domingo
A primeira riscou com seu fogo um gesto vermelho amarelo vivo que pôs em movimento as mansas roldanas dos círculos;
houve uma e mais uma manhã
e os dias incendiados tramaram suas geadas e afiaram seus granizos
houve uma e mais uma manhã
e de gelo se fez e de pedra a infância de montes de vales de rios e de mares e os ventos dançaram seus colares de vidro entre pilares brancos de mármore líquido
entre pilares brancos de mármore líquido houve uma e mais uma manhã
o gesto da Primeira foi côncavo infinito - mãos em concha sobre o enxame ígneo
na manhã das fornalhas a Primeira dançou para veludos negros cegos e sua pavana de trovões não encontrou ouvidos
II antes que os espelhos em teu fogo cravassem brilhos antes que as retinas imprimissem o rubi fervente do teu grito antes do primeiro ontem aguardavas a palavra manhã para marcar a pausa entre o adágio da noite enluvada em surdinas e o naipe feroz das cornetas do sol
naquele antes só te contemplavam as neblinas que não te diziam e em esparsos vapores teu ser imergia e em esparsos vapores então
o dia
a noite
eram palavras que só depois se ouviriam quando
então
o teu ser construísse com sopros a sua alvenaria.
III
então dançaste para a noite que te envolvia em crescente círculo expandido explodido penetrando com suas paredes descarnadas o não e a dança das tuas esferas vazava a nascente dos mitos que aguardavam então o verbo ainda não dito para que, dizendo-te, acendesse fogos em teu sacrário e pandeiros, anunciantes do vôo das tuas mãos, fossem ouvidos
IV
estrela muda de olhos de vidro danças com o leque de tuas mãos vivos pavões escandidos
estrela dura que desenhas com teus panos em brasas drapeados a geografia do improviso moldando nas colunas do teu fogo o gesto encurvado dos ventos antigos
estrela límpida sol límpido sol nascido nas fronteiras de tua mão o inverno escreve os seus indícios
V
e chegaste com tua lanterna de sóis enjaulados ao pórtico dos dias e tua retina respirou o silêncio e perfurou as trevas e tateavas a vazia epiderme do não que te envolvia em seus armários
ainda não aprenderas a modular o clamor dos teus trovões com o silêncio que te envolvia em ritmo metro de pausas sim e não dançavas e não ouvias a lâmina dilacerante dos teus vulcões
VI
eu não te vi quando sobre a massa negra fria ejaculavas teus néons e salpicavas de dia aquela noite que, inteira, corria diante de ti
eu não te ouvi quando os teus sinos anunciavam o teu prodígio de raios nascidos retos claros em dentro de ti
sobre os lábios extremos de uma madrugada que se refaz no pátio sem ventos pousa a tua ausência viva e se espirala o teu solene incenso
em ti, no teu espanto, vejo-te clara a sensação do imenso com os olhos que inventei para mirarem as órbitas descarnadas que precederam o meu primeiro alento com olhos que inventei vejo-te claro lume vejo com as frias águas dos olhos congeladas as franjas do teu fogo e ouço a pedra quente consumindo as águas que, evaporadas, conspiram suas nuvens baldias em silêncio para o teu fogo invento uma abelha de aço e uma noite de ventos
e bailas
VII
(a taça)
(A Pietro Wagner)
em ti a nervura mais íntima da flor já existia em claro pensamento e o percurso em pedra da montanha e na face da pedra os veios que cavariam os ventos pedra e vento, esplendores vivos teus, e o mar com todos os seus mapas submersos tudo existia em luz na tua vontade de dar músculos e espelhos e águas aos olhos que contemplariam o momento em que o teu quero inventasse as tuas mãos e as tuas mãos moldassem mãos que inventariam turíbulos incensos como uma idéia de neve pousada sobre uma idéia de vulcão assim o teu sim inaugurava todas as ausências e soprava ao nada o teu alento.
segunda
I
ante o rosto desfeito em medo gelado a espada em fio de névoa mão glaciada o grito crispado e o sangue em remanso o vermelho se espraia na várzea entre os ossos e os brancos olhos das águias
ante a morte paira incrustado o desvio do olhar infame qual a origem e o destino a espada indaga ao seu inflamado gume
esta é a segunda cadência de um pasto amanhecido de rastros entre ervas cadentes ao longo do pátio a carne dos deuses fumega faz-se lume e se multiplica em chamas votivas no estanho cego do espaço ante vós, clementes lumes, o bico doce encurvado duro dos falcões agoniza entre clareiras cinéreas
vidente morte em astro?
agora que tens as palavras tens o saber final da morte e um gelo espetado na lâmina dos olhos
II
dois deuses vermelho&branco sobre a relva verde de hastes invioladas pelas dobras dos seus mantos dois deuses vermelho&branco sobre a relva verde contemplavam o relógio sem sombras enquanto a noite já sangrava os vidros azuis da tarde dois deuses até então imortais pousados sobre a relva inviolada deixavam-se envolver no lençol daquela hora em que o sol em que a lua em rubis hasteava a sua nódoa estridente de prata
à sua frente o rio, afluente das flautas, executava em pianíssimo um vôo transparente de garça todas as coisas e suas cores e suas vozes tinham nomes e ainda havia o nome harpa para dizer o timbre daquela hora lenta vestida em brilhos como uma taça de vinho em pétalas crispadas naquela tarde em que deuses dormiam o vento enfiava os ombros no manto das águas
quando nada restou daquela hora vermelha escura intensa calada ouviu-se a respiração dos sinos e ainda eram horas da tarde as crinas da noite, já quase acordada, tremiam como quem amanhece
entre a haste da relva e a primeira estrela já não havia nada.
III
vejo-te em cítaras repartir entre as horas as cinzas desta tarde e vejo-te emblema encarnado nas vísceras dos montes indecisos entre a pousada pedra e o alado pássaro
vejo-te sempre assim como ficas quando chuvas sobre a nudez das árvores em frio vejo-te um sol fendido em postas pendentes do espaço onde a névoa quente respira lenta o suor dos seus mormaços entre névoas de vinho vejo-te a branca quilha do teu barco e no mirante da proa a ilha diante dos olhos vazados de tuas velas vejo-te luna entre arcos
tudo te diz teus nomes bailam à volta do teu hálito danças a uma ordem de tuas mãos o tempo abandona o pano que envolve os astros e vai desfazer-se em neblinas ao encontro do teu vasto
vejo-te em cítaras
IV
almas névoas sobre o corte súbito da pedra o silêncio levaste-o na concha das mãos para interditar os pássaros foste lumbre e entre o teu sol e a névoa esquiva que escorria dos teus olhos o aço o aço cantava manhãs antigas
(entre ato) em finas camadas de argila o dia dispunha as suas horas cuidando que em cada coluna o vento cavasse rugas e as nuvens depositassem suas águas sobre o clarim dos incêndios vastos o teu número te media exato a voz e do teu vôo testemunhava o arco
a morte ao te encontrar te mirou em silêncio com ternura e te estreitou num abraço então já dormias um sono em pétalas acamado e o oboé do dia disse-te em favos doces largos a trajetória de tua luz no espaço no dia em que tua pátria acordava entre lagos e não ouvia a voz do sol em meio à procissão dos astros
V
olho intato em rastros se desenha no pó branco terra / enlaço as flores cinzas de março olhar lasso em traços a verde lânguida vela /o máximo verde em mim afinal do cansaço as gotas se desprendem em negro podre faço dos orvalhos pútridos ante um sol desfeito em febres nasço antes que a luz das varandas cegas avancem além dos mantos flácidos que ondeiam e violam os dentes do aço/// ter em mim, em meus mapas, uma dor violeta como o dia cansado de ser pátria, de ser aço, de ser aquela fonte altiva que se eleva nos andaimes que levam até o astro adormecido que amanhece em contas de vidro em ontem em tempo e nos olhos dos seus vidros o astro que amanhece infectado de fumo e que ergue o seu não como uma espada inimiga e cai nos vãos inertes da noite esquiva e vão assim como vai alegre o que não
VI
Leve como uma música sem músculos verde ainda em gestos de clarineta delgados enigmas curvados sob a sombra ímpia dos cárceres inumeráveis eras ainda o ocaso úmido em que os lábios da noite roçavam o espelho encarnado e fumegante que escandia em sílabas de luz o sol daquele dia
tua túnica levaste-a a confrontar os astros o mel o ouro possuíste entre ventos drapejados que se deitavam sobre o mormaço verde da tarde e (inquietos) esmeraldas quentes te diziam noite assim em noite pálidos arcos vegetais simétricas traves eqüidistantes traços eras em um vago verde limpo em tuas fronteiras o sal acorda entre sacrários
verde mínimo agora estrela estigma
um oboé desenha uma montanha e o seu vale vem. és cedo. embora a luna te creia tarde.
VII
(a Neide)
imersa nas minas do teu sangue a tua cabeça se inclina e marca o horizonte
em tuas lentas as horas tecem fios que se expandem em ondas concêntricas entre o verde e o caos e de tua mão se espraia um raio de luz vazia
vozes dos deuses desta mesma tarde à espreita de uma clareira entre ramagens de silêncio para celebrar em cores a logofania dos seres vivos em cedros resinas e estampidos claros
mar possante de zeus em tuas águas bailam espadas vejo em teu fogo esmeralda os incensos encastelados subirem a falda dos ares (a)(z)(u)(l)(a)(d)(o)(s) vejo-te ontem aceso sobre a brasa das horas e no engaste da noite de hoje vejo a sombra do teu dia já cantado em que repousas e respiras sobre turíbulos dormidos vagos emigrados
vejo-te lâmpada oscilar entre os ventos estelares vejo-te e assim te sei como sabe do pão a manhã que pressente os rastros do sol e já se diz manhã e se inaugura em sua palavra que se diz manhã e que, antes de ver o sol, já se sabe na luz das vogais que ela mesma pronuncia
terça
I
e o seu sangue é um vapor ardente de madeiras contra as vidraças cegas perfuradas de brancas fogueiras quando a noite se desdobra em cortinas negras e dentro de mim um ardor de flautas esculpe nos ares parados uma pátria de estrelas
sândalo aceso às margens da minha hora ora pro nobis porta de ventos tardios ora pro nobis ora pro nobis lado de dentro da dor haste absorta em ofício de flor ora pro nobis ora pro morte, ora pro amor e estas vigas extremas que sustentam a madrugada ora pelo grito medonho das águas e pelo seu pálido motor com que a noite, atônita, mata a tua cor e o negro esmaga a prata dos teus lençóis ora por nós sob este céu de cobre ora por nós sobre esta ponte estendida entre a varanda do dia e o minério da dor ora pro nobis até que tua chegada restitua à flauta sua trincheira cavada entre trovões e o teu vejo-me se alteie sobre duras muralhas
ora pro nobis e deixa no território noturno da minha pátria a memória dos teus suores
II
(A Adriana Falcão)
ata meus olhos às rodas do sol e faz com que eles descubram entre nuvens passantes um claro indício de teus hinos
deixa que a luz deles se apodere e te diga vem e te enlace em gritos
ata meus olhos ao esplendor dos sinos pois os últimos grãos desta tarde já foram banidos e tua sombra interroga os vales do sol
ata meus olhos ao linho branco da luna aos músculos da noite aos vidros frios dos cimos
III
faço-te um hino com presságios de sangue e em tua palavra olhos ponho sinais de verdes planuras e de um linho fino faço a fronteira entre tuas mãos e as coisas que aguardam fora de ti pela modulação solene de tua luz (sol) a pino
vejo-me ag(hora) entre cálices vinhos e de uma gota de suor da montanha que se desprende da madrugada forma-se o teu lago com o teu navio
(diz-me se em tua hora há ventos que se deitem sobre a lâmina da pedra para ofertar-te nos vidros dos olhos o resplendor de cristais amanhecidos)
diz-me de mim se de um me faço esfera do sem-fim se em mim habita a plenitude das carnes e os minérios ensina-me a palavra ausente que amanhã lançará nas águas (re)veladas os seus ferros (no mesmo instante em que és já não estás presente) desvenda a luz que recobre em brilhos as margens do teu corpo oculto na geografia dos rios passantes e de seus afluentes
IV
ou não ou então o azul recurvo sobre mares e chão é cego metal indiferente à esfera girante ou ainda é grão a fonte que nubla o sol e dissimula as sombras quentes desta hora dissolvida em pedras. Nesta tarde ainda a hera que nasce e se enrosca sobre os muros úmidos empapados de lodo é mecanismo de um tempo com engrenagens e dentes. ainda assim vivente é este olhar deitado sobre o leito das avencas de que se diz: nascente de águas caminhantes
e esta coisa de cantar e de dizer e de viver em ti somente em teu quando és assim, quando estiveres ausente, uma tuba brilhante dourada recomporá de memória os teus traços a partir dos vestígios que esqueces no ar assim, em minhas veias injetadas, o teu és esplêndido se consente como ar no ar água na água chama na chama aprisionada diante da presença invisível que os perfumes evocam e a luz mantém ausente.
V
sim em teu nome as nuvens recolheram seus lençóis de águas e a terra contemplou a fria água que deitada corria por sobre o teu nome e já não era de ti que diziam-se harpas orvalhos tendas estelares véus
era, sim, da tarde e de suas sombras que falava o mormaço envolvendo as copas molhadas era no teu nome que os raios encontravam o clamor dos seus trovões ainda assim à espera do teu venho erguiam-se as hastes lunares na calada madrugada e o teu hálito conduzia pelos ares o esplendor dos sinos
eras ainda vinho quando os trompetes espargiram o teu nome sobre trigos
dormes cala-se exânime o teu nome e a luna deita por sobre as folhas um jorro de olhos vazios (o branco cega o vermelho das maçãs) há um candelabro que oferece ao incêndio das horas suas sombras dançantes as facas montam guarda sobre os montes e o sangue gira em órbita de gritos
VI
estendo nuvens sobre o pálido silêncio de tua sombra e do teu manto de sal faço verde rastro com que despeço navios ao desígnio dos astros e das ondas
era mar a hora em que me vinhas em marulhos e espumas e o sol, acordado entre plenos azuis, espreitava a cavalgada das águas sobre as águas
em cálices recolhida a luz calava os seus fulgores e entre cinzas adormecia deixando que o frio talhasse a madrugada e era ainda em luz tardia a lâmpada enramada nos sonhos de topázios ametistas
assim é que vinhas quando já nem o mar, nem as terras, nem as pontes te sabiam declinar o nome quando só a pedra, gotejando suores, só ela, pedra, te sabia, além dos incensos das nuvens deslizantes, além das águas e dos lençóis vulcânicos, além de todo o hálito vivo dos mundos além era o vôo impetuoso das águias que desafiavam o sol em teu nome e em teu nome cravavam no espaço o gume de suas asas
VII
astro que te vejam inteiro ou em fagulhas de veludo em teu vermelho acaso
se a trilha do sol num instante se abre e contemplando o espaço sem carnes volta a sua lança às trevas azuis assim te dizem louvores os deuses das horas duas da tarde
(as tuas lâminas de fogo se abatem sobre a terra. o mistério inscreve versos nos nervos dos ares)
brancas delgadas setas esquecidas dos arcos água que se quer pedra luz que pousa a sua águia sobre um ninho de aço
vê, logo após a sombra do teu nome, um templo que guarda o pão consagrado aos vales calados que te esperam todas as manhãs e recolhem o trigo fulgurante com que engalanam seus mastros
vê, enquanto ainda é cedo, o animal sagrado sangrando nas lâminas da pedra, singrando o seu rio encarnado, vê, após a curva do rio e de sua sombra, o incêndio alastrado pelos campos dos signos que já não sabem dizer-te em nome e, como se fosses astro, te apontam os cumes calados entre vales de fontes e ramagens paradas espaço oculto espaço vê, e abençoa o olhar que se incendeia espelho oculto espaço vê estes brilhos irados espada oculto espaço sente a febre destes brilhos calados sem fim calados
teu é este ser emoldurado em trevas em que se incrustam olhos e horas tua esta luz teu este suplício tua a vítima das sentenças do sangue o teu dia a luna marcou com uma sombra de gelo e prata e fez para as marcas dos teus pés um calendário.
há um lugar onde a dor afia as suas setas para a aurora dos gritos sofre a palavra que te devasta de luz os panos vivos e te envolve as carnes. Ainda ontem eras ícone, hoje, nicho de águias improváveis.
quarta
I
acordam-se as águias diante do sol
em silêncio arrebentam-se as cordas das harpas para que o mar não ouça o doce claricanto do amanheser
o Visto e o que Vê interrogam suas madrugadas e oferecem suas carnes transubstanciadas ao manto transparente das águas que os abraça e guarda num longe
crer nas vozes que ditam um poema novo gerado nos pântanos úmidos onde o sangue remansa entre relâmpagos crer nas vozes ásperas deste poema em suas palavras opacas como coisa implume e pesada que escorre sobre a chapa fria de infinitas águas e respira leve e canta docemente como uma pedra com vísceras e sangue e ânsias de mundos
crer que a mesma dor aflige os astros e os átomos crer até doer em tudo o que seja esculpido em pedras ou em carnes crer sobretudo no olhar que, vendo, se vê
janela sobre o incêndio das horas diz-me clarins vales e mangues informes
diz-me dos ácidos que corroem abóbadas voantes cala todas as palavras e anuncia um nome
que não seja um arco para infindos campos mas que traga o nome da morte pregado no próprio nome e se vista de alegres ventanias ( o seu passo certo o leva às cercanias do deserto) e a sua voz não quer mais que a platéia provisória dos vivos e o seu mel será ouvido somente nesta hora
implora aos ventos desta tarde que, sem demora, te indiquem um rumo de margens mesmo que, sem rios, os teus nervos cansem desta clara vereda e a morte te recolha com os despojos do dia
vem, este ar morno te respira e vive de tua argila transitória vem assim mesmo te quero: como coisa que é mas vai embora
II
(A Deborah Brennand)
em círculos as tuas águias pairam sobre as névoas que te encobrem o nome e já vejo a corda do vento adagiar cristais nascentes em plenilúnio
és em voz na madrugada íngreme que acorda o pássaro e lhe acende as pupilas fulgentes enquanto o estio se dissolve em brumas molhadas e o mar suscita em suas algas os seus navios
és quando assim em cantigas te adelgaças em sopro espiralado e dizes terra e peixe e montanha e rio és quando ainda te sempre esmagas as doces sementes do minuto fugidio és nas profecias de tua sombra sobre as margens esguias dos rios és hoje em acorde de prata em que a luna deposita o seu rocio
canta comigo o salmo desta manhã que sabes certa em seus confins de ouro busca em teus cabelos os primeiros indícios do incêndio que se avizinha espera que a dicção das cores te recite a pele inteira e só depois serás em dia um dia que morrerá só para ti como se fosse o último dia
último será este dia que te consente os esplendores sem interdições nem nostalgias última será a palavra senhora de tua voz último o verde límpido do grito quando ainda as águas amanheçam os seus frios e os montes ergam em suas aras nuas o nome do teu nome (agora que os olhos e os gestos estão vazios)
III
a palavra que te diz se ocultou no gesto de tua dança e o teu és cantou na luz do teu movimento assim o teu corpo, livre já do teu nome, pôde ser estrela oculta nos longes do firmamento
vem ainda agora um sopro de verdes sobre a tua carne que gira à sua volta um mundo parado bebe a tua lâmpada dourada (os ares transpiram o fogo vivo do teu alento)
não é manhã, nem tarde, nem madrugada não há árvores, pedras, vivos ou rios todas as vozes estão caladas e o mundo renasce em tua dança pedindo que deites palavras sobre os seus campos e rios e que para o mar digas ondas, mastros e sargaço e sopro para o vento que se enreda em tuas tranças
o teu sinal é uma névoa de luz sobre o vidro aceso da tarde
IV
semper
(então) sobre o macio morno da tarde há uma erupção caliente cortante de vidros
nunc
V
a tua sombra nega o sol à fome da terra magra e cinza poente imposto à retina da pedra assim a noite longa negra profetizas olhar gelado de luna sobre a pele dura em que se abriga o estio
só uma nuvem com seu exército de águas te negará o desígnio afastando o sol da tua saga de sangue restituindo a paz úmida aos abismos dando pássaros calados às árvores cantantes em ventos e águas (pois em ventos e águas se negará o teu desígnio)
em ventos e águas se amplia a ácida fonte que dissolve as pedras e as árvores e o sangue antigo do dia nuvens dominantes, cantata triunfante das águas, (como um césar leal ao gume de suas facas) luz molhada em ventos retos e frios
luz molhada, invoco agora o teu sono, o pássaro, ainda acordado, reaviva suas brasas e acende suas asas no lã de um novo dia
vive agora acordada uma flor envenenada na acidez da luz queimante
(este sol agora é teu, pregou-se na tua pele, e espreita da tua mão as vítimas do seu ouro em brasa) imã, irmão, sangue no teu sangue e pedra nos teus ossos agora és fogo e destruição luz tremenda cegante invoco o clamor dos teus vulcões e já penso no teu brilho como um raio adormecido numa urna de aço porque morres como morre um dia morres como um dia morre de cansaço
VI
(introdução)
eis, em tua alma, a resina dos cedros daqueles que se abeiram dos rios e bebem, na esponja da terra, as suas águas vivas
eis o teu legado: o teu sozinho e este medo arrumado com cuidado nos vãos dos teus pulmões e nas caves soterradas dos teus vinhos
eis, no rumorejar do teu sangue, um silêncio que desliza vazio; no espelho deste silêncio uma nave extremada a procura de ventos
eis o teu nome posto entre duas madrugadas hóstia vermelha consagrada aos mortíferos venenos
que em tu alma crescem e se espedaçam entre zunidos
de lentos sóis de prata quentes, vivos e macios introduzindo suas vozes em brasa na névoa do teu estio
VII
a taça magra o vinho insone em pé o pão deitado pleno de si mesmo a faca (o gume) a carne o incenso diário dos temperos
a liturgia dos panos sobre a mesa o relógio expectante que impõe silêncio aos seus aços
o tempo aguarda o ritual da fome (ainda longe) o corcel da hora pasta os seus ponteiros a espera de que nódoas e migalhas sobre a toalha autorize a cavalgada que envelhece rebocos e azulejos
quinta
I
(parúsia)
às três da tarde: ELI ELI por que me abandonaste aos trovões impiedosos e ao alarde de raios que rasgam véus?
por que a pantomima de um humilde no poder se faz sem humildade?
por este sol que gira juro jamais erguer lajes tumulares nem suscitar céus aos mortos definitivos
que este pão que eu sou, remanescente trigo, se estabeleça em verdade de carne e não seja consumido até o fim da tarde
para que as trevas possam engolir os teus prodígios e demolir o picadeiro que armaste nessa nave de gemidos
eu, trigo, me quero consumido na saliva desta tarde
II
(munique)
na munique que não vi há uma cervejaria com cerveja fermentada em barris sem alegria
(essa cidade é murada)
há copos que se entrechocam com raiva na munique que não vi há grades grandes pesadas guardando a cervejaria
(essa cidade é murada)
há cantos, litanias, confissões, cenas macabras até o nascer do dia
à lâmpada da vela luz velária esfria o mármore da mesa e anuncia: dias e dias e dias de cólera infernal e, nos portais severos da cervejaria, há olhos indiferentes que esperam por uma mesa vazia
(essa cidade é murada)
na munique que não vi aviadores de caça pousam para sempre fecham os olhos, fecham as asas e choram de espaço em espaço
(essa cidade é murada)
há um cais que recolhe marinheiros desnorteados e há um lugar reservado às suas gaivotas
na munique que não vi de vez em quando um telefone anuncia
naufrágios, terremotos, ventanias, e todos puxam um pouco mais os capuzes e trincam os dentes e sofrem caladas dores, extremadas agonias
(na munique que não vi nunca se sabe se é noite ou se é dia)
Os relógios estão parados. Os portais estão fechados.
(na munique que não vi)
e se respira um vento glacial esquecidos de palmeiras, rouxinóis e campanários
(na munique que não vi)
de qualquer forma, ali se senteM abrigadoS noites e noites e dias
(na munique que não vi)
III
e (então) um gesto lento, enlunado, tomou pétalas ao vento e sorriu uma chuva de alecrins lavados sobre o país do teu nome
e (então) sobre o país do teu nome um barco se roça nas facas brancas do mar onde indecisas fronteiras franqueiam rotas mutantes
ou (então) já vens nos verdes de uma madrugada macia e lenta e tenra e úmida e luminada e branda acesa nos claustros do sangue como uma luna ofuscante
(deixa que teu nome repouse nesta concha em maresia
íntima das lâminas triunfantes com que o mar
com que o mar mira e ameaça os montes)
e (então) repousa embalada sob estas nuvens carnosas da madrugada que inaugura um dia tão limpo, tão mármore, tão sem deuses, que podes contemplá-lo como ágata
sem amanhã e sem ontem
IV
diante de ti a tua presença me exibe os seus signos: a cor dos teus panos as vozes que interrogam o teu nome a taça de luz o brilho que me recebe na soleira dos teus olhos o instante vazio as avencas em seus noturnos o tecido da dor que se enrosca no seu fio
diante de mim esta noite anuncia os seus desígnios: úmidos traços de terra sobre a paisagem das horas um silêncio morto e frio a conspiração dos panos negros contra o inascido sol um escuro nome de outono imerso na água mais clara do dia os ventos cúmplices dos céus ardentes e lavados a luz nascida na varanda dos teus olhos a lâmina cravada na retina da manhã a tua hora em delírio o teu esplendor macio
tua navalha de gelo cravada no espelho azul é vazio mergulhado no vazio
V
a água da noite fria em seu lago tece vapores brancos sob o rosto da luna enquanto o tempo vive acordado
a noite envolve em neblinas os ossos dos campanários a noite, fria em seu lago. fria em neblinas brancas a noite faz seu relato: os teus passos gravados na terra o negro espaço as aves colhidas pela febre em pleno vôo a lembrança incerta de um sol fumegante sobre os telhados
a noite é a tua memória, fria em seu lago
VI
ao ir embora, escolhe a tua hora no dorso das águas da tarde espera que elas exalem suas cores e que uma pele cinza as iguale aí, já podes ver, é a tua hora de irembora como um fio de sol desprendendo-se da tarde
recolhe a tua sombra que, longa, se deita sobre a terra e se faz vertical sobre o tronco da árvore e parte por entre águas que não te acenam nesta hora em que disputam o negro e o azul cobalto
o ar que já não mais te vê inscreve os teus despojos entre as ruínas e tudo o que morre morre em sua hora
cintilações e ecos levas na bagagem
agora, desliza levemente sobre o espelho desta hora em que partes impondo silêncios e vagares aos teus passos assim irás sem despertar as lunas assassinas que espreitam as sombras e saltam sobre os vãos da noite como tigres prateados
VII
(só)
os mistérios de ontem foram hoje consumidos pela fornalha do sol enquanto dormes sob esta luz sem memórias de gritos e o teu último deus, que ontem foi extinto, libera asas para o teu sono entre brasas de clarins e gemidos de oboés famintos ainda nesta tarde, nem mais será lembrança ou sombra de lembrança em esta tarde imensa
enfim estarás só
só e plena de rumores a tua sombra, esculpida, se alongará até envolver a tarde inteira revogando em trevas o nome destas horas que antecedem as horas das estrelas
sexta
I
árvores, silêncio, montes, ventos mastigam lentos os alvos panos da luz como se, de incriados tempos, a mesma canção, em renovado alento, deitasse um verde imenso sob imenso azul
a canção da sexta te diz apenas um nome que de tão exato, tão manso, tão sereno só hoje o terás pois este nome se colou com tal ardor às sílabas do tempo que este dia não precisa de outro sol
só hoje, no mapa do teu corpo, se desenhou este fulgor intenso e não são doces brisas, mas vândalos incêndios que anunciam o teu és na aurora deste tempo que terá um dia só
(estrela concebida entre uma e outra madrugada a tua memória terá para sempre em suas retinas ofuscadas este clamor tremendo este teu nome de hoje estas migalhas incandescentes consubstanciando para sempre o nome do teu nome com o nome do mesmo sol).
II
(vozes)
(ao pietrolivro vozes da ilha)
é de aqui que te vejo olhos vestes carnes o que me vês é luz? é antes sombra inscrita na paisagem diz então minha canção pois me quero inteira nesta tarde então te digo assim: o teu sangue é seiva, o teu corpo árvore o teu olhar é sol, lua e estrela então me conta a lenda que para mim inventaste és a infância de um rio que mudando de feição muda também a paisagem esta noite o que serei? esta noite serás nova cantiga ninguém sobrevive à tarde que mais inventas para mim? o grito primevo, o vagido a articulação vocálica do riso o hálito entrecortado do suspiro a palavra no leito germinal do sentido unívoca serena imodulada
III
e se agora o sol se interpõe entre ti e a tua hora e se essa hora te propõe eternidades em nome do que é vivo e se evola faz saber ao sol que a sua mesma essência é transitória e mutável
mostra em tuas mãos as pegadas das horas e nos teus olhos o lume que lentamente se evade e é com esta candeia provisória que dás ao teu corpo volúpia e ao teu coração idade
quando a palavra que te diz se cravar em tua hora e uma lenta liturgia de círios acender a tua pele e te consagrar a carne aí já tens o nome do que és
(guarda este nome por esta luz que te olha e não te sabe)
faz de tua poesia um inventário do sol para que ele dê ao teu poema os rios e as tardes
IV
(longe)
dizer-te assim: estas são avencas tuas, imensa, estas são águas descansadas sobre folhas trêmulas estas são infindáveis arcadas de silêncio em teu exílio de mim
ouve: no rumor desta hora há um hiato de silêncio que sou eu sem ti nesta noite em fúria os navios se despedaçam contra os ventos e uma palavra só, na vertigem do tempo, se alarga, se revolta e aguarda o momento de ser do teu clarão a mancha de incenso de ser nos teus músculos, nos teus olhos, nos teus nervos um mármore acesso submisso ao teu querer
assim te quero dona do teu sangue, senhora dos prados, posseira de imensos, estrela luminante cravada a fogo no altivo firmamento tão alta, tão mansa, tão assinalada, impondo ao trigo e ao sol uma fronteira escarpada e oferecendo à vida uma palavra já com olhos e vestidos uma palavra só, tão viva e tão clara, que, mergulhada no meu sangue, me dará arcanjos rebeldes, e mantos, e esplendores para que meu ser, feito de temores, seja um beato sim
V
apaga dos meus olhos este brilho intenso que me cega a tarde
(faz uma noite para o meu silêncio)
depois, procura nos jardins assassinados os jasmins devolutos e acorda os incensos que já não ardem
faz para mim um imenso
VI
sei que vens como se sabe de uma dor que se avizinha ou como de um pássaro sem canto se adivinha a presença pelo rumor do sol
sei que vens porque as águas já estão sombreadas porque a luna insone agita o seu lençol de prata porque o azul da terra, em gritos, se despedaça nos astros porque o silêncio é vivo e traz memórias de ventos em sua mão cerrada
sei que vens porque assim me disse a tarde
VII
entra foi para ti que os violinos da sexta se calaram e sucederam clamores de trompas e cornetas triunfos verdes e dourados
e agora diz à tua sombra que se deite sobre o terraço da luna para que o tempo venha a ter esplendores e urgências e este dia, já cansado do seu nome, possa chamar-se sábado
sábado
I
bailando, a trança do vento nos cravos do tempo se enrosca e desfaz; gira e volta e gira e rodopia um raio de luz viçosa que acende verdes no verde e ofusca catedrais
II
cem bandolins soaram na varanda do dia e um sol, agreste, agrário define sombra e mormaço e se faz nota e compasso de íngremes melodias
III
entre monte e mar ondeiam os braços do vento te dançam as brisas quentes enrodilhadas em teus passos
róseos, se querem róseos, os barcos tontos da aurora e trinta cavalos brancos bebem o sangue das horas ah, não vês como as pedras arrancadas do seu leito gritam e dançam sob o trovão dos seus passos?
(entre cascos e pedras soa a música de estilhaços)
dança tua fúria de hoje sem memórias, sem saudades este baque surdo, este silvar de remos este compasso lento e inexorável este canto trôpego estas ânsias infindas em águas arquejantes esta pele líquida ondulante este marulho de espumas é o mar?
IV
negro jorro da noite escorre sobre os teus ombros e te devora carne e casa e te dissolve os ossos, e te bebe o sangue e se apossa do teu corpo e de tua sombra uma estrela cintilada
em passos lentos, medidos a tua ausência se instala em teus cálices sem vinho e nos teus lagos sem água
e então memória sopra uma canção em sua flauta tua pele agora são brisas teus olhos agora são matas teu corpo se recompõe em vivo acorde de prata
V
canto tua sombra nas águas verdeadas e semeio ecos nos vales do teu silêncio
canto o teu sou, canto o teu agora e, no entanto, as vozes que fazem o meu canto respiram sílabas caladas
versos em ruínas, voz dilacerada, no lago do sonho o teu sono se mata
lentamente a tua ausência desce sobre mim como chuva entre as orquídeas cresce no vazio imenso de um mar sem água ou de inconstelado firmamento a essência imperecível do nada
agora, toma desta carne feito canto e com brancos, sal, seios e cantos faz pra mim uma pessoa amada
VI
quem vai para o futuro sem saudades não deixa marcas na carne do tempo ido
quem vai para o futuro sem saudades vai desfazendo a teia da memória essa espiã do tempo
vai mastigando os próprios nervos sem pressa e sem vontade assim como quem vai nascendo
quem vai para o futuro sem saudades vai sem volúpia de caminhos e chegadas vai sem suores, sem deuses, sem guias
vai quando a dor da tarde exige portas pra sair vai quando o sangue escava as suas minas e a vida instala suas máquinas e roldanas sem perguntas
e se tem que ir
VII
entre a explosão sideral e o nada eterno e frio um inventor de palavras se debateu no vazio
domingo
(lamento)
daqui, de onde não te vejo, e em nome do teu nome que não digo exponho minhas chagas ante o rosto do teu sol e o teu sol se cala e vai pelos montes a maturar o trigo
para isto explodistes as pedras que, em silêncio, incautas do teu fogo, dormiam na neblina dos tempos inascidos? para isto construíste, deste nada imenso, um oceano de lavas onde já, na primeira madrugada, tremia, em embrião, o anátema de um grito?
foi para isto que acordaste o fogo e construístes um sol único, intenso, e da cólera deste sol criaste as águas e de águas rubras, emparedadas, uma mina de sangue, fonte desolada que nutrisse a carne para a dor?
(e ainda) sobre esta esfera de fogo, pedra e lama puseste a carne trêmula a florescer em chagas
tu foste o personagem de um canto um nada que deixei em lugar de outro nada um vazio imenso que envolvi em véus criei-te apenas pra compor este lamento e dar a esta infâmia um réu
invenção de minha dor, inventor deste mundo, tens em mim teu prodígio e tua pena as alegres canções, que ainda ontem cantei, quero-as agora caladas sob as cinzas
filho do meu canto, para sentires a dor de mergulhar no nada como eu, teu inventor, eu te consagro à morte. nasceste num poema quando eu era alvorada morres neste verso, o último que te dou.
Fim do Livro da Sétima, Danças.
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