****** De Daniel Piza
Luis Inácio Lula da Silva vive disparando contra os que “torcem contra”, sugerindo que a imprensa é um obstáculo entre a classe política e o povo, de acordo com o mais antigo ideário populista. Ele acha que a imprensa não dá as boas notícias, mas isso é porque, como confessou, não lê os jornais; todo dia há fotos suas, nas mais diversas situações e lugares, e ao menos um índice positivo nas primeiras páginas, em geral vindos de institutos públicos claramente a serviço da propaganda oficial. Se sua popularidade é superior a 73%, em boa parte é por causa da mídia, e não apesar dela. Afinal, se a imprensa é porta-voz da “zelite”, é porta-voz da indisfarçável felicidade de banqueiros e empresários com seu governo.
• Eppur, o Grande Timoneiro, membro indiscutível das zelite e beijoqueiro oficial dos mais repugnantes ditadores,continua fazendo da sua condição de analfabeto intencional o grande emblema que oferece à juventude do país, dividida entre jogar futebol, ser presidente da república ou petista em "cargo de confiança", ocupações que, sabidamente, não exigem qualquer aprendizado, mas tão somente boa forma física, a primeira, esperteza e ampla complacência ética, as duas últimas.
JL
******
Amigo Jairo,
Não faz muito tempo li no seu blog um artigo bem preconceituoso contra o que eu considero umas das áreas mais bem sucedidas do governo Lula. Tratava, se lembro bem, do "incompreensível" e "pretensioso" envolvimento do Brasil com a política do Oriente Médio, escrito por uma figura de quem esqueço o nome agora. Eu costumo ler política internacional na imprensa internacional e os elogios à política do governo Lula, sobretudo à atuação do brilhante Chanceler Celso Amorim se amontoam, com as raras e esperadas exceções dos guardiães dos interesses tradicionais dos "donos do mundo", que são postos em cheque pela atuação inovadora e "atrevida" do Brasil. Você tem todo o direito de não gostar de nada que diz respeito a esse governo e só postar o lado da história que bate com sua visão. Mas quem sabe encontra um tempinho pra ler este "outro lado", de uma fonte surpreendente, que tem a vantagem adicional de estar em português.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-cobertura-de-lula-em-israel
Aguardo sua visita pra gente ouvir juntos a 5a e a 7a sob a batuta da nova sensação mundial, o jovem venezuelando Gurstavo Dudamel http://www.gustavodudamel.com/, Diretor Musical da Filarmônica de Los Angeles e cria do sensacional projeto social-musical
http://www.fesnojiv.gob.ve/es/el-sistema.html que rola hoje na Venezuela.
• Caro Chico, meu desconforto com ditadores vem de longe. Porisso, quando vejo o nosso, ou melhor, o vosso Grande Timoneiro aos beijinhos e abraços com Ahmadinejad, Fidel, Chavez & Cia. não consigo vencer minha repugnância por este conterrâneo que parecia encarnar, com o seu partido, a grande reserva moral da política deste país, pobrinho mas decente. E aí, como nos CDs, só consigo ouvir um lado. Sorry.
JL
******
De Rogers Silva
Conheço (todos conhecemos) indivíduos que ganham R$ 800 mensais e compram celulares de R$ 1.000. Pagamos R$ 40 para assistir uma partida de futebol, mas não pagamos o mesmo valor por um livro. Tanto o futebol quanto o livro possuem a sua importância e proporcionam prazeres, embora diferentes. Muitos pagam R$ 100 por sexo, mas não têm coragem de pagar menos da metade disso pelo prazer proporcionado por um bom livro. Em época de Copa, dividimos – em 12 parcelas – uma televisão de 42 polegadas de mais de R$ 2.000, mas não compramos livros. Compramos roupas caras; não compramos livros baratos vendidos em sebos. Pagamos TV a cabo com seus canais – a maioria – inúteis. Não compramos livros. Juntamos em armários, gavetas e guarda-roupas quinquilharias compradas mas nunca usadas. Mulheres pagam caro por plumagens, balaiagens, reflexos, hidratações, manicure, pedicure, escova progressiva, cauterização etc. Na noite, gastamos de R$ 50 a R$ 100 com boates e bebidas. Bêbados, não compramos livros. Comemos, felizes, sanduíches ruins do McDonald’s, e pagamos por eles. Há famílias que tomam uma coca-cola de 2 litros por dia; com isso gastam aproximadamente R$ 120 por mês. Muitos pagam R$ 25 por um cd do Zezé di Camargo e Luciano. Alguns, os que preferem outros tipos de drogas, gastam dinheiro com maconha, craque, cocaína etc. Drogados, não compramos livros.
• Pura verdade. Sempre disse que o problema de livro no Brasil não é o preço, mas o valor. Quer dizer: livro é merda, não vale nada, ergo, é caro! Nos tempos da Kriterion eu ficava puto quando via um cara com um tênis de 500 paus, camisa Lacoste de 150, calça de mais de 200 e cérebro de ultra baixo teor de inteligência dizer que um livro de 30 mirréis era caro. Não comprava e saía indignado gastando a sola do seu custoso tênis.
JL
******
Marcela em azul Jairo Lima
a montanha te quer em azul como dália apenas anunciada nos vapores do longe
te quer azul o rio sobre a hora desnublada azul te quer a fonte
entre águas e águas o teu azul cantante se faz sol nascido lenta cantata vela o mapa do teu nome
e por dizer-te as pedras guardam em vigília memórias de água e vento o teu hoje acorda inundado de luz entre trovões e sinos
******
Banda Pixies cancela concerto em Israel
Uma boa notícia para Israel, no meio do caos em que se meteu pelas merdas que andou fazendo. O cancelamento da turnê da banda, pelo menos, tem a virtude de de manter o nível de idiotia do país estável.
JL
******
Meu caro Gustavo de Castro
Lisonjeado pela citação do meu nome no seu belo texto*, quero completar aquela nossa conversa com um trecho da primeira elegia de Rilke que, por sinal, publico hoje no meu site: (…) “Pois o belo não é senão o início do terrível, que já a custo suportamos, e o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha destruir-nos”. Já senti isto, na pele e no sangue, no final de Tannhauser, quando a sensação de esmagamento, de vórtice, de dilaceramento nos lança sem transição na imobilidade atônita do tal “mundo real”. O caba tem que ter estampa pra aguentar o tranco. O fato é que este cabinha mofino de hoje, anêmico, neurastênico, vazio, amedrontado, ineficaz e barulhento, recolhido covardemente aos desvãos mais escuros da vida, não tem sustança nem para uma furada de agulha num exame de sangue, quanto mais para a violência suprema e bendita da Arte. Para esta galera só vale o entretenimento anestésico que se sorve revirando os olhos e, nos desvarios de bêbado, chama-se de arte.
* Publicado no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br no dia 25 de maio de 2010, sob o título "Poesia é uma palavra plural", transcrito neste site na mesma data.
JL
******
Jairo Lima e as novas diretrizes da CNBB
Agora ficou bem melhor: padre não pode mais comer menino, só pode comer menina.
******
Jairo Lima e a multi-ideologia
Pois é, gente, não tem nada que reclamar, é a multi-ideologia do Grande Timoneiro. Mas pode também chamar de multi-oportunismo, multi-safadeza, multi-esperteza, multi-fuleragem... Proponho que os multi-ideológicos também não possam adotar. Que acham?
******
De Felipe Pena
Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação de sua vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado e pretensamente erudito, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.
• O autor deste "conceito" não é chato, hermético ou besta. É simplesmente estúpido. Se os escritores o ouvissem teríamos uma porrada de paulos coelhos e nenhum Joyce, Niestzche, Montale ou Monteiro e, rigorosamente, NENHUM filósofo. Na alta literatura não há livro chato, mas leitor prequiçoso; não há livro hermético, mas leitor burro; não há livro metido a besta, mas leitor medíocre. Felipe Pena prefere acreditar que as uvas estão verdes a constatar que as raposas são fuleiras. Para um artista, ô Felipão, ganhar dinheiro é consequência, não escopo da obra. Êpa, falei "escopo". Será que o hômi vai me achar hermético? Que pena, Felipe, falou, falou e só disse merda!
JL
******
Canção da Pedra Jairo Lima
despojos de luna avara
estampido seco sobre o palco de areias quentes onde a mão
onde a mão minando lágrimas pensa a dor da palavra
o gesto imerso em leite de alvorada constrói minuciosa pátina
os vidros claros da vida se arrebentam um grito árido se recosta num portal de águas
doce é a cantiga dessas pedras enlunadas onde a mão dá um claro vermelho para o sol e um azul ainda úmido
para as águas
doce é a canção dessas pedras enlunadas
******
De Jairo Lima
Novela é como merda pausterizada: pára de feder mas continua imprópria para consumo.
******
Crianças, vocês ouviram a Lakmé? Jairo Lima
Se não ouviram ou se não gostaram, paciência, vamos continuar o nosso curso "Porque Ivete Sangalo é uma Bosta - menos a Bunda e as Coxas - e Vocês Não Notam". Todo bat dia aqui neste bat site.
******
O paleolítico é aqui. E agora. Jairo Lima
Tá vendo, negão? Arte do paleolítico, saca? Isso pra tu perceber que TODA arte é moderna e contemporânea, ó infiel. Agora, quando tu cisma que a bunduda, peituda e gostosuda Beyoncé faz arte, aí a coisa complica. Se vocês acham que produto industrial e produto artístico não têm diferença, então bom McDonald pra vocês que eu vou pra peixada da cumade.
******
Beyoncé quase cai Durante o show em Florianópolis, a diva escorregou e quase caiu.
• Tu pode? Uma merda desta ser notícia na imprensa mundial? Acho que o mundo vai acabar mesmo em 2012, mas vai ser com uma chuva de cangalhas. E não ficará um jumento vivo sobre a face da terra para assistir aos shows da "diva". O que me lembra um edificante provérbio dos meus matos: merda é bosta, você come porque gosta.
JL
******
Jairo: Longe, sempre perto. Marcos Silva
Prezado Jairo:
Como eu não moro em Natal, lamentarei sua mudança apenas pelos que ali residem. Sempre estou perto de vc no espaço virtual, todos os natalenses continuarão a desfrutar desse privilégio. Desejo grandes felicidades para vc em qualquer endereço.
Abraços.
• É verdade, Marcos, somos amigos virtuais. Com um breve momento de "desvirtualização" quando, em visita ao Mercado de Petrópolis com uns amigos, você nos concedeu alguns momentos de sua atenção em uma breve mas proveitosa visita ao Papo Furado. Que espero se repita em algum barzim do Recife ou aqui mesmo de Natal, se nossas agendas coincidirem. Na pauta uma pequena questão que quero discutir com vc: na tradução de poesia, lê-se o tradutor ou o traduzido? Bom, assunto a gente já tem. Só falta providenciar o encontro e a cachacinha.
JL
******
Homenagem a Jairo Lima Cleido Freire
Escutarei Wagner; Assistirei Salomé, Madama Butterfly, Tannhäuser; Beberei vinho, cachaça, uísque doze anos e outras coisas; Comerei ginga com tapioca no mercado da redinha, carne de sol no farol bar e buchada de bode da Dona Maria que voce não saboreou, mas um dia irá conhecer;
E, acima de tudo, lerei Dostoievski.
Esses não são versos de saudades e melancolias, e sim, constatacões de uma amizade verdadeira.
P.S. Ah! já estou quase embriagado com coca-cola e gelo, pois ela pura é muito forte.
• Cleido é tão abstêmio quanto três mulçumanos e um testemunha de Jeová juntos. Só bebe coca-cola. Sentava no bar, pedia uma latinha, depois outra, depois outra, e lá pras tantas já soltava o verbo como o que mais desvairadamente bêbado estivesse à mesa. Amigão. Amigo daqueles de parachoque de caminhão. Público. Escancarado. Definitivo. Devo-lhe, além da amizade com um cara inteligente e refinado, favores impagáveis. Amigos que levava ao bar. Ele próprio, de cadeira cativa, literalmente: na Kriterion, a penúltima cadeira do lado direito de quem entrava; no Papo Furado, que tinha mesa redonda, uma cadeira que ficava a nordeste, acho, nunca fui bom com a rosa-dos-ventos. Dizer obrigado é pouco. Adeus é muito. Então fico com um até logo, amigão, ainda nos reuniremos muito pra conversar lezeira entre cocas e vinhos. Que Dioniso, o deus papudinho, abençõe a ti e te perdoe, oh amante da coca-cola.
JL
******
Enviado por Rodrigo Levino
Natal
ja disseram uma vez que natal cospe os bons. pode ser. taí sua partida pra testemunhar a favor da tese.
a cidade perde e a perda é irreparável.
haja prejuízo a ser contabilizado.
de cá fica o desejo de sorte no retorno e a saudade de sempre.
um beijo e um abraço
• A morte sugere as grandes confissões. As viagens reclamam as pequenas, as mesquinhas e, porisso mesmo, as mais vergonhosas. Confesso. Tenho orgulho de avô babão por este menino Levino. Como se ele fosse minha cria, bicho nascido e cevado nos meus cercados. E sempre usei impudicamente a sua amizade. Rodrigo Levino? Amigo do peito, sabe, aquele que escreve na Piauí, na Playboy, aquele que escreveu o mais belo livro de crônicas de que se tem notícia por estas partes. Pois é. Usei e abusei do Levino pra me promover, pra fazer inveja pro povo, pra me apropriar de um latifúndio afetivo que só existe na alma. Um dia esse cabra me chega com a notícia que vai pra São Paulo. Fiquei triste pra caralho. Aí, acendi o olho. São Paulo? Ele vai se mostrar muito mais por lá. E eu vou me amostrar muito mais aqui na província, como amigo dele. Rodrigo Levino? Sou assim com aquele menino! Caba bom, ele. Eu, caba safado. O mundo é assim.
JL
******
Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Jairo Lima Por Moacy Cirne
Como você, caro Tácito, também desejo boa sorte a Jairo Lima, grande figura humana e um papo excelente. (O seu conhecimento sobre literatura, cinema e música erudita é digno de louvor.) Ainda bem que o seu blogue vai continuar.
Um abraço em todos.
• Basta dizer uma coisa: só tem dois sites que leio diariamente, que nem breviário ou missal . O teu, Cirne, e o de Tácito.
JL
******
De Ulisses Pedro Lucas Bezerra
Pra Jairo, François e quem mais tiver tempo a perder sobre 'Ulisses'
É compreensível que nem todos curtam Ulisses, e vejo normalmente o fato de alguém não gostar, não entender, e até não respeitar devidamente o livro de Joyce. Não acho uma heresia e nem pecado não gostar da salada de palavras, pensamentos e soluções estéticas propostas por Joyce. Vou ver se pinço umas coisas que talvez sirvam à degustação do 'Ulisses', se isso é possível a mais alguém. Pra mim é. Primeiro, compreendamos que o livro é quase uma piada. É uma história simples, um dia na vida de um pacato dublinense, que vai se arrastando por meio de pequenos acontecimentos, e não passando disso. Não passa disso mesmo, são quase 900 páginas daquilo que qualquer um pode chamar de enrolação. Quem for lê-lo pensando numa Odisséia como a que se inspirou (e tenho certeza de que ninguém vai ler assim, e seria inocência da minha parte pensar desse modo), claro que vai largar o livro a partir do terceiro capítulo, no máximo. O 'Ulisses' é um dos primeiros livros a ser escrito com total comprometimento na elaboração da linguagem. A graça é justamente essa. A graça é perceber as vozes das personagens, é entender aquilo como uma grande feira assistida, ou uma foda muito demorada que por pouco não chega ao gozo. Por pouco. Acho que não há como não gostar pelo menos do monólogo de Molly Bloom, esse sim chegando ao gozo. Pelo menos trezentas vezes. Então, quem não aguentar uma overdose de frases muitas vezes sem sentido, caminhadas aleatórias, e também com destino, conversas pesadas em uma biblioteca, piadas intelectuais (que, vejam só, não me parecem chatas), livros inventados, listas quase sem sentido, sexo e mais sexo, ver o protagonista defecando e também se masturbando, ouvir uma orquestra distribuída em parágrafos de uma frase só, bebedeiras e sonhos acordados, fumaça e cheiro de chocolate e abacaxi, e gritos de pessoas na rua, e um sabonete derretendo no bolso de Leopold Bloom, entre outras perdas de tempo (que vejo como recompensadoras), leia só o monólogo final, na voz de Molly Bloom. Acredite, amigo, vale a pena.
• Minha bronca com Ulisses é que ele não é "difícil" por complexidade funcional, mas por deliberada ocultação dos elementos estruturadores. Uma enorme palavras-cruzadas que me entedia por absoluto desinteresse. Diferente, por exemplo, da complexidade de uma fuga de Bach, "dificílima" também, mas de uma "necessidade" absoluta. Bach é como uma máquina de mecânica extremamente complexa por onde se introduz um porco e se retira, ao fim, salsicha. Joyca criou um mecanismo no qual vc introduz um porco, o bicho gira, gira, passa por mil engrenagens, é beliscado, puxado, empurrado de lá para cá e no fim resulta que ele sai do outro lado tão porco quanto entrou. Pra quê? Pra nada. Então, continuo a admirar o Joyce pre-ulisses. E a vc, Pedro, que estás escrevendo bem pra cararalho.
JL
******
Enviado por François Silvestre
Pode montar o detector de mentira que eu topo. Não entendi nada do ulisses e achei uma boa bosta. Não passei da metade. Ulísses bom é do Homero. Viu a intimidade? E A espera de Penélope de um certo poeta mauriciano. Abraço do irmão.
• François Silvestre falou, tá falado. Também acho o Ulisses de Joyce uma bosta. François leu a metade, eu não consegui vencer trinta páginas daquele saco. E acho Homero o cara! Agora que tenho o apoio do maior romancista destas plagas, quero ver quem vai me olhar atravessado. Viva François Silvestre. Morra o Ulisses de Joyce.
JL
******
Falou e disse: Fernando Monteiro
Gosto do Joyce pré-“Ulisses” – e acho que ele não entendeu toda a lição de Dujardin (pelo menos em Os loureiros estão cortados, que é de 1888). E, sim, Joyce ainda tinha outro grave defeito: acreditava que era Joyce!
• Também gosto do Joyce dos "Dublinenses". E submeteria, numa boa, cada apologista do "Ulisses" ao teste do detetor de mentiras. Quem topa?
JL
******
Parque Dona Linu? Porque não Parque Dona Edith,
que vem a ser minha mãe? Ou Dona Maria, que é mãe da Lúcia? Não é para homenagear mães valentes e devotas? Fico puto com esta canalha que faz puxasaquismo político com a MINHA cidade. E a tal Av. Norte José Arraes de Alencar? Nem discutir a homenagem a Dr. Arraes. Ele merece. Mas precisava se perpetrar este horror? Hem, Bandeira, hem Carlos Pena Filho, hem Capiba? Recife não tem mais recifenses?
JL
******
Discordo do Marcelo Coelho quando ele diz que ninguém gosta de ser enganado. Ningúem, não. Intelectual-de-Shopping gosta. Adora. O jogo dele é o máximo de afetação "intelectual" com o mínimo de esforço mental. Esta, aliás, é a chave para se entender certa "arte" contemporânea. Posar de conhecedor profundo de águas rasas é a meta suprema. E haja bosta no urinol de Duchamp.
JL
******
Comentário sobre o post Eu e o Poeta de Laurence Bittencourt
Querido e corajoso amigo, vc comprou uma briga sem tamanho com um bando de analfabetos musicais que, em nome do politicamente (argh!) correto afirmam candidamente que os sapos são iguais aos navios porque são vistos sempre próximos à água. Moliere, em frase lapidar de sua peça "As Sabichonas", fala dos que, para se mostrarem iguais aos gênios, imitam-lhes o modo de escarrar. Os shoppings intelectuais estão cheios destes cuspidores que, falseando a mais elementar verdade, tiram do povo a possibilidade de acesso aos bens culturais superiores (superiores, sim, vocês podem estourar de raiva, mas são superiores, sim) sugerindo que a arte popular é tão importante quanto a suposta, para eles, arte erudita. Ou que, simplesmente, não existe diferença entre Meu Limão, Meu Limoeiro e a Tocata e Fuga em Ré. A tchurma confunde, deliberadamente, arte, artesanato, ritos sociais tradicionais, indústria do entretenimento, o caralho a quatro; botam tudo num mesmo saco e sentam em cima. São os defensores da "cultura" este tudo que é nada. Assim, é só deixar o povo como está. Pobre, explorado, submisso e, sobretudo, ignorante. Afinal, para que se esforçar se futebol é arte, jogador é herói, motorista de carro de corrida é gênio e Michael Jacson foi o mais importante fenômeno artístico do século passado? Ou seja: para que estudar, ou fazer qualquer outro esforço intelectual se já nascemos institivamente habilitados para o usufruto das mais ricas benesses do espírito? E esta turma, reaça e conservadora, pasme, posa de esquerda. Combine isto com governantes analfabetos e o resultado é a consagração institucional deste abestalhamento abissal que nos retira da penumbra contemplativa do teatro para a vulgaridade ensolarada e participativa do circo.
P.S. Quer fazer um teste? Pergunte a um abestalhado destes, sem dar tempo para ele consultar a Wilkipedia, o que é uma fuga. E depois me diga.
JL
******
Comentário sobre um post do Coronel Maciel
Talvez, Coronel, o preconceito estúpido, desculpe o pleonasmo, favoreça os tratantes ainda mais do que a loucura. E para ele não podemos ter a compreensão que temos para quem se encontra num estado de alteração da consciência do qual não tem culpa. Já o preconceituoso, sempre covarde, sempre solerte, afirma e proclama um demérito inexistente só para, denegrindo o caluniado, exaltar o pequeno canalha que se julga superior.
JL
******
Padres, putas, pilotos e heróis. Jairo Lima
Além de dirigir carros e comer loiras, não se sabe de mais nada que seja feito pelos chamados pilotos de Fórmula I que possa ser assinalado como socialmente relevante. Nem por isso, a cidade de Natal deixou de dedicar uma avenida a um motorista milionário chamado Ayrton Senna. Natal só, não, tudo o que foi cidade do Brasil dedicou pontes, hospitais, vulcões, fontes, hoteis, puteiros, ao intrépido motorista de São Paulo. A imbecilidade, realmente, não tem limite. Se era para dar nome de motorista a uma avenida de Natal, porque não falaram comigo que eu iria sugerir seu Edson, este sim um herói, valente pai de família que sustenta mulher e filho com seu trabalho pesado e mora em Emaús, bem perto da tal avenida? Agora, o que acho mais engraçado neste filhos das putas que enaltecem e enriquecem inutilidades como padres e jogadores de futebol, é que, quando têm uma gripe, recorrem à ciência e aos cientistas que tanto desprezam. Porque não vão se tratar com uma destas celebridades vazia produzidas aos milhares, todos dias, pela indústria cultural? Alias, até onde eu sei, lixo cultural é o único tipo de dejeto não reciclável. E que pode permanecer contaminando a natureza humana por muitos e muitos anos.
*******
Ética (ou falta de ética) potencial Por Marcos Silva Caro Jairo:
Comentando o romance de François Silvestre, vc assinalou que tanto a puta quanto o político de elite não têm ética. Penso que a puta e o político de elite podem não ter ética, comumente não têm. Mas também podem ter, é só querer. Eu ainda penso que algumas pessoas no planeta – eu e vc, por exemplo – têm (temos) ética.
Sobre a ética das putas, recomendo a velha peça de Sartre “A puta respeitosa” – ele não era grande dramaturgo mas tinha umas idéias interessantes.
Sobre a ética dos políticos, não me ocorre nada agora. Mas deve haver algum com ética, como na bela canção “Infidelidade”, de Ataulfo Alves:
“Não julgo todas por uma Pode ser que haja alguma Com pudor e coração”
(Matéria postada no site www.substantivoplural.com.br)
• Meu caro Silva, como vc diz no título do seu post, a falta de ética entre putas e políticos (e, por extensão, entre cidadãos de qualquer classe social) é potencial, não obrigatória. Na verdade, a minha manifestação foi contra uma certa visão maniqueísta do mundo em que se elitiza os pobres e se exclui os ricos. Ao meu ver, pura hipocrisia. Não se faz justiça social com inversão axiológica de marcadores sociais, mas sim com um estado de direito que assegure o exercício pleno da democracia. Né não?
JL
******
Entrevista de Jairo Lima para Sérgio Vilar
O poeta, dramaturgo e publicitário Jairo Lima teceu comentário a respeito do que considerou o seu destaque do ano entre os livros lidos: Remanso da Piracema (Editora Bakunin), de François Silvestre. Embora o melhor livro na opinião do poeta, as críticas à obra vieram à proporção dos elogios. "Discordo e adoro esse livro. Como discordo da idéia de estado e igreja de Dostoievski ou do conceito de imortalidade da alma de Sócrates. Mas são autores que admiro. Talvez por isso o livro de François tenha sido o melhor", iniciou.
Segundo Jairo, Remando da Piracema peca pelo maniqueísmo entre a elite demonizada e a maravilhosa plebe. "A falta de ética está presente em qualquer classe social: na puta ou no político. François erra já na primeira frase do livro quando diz: 'Este livro não foi escrito para intelectuais insulares'. Ora, o livro foi escrito exatamente para eles. O povo que ele tanto enaltece despreza seu trabalho". Outra falha apontada pelo poeta está nos textos "maravilhosamente bem escritos" por personagens simples, teoricamente incapazes de tal verve literária.
Apesar das críticas, Jairo reconhece no livro uma prosa poética de qualidade."François não abusou da metáfora. É um livro extremamente equilibrado, bem escrito. O que vale na literatura é a forma. E esse foi o melhor livro dele. É de não se conseguir parar de ler, um texto gostoso, ritmado. A passagem de um cara que chega de bicicleta em Caicó é digna dos grandes escritores". E conclui: "Não aprecio os ingredientes do livro, mas a sopa ficou maravilhosa".
******
Tortura nunca mais? Jairo Lima
Me adverte um entusiasmadíssimo João da Mata da existência, em Natal, de um bar que atende pelo nome de Bar do Rei e cuja especialidade é tocar, o tempo todo, música (sic) de Roberto Carlos. Como diria Duchamp, pra quem gosta de merda é penico cheio.
******
Agenda de um abestalhado Jairo Lima
Avatar? Hoje assisti foi Aida, sob a regência iluminada de James Levine, com Aprile Millo no papel-título. Coisa de bestalhão, como eu – lembrem-se que intelectual é quem usa o intelecto (rs) e, como eu evidentemente não uso, sou uma ameba que consegue “perceber” Arte e assistir ópera se embebedando com Chateauneuf du Papes.
E agora vou parar que amanhã vou ter um dia cheio. Tenho que falar com um intelectual que conserta sapatos (o meu descolou o solado) e depois com outro intelectual que vende cachaça la pro bar. Ah, sim, e tenho que passar no Hiper para falar com o intelectual responsável pela troca de produtos, pois hoje comprei um ventilador lá e o bicho chegou em casa sem funcionar.
******
Errata Jairo Lima
Ontem, na feijoada do Papo Furado, Cleido mandou que eu retirasse o povo que não gosta de coca zero e de beber, como ele, da mesma categoria dos que não gostam de literatura, conforme publicado no post "Santa Hiporcrisia". Por puxasaquismo e por ser Cleido um dos melhores clientes do bar fica aqui publicado o seu protesto e aceita a sua ponderação. Tenho dito.
******
Santa hipocrisia Jairo Lima
Tenho pavor das pessoas que dizem que a literatura não serve para nada. Ora, caralho, nunca vi um livro escrito por outro livro, livro é escrito por gente e é nisto que se cifra o seu esplendor ou sua ruína.
Quem não gosta de livro, não gosta, certamente de gente. Não confio. Um caba desse ou está querendo ser 31 de fevereiro, para se jactar de inteligente, original, ou santarão social, ou está rompendo em definitivo com o humanismo, e aí, saia de baixo que ele está a um passo da monstruosidade.
Tem leitor erudito que é fila da puta? Claro, porque livro é gente e tem gente que é fila da puta. Agora, querer viver num mundo ágrafo só para construir um mito pessoal em que o universo começa no dia em que o idiota nasceu, não é apenas uma estupidez. É um perigo. Não gosto de caba que não gosta de livro, que não bebe, que não fode, que não gosta de coca zero, que despreza buchada e detesta tapioca, sobretudo com ginga. Queria ver se esse fila da puta tivesse um câncer se ele procuraria um médico “formado na escola da vida”.
Para isto, a academia presta. Mas, quando se trata da alta cultura, que nossa sociedade relega a última posição em sua invertida escala da valores, aí acadêmico só do Salgueiro.
******
Meu ministério por uma peruca Jairo Lima
Gente, vocês roubam tanto, não dava pra pedir para uma empreiteira descolar uma peruca decente para La Roussef? Porque o capacete capilar que a ungida usa, coitada, tá de lascar.
******
Ainda o erudito e o popular Jairo Lima
Concordo: Um trem de passageiros não é superior a uma jaboticabeira florida. Discordo: Um trem de passageiros não é igual a uma jaboticabeira florida. Entenderam, crianças? Se não entenderam o tio repete.
******
Comentário sobre um texto de Luiz Felipe Pondé Jairo Lima
Você tem toda a razão, Pondé, a repressão da diferença que faz diferença chega ao auge, na verdade, na idéia fenomenal de que não existe diferença entre arte erudita e popular. Só para a preguiça intelectual posar de opção estética e não se sentir hierarquicamente discriminada. E viva a jumentice!
JL
******
Vai ser do caralho Jairo Lima
Como não há diferença reconhecível entre arte popular e erudita, vou propor pra Prefeitura de Natal que, para o ano, em vez do Carnatal, se encene, no mesmo local, o ciclo completo das óperas wagnerianas. Cada ato será apresentado num trio elétrico diferente. Nos camarotes especiais haverá apresentação de um quarteto de cordas no intervalo entre um trio e outro. Vamos lá, gente, vamos começar a produzir os abadás para a multidão que vai superlotar o corredor da folia. Não é tudo a mesma coisa? Então vai ser o maior sucesso!
******
O triunfo da imbecilidade Jairo Lima
Nem a campanha contra o cigarro é tão sistemática e antiga quanto a campanha contra a inteligência. O mito do imbecil iluminado está em todo super-heroi (vide Capitão Marvel, Superhomem etc) cuja mutação se dá a partir de um rematado idiota (Clark Kent & Cia); já os bandidos, estes são inteligentes e cultos, ou melhor, "gênios do mal". Outra figura repetida à exaustão é o imbecil cochilando na apresentação de uma ópera ou ballet, talvez um dos mais recorrentes clichês do cinema americano (o detalhe é que o dito imbecil, claro, é o herói da história).
JL
******
A meio pau Jairo Lima
Vão cair de pau em mim, mas prefiro o Bandeira tradutor (de poesia) à própria produção do poeta. Sua obra-prima é a tradução do Macbeth, texto que, a exemplo do de Arrigo Boito, com a sua tradução do Otelo para a língua de Dante, supera o próprio Shakespeare. Fico imaginando o alto nível que teria sido alcançado por Bandeira se não se sentisse obrigado a criar seus porquinhos, da Índia ou não, dentro do chiqueiro ideológico do modernismo.
******
Achismo Jairo Lima
Acho o Augusto dos Anjos a apoteose do kitsch. Mas o povo acha que não. E quem sou eu, obscuro poetinha provinciano, para achar nada? Eu, hem...
******
Mia Couto e eu Jairo Lima
Mia Couto me fez ler 277 páginas da mais enfadonha literatice para me dizer que só o sexo dá sentido à vida. Eu já sabia.
******
O sim e o não Jairo Lima
Calma, calma, gosto da arte popular, sim. Não gosto de monocultura, não.
******
Falou e disse: Luciano Trigo.
Embora a arte (...) exalte o pluralismo e o relativismo, isto é, o convívio pacífico das mais variadas propostas, mesmo as mutuamente excludentes, na prática o que prevalece é o que chamo no livro de “arte por designação” – ou seja, aquela arte que não depende mais do talento, da vocação, da técnica, do aprendizado, mas simplesmente da declaração pelo artista de que alguma coisa é arte – e da sua capacidade de inserção no “sistema da arte”. Contudo, a origem do procedimento da “arte por designação” não é nada contemporânea: está na roda de bicleta e no urinol que Marcel Duchamp designou como obras de arte em 1913 (!) e 1917 (!), respectivamente.
• Tá vendo o que o hômi tá dizendo? Agora, quando eu falo disso todo mundo espia de banda. Insisto: o problema não está em existirem tais manifestações "artísticas" mas, sim, nessa merda, colhida diretamente do urinol de Duchamp, ser chamada de arte. Isso é o que confunde a cabeça da rapaziada. E produz sempre mais "artistas" quase que no mesmo número da população. E haja lançamento na Siciliano!
JL
******
Miolo de pote. Jairo Lima
Estou acabando de ler Antes de Nascer o Mundo de Mia Couto. O de sempre. Alta confeitaria, baixos teores nutritivos. Se a gente continuar a consumir este tipo de literatura ornamental e indigente vai morrer de desnutrição intelectual. Ou de diabetes, haja visto o alto teor de açúcares líricos despejados com mão pesada pelo autor sobre o escrito. Chato. Chato de doer este Guimarães Rosa de segunda água.
******
Só faltava essa. Jairo Lima
Depois da fraude do DVD, o suporte menos confiável criado pelo homem desde o papiro, do CD, com o seu som que parece saído de uma lata de leite Ninho, agora é a vez da TV Digital, interrompida a cada minuto por congelamentos de imagem e pulos de áudio. A nova tecnologia não serve nem para assistir novela, o gênero mais redundante que existe, pois congela tanto e pula tanto que vc nunca vai saber quem é o verdadeiro pai da doidinha. Já pensou?
******
Lula, o filho do Brasil. Jairo Lima
Nunca antes, na história deste país, um filme teve um título tão idiota e uma rima tão óbvia.
******
De Jairo Lima
Mantenha a burrice em lugar seguro, fora do alcance das crianças.
******
De Jairo Lima
Poesia virou bolo de liquidificador. Todo mundo sabe fazer.
******
Rimbaud Jairo Lima
era uma mulher sem nexo mas com filhos de olhos duros vidros aspeados por sobrancelhas de pó enegrecido
era um sol deslembrado de sombras e de mundos amanhecidos e eu dizia aos seus olhos pequenos e incompassivos que rimbaud já foi rimbaud e eu não precisava de pedras nem de vidraças para escrever um livro nem de tetas negras ou deserto infame nem de calvários para purgar meu sangue ali, naquela hora afastada eu ouvia sorrindo o seu gemido e lhe negava o verso que implorava e, como o dia apaga da noite os vestígios, eu esmagava, um a um, os acordes que conduziam a lembrança de suas dores para o olvido
******
A foto que eu vi Jairo Lima A Fernando Monteiro
vi o sangue e o pus de Anna Akhmátova celebrados em duras taças de granito e ali estava um corpo de suores feito poema transformado em mito ou salmo de escárnio e maldições ferozes ou ainda em memória de gritos
vi a grande mordaça cujo número é vinte e dois jogada inútil num monte de pó para que um canto, uma blasfêmia fosse buscar sua têmpera nas próprias fornalhas do sol
ah, estes clarões de sangue como iluminam e rasgam as rimas, os risos, os guizos a sensibilidade em febre, assustada de minúsculos passarinhos que negam o trovão da Grande Mágoa e se entretêm em cantar pequenas insolências ritmadas em versos ruiz
vi, de fato, a foto ensangüentada enclausurada num sacrário ateu e vi escrito em suas carnes devastadas queste parole di colore oscuro que dante um dia no inferno viu
******
Tia Jairo Lima
Com pelos de cachorro minha tia enchia almofadas para alfinete pensando utilizá-las algum dia (se o pelo for de cachorro o alfinete não enferruja, dizia) não sei de que vale esta ciência não sei de que vale esta ciência hoje em dia sei apenas que eram vivas almofadas que eram vivas almofadas da minha tia
******
Certidão Jairo Lima
Constato que o verdadeiro cristão é o que tem em cada face uma escoriação
******
Apocalipse Jairo Lima
Os justos herdarão os clamores dos injustiçados e vestirão togas negras sob o fogo dos desertos
e serão juízes tristes e severos de querelas milenares e decidirão a causa dos fantasmas e olharão desconfiados os deuses que cheios de evasivas explicarão seus desígnios e seus evangelhos aos que sobreviverem sem mérito
e logo se erquerão do poente ao levante hordas de magistrados de capelo e martelo de cabeças empoadas pelo pó da terra estéril
e à noite aos luares sorrirão enviezado sob a luz verde do frio e meditarão por toda a eternidade em cada parábola contada nas noites insones que anteciparam o dia dos vulcões em lava dos raios e dos trovões
******
Poeminha antigo Jairo Lima
Em estado de amor veio à janela branca, branca, virou tela em sua moldura de paus
só que o tempo impiedoso de moças e telas fez ver que já era tarde pra surgirem tais visagens nas janelas da cidade de sete portas sete chaves mas sem janelas
morre, moça, enquanto és bela que janelas sois e tardes já não há nesta cidade
morre, morre, enquanto és bela
******
Fica bem dizer assim? Jairo Lima
Poema lapidado não vale a pena poema lapidado é lápide de poema
******
Preço e valor Jairo Lima
Engraçado. Quando eu era sebista me entrava um cara com uma camisinha de malha Lacoste de 150 mirréis, um tênis de 400 paus, um óculos escuro de 150 reais e pegava um livro de míseros 30 reais para reclamar que era caro. Livro não é caro porra nenhuma. Livro, no Brasil, não tem valor. Isto é outra coisa. Ou seja: livro não serve para comer ninguém, nem para enganar o chefe no trabalho, nem pra dar status na conversinha no bar da esquina e, por isso, não merece qualquer "sacrifício" financeiro. Livro não serve pra nada. Só pra ler, pensa o imbecil e revira os olhos.
******
Faca Jairo Lima
Além do coração somente o coração além da veia pulsante só o pulsar da veia além do sangue vermelho só o vermelho sangue faca/faca sem silêncios esperas ou sombras de fantasmas faca/faca a faca total que se compraz no espelho do seu aço diante desta faca nada é imortal tudo é entranhas e medo nesta faca sem profetas nesta faca que não se anuncia a não ser quando cava a sua mina de sangue vermelho/vermelho esta faca que faz medo esta faca sem bainha esta faca mata deus
******
Monólogo do unicórnio Jairo Lima
Um ou dois? eis a questão um (sem dúvida) chama mais a atenção
******
Ofício Jairo Lima
Calma não quero emocionar ninguém
faço poemas de página porque grandes sagas provocam alvoroço e me obrigam a atravessar um pátio uma cozinha um pequeno corredor uma sala nua um corredor maior que olha para a rua até chegar a uma sala onde uma secretária me empresta um grampeador
portanto, calma, não quero emocionar ninguém
******
Cantiga do vinho Jairo Lima
agora que o vidro fino do ar está em Teu lugar como o murmúrio de um sol ausente
agora que entre mim e o elo de Tua mão se interpõe uma antiga canção e um caminho de ventos e tua Ausência pesa como um deus a quem negaram febres e incensos
agora que só restam as garras da memória para me manterem preso ao Teu nome faz desta dor cravada em minhas horas uma porta que me leve ao Teu agora
pássaro da noite, ateu, se em teus poderes cabe a glória de esquecer o que te roubou a tarde no esplendor do teu ninho
faz desta dor uma taça para uma urgência de vinhos
******
O nome do filme Jairo Lima
Na minha lista de Filmes de Câncer, esqueci o nome de um filme que acabo de assistir no Hallmark Channel de novo: chama-se "Um Amor para Recordar" e a mocinha não morre do coração, não, morre de leucemia mesmo, bem no gênero, e o sonho dela é ter um telescópio maior (ela já tinha um meio mixuruca que ela mesma tinha coisado), que é construído pelo mocinho que ainda casa com a bichinha antes dela morrer. O nome dele é Dalton, o nome dela é Jamie e o nome do pai dela ou eu já esqueci ou não falam no filme.
******
Os dez melhores Filmes Bestinhas de Todos os Tempos Jairo Lima
(Definição: Filme Bestinha é aquele que você sai encantado do cinema, feliz da vida, pisando em nuvens e diz pra todo mundo que o filme é uma idiotice, alienado, alienante, piegas, escapista, uma merda.)
Campeão: Sissi, a Imperatriz
A noviça Rebelde
Mamma Mia
O Mágico de Oz
Em cada coraçao uma saudade
Marcelino, pão e vinho
Quando o coração floresce
La violetera
Os dez mandamentos
Música e lágrimas
******
O dez melhores Filmes de Pipoco de Todos os Tempos Jairo Lima
(Definição: filmes de alta tecnologia com efeitos sonoros especiais e que só prestam para serem assistidos em cinemas com dolby sorround. Vistos na TV, ou nos cinemas com sistemas de som comuns, passam imediatamente para a categoria de Filme Bestinha.)
Campeão: Terremoto
Armagedon
Independence Day
Guerra nas Estrelas
Tora, Tora
Guerra dos Mundos (foto)
Matrix
Jurassic Park
Volcan
Godzila
******
Os dez melhores Filmes de Câncer de Todos os Tempos Jairo Lima
(Definição: Filme de Câncer e todo aquele filme em que o protagonista contrai uma doença incurável e morre. Portanto, se o personagem se curar a película passa imediatamente pra categoria de Filme Bestinha.)
Campeão: Love Story (foto)
Lado a Lado
Flores de Aço
The Philadelphia story
As baleias do outono
O Mestre
Suplício de uma saudade (este é uma forçada de barra porque o caba morre é na guerra, mas, por analogia, cabe na categoria, desde que vc considere a guerra uma doença incurável, pelo menos metaforicamente).
Este filme eu não lembro o nome, passou na televisão, é de uma mocinha doente do coração que tem um sonho, que não lembro também qual é, e que este sonho é realizado, com grande sacrifício, pelo namorado também adolescente. No fim a bichinha morre, incluindo o filme na categoria.
Melodia Imortal
Tarde de Mais para Esquecer (neste filme Deborah Kerr não morre, fica paralítica, mas no fim a gente não sabe se Cary Grant vai ou não casar com ela. Como ela não se cura, o filme não pode ir para a categoria de Filme Bestinha, logo...
******
A hora anunciada Jairo Lima
De outra vez traga-me o trem noturno que vara as trevas confiado tão somente no brilho do seu trilho
traga-me o sol facho o leite de pendente luna mas venha só e embrulhe seus presentes em papel crepom fita verde ou encarnada para que o imprevisto de tua chegada seja calmo como um lago sem ventos lento, calado, lento como coisa anunciada
para que esse trem, esse sol e essa luna pareçam coisas simples pareçam coisas tuas
para que essas luzes amordaçadas no papel de presente se tornem previsíveis e marquem, simplesmente, o dia, a hora, o minuto, de tua chegada
ou ainda como se o tempo saltasse sobre as asas da noite e lhe cravasse os dentes
******
Noturno Jairo Lima
Galos verdes gatos plácidos quietas sementes de luna brotam brandas pele azul acidez do espaço
pálios brónzeos limpos traços astro flácido galos verdes trinos vários vaga serpente de aço vozes brancas rosas rubras verde amarelo azul mormaço
verde (chão) azul (espaço) varandas de fria luna silêncios súbitos verde azul azul espaço galos gatos galos gatos galos crinas azuis verdes mormaços pálios pátios
tropel cansaços traços brancos galos verdes gatos plácidos quietas sementes de luna brotam brandas pela azul acidez do espaço
******
Futuro Jairo Lima
Quem vai para o futuro sem saudades não deixa marcas na carne do tempo ido nem se compraz em fantasmas como se cada dia tivesse renascido
quem vai para o futuro sem saudades vai desfazendo a teia da memória essa espiã do tempo vai mastigando os próprios nervos indo só porque se vai sem pressa, sem vontade, assim como nascendo
sem suores noturnos sobressaltos sem deuses nem guias assim sem agonia sem misticismo, sem fé assim se vai para o futuro sem saudades
se vai só pelo ir sem volúpia de caminhos e chegadas se vai porque o sangue escava suas minas sem perguntas e se tem que ir
******
Amaretti di Saronno Jairo Lima
Vi à luz da lâmpada fluorescente a embalagem pálida do amaretti di saronno com os seus sonhos de mares e de naves
vi com que coragem se anuncia antica fabbrica infância à deriva na luz atemporal do lume imprevisível que não diz de muitos dias tardes
tocada pelo vento a vela então se abre e reconduz o rótulo do amaretti di saronno antica fabbrica à condição de ave
******
Para você não dizer que não falei dos festivais ditos literários. Jairo Lima
Aprovo com entusiasmo toda badalação em torno de livros. Porque parte ínfima deles trata de literatura, um troço que eu adoro. Então, se aumenta o venda de livros, aumenta também o bolinho dedicado à arte de escrever. Isto é uma coisa. Outra coisa é me abalar pra Pipa pra ouvir Lobão e Danuza Leão falarem merda. Aí, me poupe, camarada.
******
Lírica Jairo Lima
De noite toquei pandeiros por ti de noite acendi luzeiros por ti de noite vaguei no ermo da escuridão mais escura cavalguei cavalo negro venci o medo por ti
pastos raros de cristais amanhecidos conheci o hálito da noite desenhou-me azul na pele e me perdi
percorri sete reinos ouro prata safira cristal topázio ametista rubi
outeiros pontes outeiros meu caminho para ti
invenção das minhas noites vi que eras para mim deixei que o sol nascesse desinventei tua história guardei luzes e pandeiros e vi que o amor que eu te tinha era o meu amor por mim
******
Deixa de embalar o que já está embalado, cara. Jairo Lima
Outro dia escrevi aqui no Papo Furado, e no site do Tácito Costa, que tinha radicalizado com relação ao uso inútil de saquinhos de plástico para embalar o que já está embalado. Porra, galera, pasta de dente, remédio, parafuso, lâmpada, mouse de computador, tudo já vem embalado, e muito bem embalado, de fábrica. Então pra que caralho botar um saquinho frágil de plástico por cima? No supermercado, por que não levar tudo no carrinho de compras até o seu carro e aí botar dentro de um saco de pano ou de uma maleta de rodinhas (é assim que eu faço)? Afinal, você não vai levar mesmo aquela porrada de saquinhos de plástico na mão, vai? Então, pra que deixa embalar, por Nossa Senhora? Tô aqui metendo bronca de novo porque até agora espero que alguém dê algum pitaco, faça uma sugestão, assuma publicamente um compromisso. E nada. Falar nisso, tem um abaixo assinado lá no Papo Furado exigindo ônibus híbridos (98% menos poluição) aqui em Natal. Passe lá pra assinar. Se mexa. Faça alguma coisa que a natureza de mãe não tem nada, tá sabendo? Vacilou, sai na porrada.
******
Maria da Paz Jairo Lima
Maria só tem um filho a quem chama de Pelé quer vê-lo louro e bonito com uma bola no pé
(Maria da Paz passa fome não quer saber de Vivaldi)
De noite ela vai pra cama com o soldado da guarita descançam na cabeceira revólver, sabre e marmita
Pra viver melhor a vida talvez gostar de Vivaldi Maria da Paz precisa das balas do seu soldado
Mas o soldado de Maria não luta por ela, não goza seu corpo e lhe nega revólver, sabre e facão
E ela vê, depois do gozo, ele estirado ao seu lado nu é menino dormido sonhando sonhos de farra duplamente desarmado
E assim a vida não muda apesar de tanta luta na colchão com seu soldado
******
Violino Jairo Lima
e me descobri no Recife com saudades do Recife e a esta angústia veio somar-se outra que me deu de ver Angra dos Reis nos retratos e umas histórias sobre a usina atômica
e quiz versos de fogo contra o fogo da usina e rimas de mel para o seio das colinas
e a esta angústia veio somar-se outra que me deu de lembrar a infância dos sábados criança não traquina a que a réstia do sol da telha de vidro do quarto vinha coçar a narina
e a esta angústia veio somar-se outra que me veio indefinida das meninas que amei e mi vi com saudades de um violino que jamais toquei e que vendi na caixa para um músico da sinfônica por cento e vinte mil reis
******
Cantiga de menino com fome Jairo Lima
Menino ninguém te ama menino ninguém te quer menino filho de homem e mulher
menino feito na noite entre cantigas de grilos cadê milharal bonito que teu pai te prometeu?
cadê cantigas de mãe para embalar os teus gritos? cadê o toque de sinos que teu pai te prometeu?
olha que orgasmo aflito gerou teu corpo franzino cadê matéria bastante pra te construir, menino?
minha mãe tinha um roçado que nossa senhora deu meu pai - chuva - foi embora e meu roçado morreu
menino sai desta vida menino sai na TV menino pra que tens olhos e essa cara de vivo se já já tu vais morrer?
de um osso fiz um boi de um outro caminhão botei o boi no cercado fui embora do sertão
ai seu eu fosse cigano fugia em noite de lua ia pra terra de um conde primo carnal do meu pai onde os bois morrem de velhos nos currais de la condessa e o sol espia sem raiva os dourados milharais
que eu sou primo do conde protegido da condessa vim de longe muito longe em galeota de velas que encalhou noutra era e se enredou no destino de ser menino de ser menino
******
Da lua Jairo Lima
Tecida em gelo e cozida nos panos da noite a lua aparece clara em sua mortalha de luz
Cheia de si (visagem que se intercala nos escuros do céu) comanda ventos e almas horóscopos e marés
Cenarizando o mundo em branco e prata a luz propõe enredos de ações dramáticas lunáticas
Posta no céu a lua as pessoas ficam nuas e dançam estáticas a coreografia exata dos vegetais
Foi numa noite de lua que se inventaram as amadas feitas de um tênue, branco ectoplasma inexato, impreciso que a luz do sol desfaz retomando o ritmo previsível e simétrico dos olhos e dos mamilos
******
A hora certa Jairo Lima
a hora certa não é a hora do rádio não é seis e trinta e oito nem oito e quarenta e seis a hora certa é aquela em que o tempo abre o regaço e nos aninha numa almofada de cetim lavada com alfazemas e jasmins nessa hora a gente é dono de tudo o que há entre o não e o sim
******
Angústia metafísica Jairo Lima
E este apocalipse que não chega? Não se entrega tarefa assim tão grave a um bando de bestas.
******
Os panos Jairo Lima
a taça magra o vinho insone em pé o pão deitado pleno de si mesmo a faca o gume a carne o incenso diário dos temperos a liturgia dos panos sobre a mesa o relógio expectante que impõe silêncio aos seus aços
(o tempo aguarda o ritual da fome)
ainda longe o corcel da hora pasta os seus ponteiros e espera que nódoas e migalhas sobre a toalha autorizem a cavalgada que envelhece rebocos e azulejos
******
Palavra Jairo Lima
A linha azul do mar é semre azul e linha e os luzeiros do céu são luzeiros e mais nada nada além de si é a curva piedosa as colinas e neste dia em que me sinto orfão da metáfora ofereço à poesia o timbre impercutido da palavra gasta que a si mesma se basta que se propõe sintaxes provisórias e que expõe exata nua dicionariamente suas sementes silábicas velhas palavras primitivas onomatopaicas o grito primevo o vagido a articulação vocálica do riso o hálito entrecortado do suspiro a palavra no leito geminal do sentido unívoca serena imodulada
******
Latim Jairo Lima
Inventarei um latim só para mim só para dar um ar de nobreza decadente a uma certa nobreza decadente que há em mim.
Inventarei um latim que sirva de armadilha e isca a decapitados anjos barrocos que sorriem degolados num velho céu azul de telão de opereta e giram feito carrapetas ou helicópteros desgovernados
(hoje estão todos escondidos como grilos nos escuros das igrejas).
Pra todas estas coisas velhas que desconfio belas hei-de inventar um latim que tenha sílabas ferinas como o tinir das campainhas que me espantavam na hora da elevaçao
católico não serei não mas hei-de ter meu latim
******
Velório Jairo Lima
Era um filme engraçado de gordo e magro, não sei era quarta-feira santa e havia certa altivez nos campanários e nos bichos insetos carnívoros roiam-lhe o rosto desgosto nas chagas em ruína urina sob a manhã hipotética apoplética sopra vida em deus de barro canário solto nos trinos divino gozo, divino eras cinzas quaresmais e no retângulo da sala inscrevia-se o morto chorado desgosto picadeiro aflito exibindo gemidos de viúvas era tarde e a cena admirava aos que comiam bolacha com café e amargura e cadê a televisão pra perguntar à viúva como ela via a apatia e se saía no jornal das oito a notícia deste dia a agonia da hora e agora os minutos perdiam sentido e minavam gemidos pelo reboco da sala onde só o coração de jesus posava com olhar indiferente à gente da casa mas a hora mais aflita ainda estava por vir
senhor são serafim atendei aos miseráveis agora e afastai aquela hora da nossa morte amém
a carne cortada em postas ao som de um sino grave era benzida rezada e comida pelo padre
afasta de mim este cálice de sangue coagulado ultrajado senhora das ladainhas virgem santa, virgem minha ave maria santinha que subiu aos céus agarradinha ao meu esposo
lamento que estes gritos se percam pra dentro dos muros e deles não fique registro suplício maior suplício é morrer e perder nem que seja a visão destas paredes da sala e essa luz que alumia
que morto não tem valia maior suplício é perder
******
Povos Jairo Lima
Os povos vermelhos inventam deuses irados cheios de raios trovões de fúria incandescida (estes são os povos dos apriscos)
os povos azuis inventam deuses compassivos que com eles se perdem nos caminhos (estes são povos tresmalhados)
os povos verdes não inventam deuses que inventem medos e culpas (estes são mais divertidos)
******
A propósito de um comentário do Chico Moreira Guedes sobre a diferença entre uma sinfonia de Beethoven e um fandango de Boi de Reis.
Parabéns, grande Chico, pela coragem moral e lucidez. Você nunca me surpreende, mas sempre me encanta. Mas, receio que a sua heresia vai lhe custar caro. Então o amigo não sabe que a Tocata e Fuga em Ré (não vou dizer o autor de propósito, os abestalhados que dêem um google) tem o mesmo valor de Atirei o pau no Gato? Não só o mesmo valor, mas também a mesma natureza, propósito e efeito. Ninguem ainda te disse que não existe arte musical fora do balacobaco e do sacolejo? Será, meu bom deus, que a galerinha relativista nunca vai perceber que o que eles imaginam ser uma louvável atitude de respeito ao popular é apenas uma abjeta negação da Arte? Numa recente discussão sobre as maiores cantoras brasileiras, ninguem lembrou de Bidu Sayão. Não é engraçado? A escola de samba lembra e homenageia. Os intelectuais não. Porque esse papo furado do vale tudo nunca valeu, realmente, pro povo, que faz suas opções de acordo com o que lhe ofertam, e emite, sim, juízo de valor sobre o que a eles se apresenta. E não é burro de confundir alhos com bugalhos. Quem quiser saber pra que lado sopra o preconceito, preste atenção no que se ouve nos sons dos carros dos agro-boys. Bethoven ou Calcinha Preta? Diga aí, brother.
Jairo Lima
******
Balé Jairo Lima
O balé é o compromisso possível entre a metafísica de Kant e um quilo de alcatra.
******
A polidez é a intolerância enluvada.
******
Caderno de cultura quase sempre é o latifúndio da monocultura. E eu sou o MST deles.
******
Foucault no shopping Jairo Lima
Ora, um grupo alegre de Intelectuais-de-Shopping reunia-se próximo à praça da alimentação quando um deles, subitamente acometido de uma terrível dor, vai ao chão e roga, aos gritos, que os companheiros chamem uma ambulância para conduzí-lo a um hospital. Mas logo se levantam vozes discordantes:
- Foucault merece ser ouvido nesse quesito! brada um.
- Você merece respeito como Intelectual-de-Shopping, mas para discutir a reforma da medicina precisa de um pouco mais de conhecimento.
A esta altura o pobre Intelectual-de-Shopping que jazia no chão começa a sangrar pelo nariz e a vomitar sangue. Mas a interessante polêmica prosseque.
- É preciso que vc saiba, companheiro que hospitais e presídios são instituições de mesma natureza, destinados, exclusivamente, a retirar de circulação os não-sujeitos que são vistos como nocivos à sociedade.
- Você é um não-sujeito, camarada! Qualé? Te liga, porraloka.
- Além disso, persisto em ver nos doentes seres humanos e cidadãos - irmãos e semelhantes.
E o nosso Intelectual-de-Shopping agoniza entre as doutas citações, e num último e inútil brado de socorro morre e é levado para o caótico mundo exterior pela turma da limpeza. Cessa a polêmica e a paz volta a reinar no shopping.
******
Sabe porque que quando um Intelectual-de-Shopping morre seu cérebro fica do tamanho de uma azeitona ? Porque incha!
******
Duchamp e as moscas Jairo Lima
Ao fim de penosa labuta a Moça da Limpeza preparava-se para verter o conteúdo do enorme saco preto do lixo no depósito principal do shopping, quando ouviu um pavoroso clamor que se aproximava. - Pare em nome de Duchamp! A Moça, muito assustada voltou-se tão abruptamente que despejou todo o conteúdo do saco no chão imaculado e brilhante. - Deixe como está, deixe como está, berrava o Intelectual-de-Shopping . Você acabou de criar uma instalação. Isso que jaz aos seus pés é pura arte, não se mexa, não se coce, não se atreva. - ??? - Usar lixo na arte tem um significado estético e ético. Você criou uma grande obra num momento específico. A Moça foi na onda do ready made, deixou o lixo onde estava, a carniça tomou conta, moscas sorriam e voavam e aí o administrador, vendo aquela milacria, mandou botar o lixo no lixo e a Moça no olho da rua.
Moral da história: shopping não é bienal e quem disso não cuida acaba mal.
******
O Lobo e a Ovelha Jairo Lima
Ora, bem ao pé da escada rolante havia uma fonte cujo repuxo, muito alto e esquio, criava marolinhas na água azul do pequeno lago de paredes de mármore do shopping. Lá, um impetuoso lobo bebia da água azul e clorada, fazendo com os beiços e a língua aquele som nauseante que só os lobos e Jack Nicholson sabem produzir porque não tiveram mães que lhes ensinasse a se comportar à mesa. Nisso, acercou-se uma mansa ovelha que, guardando distância prudente do temível predador, pôs-se também a beber. Deu-se o estresse clássico, com o lobo xingando a ovelha de poluidora dos ares, das terras, das fontes, dos mares. Ora, respondeu timidamente a ovelha, estou apenas utilizando um recurso natural que está a disposição de todos os viventes. Observe, disse o lobo com implacável retórica, que esta é uma fonte artificial de shopping, não podendo pois ser confundida com um recurso natural. Tá bom, falou a ovelha, conciliatória, e dirigindo-se à uma mesa, chamou o garçom e pediu uma água mineral com gás. A história terminaria aí se o temível predador não se dirigisse à tímida ovina*, exclamando: Desculpe, querida, mas por uma questão de identidade cultural, postura ideológica e consistência intelectual, vou ter que devorá-la. Dá licença? E já ia escancarando a bocarra quando a lanuda pediu-lhe, com um gesto de mão, que esperasse um pouco e, abrindo o seu notebook wireless escreveu um artigo para o caderno de cultura do seu jornal. Clicou no send, sorriu para o lobo, baixou a cabeça e foi devorada sem pressa, como num ritual.
Moral da história: Como diz a moça da limpeza, Jornalista-Cultural-de-Shopping e Intelectual-de-Shopping bebem na mesma fonte. E a gente é que tem que dar conta da bagunça.
* A mulher do ovino. Tá certo?
******
Entreouvido no shopping Jairo Lima
Não, não, Intelectual-de-Shopping não é o que está comprando, como todo mundo; é o que está na prateleira.
******
Piadinha clássica revisitada e atualizada
O Intelectual-de-Shopping está na rua puxando um burro, quando alguém pergunta: - Onde conseguiu este animal? - No shopping - responde o burro.
******
O elefantinho e a formigona Jairo Lima
Ora, um dia no shopping uma formiga falou dessa maneira para o Elefante. - Chefia, dá para se retirar do recinto? O lugar que você ocupa serviria para uma colônia de esforçadas formiguinhas. - Em que tanto vocês se esforçam? - Ora, a gente procura alimento, leva para o formigueiro que fica num cantinho do muro do shopping, come, dá comida à Rainha, retira os elefantes da área e phode a rainha que gera mais formiguinhas. Já você vive de lembranças, pensamentos e mitos, ocupando o espaço dos mais produtivos. Chega de tirar onda de animal superior, genial, capacitado a perceber a psique e os surtos comportamentais. - Tem razão, falou o Elefante. E se retirou tão cabisbaixo e pensativo que, sem sentir, esmagou cento e vinte e nove formiguinhas, inclusive a que tinha acabado de falar com ele.
Moral da história: Formigas podem ser predadoras de elefantes. Mas, há sempre o inseticida.
******
Darwin segundo um Intelectual-de-Shopping Jairo Lima
A banda de rock é a evolução da orquestra sinfônica. Diga aí, brother.
******
Ainda bem que não tinha shopping em Milão Jairo Lima
Estou tão puto com umas coisas que tenho lido de alguns Intelectuais-de-Shopping esta semana que decidi desta vez não falar por metáforas mas ir direto ao assunto. Olha aqui, galerinha: Em 1887 Verdi compôs uma ópera arretada, Otello, com um libreto escrito por Arrigo Boito que não deixa nada a dever ao próprio Shakespeare. Depois, foram seis anos na moita. Até que a dupla reaparece em 1893 com Falstaff, que só pode se comparar a Gaudi, porque neguinho não tinha feito nada parecido com aquilo antes, e até hoje continua insuperável. Agora imagine que tivesse lá por volta de 1890 um Intelectual-de-Shopping da marca de vocês em Milão pra dizer que Verdi era um compositor superado por não ter composto nada de interessante nos últimos três anos. Sabe, tipo, "ele só ficou bem na foto até 1887". E aí, ou Verdi teria mandado o idiota pra puta que o pariu ou teria ficado puto da vida, sentindo-se injustiçado, e a gente talvez tivesse perdido o Falstaff. Arte não é moda, brother, não é submissão a recortes ideológicos dominantes, não é modelito que arrasa na rave de hoje e se incompatibiliza com a novela de amanhã. Te orienta, coisa.
******
As grandes causas públicas. Jairo Lima
Foram abertas as inscrições para o concurso do Ministerio dos Projetos Phantasmagóricos, cujo titular é o eminente cientista Pitombeira Unger, que contratará 5000 Intelectuais-de-Shopping.
Exige-se: Mais de dois anos de experiência em encontros de escritores e blogs.
Oferece-se:
Salário inicial de 50 mil reais. Plano de Saúde na Suiça. Cidadania italiana. Castelo no Piauí. Mansão no Lago dos Cisnes. Licença-prêmio remunerada de 20 anos. Licenças paternidade, permissividade, maternidade, fraternidade, ociosidade, obesidade e vagarosidade.
Inscrições no www.tremdaalegria.gov.br Serão abertas 282 diretorias e uma porrada ainda não determinada de cargos comissionados.
******
Chapeuzinho Vermelho Jairo Lima
Numa bela tarde ensolarada de Natal (1) uma bela mocinha de sociedade, usando um belo chapeuzinho vermelho, adentrou (2) no shopping para comprar preservativos e um livro de Paulo Coelho. Após sair da farmácia, dirigia-se à livraria quando avistou uma velha Intelectual-de-Shopping sentada no chão frio do mall arrodeada de livros. - Vovó, admirou-se a mocinha, vc deve ser uma intelectual. - Não se precipite, queridinha, todo ser humano usa o intelecto portanto tenho dúvidas se existem mesmo intelectuais, ensinou. A mocinha, ainda mais admirada com tão profunda inteligência, perguntou: - E como se chama então uma pessoa que vive cercada de livros? - Isto é relativo. Livros são apenas papeis pintados. Não estou bem certa de que existam livros. - E shopping, existe? - Shopping é um comércio e comércio tem também no Alecrim (3) e lá não se chama shopping. Tudo é relativo. Aí a mocinha queimou feio (4). - Ora, porra, e se eu puxasse uma peixeira e lhe cravasse no peito, isto também seria relativo? - Claro, meu amor, se um jornalista perguntasse ao Tarso Genro, após o meu assassinato, se estava aumentando a violência no shopping ele diria que não, que está tudo dominado, sendo o meu passamento um pequeno e normal efeito residual das tensões sociais. E acrescentaria: vamos abrir um inquérito para apurar se o suposto homicídio ocorreu mesmo no suposto shopping e foi praticado por uma suposta mocinha com um suposto chapéu vermelho que ia comprar um suposto livro do suposto escritor Paulo Coelho. Tudo, tudo é relativo. Deixa que aí a mocinha se emputeceu e puxando uma peixeira afiada (5) cravou-a até o cabo no coração da velha Intelectual-de-Shopping que estrebuchou, enrijeceu, suspirou e morreu. Imediatamente chegou o pessoal da limpeza que recolheu o corpo, lavou o sangue, aspergiu bom-ar e deixou tudo limpo como antes. Aí a Justiça concedeu a nossa heroina o status de refugiada política, considerando o móvel ideológico do crime. E ela fundou uma ONG que só no ano passado recebeu 3 bilhões de reais do governo.
Moral da história: Uma coisa é certa: crime é relativo mesmo.
Notas: 1) A cidade, não a festa. 2) Expressão obrigatória na crônica esportiva e policial, como é o caso deste trágico relato. 3) Bairro de Natal. 4) Antigo provérbio potiguar. 5) Não é verossímil que uma mocinha de sociedade saísse de casa armada com uma peixeira, mas deixa pra lá.
******
O velho sábio chinês Jairo Lima
Certo dia, quase à hora de abrirem-se as portas do shopping, apresentou-se ao segurança um velho sábio chinês que lhe falou deste modo: - Diz-me, jovem ocidental, porque te pões a guardar uma porta fechada?(1) Se ela não franqueia o acesso a quem quer sair ou entrar, porque te interpões entre ela e os que, como eu, se avizinham do shopping? - Esta é uma questão, grande Mestre, sobre a qual não me é dado comentar, pois tenho por obrigação indeclinável obedecer aos meus superiores. A estas palavras o velho sábio se inclinou profundamente diante do segurança, juntou as mãos sob a barbicha que lhe adornava o queixo e rezou antigas orações. Neste momento se ouviu enorme estrondo de mãos batendo na porta metálica entre gritos desesperados de socorro. -Abram, sou um intelectual(2), passei a noite trancado no shopping e estou morrendo de fome. O segurança mais que depressa levanta a ruidosa porta e um Intelectual-de-Shopping , exânime e ensangüentado, lança-se nos seus braços e desfalece. Diante disto, o sábio chinês nem se toca, cofia a barba e sorrateiramente se esgueira para dentro do shopping vazio, sem que o segurança perceba. E lá dentro vive vinte profícuos anos de meditação e recolhimento (3).
Moral da história: Para o sábio mais vale um Intelectual-de-Shopping com fome do que dois na praça da alimentação.
Notas:
(1) Vejam só a onda do malandro.
(2) Notem que ele não acrescenta “de shopping” , prática, de resto, comum e compreensível entre os Intelectuais-de-Shopping, sempre em busca de respeito e admiração, embora para o Segurança, note-se também, isto não faz a menor diferença: intelectual é tudo a mesma merda.
(3) Como ninguém percebeu? O pessoal achava que ele era motoboy do China-in-box.
Corpus da pesquisa:
Cardápio do China-in-Box Tourist Guide Descubra os encantos da China Porta Aberta de Vicente Celestino, gravação RCA Victor 78 rpm Press release da Globo sobre a nova novela (sic) Caminhos da China. Best-seller Construa o seu mundo em qualquer parte do mundo de Edmund O'Brien.
******
Parábola do Filho Pródigo Revisitada. Jairo Lima
Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: -Pai, dá-me a parte da herança que me cabe. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para um shopping e ali dissipou sua herança em lanchonetes, butiques, jogos, cinemas, lan-houses, self-services, livrarias e outras devassidões. Um dia, saudoso, foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando o seu pai o viu, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: - Pai, torrei a grana e estou na pior. Já não sou digno de tua consideração. Mas o pai disse: - Que nada, você arrasou na Ana Maria Braga, filho, e estou muito muito satisfeito com a bufunfa que investi em você. Disse então aos servos: - Ide depressa ao shopping e trazei o melhor hamburger, roupas das melhores etiquetas, bebidas, mulheres e sapatos de marca. Pois este meu filho vivia anônimo e se tornou celebridade; estava perdido e pela mídia foi encontrado! E começaram a festa. Seu filho mais velho estava na biblioteca. Quando voltava ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: - É teu irmão que voltou e teu pai organizou a maior farra. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai: - Há tantos anos eu te sirvo, sou estudioso, sério, culto e nunca me deste um Logan para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que se tornou um Intelectual-de-Shopping, devorou teus bens frequentando encontros de escritores, vernissagens de dondocas, blogs de futilidades culturais e se tornando curador de bienais, e para ele fazes esta festa! Mas o pai lhe disse: - Filho, tu és esforçado e sério, tens quinze livros escritos, doutorado, currículos de duzentas páginas, os cambau, mas não és famoso nem apadrinhado. Mas teu irmão, que mal sabe ler, vai ser entrevistado no Jô Soares e aparecer no BBB. Então, fica na tua, Mané. E vê se não me torra o saco!
Moral da história: Em terra de shopping quem tem Lacoste é rei.
******
Rebelião no shopping Jairo Lima
Encontraram-se no mall de um grande shopping center uma cigarra, uma formiga e um Intelectual-de-Shopping . Por ali se apresentava também, numa banca colorida, um domador com o seu circo de pulgas. Ora, ao ver o minúsculo trio os olhos do domador brilharam de cobiça. E ele resolveu incorporar a cigarra a formiga e o Intelectual-de-Shopping ao seu liliputiano show. Logo ume pequena multidão se formou, todos portando lupas alugadas pelo esperto comerciante, para ver o inusitado espetáculo. As pulgas, como de praxe, saltaram. A cigarra, como de praxe, cantou. A formiga, como de praxe, fez acrobacias num barbante que figurava um galho de árvore. A platéia delirava. Até que o Intelectual-de-Shopping, como de praxe, declamou. Então a multidão, enfurecida e entediada, rompeu em altos brados: dá-nos, Domador, as pulgas, as cigarras e as formigas. Mas afasta este outro ser minúsculo e desprezível do nosso show.
Moral da história: Shopping não é lugar para intelectual.
******
Pequena fábula exemplar à maneira do Zaratustra de Friedrich Nietzsche Jairo Lima
Um dia um elefante afastou-se do seu circo, e do picadeiro do seu circo, e foi-se para o shopping center. Lá desfrutou de restos de lanche e pipocas sem se cansar durante largos anos. Variaram, porém, seus sentimentos e um dia contemplando os corredores apinhados de gente veio-lhe a saudade da pátria e de suas savanas e desejou de novo a ampla e silenciosa solidão dos descampados. Foi então que dele se aproximou um Intelectual-de-Shopping e falou-lhe mais ou menos desta maneira. Grande animal, que podes ver ser inveja até um mall demasiado grande, que seria dos teus dias se não tivéssemos te acolhido generosamente em nosso bioma? Todos os dias acercavamo-nos de ti, tomavamos-te o superfluo e te enchiamos de guloseimas. E assim, besta e homens, nos divertíamos. Abençoa-me, pois, olho afável e revela ao meu espírito incansável na busca da mais profunda verdade a fábula em cujo contexto te inseres. Ao que o doce paquiderme retrucou: Ora, não conheces, por acaso, a fábula do elefante e da formiga? É a ela que pertenço. Não, respondeu o Intelectual-de-Shopping, e como estudioso insígne da cultura não posso me contentar com tua declaração, pois ao espírito perquiridor só a demonstração convence e sacia. Seja, pois, exclamou o elefante. E, levantando a majestosa pata, esmagou o nosso herói que se transformou numa poça de sangue e de vísceras que logo foi recolhida e lavada pelo pessoal da limpeza. E a grande paz retornou ao shopping.
Moral da história: Lê com afinco e vontade para que nenhuma fábula te escape.
******
O farmacêutico. Jairo Lima
Quis o destino, que tudo comanda e dispõe, que um Farmacêutico e um Intelectual-de-Shopping se encontrassem no mall de um grande shopping center. Logo que avistou o Farmacêutico, o Intelectual-de-Shopping dele se aproximou exclamando: - Agradeço aos deuses que te puseram no meu caminho, ó homem sensato. Aqui está o meu último poema experimental para que o leias. O Farmacêutico desdobrou respeitosamente o papel que lhe apresentavam e leu o poema sem proferir palavra. Em seguida, enrolou a xerox como se fora um manuscrito do mar morto e o devolveu ao Intelectual-de-Shopping dizendo: - Agora que li o teu poema experimental, ó iluminado, prova do meu remédio experimental. E entregou-lhe um pequeno frasco com uma poção esverdeada. O Intelectual-de-Shopping bebeu a droga, caiu morto e foi retirado do mall pelos funcionários da limpeza.
Moral da história: Quem com experimentalismo fere, com experimentalismo será ferido.
******
A raposa e o shopping Jairo Lima
Passeando (deambulando) pelo shopping, um intelectual-de-shopping viu uma uva verde sobre uma frondosa raposa, num dos cantos mais afastados, longe das praças de evento e de alimentação. - O que faz esta uva fora da praça de alimentação?, perguntou o intectual -de-shopping, com ar severo, para a raposa. - Ora, respondeu a Astuciosa, não seria mais estranho encontrar uma raposa num shopping? - Tudo normal, tudo dominado, falou o intelectual de shopping, e retirou-se preocupado, triste, deprimido, exclamando: - Uvas fora da praça de alimentação! Onde é que este shopping vai parar?
Moral da história: multiculturalismo serve para raposas, mas não para uvas.
******
Parábola edificante. Jairo Lima
Dois músicos se encontraram na praça de eventos de um shopping. O primeiro tocava violino e o segundo pandeiro. -Que é que você veio fazer aqui? - Vim tocar as partitas de Bach pra violino no shopping para provar que não sou elitista. E você? - Vim tocar meu pandeiro no shopping para levar minha arte à elite. Nisso entrou um intelectual de shopping - entrou na conversa, claro, pois ele já estava no shopping - e falou, embevecido: - Fundam-se, fundam-se! Aí o segurança, que era um homem do povo, pegou os três e os expulsou do shoppping.
******
11000000101000001000100010001000100010001111111110001000100000001010101010101010110000001111000010100000111111111000100011110000
|