos
ouro
prata
safira
cristal
topázio
ametista
rubi

outeiros pontes outeiros
meu caminho para ti

invenção das minhas noites
vi que eras para mim
deixei que o sol nascesse
desinventei tua história
guardei luzes e pandeiros
e vi que o amor que eu te tinha
era o meu amor por mim

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Deixa de embalar o que já está embalado, cara.
Jairo Lima

Outro dia escrevi aqui no Papo Furado, e no site do Tácito Costa, que tinha radicalizado com relação ao uso inútil de saquinhos de plástico para embalar o que já está embalado.
Porra, galera, pasta de dente, remédio, parafuso, lâmpada, mouse de computador, tudo já vem embalado, e muito bem embalado, de fábrica. Então pra que caralho botar um saquinho frágil de plástico por cima?
No supermercado, por que não levar tudo no carrinho de compras até o seu carro e aí botar dentro de um saco de pano ou de uma maleta de rodinhas (é assim que eu faço)? Afinal, você não vai levar mesmo aquela porrada de saquinhos de plástico na mão, vai? Então, pra que deixa embalar, por Nossa Senhora?
Tô aqui metendo bronca de novo porque até agora espero que alguém dê algum pitaco, faça uma sugestão, assuma publicamente um compromisso. E nada. Falar nisso, tem um abaixo assinado lá no Papo Furado exigindo ônibus híbridos (98% menos poluição) aqui em Natal. Passe lá pra assinar. Se mexa. Faça alguma coisa que a natureza de mãe não tem nada, tá sabendo? Vacilou, sai na porrada.

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Maria da Paz
Jairo Lima

Maria só tem um filho
a quem chama de Pelé
quer vê-lo louro e bonito
com uma bola no pé

(Maria da Paz passa fome
não quer saber de Vivaldi)

De noite ela vai pra cama
com o soldado da guarita
descançam na cabeceira
revólver, sabre e marmita

Pra viver melhor a vida
talvez gostar de Vivaldi
Maria da Paz precisa
das balas do seu soldado

Mas o soldado de Maria
não luta por ela, não
goza seu corpo e lhe nega
revólver, sabre e facão

E ela vê, depois do gozo,
ele estirado ao seu lado
nu é menino dormido
sonhando sonhos de farra
duplamente desarmado

E assim a vida não muda
apesar de tanta luta
na colchão com seu soldado

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Violino
Jairo Lima

e me descobri no Recife com saudades do Recife
e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de ver Angra dos Reis nos retratos
e umas histórias sobre a usina atômica

e quiz versos de fogo contra o fogo da usina
e rimas de mel para o seio das colinas

e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de lembrar a infância dos sábados
criança não traquina
a que a réstia do sol da telha de vidro do quarto vinha coçar a narina

e a esta angústia veio somar-se outra
que me veio indefinida das meninas que amei
e mi vi com saudades de um violino que jamais toquei
e que vendi na caixa para um músico da sinfônica
por cento e vinte mil reis

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Cantiga de menino com fome
Jairo Lima

Menino ninguém te ama
menino ninguém te quer
menino filho de homem
e mulher

menino feito na noite
entre cantigas de grilos
cadê milharal bonito
que teu pai te prometeu?

cadê cantigas de mãe
para embalar os teus gritos?
cadê o toque de sinos
que teu pai te prometeu?

olha que orgasmo aflito
gerou teu corpo franzino
cadê matéria bastante
pra te construir, menino?

minha mãe tinha um roçado
que nossa senhora deu
meu pai - chuva - foi embora
e meu roçado morreu

menino sai desta vida
menino sai na TV
menino pra que tens olhos
e essa cara de vivo
se já já tu vais morrer?

de um osso fiz um boi
de um outro caminhão
botei o boi no cercado
fui embora do sertão

ai seu eu fosse cigano
fugia em noite de lua
ia pra terra de um conde
primo carnal do meu pai
onde os bois morrem de velhos
nos currais de la condessa
e o sol espia sem raiva
os dourados milharais

que eu sou primo do conde
protegido da condessa
vim de longe muito longe
em galeota de velas
que encalhou noutra era
e se enredou no destino
de ser menino
de ser menino

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Da lua
Jairo Lima

Tecida em gelo
e cozida nos panos da noite
a lua aparece clara
em sua mortalha de luz

Cheia de si
(visagem que se intercala
nos escuros do céu)
comanda ventos e almas
horóscopos e marés

Cenarizando o mundo
em branco e prata
a luz propõe enredos
de ações dramáticas
lunáticas

Posta no céu a lua
as pessoas ficam nuas
e dançam estáticas
a coreografia exata
dos vegetais

Foi numa noite de lua
que se inventaram as amadas
feitas de um tênue, branco ectoplasma
inexato, impreciso
que a luz do sol desfaz
retomando o ritmo previsível
e simétrico
dos olhos e dos mamilos

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A hora certa
Jairo Lima

a hora certa
não é a hora do rádio
não é seis e trinta e oito
nem oito e quarenta e seis
a hora certa
é aquela em que o tempo abre o regaço
e nos aninha
numa almofada de cetim lavada
com alfazemas e jasmins
nessa hora
a gente é dono de tudo
o que há entre o não e o sim

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Angústia metafísica
Jairo Lima

E este apocalipse que não chega?
Não se entrega tarefa assim tão grave
a um bando de bestas.

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Os panos
Jairo Lima

a taça magra
o vinho insone
em pé
o pão deitado
pleno de si mesmo
a faca o gume
a carne
o incenso diário
dos temperos
a liturgia dos panos
sobre a mesa
o relógio expectante
que impõe silêncio aos seus aços

(o tempo aguarda
o ritual da fome)

ainda longe
o corcel da hora pasta os seus ponteiros
e espera que nódoas e migalhas
sobre a toalha
autorizem a cavalgada
que envelhece rebocos e azulejos

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Palavra
Jairo Lima

A linha azul do mar é semre azul e linha
e os luzeiros do céu são luzeiros e mais nada
nada além de si é a curva piedosa as colinas
e neste dia em que me sinto orfão da metáfora
ofereço à poesia o timbre impercutido da palavra gasta
que a si mesma se basta
que se propõe sintaxes provisórias
e que expõe exata
nua
dicionariamente
suas sementes silábicas
velhas palavras primitivas
onomatopaicas
o grito primevo o vagido
a articulação vocálica do riso
o hálito entrecortado do suspiro
a palavra no leito geminal do sentido
unívoca
serena
imodulada

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Latim
Jairo Lima

Inventarei um latim
só para mim
só para dar um ar de nobreza decadente
a uma certa nobreza decadente
que há em mim.

Inventarei um latim
que sirva de armadilha e isca
a decapitados anjos barrocos
que sorriem degolados
num velho céu azul
de telão de opereta
e giram feito carrapetas
ou helicópteros desgovernados

(hoje estão todos escondidos
como grilos
nos escuros das igrejas).

Pra todas estas coisas velhas
que desconfio belas
hei-de inventar um latim
que tenha sílabas ferinas
como o tinir das campainhas
que me espantavam
na hora da elevaçao

católico não serei não
mas hei-de ter meu latim

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Velório
Jairo Lima

Era um filme engraçado
de gordo e magro, não sei
era quarta-feira santa
e havia certa altivez
nos campanários e nos bichos
insetos carnívoros
roiam-lhe o rosto
desgosto nas chagas em ruína
urina
sob a manhã hipotética
apoplética
sopra vida em deus de barro
canário
solto nos trinos
divino gozo, divino
eras cinzas quaresmais
e no retângulo da sala
inscrevia-se o morto
chorado desgosto
picadeiro aflito
exibindo gemidos
de viúvas
era tarde e a cena admirava
aos que comiam bolacha
com café e amargura
e cadê a televisão
pra perguntar à viúva
como ela via
a apatia
e se saía
no jornal das oito
a notícia deste dia
a agonia da hora
e agora
os minutos
perdiam sentido
e minavam gemidos
pelo reboco da sala
onde só o coração
de jesus
posava
com olhar indiferente
à gente da casa
mas a hora mais aflita
ainda estava por vir

senhor são serafim
atendei aos miseráveis
agora
e afastai aquela hora
da nossa morte amém

a carne cortada em postas
ao som de um sino grave
era benzida
rezada
e comida pelo padre

afasta de mim este cálice
de sangue coagulado
ultrajado
senhora das ladainhas
virgem santa, virgem minha
ave maria
santinha
que subiu aos céus
agarradinha ao meu esposo

lamento
que estes gritos se percam
pra dentro dos muros
e deles não fique registro
suplício
maior suplício
é morrer
e perder
nem que seja
a visão destas paredes
da sala
e essa luz que alumia

que morto não tem valia
maior suplício é perder

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Povos
Jairo Lima

Os povos vermelhos
inventam deuses irados
cheios de raios trovões
de fúria incandescida
(estes são os povos
dos apriscos)

os povos azuis
inventam deuses compassivos
que com eles se perdem nos caminhos
(estes são povos tresmalhados)

os povos verdes
não inventam deuses
que inventem medos e culpas
(estes são mais divertidos)

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A propósito de um comentário do Chico Moreira Guedes sobre a diferença entre uma sinfonia de Beethoven e um fandango de Boi de Reis.

Parabéns, grande Chico, pela coragem moral e lucidez. Você nunca me surpreende, mas sempre me encanta. Mas, receio que a sua heresia vai lhe custar caro. Então o amigo não sabe que a Tocata e Fuga em Ré (não vou dizer o autor de propósito, os abestalhados que dêem um google) tem o mesmo valor de Atirei o pau no Gato? Não só o mesmo valor, mas também a mesma natureza, propósito e efeito. Ninguem ainda te disse que não existe arte musical fora do balacobaco e do sacolejo? Será, meu bom deus, que a galerinha relativista nunca vai perceber que o que eles imaginam ser uma louvável atitude de respeito ao popular é apenas uma abjeta negação da Arte? Numa recente discussão sobre as maiores cantoras brasileiras, ninguem lembrou de Bidu Sayão. Não é engraçado? A escola de samba lembra e homenageia. Os intelectuais não. Porque esse papo furado do vale tudo nunca valeu, realmente, pro povo, que faz suas opções de acordo com o que lhe ofertam, e emite, sim, juízo de valor sobre o que a eles se apresenta. E não é burro de confundir alhos com bugalhos. Quem quiser saber pra que lado sopra o preconceito, preste atenção no que se ouve nos sons dos carros dos agro-boys. Bethoven ou Calcinha Preta? Diga aí, brother.

Jairo Lima

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Balé
Jairo Lima

O balé é o compromisso possível entre a metafísica de Kant e um quilo de alcatra.

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A polidez é a intolerância enluvada.

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Caderno de cultura quase sempre é o latifúndio da monocultura. E eu sou o MST deles.

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Foucault no shopping
Jairo Lima

Ora, um grupo alegre de Intelectuais-de-Shopping reunia-se próximo à praça da alimentação quando um deles, subitamente acometido de uma terrível dor, vai ao chão e roga, aos gritos, que os companheiros chamem uma ambulância para conduzí-lo a um hospital.
Mas logo se levantam vozes discordantes:

- Foucault merece ser ouvido nesse quesito! brada um.

- Você merece respeito como Intelectual-de-Shopping, mas para discutir a reforma da medicina precisa de um pouco mais de conhecimento.

A esta altura o pobre Intelectual-de-Shopping que jazia no chão começa a sangrar pelo nariz e a vomitar sangue. Mas a interessante polêmica prosseque.

- É preciso que vc saiba, companheiro que hospitais e presídios são instituições de mesma natureza, destinados, exclusivamente, a retirar de circulação os não-sujeitos que são vistos como nocivos à sociedade.

- Você é um não-sujeito, camarada! Qualé? Te liga, porraloka.

- Além disso, persisto em ver nos doentes seres humanos e cidadãos - irmãos e semelhantes.

E o nosso Intelectual-de-Shopping agoniza entre as doutas citações, e num último e inútil brado de socorro morre e é levado para o caótico mundo exterior pela turma da limpeza. Cessa a polêmica e a paz volta a reinar no shopping.

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Sabe porque que quando um Intelectual-de-Shopping morre seu cérebro fica do tamanho de uma azeitona ?
Porque incha!

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Duchamp e as moscas
Jairo Lima

Ao fim de penosa labuta a Moça da Limpeza preparava-se para verter o conteúdo do enorme saco preto do lixo no depósito principal do shopping, quando ouviu um pavoroso clamor que se aproximava.
- Pare em nome de Duchamp!
A Moça, muito assustada voltou-se tão abruptamente que despejou todo o conteúdo do saco no chão imaculado e brilhante.
- Deixe como está, deixe como está, berrava o Intelectual-de-Shopping . Você acabou de criar uma instalação. Isso que jaz aos seus pés é pura arte, não se mexa, não se coce, não se atreva.
- ???
- Usar lixo na arte tem um significado estético e ético. Você criou uma grande obra num momento específico.
A Moça foi na onda do ready made, deixou o lixo onde estava, a carniça tomou conta, moscas sorriam e voavam e aí o administrador, vendo aquela milacria, mandou botar o lixo no lixo e a Moça no olho da rua.

Moral da história: shopping não é bienal e quem disso não cuida acaba mal.

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O Lobo e a Ovelha
Jairo Lima

Ora, bem ao pé da escada rolante havia uma fonte cujo repuxo, muito alto e esquio, criava marolinhas na água azul do pequeno lago de paredes de mármore do shopping.
Lá, um impetuoso lobo bebia da água azul e clorada, fazendo com os beiços e a língua aquele som nauseante que só os lobos e Jack Nicholson sabem produzir porque não tiveram mães que lhes ensinasse a se comportar à mesa. Nisso, acercou-se uma mansa ovelha que, guardando distância prudente do temível predador, pôs-se também a beber.
Deu-se o estresse clássico, com o lobo xingando a ovelha de poluidora dos ares, das terras, das fontes, dos mares.
Ora, respondeu timidamente a ovelha, estou apenas utilizando um recurso natural que está a disposição de todos os viventes.
Observe, disse o lobo com implacável retórica, que esta é uma fonte artificial de shopping, não podendo pois ser confundida com um recurso natural.
Tá bom, falou a ovelha, conciliatória, e dirigindo-se à uma mesa, chamou o garçom e pediu uma água mineral com gás.
A história terminaria aí se o temível predador não se dirigisse à tímida ovina*, exclamando:
Desculpe, querida, mas por uma questão de identidade cultural, postura ideológica e consistência intelectual, vou ter que devorá-la. Dá licença?
E já ia escancarando a bocarra quando a lanuda pediu-lhe, com um gesto de mão, que esperasse um pouco e, abrindo o seu notebook wireless escreveu um artigo para o caderno de cultura do seu jornal.
Clicou no send, sorriu para o lobo, baixou a cabeça e foi devorada sem pressa, como num ritual.

Moral da história: Como diz a moça da limpeza, Jornalista-Cultural-de-Shopping e Intelectual-de-Shopping bebem na mesma fonte. E a gente é que tem que dar conta da bagunça.

* A mulher do ovino. Tá certo?

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Entreouvido no shopping
Jairo Lima

Não, não, Intelectual-de-Shopping não é o que está comprando, como todo mundo; é o que está na prateleira.

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Piadinha clássica revisitada e atualizada

O Intelectual-de-Shopping está na rua puxando um burro, quando alguém pergunta:
- Onde conseguiu este animal?
- No shopping - responde o burro.

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O elefantinho e a formigona
Jairo Lima

Ora, um dia no shopping uma formiga falou dessa maneira para o Elefante.
- Chefia, dá para se retirar do recinto? O lugar que você ocupa serviria para uma colônia de esforçadas formiguinhas.
- Em que tanto vocês se esforçam?
- Ora, a gente procura alimento, leva para o formigueiro que fica num cantinho do muro do shopping, come, dá comida à Rainha, retira os elefantes da área e phode a rainha que gera mais formiguinhas. Já você vive de lembranças, pensamentos e mitos, ocupando o espaço dos mais produtivos. Chega de tirar onda de animal superior, genial, capacitado a perceber a psique e os surtos comportamentais.
- Tem razão, falou o Elefante. E se retirou tão cabisbaixo e pensativo que, sem sentir, esmagou cento e vinte e nove formiguinhas, inclusive a que tinha acabado de falar com ele.

Moral da história: Formigas podem ser predadoras de elefantes. Mas, há sempre o inseticida.

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Darwin segundo um Intelectual-de-Shopping
Jairo Lima

A banda de rock é a evolução da orquestra sinfônica. Diga aí, brother.

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Ainda bem que não tinha shopping em Milão
Jairo Lima

Estou tão puto com umas coisas que tenho lido de alguns Intelectuais-de-Shopping esta semana que decidi desta vez não falar por metáforas mas ir direto ao assunto. Olha aqui, galerinha:
Em 1887 Verdi compôs uma ópera arretada, Otello, com um libreto escrito por Arrigo Boito que não deixa nada a dever ao próprio Shakespeare.
Depois, foram seis anos na moita.
Até que a dupla reaparece em 1893 com Falstaff, que só pode se comparar a Gaudi, porque neguinho não tinha feito nada parecido com aquilo antes, e até hoje continua insuperável.
Agora imagine que tivesse lá por volta de 1890 um Intelectual-de-Shopping da marca de vocês em Milão pra dizer que Verdi era um compositor superado por não ter composto nada de interessante nos últimos três anos.
Sabe, tipo, "ele só ficou bem na foto até 1887".
E aí, ou Verdi teria mandado o idiota pra puta que o pariu ou teria ficado puto da vida, sentindo-se injustiçado, e a gente talvez tivesse perdido o Falstaff.
Arte não é moda, brother, não é submissão a recortes ideológicos dominantes, não é modelito que arrasa na rave de hoje e se incompatibiliza com a novela de amanhã. Te orienta, coisa.

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As grandes causas públicas.
Jairo Lima

Foram abertas as inscrições para o concurso do Ministerio dos Projetos Phantasmagóricos, cujo titular é o eminente cientista Pitombeira Unger, que contratará 5000 Intelectuais-de-Shopping.

Exige-se:
Mais de dois anos de experiência em encontros de escritores e blogs.

Oferece-se:

Salário inicial de 50 mil reais.
Plano de Saúde na Suiça.
Cidadania italiana.
Castelo no Piauí.
Mansão no Lago dos Cisnes.
Licença-prêmio remunerada de 20 anos.
Licenças paternidade, permissividade, maternidade, fraternidade, ociosidade, obesidade e vagarosidade.

Inscrições no www.tremdaalegria.gov.br
Serão abertas 282 diretorias e uma porrada ainda não determinada de cargos comissionados.

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Chapeuzinho Vermelho
Jairo Lima

Numa bela tarde ensolarada de Natal (1) uma bela mocinha de sociedade, usando um belo chapeuzinho vermelho, adentrou (2) no shopping para comprar preservativos e um livro de Paulo Coelho.
Após sair da farmácia, dirigia-se à livraria quando avistou uma velha Intelectual-de-Shopping sentada no chão frio do mall arrodeada de livros.
- Vovó, admirou-se a mocinha, vc deve ser uma intelectual.
- Não se precipite, queridinha, todo ser humano usa o intelecto portanto tenho dúvidas se existem mesmo intelectuais, ensinou.
A mocinha, ainda mais admirada com tão profunda inteligência, perguntou:
- E como se chama então uma pessoa que vive cercada de livros?
- Isto é relativo. Livros são apenas papeis pintados. Não estou bem certa de que existam livros.
- E shopping, existe?
- Shopping é um comércio e comércio tem também no Alecrim (3) e lá não se chama shopping. Tudo é relativo.
Aí a mocinha queimou feio (4).
- Ora, porra, e se eu puxasse uma peixeira e lhe cravasse no peito, isto também seria relativo?
- Claro, meu amor, se um jornalista perguntasse ao Tarso Genro, após o meu assassinato, se estava aumentando a violência no shopping ele diria que não, que está tudo dominado, sendo o meu passamento um pequeno e normal efeito residual das tensões sociais. E acrescentaria: vamos abrir um inquérito para apurar se o suposto homicídio ocorreu mesmo no suposto shopping e foi praticado por uma suposta mocinha com um suposto chapéu vermelho que ia comprar um suposto livro do suposto escritor Paulo Coelho. Tudo, tudo é relativo.
Deixa que aí a mocinha se emputeceu e puxando uma peixeira afiada (5) cravou-a até o cabo no coração da velha Intelectual-de-Shopping que estrebuchou, enrijeceu, suspirou e morreu. Imediatamente chegou o pessoal da limpeza que recolheu o corpo, lavou o sangue, aspergiu bom-ar e deixou tudo limpo como antes. Aí a Justiça concedeu a nossa heroina o status de refugiada política, considerando o móvel ideológico do crime. E ela fundou uma ONG que só no ano passado recebeu 3 bilhões de reais do governo.

Moral da história: Uma coisa é certa: crime é relativo mesmo.

Notas:
1) A cidade, não a festa.
2) Expressão obrigatória na crônica esportiva e policial, como é o caso deste trágico relato.
3) Bairro de Natal.
4) Antigo provérbio potiguar.
5) Não é verossímil que uma mocinha de sociedade saísse de casa armada com uma peixeira, mas deixa pra lá.

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O velho sábio chinês
Jairo Lima

Certo dia, quase à hora de abrirem-se as portas do shopping, apresentou-se ao segurança um velho sábio chinês que lhe falou deste modo:
- Diz-me, jovem ocidental, porque te pões a guardar uma porta fechada?(1) Se ela não franqueia o acesso a quem quer sair ou entrar, porque te interpões entre ela e os que, como eu, se avizinham do shopping?
- Esta é uma questão, grande Mestre, sobre a qual não me é dado comentar, pois tenho por obrigação indeclinável obedecer aos meus superiores.
A estas palavras o velho sábio se inclinou profundamente diante do segurança, juntou as mãos sob a barbicha que lhe adornava o queixo e rezou antigas orações.
Neste momento se ouviu enorme estrondo de mãos batendo na porta metálica entre gritos desesperados de socorro.
-Abram, sou um intelectual(2), passei a noite trancado no shopping e estou morrendo de fome.
O segurança mais que depressa levanta a ruidosa porta e um Intelectual-de-Shopping , exânime e ensangüentado, lança-se nos seus braços e desfalece.
Diante disto, o sábio chinês nem se toca, cofia a barba e sorrateiramente se esgueira para dentro do shopping vazio, sem que o segurança perceba. E lá dentro vive vinte profícuos anos de meditação e recolhimento (3).

Moral da história: Para o sábio mais vale um Intelectual-de-Shopping com fome do que dois na praça da alimentação.

Notas:

(1) Vejam só a onda do malandro.

(2) Notem que ele não acrescenta “de shopping” , prática, de resto, comum e compreensível entre os Intelectuais-de-Shopping, sempre em busca de respeito e admiração, embora para o Segurança, note-se também, isto não faz a menor diferença: intelectual é tudo a mesma merda.

(3) Como ninguém percebeu? O pessoal achava que ele era motoboy do China-in-box.

Corpus da pesquisa:

Cardápio do China-in-Box
Tourist Guide Descubra os encantos da China
Porta Aberta de Vicente Celestino, gravação RCA Victor 78 rpm
Press release da Globo sobre a nova novela (sic) Caminhos da China.
Best-seller Construa o seu mundo em qualquer parte do mundo de Edmund O'Brien.

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Parábola do Filho Pródigo Revisitada.
Jairo Lima

Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai:
-Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.
E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para um shopping e ali dissipou sua herança em lanchonetes, butiques, jogos, cinemas, lan-houses, self-services, livrarias e outras devassidões.
Um dia, saudoso, foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando o seu pai o viu, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe:
- Pai, torrei a grana e estou na pior. Já não sou digno de tua consideração.
Mas o pai disse:
- Que nada, você arrasou na Ana Maria Braga, filho, e estou muito muito satisfeito com a bufunfa que investi em você.
Disse então aos servos:
- Ide depressa ao shopping e trazei o melhor hamburger, roupas das melhores etiquetas, bebidas, mulheres e sapatos de marca. Pois este meu filho vivia anônimo e se tornou celebridade; estava perdido e pela mídia foi encontrado!
E começaram a festa. Seu filho mais velho estava na biblioteca. Quando voltava ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse:
- É teu irmão que voltou e teu pai organizou a maior farra.
Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai:
- Há tantos anos eu te sirvo, sou estudioso, sério, culto e nunca me deste um Logan para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que se tornou um Intelectual-de-Shopping, devorou teus bens frequentando encontros de escritores, vernissagens de dondocas, blogs de futilidades culturais e se tornando curador de bienais, e para ele fazes esta festa!
Mas o pai lhe disse:
- Filho, tu és esforçado e sério, tens quinze livros escritos, doutorado, currículos de duzentas páginas, os cambau, mas não és famoso nem apadrinhado. Mas teu irmão, que mal sabe ler, vai ser entrevistado no Jô Soares e aparecer no BBB. Então, fica na tua, Mané. E vê se não me torra o saco!

Moral da história: Em terra de shopping quem tem Lacoste é rei.

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Rebelião no shopping
Jairo Lima

Encontraram-se no mall de um grande shopping center uma cigarra, uma formiga e um Intelectual-de-Shopping . Por ali se apresentava também, numa banca colorida, um domador com o seu circo de pulgas.
Ora, ao ver o minúsculo trio os olhos do domador brilharam de cobiça.
E ele resolveu incorporar a cigarra a formiga e o Intelectual-de-Shopping ao seu liliputiano show.
Logo ume pequena multidão se formou, todos portando lupas alugadas pelo esperto comerciante, para ver o inusitado espetáculo.
As pulgas, como de praxe, saltaram.
A cigarra, como de praxe, cantou.
A formiga, como de praxe, fez acrobacias num barbante que figurava um galho de árvore.
A platéia delirava.
Até que o Intelectual-de-Shopping, como de praxe, declamou.
Então a multidão, enfurecida e entediada, rompeu em altos brados: dá-nos, Domador, as pulgas, as cigarras e as formigas. Mas afasta este outro ser minúsculo e desprezível do nosso show.

Moral da história: Shopping não é lugar para intelectual.


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Pequena fábula exemplar à maneira do Zaratustra de Friedrich Nietzsche
Jairo Lima

Um dia um elefante afastou-se do seu circo, e do picadeiro do seu circo, e foi-se para o shopping center. Lá desfrutou de restos de lanche e pipocas sem se cansar durante largos anos. Variaram, porém, seus sentimentos e um dia contemplando os corredores apinhados de gente veio-lhe a saudade da pátria e de suas savanas e desejou de novo a ampla e silenciosa solidão dos descampados.
Foi então que dele se aproximou um Intelectual-de-Shopping e falou-lhe mais ou menos desta maneira.
Grande animal, que podes ver ser inveja até um mall demasiado grande, que seria dos teus dias se não tivéssemos te acolhido generosamente em nosso bioma? Todos os dias acercavamo-nos de ti, tomavamos-te o superfluo e te enchiamos de guloseimas.
E assim, besta e homens, nos divertíamos.
Abençoa-me, pois, olho afável e revela ao meu espírito incansável na busca da mais profunda verdade a fábula em cujo contexto te inseres. Ao que o doce paquiderme retrucou: Ora, não conheces, por acaso, a fábula do elefante e da formiga? É a ela que pertenço.
Não, respondeu o Intelectual-de-Shopping, e como estudioso insígne da cultura não posso me contentar com tua declaração, pois ao espírito perquiridor só a demonstração convence e sacia.
Seja, pois, exclamou o elefante. E, levantando a majestosa pata, esmagou o nosso herói que se transformou numa poça de sangue e de vísceras que logo foi recolhida e lavada pelo pessoal da limpeza. E a grande paz retornou ao shopping.

Moral da história: Lê com afinco e vontade para que nenhuma fábula te escape.

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O farmacêutico.
Jairo Lima

Quis o destino, que tudo comanda e dispõe, que um Farmacêutico e um Intelectual-de-Shopping se encontrassem no mall de um grande shopping center. Logo que avistou o Farmacêutico, o Intelectual-de-Shopping dele se aproximou exclamando:
- Agradeço aos deuses que te puseram no meu caminho, ó homem sensato. Aqui está o meu último poema experimental para que o leias.
O Farmacêutico desdobrou respeitosamente o papel que lhe apresentavam e leu o poema sem proferir palavra. Em seguida, enrolou a xerox como se fora um manuscrito do mar morto e o devolveu ao Intelectual-de-Shopping dizendo:
- Agora que li o teu poema experimental, ó iluminado, prova do meu remédio experimental. E entregou-lhe um pequeno frasco com uma poção esverdeada.
O Intelectual-de-Shopping bebeu a droga, caiu morto e foi retirado do mall pelos funcionários da limpeza.

Moral da história: Quem com experimentalismo fere, com experimentalismo será ferido.

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A raposa e o shopping
Jairo Lima

Passeando (deambulando) pelo shopping, um intelectual-de-shopping viu uma uva verde sobre uma frondosa raposa, num dos cantos mais afastados, longe das praças de evento e de alimentação.
- O que faz esta uva fora da praça de alimentação?, perguntou o intectual -de-shopping, com ar severo, para a raposa.
- Ora, respondeu a Astuciosa, não seria mais estranho encontrar uma raposa num shopping?
- Tudo normal, tudo dominado, falou o intelectual de shopping, e retirou-se preocupado, triste, deprimido, exclamando:
- Uvas fora da praça de alimentação! Onde é que este shopping vai parar?

Moral da história: multiculturalismo serve para raposas, mas não para uvas.

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Parábola edificante.
Jairo Lima

Dois músicos se encontraram na praça de eventos de um shopping. O primeiro tocava violino e o segundo pandeiro.
-Que é que você veio fazer aqui?
- Vim tocar as partitas de Bach pra violino no shopping para provar que não sou elitista. E você?
- Vim tocar meu pandeiro no shopping para levar minha arte à elite.
Nisso entrou um intelectual de shopping - entrou na conversa, claro, pois ele já estava no shopping - e falou, embevecido:
- Fundam-se, fundam-se!
Aí o segurança, que era um homem do povo, pegou os três e os expulsou do shoppping.

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