PAPO FURADO by Jairo Lima
PAPO SOLTOMEU PERFILJAIRO LINKSMANDE BRONCA


Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Fábulas pós-modernas
Versos a granel


Livro da Sétima - danças (poesia)

domingo

A primeira riscou com seu fogo um gesto vermelho amarelo vivo
que pôs em movimento as mansas roldanas dos círculos;

houve uma e mais uma manhã

e os dias incendiados tramaram suas geadas e afiaram seus granizos

houve uma e mais uma manhã

e de gelo se fez e de pedra a infância de montes de vales de rios e de
mares e os ventos dançaram seus colares de vidro entre pilares brancos
de mármore líquido

entre pilares brancos de mármore líquido houve uma e mais uma manhã

o gesto da Primeira foi côncavo infinito - mãos em concha sobre o
enxame ígneo

na manhã das fornalhas a Primeira dançou para veludos negros cegos
e sua pavana de trovões não encontrou ouvidos




II
antes que os espelhos em teu fogo cravassem brilhos
antes que as retinas imprimissem o rubi fervente do teu grito
antes do primeiro ontem
aguardavas a palavra manhã
para marcar a pausa entre o adágio da noite enluvada em surdinas
e o naipe feroz das cornetas do sol

naquele antes só te contemplavam as neblinas que não te diziam e em esparsos vapores teu ser imergia e em esparsos vapores então

o dia

a noite

eram palavras que só depois se ouviriam quando

então

o teu ser construísse com sopros a sua alvenaria.




III

então dançaste para a noite que te envolvia em crescente círculo
expandido explodido
penetrando com suas paredes descarnadas o não
e a dança das tuas esferas vazava a nascente dos mitos
que aguardavam então o verbo ainda não dito
para que, dizendo-te, acendesse fogos em teu sacrário
e pandeiros, anunciantes do vôo das tuas mãos, fossem ouvidos



IV

estrela muda
de olhos de vidro
danças com o leque de tuas mãos
vivos pavões
escandidos

estrela dura
que desenhas com teus panos em brasas drapeados
a geografia do improviso
moldando nas colunas do teu fogo
o gesto encurvado dos ventos
antigos

estrela límpida
sol
límpido sol nascido
nas fronteiras de tua mão
o inverno escreve os seus indícios




V

e chegaste com tua lanterna de sóis enjaulados ao pórtico dos dias
e tua retina respirou o silêncio e perfurou as trevas
e tateavas a vazia epiderme do não que te envolvia em seus armários

ainda não aprenderas a modular o clamor dos teus trovões com o silêncio que te envolvia em ritmo metro de pausas sim e não
dançavas e não ouvias a lâmina dilacerante dos teus vulcões



VI

eu não te vi
quando sobre a massa negra fria ejaculavas teus néons
e salpicavas de dia aquela noite que, inteira, corria
diante de ti

eu não te ouvi
quando os teus sinos anunciavam o teu prodígio de raios nascidos retos claros em dentro de ti

sobre os lábios extremos de uma madrugada que se refaz no pátio sem ventos
pousa a tua ausência viva e se espirala o teu solene incenso

em ti, no teu espanto, vejo-te clara a sensação do imenso
com os olhos que inventei para mirarem as órbitas descarnadas que precederam o meu primeiro alento
com olhos que inventei vejo-te claro lume
vejo com as frias águas dos olhos congeladas as franjas do teu fogo
e ouço a pedra quente consumindo as águas
que, evaporadas, conspiram suas nuvens baldias
em silêncio
para o teu fogo invento uma abelha de aço
e uma noite de ventos

e bailas




VII

(a taça)

(A Pietro Wagner)

em ti a nervura mais íntima da flor já existia em claro pensamento
e o percurso em pedra da montanha e na face da pedra os veios que cavariam os ventos
pedra e vento, esplendores vivos teus, e o mar com todos os seus mapas submersos
tudo existia em luz na tua vontade de dar músculos e espelhos e águas aos olhos que contemplariam o momento em que o teu quero inventasse as tuas mãos
e as tuas mãos moldassem mãos que inventariam turíbulos incensos
como uma idéia de neve pousada sobre uma idéia de vulcão
assim o teu sim inaugurava todas as ausências
e soprava ao nada o teu alento. 


segunda




I

ante o rosto desfeito em medo gelado a espada em fio
de névoa mão glaciada o grito crispado e o sangue
em remanso o vermelho se espraia na várzea entre
os ossos e os brancos olhos das águias

ante a morte paira incrustado o desvio do olhar
infame
qual a origem e o destino a espada indaga ao seu inflamado gume

esta é a segunda cadência de um pasto amanhecido de rastros
entre ervas cadentes
ao longo do pátio a carne dos deuses fumega faz-se lume
e se multiplica em chamas votivas no estanho cego do espaço
ante vós, clementes lumes,
o bico doce encurvado duro dos falcões agoniza entre clareiras cinéreas

vidente morte em astro?

agora que tens as palavras tens o saber final da morte
e um gelo espetado na lâmina dos olhos



II

dois deuses
vermelho&branco
sobre a relva verde
de hastes invioladas pelas dobras dos seus mantos
dois deuses vermelho&branco sobre a relva verde contemplavam o relógio sem sombras
enquanto a noite já sangrava os vidros azuis da tarde
dois deuses
até então imortais
pousados sobre a relva inviolada
deixavam-se envolver no lençol daquela hora em que o sol
em que a lua em rubis hasteava a sua nódoa estridente de prata

à sua frente o rio, afluente das flautas, executava em pianíssimo um vôo transparente de garça
todas as coisas e suas cores e suas vozes tinham nomes e ainda havia o nome harpa
para dizer o timbre daquela hora lenta vestida em brilhos como uma taça
de vinho
em pétalas
crispadas
naquela tarde em que deuses dormiam o vento enfiava os ombros no manto das águas


quando nada restou daquela hora vermelha escura intensa calada
ouviu-se a respiração dos sinos e ainda eram horas da tarde
as crinas da noite, já quase acordada,
tremiam como quem amanhece

entre a haste da relva e a primeira estrela já não havia nada.


III


vejo-te em cítaras repartir entre as horas as cinzas desta tarde
e vejo-te emblema encarnado nas vísceras dos montes indecisos
entre a pousada pedra e o alado pássaro

vejo-te sempre assim como ficas quando chuvas
sobre a nudez das árvores
em frio vejo-te um sol fendido em postas
pendentes do espaço onde a névoa quente respira lenta o suor dos seus mormaços
entre névoas de vinho vejo-te a branca quilha do teu barco
e no mirante da proa a ilha
diante dos olhos vazados de tuas velas
vejo-te luna entre arcos

tudo te diz
teus nomes bailam à volta do teu hálito
danças
a uma ordem de tuas mãos
o tempo abandona o pano que envolve os astros
e vai desfazer-se em neblinas
ao encontro do teu vasto

vejo-te em cítaras





IV



almas névoas sobre o corte súbito da pedra
o silêncio levaste-o na concha das mãos para interditar os pássaros
foste lumbre
e entre o teu sol e a névoa esquiva que escorria dos teus olhos o aço
o aço cantava manhãs antigas

(entre ato)
em finas camadas de argila o dia dispunha as suas horas
cuidando que em cada coluna o vento cavasse rugas
e as nuvens depositassem suas águas sobre o clarim dos incêndios
vastos
o teu número te media exato a voz e do teu vôo testemunhava o arco

a morte ao te encontrar te mirou em silêncio com ternura e te estreitou num abraço
então já dormias
um sono em pétalas acamado
e o oboé do dia
disse-te em favos doces largos a trajetória de tua luz no espaço
no dia
em que tua pátria acordava entre lagos
e não ouvia a voz do sol em meio à procissão dos astros





V

olho intato
em rastros se desenha no pó branco terra / enlaço as flores cinzas de março
olhar lasso
em traços a verde lânguida vela /o máximo
verde em mim afinal do cansaço as gotas se desprendem em negro podre faço
dos orvalhos pútridos ante um sol desfeito em febres
nasço
antes que a luz das varandas cegas avancem além dos mantos flácidos que ondeiam e violam os dentes do aço/// ter em mim, em meus mapas, uma dor violeta como o dia cansado
de ser pátria, de ser aço,
de ser aquela fonte altiva que se eleva nos andaimes que levam até o astro
adormecido
que amanhece em contas de vidro
em ontem
em tempo e nos olhos dos seus vidros
o astro que amanhece infectado de fumo
e que ergue o seu não como uma espada inimiga
e cai nos vãos inertes da noite esquiva
e vão
assim como vai alegre
o que não




VI

Leve como uma música sem músculos
verde ainda
em gestos de clarineta
delgados enigmas curvados sob a sombra ímpia dos cárceres inumeráveis
eras ainda
o ocaso úmido em que os lábios da noite roçavam o espelho encarnado
e fumegante
que escandia em sílabas de luz o sol daquele dia

tua túnica levaste-a a confrontar os astros
o mel o ouro possuíste entre ventos drapejados que se deitavam sobre o mormaço verde da tarde
e (inquietos)
esmeraldas quentes te diziam
noite assim em noite pálidos arcos vegetais simétricas traves eqüidistantes traços
eras em um vago verde limpo
em tuas fronteiras o sal acorda entre sacrários

verde mínimo agora
estrela
estigma

um oboé desenha uma montanha e o seu vale
vem. és cedo.
embora a luna te creia tarde.



VII

(a Neide)


imersa nas minas do teu sangue
a tua cabeça se inclina e marca o horizonte

em tuas lentas as horas tecem fios que se expandem em ondas concêntricas
entre o verde e o caos
e de tua mão se espraia um raio de luz vazia

vozes dos deuses desta mesma tarde à espreita de uma clareira
entre ramagens de silêncio para celebrar em cores a logofania dos seres
vivos em cedros resinas e estampidos claros

mar possante de zeus
em tuas águas bailam espadas
vejo em teu fogo esmeralda os incensos encastelados subirem a falda dos ares
(a)(z)(u)(l)(a)(d)(o)(s)
vejo-te ontem aceso sobre a brasa das horas
e no engaste da noite de hoje vejo a sombra do teu dia já cantado
em que repousas e respiras sobre turíbulos dormidos vagos emigrados

vejo-te lâmpada oscilar entre os ventos estelares vejo-te
e assim te sei como sabe do pão a manhã que pressente os rastros do sol
e já se diz manhã
e se inaugura em sua palavra que se diz manhã
e que, antes de ver o sol, já se sabe na luz das vogais que ela mesma pronuncia


terça



I


e o seu sangue é um vapor ardente de madeiras
contra as vidraças cegas perfuradas de brancas fogueiras
quando a noite se desdobra em cortinas negras
e dentro de mim um ardor de flautas esculpe nos ares parados
uma pátria de estrelas

sândalo aceso às margens da minha hora
ora pro nobis
porta de ventos tardios
ora pro nobis
ora pro nobis lado de dentro da dor
haste absorta em ofício de flor
ora pro nobis
ora pro morte, ora pro amor
e estas vigas extremas que sustentam a madrugada
ora pelo grito medonho das águas e pelo seu pálido motor
com que a noite, atônita, mata a tua cor
e o negro esmaga a prata dos teus lençóis
ora por nós
sob este céu de cobre
ora por nós
sobre esta ponte estendida entre a varanda do dia e o minério da dor
ora pro nobis
até que tua chegada restitua à flauta sua trincheira cavada entre trovões
e o teu vejo-me se alteie sobre duras muralhas

ora pro nobis
e deixa no território noturno da minha pátria
a memória dos teus suores



II

(A Adriana Falcão)


ata meus olhos às rodas do sol
e faz com que eles descubram entre nuvens passantes
um claro indício de teus hinos

deixa que a luz deles se apodere
e te diga
vem
e te enlace em gritos

ata meus olhos ao esplendor dos sinos
pois os últimos grãos desta tarde já foram banidos
e tua sombra interroga os vales do sol

ata meus olhos
ao linho branco da luna
aos músculos da noite
aos vidros frios dos cimos




III


faço-te um hino
com presságios de sangue
e em tua palavra olhos
ponho sinais de verdes planuras
e de um linho fino
faço a fronteira entre tuas mãos
e as coisas que aguardam fora de ti pela modulação solene de tua luz
(sol) a pino

vejo-me ag(hora) entre cálices vinhos
e de uma gota de suor da montanha que se desprende da madrugada
forma-se o teu lago com o teu navio

(diz-me se em tua hora há ventos que se deitem sobre a lâmina da pedra
para ofertar-te nos vidros dos olhos o resplendor de cristais
amanhecidos)

diz-me de mim se de um me faço esfera do sem-fim
se em mim habita a plenitude das carnes e os minérios
ensina-me a palavra ausente que amanhã lançará nas águas (re)veladas os seus ferros
(no mesmo instante em que és já não estás presente)
desvenda a luz que recobre em brilhos as margens do teu corpo
oculto
na geografia dos rios passantes e de seus afluentes



IV


ou não
ou então o azul recurvo sobre mares e chão
é cego metal indiferente à esfera girante
ou ainda é grão
a fonte que nubla o sol e dissimula as sombras quentes
desta hora dissolvida em pedras. Nesta tarde ainda a hera que nasce e se enrosca sobre os muros úmidos empapados de lodo é mecanismo de um tempo com engrenagens e dentes.
ainda assim
vivente
é este olhar deitado sobre o leito das avencas
de que se diz:
nascente
de águas
caminhantes

e esta coisa de cantar e de dizer e de viver em ti somente
em teu quando és
assim, quando estiveres ausente, uma tuba brilhante dourada recomporá de memória os teus traços a partir dos vestígios que esqueces no ar
assim, em minhas veias injetadas, o teu és esplêndido se consente
como ar no ar
água na água
chama na chama aprisionada
diante da presença invisível que os perfumes evocam e a luz mantém ausente.



V

sim
em teu nome as nuvens recolheram seus lençóis
de águas
e a terra contemplou a fria água que deitada corria por sobre o teu nome
e já não era de ti que diziam-se harpas orvalhos tendas estelares véus

era, sim, da tarde e de suas sombras que falava o mormaço envolvendo as copas molhadas
era no teu nome que os raios encontravam o clamor dos seus trovões
ainda assim à espera do teu venho erguiam-se as hastes lunares na calada madrugada
e o teu hálito conduzia pelos ares o esplendor dos sinos

eras ainda vinho
quando os trompetes espargiram o teu nome sobre trigos

dormes
cala-se exânime o teu nome
e a luna deita por sobre as folhas um jorro de olhos vazios
(o branco cega o vermelho das maçãs)
há um candelabro que oferece ao incêndio das horas suas sombras dançantes
as facas montam guarda sobre os montes
e o sangue gira em órbita de gritos




VI

estendo nuvens sobre o pálido silêncio de tua sombra
e do teu manto de sal faço verde rastro
com que despeço navios ao desígnio dos astros e das ondas

era mar a hora em que me vinhas em marulhos e espumas
e o sol, acordado entre plenos azuis, espreitava a cavalgada das águas sobre as águas

em cálices recolhida a luz calava os seus fulgores
e entre cinzas adormecia deixando que o frio talhasse a madrugada
e era ainda em luz tardia a lâmpada enramada nos sonhos
de topázios ametistas

assim é que vinhas
quando já nem o mar, nem as terras, nem as pontes
te sabiam declinar o nome
quando só a pedra, gotejando suores,
só ela, pedra, te sabia,
além dos incensos das nuvens deslizantes, além das águas e dos lençóis vulcânicos,
além de todo o hálito vivo dos mundos
além era o vôo impetuoso das águias
que desafiavam o sol em teu nome
e em teu nome cravavam no espaço o gume de suas asas



VII

astro
que te vejam inteiro ou em fagulhas de veludo em teu vermelho
acaso

se a trilha do sol
num instante
se abre
e contemplando o espaço sem carnes
volta a sua lança
às trevas azuis
assim te dizem louvores os deuses das horas duas da tarde

(as tuas lâminas de fogo se abatem sobre a terra. o mistério inscreve versos nos nervos dos ares)

brancas delgadas setas
esquecidas dos arcos
água que se quer pedra
luz que pousa a sua águia sobre um ninho de aço

vê, logo após a sombra do teu nome,
um templo que guarda o pão consagrado aos vales calados
que te esperam todas as manhãs
e recolhem o trigo fulgurante
com que engalanam seus mastros

vê, enquanto ainda é cedo,
o animal sagrado sangrando nas lâminas da pedra,
singrando o seu rio encarnado,
vê, após a curva do rio e de sua sombra,
o incêndio alastrado pelos campos dos signos que já não sabem dizer-te em nome
e, como se fosses astro,
te apontam os cumes calados entre vales de fontes e ramagens paradas
espaço oculto espaço
vê, e abençoa o olhar que se incendeia
espelho oculto espaço
vê estes brilhos irados
espada oculto espaço
sente a febre destes brilhos
calados sem fim calados


teu
é este ser emoldurado em trevas
em que se incrustam olhos e horas
tua esta luz
teu este suplício
tua a vítima das sentenças do sangue
o teu dia a luna marcou com uma sombra de gelo e prata
e fez para as marcas dos teus pés um calendário.

há um lugar onde a dor afia as suas setas para a aurora dos gritos
sofre a palavra que te devasta de luz os panos vivos
e te envolve as carnes.
Ainda ontem eras ícone,
hoje, nicho
de águias improváveis. 





quarta
 

I

acordam-se as águias
diante do sol

em silêncio
arrebentam-se as cordas das harpas
para que o mar não ouça
o doce claricanto
do amanheser

o Visto e o que Vê interrogam suas madrugadas
e oferecem suas carnes transubstanciadas
ao manto transparente das águas
que os abraça e guarda num longe

crer
nas vozes que ditam um poema novo
gerado nos pântanos úmidos onde o sangue remansa entre relâmpagos
crer
nas vozes ásperas deste poema
em suas palavras opacas
como coisa implume e pesada
que escorre sobre a chapa fria de infinitas águas
e respira leve
e canta docemente
como uma pedra com vísceras e sangue e ânsias de mundos

crer que a mesma dor aflige os astros e os átomos
crer até doer
em tudo o que seja esculpido em pedras ou em carnes
crer sobretudo
no olhar que, vendo, se vê

janela sobre o incêndio das horas
diz-me clarins
vales e mangues
informes

diz-me dos ácidos que corroem abóbadas voantes
cala todas as palavras
e anuncia um nome

que não seja um arco para infindos campos
mas que traga o nome da morte pregado no próprio nome
e se vista de alegres ventanias
( o seu passo certo o leva às cercanias do deserto)
e a sua voz não quer mais que a platéia provisória dos vivos
e o seu mel será ouvido somente nesta hora

implora
aos ventos desta tarde que, sem demora, te indiquem um rumo de margens mesmo que, sem rios, os teus nervos cansem desta clara vereda
e a morte te recolha com os despojos do dia

vem,
este ar morno te respira
e vive de tua argila
transitória
vem
assim mesmo te quero:
como coisa que é mas vai embora



II

(A Deborah Brennand)

em círculos as tuas águias pairam sobre as névoas que te encobrem o nome
e já vejo a corda do vento adagiar cristais nascentes
em plenilúnio

és em voz na madrugada íngreme
que acorda o pássaro e lhe acende as pupilas fulgentes
enquanto o estio se dissolve em brumas molhadas
e o mar suscita em suas algas os seus navios

és quando assim em cantigas te adelgaças
em sopro espiralado
e dizes terra e peixe e montanha e rio
és quando ainda te sempre
esmagas
as doces sementes do minuto fugidio
és nas profecias de tua sombra
sobre as margens esguias dos rios
és hoje em acorde de prata
em que a luna deposita o seu rocio

canta comigo o salmo desta manhã que sabes certa em seus confins de ouro
busca em teus cabelos os primeiros indícios do incêndio que se avizinha
espera que a dicção das cores te recite a pele inteira
e só depois serás em dia
um dia que morrerá só para ti
como se fosse o último dia

último será este dia que te consente os esplendores
sem interdições nem nostalgias
última será a palavra senhora de tua voz
último o verde límpido do grito
quando ainda as águas amanheçam os seus frios
e os montes ergam em suas aras nuas o nome do teu nome
(agora que os olhos e os gestos estão vazios)



III


a palavra que te diz se ocultou no gesto de tua dança
e o teu és cantou na luz do teu movimento
assim o teu corpo, livre já do teu nome,
pôde ser estrela oculta nos longes do firmamento

vem ainda agora um sopro de verdes sobre a tua carne
que gira
à sua volta um mundo parado bebe a tua lâmpada dourada
(os ares transpiram o fogo vivo do teu alento)

não é manhã, nem tarde, nem madrugada
não há árvores, pedras, vivos ou rios
todas as vozes estão caladas
e o mundo renasce em tua dança
pedindo que deites palavras sobre os seus campos e rios
e que para o mar
digas ondas, mastros e sargaço
e sopro para o vento que se enreda em tuas tranças

o teu sinal é uma névoa de luz sobre o vidro aceso da tarde



IV


semper


(então) sobre o macio morno da tarde
há uma erupção caliente cortante de vidros


nunc




V

a tua sombra nega o sol à fome da terra magra e cinza
poente imposto à retina da pedra
assim a noite longa negra profetizas
olhar gelado de luna sobre a pele dura em que se abriga o estio

só uma nuvem com seu exército de águas te negará o desígnio
afastando o sol da tua saga de sangue
restituindo a paz úmida aos abismos
dando pássaros calados às árvores cantantes em ventos e águas
(pois em ventos e águas se negará o teu desígnio)

em ventos e águas
se amplia a ácida fonte
que dissolve as pedras e as árvores e o sangue antigo do dia
nuvens dominantes, cantata triunfante das águas,
(como um césar leal ao gume de suas facas)
luz molhada em ventos retos e frios

luz molhada, invoco agora o teu sono,
o pássaro, ainda acordado, reaviva suas brasas
e acende suas asas
no lã de um novo dia

vive agora acordada uma flor envenenada na acidez da luz queimante

(este sol agora é teu, pregou-se na tua pele, e espreita da tua mão as vítimas do seu ouro em brasa)
imã, irmão,
sangue no teu sangue e pedra nos teus ossos
agora és fogo e destruição
luz tremenda cegante
invoco o clamor dos teus vulcões
e já penso no teu brilho como um raio adormecido numa urna de aço
porque morres como morre um dia
morres como um dia morre de cansaço



VI

(introdução)


eis, em tua alma, a resina dos cedros
daqueles que se abeiram dos rios
e bebem, na esponja da terra, as suas águas vivas

eis o teu legado:
o teu sozinho
e este medo arrumado com cuidado nos vãos dos teus pulmões
e nas caves soterradas dos teus vinhos

eis, no rumorejar do teu sangue,
um silêncio que desliza vazio;
no espelho deste silêncio uma nave extremada a procura de ventos

eis o teu nome posto entre duas madrugadas
hóstia vermelha consagrada
aos mortíferos venenos

que em tu alma
crescem e se espedaçam
entre zunidos

de lentos sóis de prata
quentes, vivos e macios
introduzindo suas vozes em brasa na névoa do teu estio



VII


a taça magra
o vinho insone
em pé
o pão deitado
pleno de si mesmo
a faca (o gume)
a carne
o incenso diário dos temperos

a liturgia dos panos sobre a mesa
o relógio expectante
que impõe silêncio aos seus aços

o tempo aguarda o ritual da fome
(ainda longe) o corcel da hora pasta os seus ponteiros
a espera de que nódoas e migalhas sobre a toalha
autorize a cavalgada que envelhece rebocos e azulejos


quinta



I

(parúsia)

às três da tarde: ELI ELI por que me abandonaste
aos trovões impiedosos e ao alarde
de raios que rasgam véus?

por que a pantomima de um humilde no poder
se faz sem humildade?

por este sol que gira juro jamais erguer lajes tumulares
nem suscitar céus aos mortos definitivos

que este pão que eu sou, remanescente trigo,
se estabeleça em verdade de carne
e não seja consumido até o fim da tarde

para que as trevas possam engolir os teus prodígios
e demolir o picadeiro que armaste nessa nave de gemidos

eu, trigo, me quero consumido na saliva desta tarde



II

(munique)

na munique que não vi
há uma cervejaria
com cerveja fermentada em barris sem alegria

(essa cidade é murada)

há copos que se entrechocam com raiva
na munique que não vi
há grades grandes pesadas
guardando a cervejaria

(essa cidade é murada)

há cantos, litanias, confissões, cenas macabras
até o nascer do dia

à lâmpada da vela luz velária
esfria o mármore da mesa e anuncia:
dias e dias e dias de cólera infernal
e, nos portais severos da cervejaria,
há olhos indiferentes que esperam por uma mesa vazia

(essa cidade é murada)

na munique que não vi aviadores de caça pousam para sempre
fecham os olhos, fecham as asas
e choram de espaço em espaço

(essa cidade é murada)

há um cais que recolhe marinheiros desnorteados
e há um lugar reservado às suas gaivotas


na munique que não vi
de vez em quando um telefone anuncia


naufrágios, terremotos, ventanias,
e todos puxam um pouco mais os capuzes
e trincam os dentes
e sofrem caladas dores, extremadas agonias

(na munique que não vi nunca se sabe se é noite ou se é dia)

Os relógios estão parados.
Os portais estão fechados.

(na munique que não vi)

e se respira um vento glacial
esquecidos de palmeiras, rouxinóis e campanários

(na munique que não vi)

de qualquer forma, ali se senteM abrigadoS
noites e noites e dias

(na munique que não vi)




III


e (então)
um gesto lento, enlunado,
tomou pétalas ao vento
e sorriu uma chuva de alecrins lavados
sobre o país do teu nome

e (então)
sobre o país do teu nome
um barco se roça nas facas brancas do mar
onde indecisas fronteiras
franqueiam rotas mutantes

ou (então)
já vens nos verdes de uma madrugada macia e lenta
e tenra e úmida e luminada e branda
acesa nos claustros do sangue
como uma luna ofuscante

(deixa que teu nome repouse nesta concha em maresia

íntima das lâminas triunfantes com que o mar

com que o mar mira e ameaça os montes)

e (então)
repousa embalada sob estas nuvens carnosas da madrugada que inaugura um dia
tão limpo, tão mármore, tão sem deuses,
que podes contemplá-lo como ágata


sem amanhã e sem ontem




IV

diante de ti
a tua presença me exibe os seus signos:
a cor dos teus panos
as vozes que interrogam o teu nome
a taça de luz
o brilho que me recebe na soleira dos teus olhos
o instante vazio
as avencas em seus noturnos
o tecido da dor que se enrosca no seu fio

diante de mim
esta noite anuncia os seus desígnios:
úmidos traços de terra sobre a paisagem das horas
um silêncio morto e frio
a conspiração dos panos negros contra o inascido sol
um escuro nome de outono imerso na água mais clara do dia
os ventos cúmplices dos céus ardentes e lavados
a luz nascida na varanda dos teus olhos
a lâmina cravada na retina da manhã
a tua hora em delírio
o teu esplendor macio

tua navalha de gelo cravada no espelho azul
é vazio mergulhado no vazio



V

a água da noite
fria em seu lago
tece vapores brancos
sob o rosto da luna
enquanto o tempo
vive acordado

a noite envolve em neblinas os ossos dos campanários
a noite, fria em seu lago.
fria em neblinas brancas a noite faz seu relato:
os teus passos gravados na terra
o negro espaço
as aves colhidas pela febre em pleno vôo
a lembrança incerta de um sol fumegante sobre os telhados

a noite é a tua memória,
fria em seu lago



VI


ao ir embora, escolhe a tua hora no dorso das águas da tarde
espera que elas exalem suas cores
e que uma pele cinza as iguale
aí, já podes ver, é a tua hora
de irembora
como um fio de sol desprendendo-se da tarde

recolhe a tua sombra que,
longa,
se deita sobre a terra
e se faz vertical sobre o tronco da árvore
e parte
por entre águas que não te acenam
nesta hora em que disputam o negro e o azul cobalto

o ar
que já não mais te vê
inscreve os teus despojos entre as ruínas
e tudo o que morre morre em sua hora

cintilações e ecos
levas na bagagem

agora, desliza levemente sobre o espelho desta hora em que partes
impondo silêncios e vagares aos teus passos
assim irás sem despertar as lunas assassinas
que espreitam as sombras
e saltam sobre os vãos da noite
como tigres prateados



VII

(só)

os mistérios de ontem
foram hoje consumidos
pela fornalha do sol
enquanto dormes sob esta luz sem memórias de gritos
e o teu último deus, que ontem foi extinto,
libera asas para o teu sono
entre brasas de clarins e gemidos de oboés famintos
ainda nesta tarde,
nem mais será lembrança
ou sombra de lembrança
em esta tarde imensa

enfim estarás só

só e plena de rumores
a tua sombra, esculpida,
se alongará até envolver a tarde inteira
revogando em trevas o nome destas horas
que antecedem as horas das estrelas 



sexta




I

árvores, silêncio, montes, ventos
mastigam lentos os alvos panos da luz
como se, de incriados tempos,
a mesma canção, em renovado alento,
deitasse um verde imenso sob imenso azul

a canção da sexta te diz apenas um nome
que de tão exato, tão manso, tão sereno
só hoje o terás
pois este nome se colou com tal ardor às sílabas do tempo
que este dia não precisa de outro sol

só hoje, no mapa do teu corpo, se desenhou este fulgor intenso
e não são doces brisas, mas vândalos incêndios
que anunciam o teu és na aurora deste tempo
que terá um dia só

(estrela concebida entre uma e outra madrugada
a tua memória terá para sempre em suas retinas ofuscadas
este clamor tremendo
este teu nome de hoje
estas migalhas incandescentes
consubstanciando para sempre
o nome do teu nome
com o nome do mesmo sol).




II

(vozes)

(ao pietrolivro vozes da ilha)

é de aqui que te vejo olhos vestes carnes
o que me vês é luz?
é antes sombra inscrita na paisagem
diz então minha canção
pois me quero inteira nesta tarde
então te digo assim:
o teu sangue é seiva, o teu corpo árvore
o teu olhar é sol, lua e estrela
então me conta a lenda
que para mim inventaste
és a infância de um rio
que mudando de feição
muda também a paisagem
esta noite o que serei?
esta noite serás nova cantiga
ninguém sobrevive à tarde
que mais inventas para mim?
o grito primevo, o vagido
a articulação vocálica do riso
o hálito entrecortado do suspiro
a palavra no leito germinal do sentido
unívoca
serena
imodulada



III

e se agora o sol se interpõe entre ti e a tua hora
e se essa hora te propõe eternidades
em nome do que é vivo e se evola
faz saber ao sol
que a sua mesma essência é transitória e mutável

mostra em tuas mãos as pegadas das horas
e nos teus olhos o lume que lentamente se evade
e é com esta candeia provisória
que dás ao teu corpo volúpia
e ao teu coração idade

quando a palavra que te diz
se cravar em tua hora
e uma lenta liturgia de círios acender a tua pele
e te consagrar a carne
aí já tens o nome do que és

(guarda este nome
por esta luz que te olha e não te sabe)

faz de tua poesia um inventário do sol
para que ele dê ao teu poema os rios e as tardes





IV

(longe)

dizer-te assim:
estas são avencas tuas, imensa,
estas são águas descansadas sobre folhas trêmulas
estas são infindáveis arcadas de silêncio
em teu exílio de mim

ouve:
no rumor desta hora há um hiato de silêncio que sou eu
sem ti
nesta noite em fúria os navios se despedaçam contra os ventos
e uma palavra só, na vertigem do tempo,
se alarga, se revolta e aguarda o momento
de ser do teu clarão a mancha de incenso
de ser nos teus músculos, nos teus olhos, nos teus nervos
um mármore acesso submisso ao teu querer

assim te quero
dona do teu sangue, senhora dos prados, posseira de imensos,
estrela luminante cravada a fogo no altivo firmamento
tão alta, tão mansa, tão assinalada,
impondo ao trigo e ao sol uma fronteira escarpada
e oferecendo à vida uma palavra já com olhos e vestidos
uma palavra só, tão viva e tão clara,
que, mergulhada no meu sangue,
me dará arcanjos rebeldes, e mantos, e esplendores
para que meu ser, feito de temores,
seja um beato sim




V

apaga dos meus olhos este brilho intenso
que me cega a tarde

(faz uma noite para o meu silêncio)

depois,
procura nos jardins assassinados
os jasmins devolutos
e acorda os incensos que já não ardem

faz para mim um imenso



VI

sei que vens
como se sabe de uma dor que se avizinha
ou como de um pássaro sem canto
se adivinha a presença
pelo rumor do sol

sei que vens
porque as águas já estão sombreadas
porque a luna insone agita o seu lençol de prata
porque o azul da terra, em gritos, se despedaça nos astros
porque o silêncio é vivo e traz memórias de ventos em sua mão cerrada

sei que vens
porque assim me disse a tarde


VII


entra
foi para ti
que os violinos da sexta
se calaram
e sucederam clamores de trompas e cornetas
triunfos verdes e dourados

e agora
diz à tua sombra que se deite sobre o terraço da luna
para que o tempo venha a ter esplendores e urgências
e este dia, já cansado do seu nome,
possa chamar-se sábado 



sábado



I


bailando, a trança do vento
nos cravos do tempo
se enrosca e desfaz;
gira e volta e gira e rodopia
um raio de luz viçosa
que acende verdes no verde
e ofusca catedrais



II


cem bandolins soaram
na varanda do dia
e um sol, agreste, agrário
define sombra e mormaço
e se faz nota e compasso
de íngremes melodias




III


entre monte e mar
ondeiam os braços do vento
te dançam as brisas quentes
enrodilhadas em teus passos

róseos, se querem róseos, os barcos tontos da aurora
e trinta cavalos brancos bebem o sangue das horas
ah, não vês como as pedras
arrancadas do seu leito
gritam e dançam
sob o trovão dos seus passos?

(entre cascos e pedras soa a música de estilhaços)

dança tua fúria de hoje
sem memórias, sem saudades
este baque surdo, este silvar de remos
este compasso lento e inexorável
este canto trôpego
estas ânsias infindas em águas arquejantes
esta pele líquida ondulante
este marulho de espumas
é o mar?




IV

negro jorro da noite
escorre sobre os teus ombros
e te devora carne e casa
e te dissolve os ossos, e te bebe o sangue
e se apossa do teu corpo e de tua sombra
uma estrela cintilada

em passos lentos, medidos
a tua ausência se instala
em teus cálices sem vinho
e nos teus lagos sem água

e então memória sopra
uma canção em sua flauta
tua pele agora são brisas
teus olhos agora são matas
teu corpo se recompõe
em vivo acorde de prata



V

canto tua sombra nas águas verdeadas
e semeio ecos nos vales do teu silêncio

canto o teu sou, canto o teu agora
e, no entanto,
as vozes que fazem o meu canto
respiram sílabas caladas

versos em ruínas, voz dilacerada,
no lago do sonho
o teu sono se mata

lentamente a tua ausência desce sobre mim
como chuva entre as orquídeas
cresce
no vazio imenso
de um mar sem água
ou de inconstelado firmamento
a essência imperecível do nada

agora, toma desta carne feito canto
e com brancos, sal, seios e cantos
faz pra mim uma pessoa amada



VI

quem vai para o futuro sem saudades
não deixa marcas
na carne do tempo ido

quem vai para o futuro sem saudades
vai desfazendo a teia da memória
essa espiã do tempo

vai mastigando os próprios nervos
sem pressa e sem vontade
assim como quem vai nascendo

quem vai para o futuro sem saudades
vai sem volúpia de caminhos e chegadas
vai sem suores, sem deuses, sem guias

vai
quando a dor da tarde exige portas pra sair
vai quando o sangue escava as suas minas
e a vida instala suas máquinas e roldanas sem perguntas

e se tem que ir



VII

entre a explosão sideral
e o nada eterno e frio
um inventor de palavras
se debateu no vazio 



domingo

(lamento)

daqui, de onde não te vejo,
e em nome do teu nome que não digo
exponho minhas chagas ante o rosto do teu sol
e o teu sol se cala
e vai pelos montes a maturar o trigo

para isto explodistes as pedras que, em silêncio,
incautas do teu fogo, dormiam na neblina dos tempos inascidos?
para isto construíste, deste nada imenso,
um oceano de lavas onde já, na primeira madrugada,
tremia, em embrião, o anátema de um grito?

foi para isto que acordaste o fogo e construístes um sol único, intenso,
e da cólera deste sol criaste as águas
e de águas rubras, emparedadas, uma mina de sangue, fonte desolada
que nutrisse a carne para a dor?

(e ainda)
sobre esta esfera de fogo, pedra e lama
puseste a carne trêmula
a florescer em chagas

tu foste o personagem de um canto
um nada que deixei em lugar de outro nada
um vazio imenso que envolvi em véus
criei-te apenas pra compor este lamento
e dar a esta infâmia um réu

invenção de minha dor, inventor deste mundo,
tens em mim teu prodígio e tua pena
as alegres canções, que ainda ontem cantei,
quero-as agora caladas sob as cinzas

filho do meu canto,
para sentires a dor de mergulhar no nada
como eu, teu inventor,
eu te consagro à morte.
nasceste num poema quando eu era alvorada
morres neste verso, o último que te dou.

Fim do Livro da Sétima, Danças.











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