ímpia de sombra a planície do sol se anuncia ao relógio da tarde
e expectantes acordes de cobre se recolhem aos desvãos mais escuros do dia
o vento invoca os profetas do sono
o sal talha seus pórticos que um verde responso salmodia
ainda e ainda é tarde ainda e ainda é dia
diz a luz de flores explodidas em vi-gí-li-as
nesse tempo sem ti o branco sem ritmo é fratura exposta da vida
vejo-te viva em clarins sem saudade
e assim como te vi entrar inconvidada por sob os lençóis da noite
assim te vejo em seiva cósmica de lavas contemplar
a gênese do nada
e percorrer com um olhar cansado o medo
ainda neste dia ainda nesta hora ainda anunciada ainda neste dia
vejo-te ainda e te vejo sempre ainda como coisa incriada
como animal dessangrado ao relevo das pedras
o que te vejo é portal de ébano e diz-se assim
portal de nada
é aço coagulado vagando a nado pelas trevas apaziguadas
o teu ser é contraste entre mim e o meu medo
...
pássaros insones inscrevem suas órbitas no espelho
da tarde
a água lava em seu remanso a sombra das folhas
deste dia
e por dizer-te em vértices de telhados digo-te tanto
proclamo-te
no sangue inaugural do sol com seus turíbulos de
espanto
menos que sombra de ti é o signo profano que
te anuncia
no mais são vestes de nuvens e olhos místicos
que se aninham no côncavo das vogais cantantes
e pronunciam esta tarde o teu nome (dizer-te é here-
sia)
salmos cantos volutas litanias
um poema ainda não dito espreita a tua voz
para arrebatar-te o silêncio e tecer em torno do
teu corpo uma parábola de gritos
...
em lento marulho a espuma se enrodilha e arde no seu mormaço de prata
claras visões são mastros à espreita do mais leve sinal de cansaço no dorso das ondas
e desta forma se sabe mar o mar força e arco
em parágrafo azul se escreve onda e mar fogo e navio
marulhos se inscrevem em verdes parágrafos
com ventos sem nome e sem ninfas a noite faz e refaz o seu traço
altas e majestosas eram as damas do azul marinho
incertas entre o destino de ser mar e de ser astro
horas assim são torres de mármore ou capitéis de vidro ou arcos crucificados no azul
claro
de repente a varanda do dia consorcia minutos e vigílias e vácuo e ébano e carvalho
lentas e luminosas fontes sal da quilha se despedem
vão e vão atrás do sinal que se esconde atrás da lanterna que se esconde atrás da popa
o navio surge impetuoso em vigas de ferro e aço
e o crime se proclama em longitudes e latitudes como se fora um peixe sem sombra
denso mormaço
vagarosos turbilhões de estrelas estalam em suas roldanas de puro cansaço
é noite ainda e assim - noite - é o dia
que inventa os aviões e os carros entre as casas gementes
e a água que se infiltra nos rebocos é água em maresia
verdejante alfombra de cerâmica fria se fecha em planos horizontais entre mormaço e mormaço
ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia
...
ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia
eras quando palmeiras virgens de postais diziam coisas de ver e seguir-se
eras quando coisas de ver
via-se então além das cercanias do ser que és
varrendo
da memória
a retina
que fixa e amplia o és
mesmo que o seja sejam rajadas e o som
mesmo quem és em ser
não saber a que vem o suor da brasa que crepita
ao som da flauta ímpia jornada de pedras e urzes em brasa
e eram casas ante casas e casas anátema de casa
a distância azulejava o cume que no horizonte era linha divisória de água e água em terra firme e velada nostalgia de pintassilgos e pardais
eras como se é não sendo eras guia eras astro eras mãos vazias que se estendiam sobre
na cidade talhadas grossas de aço
erguiam o universo ofuscante de lâmpadas que incandesciam e espoucavam
de quando em quando
de vez em vez
menos se era dia quando só brilhos emplastrados de fulgurações acordavam quando
ventanias de chuva e água e água e água
como para que os peixes sem sombra tanto
de um pérfido sentir azedado infame e infamado
corte o caule do templo e exponha as raízes profanas
até que de noite seja o dia da ira
infernal
e não mais saber que eras é apartar-me do teu és
vem de longe a mancha que anuncia
a luna traz um crime em seu branco nome
vem te ver se és e traze o lume verde em fagulhas de verde em fulgor de verde
vem te ver antes que os montes desabem sobre o teu nome que é
és em nome
para que em teu nome se possa dizer ainda
és
mesmo que sejas no eclipse da sílaba mais clara que te pronuncia.
anda ainda a ver a varanda generosa do sim
nela podes ser pois a ela não importa que sejas em carne ou em som de sílabas
há um acorde suspenso sobre a tua sombra
sete notas de uma escala em ordem insana dizem sim ao teu nome
agora o tempo se enrosca em teu cabelo e te arrebata o nome
és sim
agora sei o teu nome e sei da gruta onde tremente pende o teu nome
o teu nome é sim
sim és em teu nome
as nuvens suspendem suas águas sobre a sílaba mais clara do teu nome
não sabe ainda te dizer a montanha nem o rio que desce e contorna a montanha
mas a luz, a luz te diz o nome sim
agora te sei és sim
o olho que te vê benigna retina dourada
cordas retesadas em salto de felino
tu és vista em és em clave exata
sonata
ou fuga insolente das pedras martirizadas
tudo te sabes ser em és e em sim.
...
a cor da luz em indulgente liturgia acende prismas de cristal e alumia a porta
entreaberta
que introduz aos prados do vento
lá dentro um ídolo ancestral habita
jejuno de sol sua face de jade se faz descolorida
reconta-se o mito em vagas incessantes de memória aflita
e se reconstrói a história de quem habita entre ontem e ontem uma manhã benigna
assim o tempo lavra o seu campo de plantio
a água em carne viva em suntuoso arquejo respira delirante e devora partículas consagradas ao medo
e uma voz de sal enclausurada em diamante recita versos minerais
ao ouvido das sombras prolongadas sobre a pele da terra envidraçada em marrom silêncio
há uma Voz que prescreve andamento e canção à coreografia dos nervos
a palavra
inesperado corte na carne do invisível se faz de dálias dormentes em
visceral
mente se expõe ao ritmo surdo da rima
rios em naipes de madeira e pedras vigílias
articulados entes cegos em mira de trompas
velado acorde em cantaria de fino lavor
infinitas
eqüidistantes
obras primiciais em ouro tom
palato e língua
vem e se está em planalto de nuvens.
um dia a obra acorda a um gesto demiurgo e se faz superfície líquida e corrente de luz em som que se prolonga em trinos concertados de cravos veneráveis que se afundam na película mais azul da luz.
palavra é pintura e hálito
carne em vento é palavra e pode ser tanto ou como ou alfinete cristal robalo
em infusão no pântano dos significados
estabelecida em tons lunares solares ou estelares
assim elas podem ser ocasos
ou irem ao encontro do inexprimível impacto
que dá músculo sangue e nervo ao vento
se quando é noite
os gatos
harpejam-se dorsos
à imponente cerimônia do tato
órbitas de líquida luz esculpem ogiva no espaço
tímbales poderosos marcam a cadência solene do passo
contraindo os seus músculos siderais gira a esfera azul sob o gato
que espreita os ponteiros - o tempo é sua caça
e com garras de jade se incrusta no dia
em si mesmo ídolo altar e pedra isenta-se da sombra
e se proclama na nudez calada que antecede o seu nome
as luas contemplam absortas a graça de sua luz
e suspendem suas marés e ventanias enquanto ele passa
depois do último luzeiro fica o seu rastro
dança em aço assim diz a canção que descreve o seu nome
plenos de si como sóis imersos em sangue
alongam o gesto que os faz ser gatos
aos seus pés o tempo geme, dominado
não são jardins nem mirantes nem alegres cercanias
são pedras que rompem e desviam o leito das horas
são o desvio
o olhar que os encontra enche-se de sabedoria ao ler sua escritura profana
a casa
negro silêncio
guarda as salas
abóbadas inazuis confinam a sombra
que geometricamente talha a pausa entre gritos de luz
mortalha
a que o fagote dá cor
retalhos de sol pendem coagulados de portas e janelas
e os armários inscrevem sacrários para o sono dos panos
(dentro esvoaça um pássaro acordado)
na casa a voz mais alta é marromdourado
há um céu de candeias que inala luz
quando a hora exala a noite para dentro dos seus muros
e no mais recôndito do escuro
a casa respira os seus vãos
solar, sólido, soledade
pedras e madeiras, em ritmo binário,dançam antigo esplendor
ao som cor de parto
às três da manhã o sol ainda é improvável.
lúcia neuenschwander
um mar gótico com pele de algas pálidas
diz, em vislumbre de hera,
de um olhar que se abisma em coisas de entorno
entre paredes de cal viva o seu halo de casa
cordeiros de luz que vestis vossas vestes de gala
logo depois do seu espaço é o espaço da casa
e além dele a fronteira do mundo
linha vertical que o sol escala
cordeiros de sangue que agonizais em gume de espada
brancos vestígios brandos de ontem
se intercalam entre réstias de fala
a palavra procura o rio e se confunde com suas águas
imersa é a palavra que se cala
até que se acendam os luzeiros benedictus
que enlouquecem os sinos (nada se dirá até que o sinal que sabes nos advirta de que vens)e é chegada
nasces tantas vezes quantas sejam as
horas
horas de hera, horas de sal, horas de mordaça
empunhando vitoriosas tuas mãos sobre o telhado da casa
gótica é a linha que se traça no retângulo do dia para que a noite possa ter portas e o silêncio encontre o seu bronze num poente em brasa.
horas
soneto da tua hora
brancas tuas horas se intercalam
entre notas de cravo cindindo a melodia
do é que em ti se abisma e se declara
imponente fachada de impossível alvenaria
brandem brancas brisas e te consagram
o sangue
um veio de lava escorre da montanha e se faz rio
teu é este vento rude e a desolação de trompas soterradas
teu é este estar em ti luzeiro sem alvorada
e este leão que se mata diante do sol
teu é o estandarte em grinaldas
agora repõe teus átomos
em ordem clássica
em tempo de sonata - eis a tua hora (agora e sempre)
sonata da tua hora
seja agora
longe ao norte te vê um claustro de margaridas em pétalas
aqui te vê uma semínima na tangente de um compasso
largas calmarias se intercalam entre colunas de alísios
os violinos em larga calmaria se despedaçam na luz
fagotes trêmulos recitam poemas sem carne ainda
e o coro dos metais sidéreos desenha melismas entre o cristal e a retina
o olho respira a luz e vê -
vê sem cuidados a sombra que, ao norte, se estende além do claustro
e a flauta afiada que rasga um vocalise nos músculos do poema
para que a água, que te faz olhos, se faça tema
um oboé impede o pouso do pássaro
a tarde, suspensa, modela a mesma hora
até que o dia lembre da noite como uma antiga narrativa
a que se cravaram ferros em cada sílaba
- o ontem, imóvel, esquece o gesto que faz passar a vida
quarteto da tua hora
cravelhas retesam quatro ventos sobre o mapa da hora
e um compasso cinzalento ralenta a nave que se vê no brilho do seu espelho
dança-se a espera do momento
que há-de ser dito em partitura de mármore, prata e vinho
um Fá sustenido em pedras ara o dorso do deserto
(quem viu teus átomos esvoaçarem livres sem alma antes de ti avencas, minerais, floradas, cobre, barro, pena, sentiu teu alento insinuar-se entre o sol e sua clave entre a Luna e o seu arco entre o dicionário e o poema)
um livro antigo agoniza entre uma dama e um cavalheiro
esconde o teu país na palavra somente para que não o vejam os astros e dele só se escute o nome somente e a melodia somente e ao meio-dia somente deixa que tua sombra emane do teu corpo e se crave rígida na pedra em que pisas sem arbustos nem serpentes - deixa que o teu clavicórdio murmure pétalas.
Somente.
o ar amanhece só veste os seus vidros e se põe em calma a desbastar os montes e cavar os rios
vem ainda amanhã
as águas da tua hora
clara senhora
atenta aos cristais que eriçam espumas
no torso oblíquo das marés encarnadas em lumbre
clara senhora
consorciados em sua rosa os ventos encenam calmarias
geométricos nadas
senhora clara
que das águas a faca aguda alumiada espia da amurada e circunda
os ferros da ampulheta cravada nos temas que ainda não são palavras
senhora clara
ali onde as lobas bebem o rio e os ciganos afundam os seus cantis
ali é o longe e, depois dali, a planície dormente das dálias
ali a água arqueja o dorso e salta sobre telhados em febre que colhem, queimam e explodem as águas
névoas se fazem nuvens, que se fazem teto, que se fazem água
clara senhora os teus olhos a fria água navalha
lendas de águas vivas afogam tua cintura - vaga após vaga -
os cavaleiros da tua hora
há-de vir o primeiro em esporas de prata dizer-te o sal
em seu elmo o trigo acena de sua haste e o seu tropel é medonho
ondas e corais se despedaçam sob os trovões do seu cavalo
o outro há-de vir incerto de sua fúria
este traz flautas em sua aljava e um ramo de algas no cabelo
hás-de vê-lo à tarde se interpondo entre ti e o teu medo
o terceiro, em vestes talares, te entregará um templo de mármore
onde um sacrário vela um espelho
atenta aos sinais dos teus cavaleiros verás em teu corpo um signo de horas
e mecanismos roldanas de carne e brilho sem teto
hoje será agora em ossos e nervos pois já se pronunciou
jaz pronunciada
a derradeira palavra que te salva do indizível
árvore porta epístola janela madrugada silenciam na memória das eras
uma tocha de sangue arde no preto preto do seu lago fumegante
a mordaça já se estende sobre o acorde da cantata
dizer infame de pedra areia e estampido
outras são agora o sentir ser víscera nas entranhas do universo
estás acordada
vê, antes que o sol te arrebente os tímpanos, as notas em sua inelutável cadeia
estenderem-te os braços
o cobre o bronze estão exaustos
tudo pára a espera do teu gesto
já te preparas
a roupa o mote a ceia
ainda depois se ouvirá o clamor dos pássaros
antes que asas sejam labirintos
lembra-te
ainda
o verso?
o soneto, a sonata, o quarteto?
desde que baixaste pela madrugada a água te dedilha os cabelos
azulejos e rochas se desvanecem para que o ar recite os seus mistérios
que agora se ouvem
(há uma pausa entre o sim e o não)
o sol em ouro arrebata todas as auroras, assassina todas as manhãs
e impõe seu facho à noite e ao gelo da noite
Silêncio. Mataram as Horas. AGORA É SÓ.
Seja agora.
a liturgia se esqueceu do pão
Quando o fumo acre se dissipe haverá novamente o não
e os claustros cultivarão a rosa dos ventos - dia - tarde - noite - madrugada
não mais terão olhos e sim pétalas de prata em órbitas agitadas
pétalas de prata girando desgovernadas em suas órbitas de então
o olho
vê
o não
quatro cavaleiros invadiram o teu reino e rasgaram as velas do teu navio e romperam os silos dos teus grãos e beberam os vinhos guardados em tua mais secreta metáfora e te expulsaram os rios
Agora é não.
chora a morte da tua hora mais sagrada
os ponteiros retorcidos agonizam
agora é não
o rio da tua hora
no princípio um som de vidros desenha no vale a caligrafia dos rios
pouco a pouco a Palavra alteia-se e ressoa na hora mais íntima da tarde
pedra e clamor é a respiração dos sinos
um fantasma incólume anuncia a tempestade
vastos panos de águas ondeantes encastelam-se em nuvens dessangradas
e lançam um desígnio fatídico sobre a hóstia do teu nome - profanada
(o pássaro enlouquece de dor e, na vidraça do horizonte, fere suas asas)
em cada marca dos teus pés no chão a água escreve a provisória saga
ventos vestígios evocam temas deslembrados em fuga sincopada
o mito devora o teu nome
cada sílaba se dissolve na lenta digestão dos signos
até que outros sentidos cravem pregos em tuas mãos
agora és não
a hora flutua sobre as cristas das águas
a casa da tua hora
casa dizíamos em címbales
e fazíamos deuses com o barro da horta
o teu pronome cantava em coro com os timbres das avencas
nós éramos, dizíamos, e a tua hora bania as traves do teto
e gritava ao espaço - sentíamos - era lá que a água adormecia em febre
lentamente o éramos esculpia as nossas caras
vastidões
de horas
graves
em cadência medida
vagavam minutos em torno do sabre
e assim o relógio, dividido em fatias
verdescuro, azulmarinho, vermelhocobre
dizia horas e não dizia do sal que havia nos dias
insolente flauta atraía as nuvens para o fogo da casa
assim fazíamos liturgias sem panos nem pães
até que o cansaço dissipasse os fumos ondeantes das vigias do sol
ríamos
éramos nós legião de fancaria que divertia os pequenos deuses morenos que habitavam o nosso redor
um espelho impiedoso contemplava a nossa alegria e nos guerreava com ginetes alados cavaleiros armados lanças afiadas que se abeiravam do nosso riso e diziam feridas e caminhos de pó
adagio molto e mesto da tua hora
lástima
a ampulheta já calou a voz que declinava o teu nome
os nervos crispados da infanta madrugada fazem tremer a terra isenta
da tua sombra
o halo de tua pele, interdito às retinas, alcança-o um verbo no pretérito
uma pedra na praia observa calada ... lentamente do verso desprende-se
uma rima
violoncelomar decanta o sal das águas e incrusta a esmeralda no ostensório desse dia
(a tarde) (a noite) (a madrugada) ----------- o dia----------- teu verso
ENFIM
já se vê, além do espelho, os músculos da montanha retesados
em mesa de nuvem o tempo devora Partículas de luz
não venhas mais que é hoje
é plena madrugada
é plena Luna
terra minguante deserto última palavra acorde verdescuro sangue transfigurado réstia revogada
não venhas mais que é hoje
os dentes da Luna cravaram-se no teu pelo
adagas navegam na órbita do teu sangue - o tema ergue o punhal sobre
o teu nome
leva teu pássaro ao aprisco de trevas onde pastoreia o ontem
se és em deslembrada luz enreda-te nos fios de tua carne até que o sim te sangre e imponha à lâmpada passante uma fronteira guardada por lobas assassinas
que se lançam à presa,espumantes de fúria, e gritam:HORAS, este é o nosso nome
as margens da tua hora
inicia-se o pássaro na geografia do teu exílio
varandas lentas lentas ampulhetas transferem ao sol o mormaço
de tuas colunas brancas (nuvens) ainda inescritas
a que o mar intercala um parágrafo
(um cálice vertical recolhe os despojos de tua sombra)
os anjos da tua hora
amplas cortinas de cânticos se enroscam nas colunas alísias
e o corcel clarinante conduz o Semblante com seu estandarte encarnado
tu, pedra, tu, palavra romã, palavra hortaliça
teu são estes gestos do som, encurvadas escalas, cromáticos imãs
que conduzem as manhãs para os campos do Emblema -
Em que poema guardaste estes ventos de ontem?
um barco sem rimas faz e refaz sua rota mastigando o ferro do astrolábio
para se inscrever exata a sombra revoga a latitude da cor
agora, é a ausência que relata:
eras de medo e de dor e de extremada ira se abateram sobre a frase dita ontem e o Trono engoliu os prodígios dos mares - deixa teu nome nesta hóstia de sangue até que o tempo apague os vulcões do sol
são da mesma natureza de cristal cavalo e cavaleiro / íntimos esplendores/ resplandecentes vigas de ar incandescente /vermelho rubro encarnado /pulsam nos teus peitos /o ar galopa agarrado às tuas crinas/ O OLHO DEVORA A LOBA que interdita a manhã
vagamente
lenta
a rima colhe a romã
agora, é o navio que relata:
testemunho com meus ferros os mares de âncoras, peixes e marinheiros e a linha que sincroniza as palavras que te dizem com o hálito que te faz ser.
Foi branco e azul o relato. A manhã também foi branca e azul. A bússola escolhe um rumo errático. Latitudes e longitudes e astros e ventanias e espumas e tripartido dia. Tudo pode ser.
a catedral da tua hora
(em junho)
-águas desenluaradas
-norte em sangue
-espelho em luz vitral
-ventoArdente
-cajado cravado no ventre da ovelha
............solo
luna ausente
pandeiros frios
ressoa uma luz polar ali onde
então se vê os lábios da pedra
dulcíssimo harpejo
crava o teu medo na Fera
(junho)
já são dias os punhais
a navalha está ferida na retina
beija os teus mansos panos
e vai buscar o rastro da montanha
em (dezembro) o eclipse elide a luz
a partir de então o (junho) desse ano será somente teu como palavra sussurrada num útero sem Luna
a Loba está atenta
à dicção dos cristais
as vestes da tua hora
eras limo
torturado em ardente (junho)
as sílabas concêntricas do teu verde
diziam vestígios azuis
torre fincada em prata - o teu navio
se banhava em algas e corais vadios cantavam um ditirambo
ao que reluz (inventário das águas)
a Loba desaba a pata sobre o rastro da Luna
e só nos deixa o poema como pátria sem lagos
ou porta sem quintais ou árvore sem ar
........................ou, ainda, éramos ontem
Por que com azuis, vermelhos, verdes, amarelos, roxos, incendiamos as águas da retina?
sabe, então, que a palavra que te rima se perdeu entre ventos e jamais encontrou a ilha que mirava nos mapas de tuas veias
ensina este naufrágio ao teu mar
os olhos da tua hora
coluna branca de mármore llena
vergôntea de ausência brotando da ruína
ali sentado, Loba aos seus pés, Logos mirava
luna llena
e por dizer-te erguia pálidas sílabas
e narrava-te em Semblante e Emblema
o uivo da Loba escorria-lhe por entre os dedos das mãos
em sua gruta de cristal a taça guarda o poema
o teu
clarivários acordes en noche de luna llena
manhã desguardada irrompe em lumbre pleno
sentir
saber do sol como anátema - a voz dita o teu rumo em ecos
a Loba, num estuário escrito, esconde o teu tema na concha da língua
Logos espreita a digestão do teu nome
mas, éramos ainda
a Tocha, que já não te vê, impõe silêncio às tuas retinas
é de aço esse querer
é de chuva a água clareada que olhos te diz ser
o livro da tua hora
eram horas esguias
(em rígido contraponto os metais do relógio coagulavam, gota a gota, o sono do dia)
antigos presságios da Presença esbatiam o mapa do Nome
o Ontem desenhava sua capitular em águas salinas distantes
ainda éramos sós
os fachos se postavam à distância e nos seduziam
(íamos)
até onde era impossível estar - os luzeiros sempre nos precediam
Portal Obscuro confundia os signos que já não atendiam pelos nomes
furacões eram os fogos que desnomeavam flores e pedras
até que não mais sabíamos
soubéramos, antes,
no capítulo que trata das transformações havia um Comando Vazio
esplêndidas massas de ar se moviam entre as linhas do Texto
em que duas cores, alternadamente, prevaleciam sobre o branco -
a Loba, saciada, nos negava a guerra
estávamos em terra de naufrágio - Pássaro e Estrela a Arca recolhia
ainda éramos ontem
e já não havia porta por onde o mar nos mirasse
Cronos tenta a Loba com a Fome - mas os seus pelos se mantêm em repouso,
o mar em morta maresia, o corpo em declive deságua nos arrecifes - único Sol
sol bastante eternamente isento de Lunas frias
agora já não íamos
tua Face reluzia até onde te pôde ver o Facho de Luz
em glissandos o teu nome se perdia de Ti -
subitamente fez-se uma tarde em que o Pássaro morria
já não era teu o fulgor das pupilas, aquele que se compraz em prantos
o ontem anunciava nascer
o porto da tua hora
em teu vértice se arrima mar de espuma rija
águas íntimas te espreitam do abismo - Olho mira -
peles de alga doce mansa desbastam a arquitetura do pó
a tarde, viva em suas brasas, deita tintas sobre a lã de planícies e colinas
já pode ser amanhã
ensina a Luz às pedras ressentidas -------- o Calor abriga o Sono da loba
místicas mágicas tracejam a Dor - ainda hoje - a hora aflita
Desejo convoca o Pássaro ao pátio das Nuvens -
vindo tão somente de ti a Voz, não mais querer, somente Luna iminente,
canta em Tímbales Sinos Corais Pandeiros plenas notas verdes - Agonia
diz ao Outro que se cale. A tua cor se esvai em sangue.
o porto da tua nave já não mais é ontem.
É luz. É dia.
Terra sem sombras. A Loba, exânime, fecha os olhos e faz de suas trevas elegia.
Pandeiros, tímbales, luzeiros, te consagram o Hoje.
Mar de cinzas. Maré morta. Maresia.
o poema da tua hora
estavas em mar
lâminas pedras Tu descrente de trevas Loba pagã
e eras miríades de búzios ou ervas negras em desmanhã
e eras como o suor da lâmina adormecida em pedras
teu hálito chove a montanha - sol palustre desardente pupila
vazio ocidente - eras, agora, o fio da água na avelã
eras água fios de pedras miríades de olhos ressurgidos
de sonos vãos. Infla teus panos de manhã.
Eras em mar. O teu olho ainda crê na ressurreição do sono.
olha-Te o espelho (lago+vidro)
olha-Te o vitral (olho+vidro)
olha-te a estupenda Carcaça (logos+vidro)
a Loba distende os ombros e lambe os lábios do sol
Vê agora com que alívio o Pássaro se desprende dessa manhã
eras mitodália vindo dos gelos da Luna eras mitosal em límpido esplendor de águas notívagas
eras Grito arrebentando o teu sangue vivo eras a nascente dos ventos madrugada lívida Espectro astral eras como só se é em Ti
Dizer, intercalando silêncios e sílabas, é dizer-Te
poema descarnado a que Memória aleita e envolve em ruínas
a lenda da tua hora
infinitas esferas caminhantes, cegas candeias em mar de leite negro
lá, onde morrem todas as horas, a Loba acorda inconstelada
florado olhar, imarcescível pelo
ali Tua voz se ouve límpida lâmpada álgida
vaticinando a Queda, quando ontem éramos,
e Diz como abóbada, de Cronos inabitada,
há-de impor fronteiras à escala cromática do Medo
Trono firmado entre nações de Pássaros e Pássaros
a mão direita erguida, a mão esquerda abaixada
apontam ambas o fragor do mesmo abismo
tremem asas na esplêndida redoma sem ventos
tremem asas
uma Sentença harpejo descendente se declara
tremem asas até o esplendor do grito
agora a Loba relata de uma trincheira em brasas:
não vi mais Teu ontem sob águas e asas
duras fragas alcançam-me o Olhar
a tua sombra se esconde sob o cardume tardio das nuvens
não vejo mais os clamores de tuas palavras
sal nos meus olhos é vestígio do teu mar
o roteiro da tua hora
lago embriagado em cinzas assinala a rota do Teu pátio
de onde a hora se esquiva
Loba
amantíssima
te
restitui
o
linho
da
manhã.
ásperas névoas pairam sobre as vozes da cantata
ária
da
hora
iminente
em pausa de espumas o mar invade o Teu nome
o
pássaro
rasga
a
pele
do
dia
águas pesadas pedras carnívoras espelho esplêndido - Teus
a consagração da tua hora
a Loba traz para o Teu átrio a palavra alazão;
músculos nulos de cansaços, olhos em aço, sombras em não.
sim clarente límpido sim presente
em Tuas vestes clarínias
polo acendido em crateras claras, videntes vates do sim
em Ti, somente em Ti, resplandecente jorro faz tarde e manhã
nas primícias da tua hora - verdegelo estelamar de leite cariciante
sim
altares reluzentes oráculos sim frementes guizos
nervos novos reluzentes chuva gelada cantiga sim
de Ti somente há-de vir árvores amaciadas
lã.
depois de entrever Tua luz entre claro e claro
ser
ser só depois de Te ver clarim esplêndido
deixa passar Tua água pela palavra hortelã para que o verdeclaro desta hora seja Pássaro Lago Estrela Sim amanhã
o caos da tua hora
vizinha em morrer urgente a Loba estaca sobre a palavra
átona
que Diz em trêmulo ser sempre ser=========desfaço
=====================================faço
====================================refaço
foi ontem
havíamos de ser
microesplende orvalho matina
em volutas sobre o chão desaba Tua crina
cala a Voz, esmaga a língua================relato
a palavra tilápia desce em prata sobre o corpo do rio
longe ainda ao nascer me trago extremas campânulas
(revogadas as palavras florais restam pétalas duras ferinas)
o EnteQueVêOEu cruza as patas e vigia de espaço em espaço
entre sol e mar, lunavírgula
zune o aço do prato / anda ainda a ver
monólogo da tua hora
a Veste ouviu do teu Corpo o seguinte relato:
entre nós os suores corriam inacessíveis brisas te trazia ao calor do teu lã nem o que me dizias de carne eram profetas litanias sem fim e entre o máximo espelho da mirada em que toda a tarde se diluía eras, sim, a fonte de onde provinha a Semelhança que há em Mim
desabam outras grutas explodem lúminas pedras olhos olhares e não vias que Aquilo que estava entre Si era carne em verdade e símbolos para uma poesia que querias em Ti
das palavras de peixes as tilápias eram agrado e mais um som em A soprava sobre a febre em pele viva irmos assim em vida até que o colapso lunar decida entre Ti e Outro
sim Te ouvi pelos poros e nos nós dos meus tecidos ficou de Ti um vestígio que agito em (maio) quando ainda eras por vir
alarga-te em Mim cresce no céu desnublado Pássaro; a luna escassa não te diz o Sim grita o teu nome no aço - terra lenta conduz o teu Sono
a lágrima vem de Mim
as veias da tua hora
do Pouso o Pássaro relata:
águas conflagradas se miram entre trovões
e o vinho morto e o grão do vento leste
adiam a sombra da Efígie sobre a pedra quente
os Olhos em rota de colisão
estás
entre flores de nervos a mandíbula da Loba se escancara
e dilacera o sim que vestes sobre tuas vestes
o pano adia a luz da tua pele até que o não
até que o não anule o Teu prodígio que se diz:
floradas. Lentíssimas águas. Vapores oblíquos esplendores Sobre Ti
mas
rebanhos se perdem nos longes da mirada
luna amarga invade o Pátio em Teu nome e fere o vértice do telhado
eras em mar
calada luna inunda as veias da Palavra
exato agora é o Não
em Ti uma nuvem se rompe exato Não
talvez inda queiras vir, lâmpada de sal, lâmina florada
as nuvens da tua hora
e seguiu-se um relato de chuvas e de nuvens antigas
e de suas sombras erguidas sobre as torres dos sinos
dia imenso
ontem
ventos maciços empunhavam a lâmpada sobre mastros oscilantes
era assim
e assim os Olhos inundados de brilhos diziam sim ao aço
a Loba fincava as garras no limiar das horas
era assim
aí então já se podia ver a Dama Antiga e o Cavalheiro Antigo
em gesto clássico de gaivota
no baile daquelas lunas tardias
os marinheiros sopravam as mãos
gementes dias
era assim
assim se ia ao mar
as mãos inda vazias
esplêndida luna exata
exata luna esplêndida
daqueles dias
os ares da tua hora
lentíssimas avencas
(respiram) águas.
À flor das águas o gume do navio
ondas.................................................dálias
lentas.................................................águas
+ um lírio
afogado em sal
dia de tarde cheia
(ontem ouviu-se o corte da lâmina
no leito do vidro
quando a palavra louça se ofereceu a Ti num turíbulo incendiado,
quando o pássaro disse Sim com o gume de suas asas
e o lã de suas penas molhadas,
quando era já tarde cheia, luna plena, ..................quase setembro)
o machado afia o seu gume no gume da água
lentíssimo gelo alarga o branco lã.
ontem Memória envolveu seu relato em transparente véu
e assim o dito restou exato em cada sílaba
e nos ares sibilantes de suas flautas
o Sim resvalou em fuga cromática
e se prendeu nos acordes incertos
que se tresmalhavam já na fronteira do silêncio
antes eras em mar
e no remanso da página a palavra pensa e extrai as palavras que se cravam na pele do poema
ao dizeres Pássaro
alteia a voz nas palavras dos olhos e das asas
e diz, com o acento mais dramático,
do abismo que se mede entre o Pouso e o Alto
e convoca palavras ferozes para dizer o grito de amanhecer
e todas as palavras que não digam coisas como água e pedra
afasta-as de Ti.
memórias da tua hora
ontem
a louça da manhã
memórias em nuvem
a carne viva do pão
ontem
a espada incerta do seu aço
o gume em brilhos prolongados sobre o dorso das tábuas
relógios imodulados
ontem era vasta a ferida que ardia no sol sem ventos
ontem era estávamos
éramos ontem
uma luz sem memória se estilhaçava contra o muro de pedras - enlaçada -
em heras a Loba, pintada num pano de linho
na Loba era sangue em sangue em clorofila de sangue
na carne viva da árvore a palavra tanino
navegávamos ontem distantes
éramos em mar e navegávamos
ontem era distante e navegávamos entre destroços florais do meio-dia
em luz a lenda se avivava - éramos ontem - dizia-se em touros
adormecidos entre pétalas de vidro
(a parola templária e a parola engaste vinhas ouví-Las das próprias esmeraldas)
eram assim aqueles dias
e assim eram dias veludos de luz amaciada
e assim eram os ditos daqueles dias máximos esplendentes
naqueles tempos não havia em nada um certo sentido
para cada coisa a sua palavra magra
para cada ritmo o seu compasso estreito
palavras eram velas no mastro - cada uma ao seu vento
e quando a noite dura dedilhávamos
(estávamos ainda em mar)
a cada mar correspondia um só intento
o lã da tua hora
a Tua palavra disse ontem o Teu nome
e com o lã das penas do Teu pássaro migrou para um parágrafo distante
Olhos que não diziam ser ouviram oTeu relato
uma balada antiga
cantava a saga do Teu pássaro
o mar deteve a ponte que conduzia em incensos o teu Nome
e ocultou em sargaços a luz que te Dizia dia
antes
a redoma calava-se entre gritos
Loba lã dissemos nesse imenso dia
o mastro do navio rasga a redoma - imenso ontem - e expõe as traves do dia
fomos em éramos
somos em ontem
Loba lã em águas vivas dizíamos
as lâminas da tua hora
extrema nau mastreada
(em gramas o tombadilho)
imersa na luz molhada
nau extrema mastreada
travado o leme, o dia feroz navega por entre estridentes brilhos
a Loba tritura os ossos da água e dilacera-lhe os nervos com os dentes incisivos
até que o sangue, também água, ou rubro nome floral
até que o sangue interceda pela verde alva
e o sudário das pedras desmorone
até que o Nome Sim Te Sangre sobre um planalto de algas
até que as veias se arrebentem e deixem verter o Teu nome inteiro
e único
como corpo vivo
vivas explodem em lâminas as ondas assinaladas pelo EnteQueOlha
ofuscada pelos gritos das gaivotas, Memória conta e reconta as suas sagas
mas Cronos já não as vê, surdo pelo turbilhão das asas
anátema
Memória narra a sua última saga
depois o Não é soledade e chaga
depois O não é o Pelicano que voa e pousa entre vidros agonizantes
extrema nau mastreada
extremo ontem
a grama dissolve o Mapa que Te sabia o nome
Memória exala o extremo relato que Te dizia
és
imenso éramos sobe em fumo dos teus pés e te anula o Lã
a faca da tua hora
ei
a tua túnica descarnada
ei
a tua túnica que vive por sob a faca
ei
em pétalas a tua túnica descarnada
branca é a dor na tua túnica por sob a faca
o céu em tua túnica tem vidraças
e sob o céu um bosque de ramagens
Memória, andando à esmo, pisou nas ramagens de tua túnica de linho
falésias
andando entre mar e mar Memória escolhe à esmo um nome para o brilho pesado do teu olhar
esta faca jugular de madrugada faz medo
esta lâmina regular canta um motete com o aço do seu fio
ei
Memória dança descalça e faz voar os cabelos
duro é o nome pesado do teu olhar
o teu nome em tua Faca é cavalo-estrela-do-mar
a tua faca de aço é sargaço com brilho
vive
agora
canto cerimonial de visitação à tua hora
urnas de luz em ar transfiguradas
sal evocado em flautas, mar em Semblante de ecos
canto o fio da navalha que se intercala no Sim
imenso Ontem predador da Tua agora
a pele devastada em trevas acende sílabas às margens da Tua hora
já Te vejo refletir nos vidros incruentos deste vento
o mar de signos reflue na quilha da tua pele
e escava o Lã dos Teus verdes
imenso Agora lejano - Tua manhã esplêndida És,sim.
extrema madrugada faz do meu Vejo-te um cálice vibrando entre silêncios
II
trago três palavras ao Teu país somente: lejano
ontem
agora
e mais três ícones extremos: montanha
rio
hora
deixo-te mar como Emblema calado além da porta do Teu ontem
e deixo-te o Ontem como Semblante de suas águas carnosas
a Tua Loba, em asas do Teu Pássaro, sobe ao mirante dos tempos
e nubla os olhos de dor sobre o mapa do Teu nome
AGORA
III
máximo
aço
sangra
o dorso
do sol
em compasso
¾
máxima
luna
ferida
máxima
luna
crescente
¼
esplende
em Ti
o
EnteQueSente
o
teu
nome
roça
a pele
de
tua mão
IV
o EnteAgora, indivisível do teu Ontem,
nasce e morre tantas vezes quanto os átomos de tua hora consentem
és em pedra que o ar colhe e consome
e já então és sopro dentro do ventre da flauta que Te vocaliza o nome
posso, então, refazer com sopros a arquitetura de tua sombra
deitada sobre agora
e Tua saga recontá-la em Sinos iminentes
em onde Te guardo, imenso nome,
que até aos vulcões das estrelas sejas imune?
V
Levo à soleira de TeuÉs as palavras de mares, lunas, árvores, terra e de ventos
e construo uma paisagem noturna em canto de oboés
a que a palavra gesto dá rítmico movimento
levo-te a ladainha das chuvas, das flores e das frutas
levo-te a Loba, enfim,
mesmo assim o TeuÉs se detém numa fronteira de vidros
Vejo-te VitralEnteQueÉs
e com timbales e pandeiros chamo-Te pelo Sim do teu nome
lentíssimas areias brancas cravam tua Sombra no deserto
VI
Memória refaz o seu relato:
ímpia de sombra a planície do sol se anuncia
e a água lava em seu remanso a sombra das folhas deste dia
com ventos sem nome e sem ninfas a noite faz e refaz seu traço
ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia
reconta-se o mito em vagas incessantes de memória
a tarde, suspensa, modela a mesma hora
consorciados em sua rosa os ventos encenam calmarias
ainda depois se ouvirá o clamor do Pássaro
que enlouquece de dor e, na vidraça do horizonte, fere suas asas
o relógio, dividido em fatias, diz as horas e não diz do sal
a Loba, exânime, faz das trevas elegia
um cálice vertical recolhe os despojos de tua sombra
amplas cortinas de cânticos se enroscam nas colunas alísias
ressoa uma luz polar ali onde então se vê os lábios da pedra
torre fincada em prata - o Teu navio
no baile daquelas lunas tardias
- a palavra tilápia desce em prata sobre o corpo do rio
- o Sim grita o Teu nome no aço
- os rebanhos se perdem nos longes da mirada
lentíssimas avencas respiram águas
eram assim aqueles dias
uma balada antiga canta a saga do Teu pássaro
o Teu navio navega feroz por entre brilhos estridentes
vive
VII
Na fronteira do Ontem a Loba refaz o seu relato:
imenso é o Dia Agora
imenso o Vitral que talha em cristal o Teu És tremendo
imenso o Vinagre da fome de ser em Ti
toma o Sal dos meus olhos e desenha o lã de Tua pele linho
entre Ontem e Agora
Portal de ébano que se diz
Portal de nada
lâmina de água entre o és e o seu pretérito
se vieres agora serei Tua voz no pátio da luna
........................................................................aguarda, implora
e farei para Ti um sangue de vinhos
e de um pão mergulhado na saliva da lenta madrugada
te farei um corpo com suores
.........................................................................agora
sou Lobalã, Lobalinho, extremo Nome do Teu Nome
vive de minhas águas
escuto
então
o não
VIII
o Pássaro acorda entre pandeiros
e canta um triunfo para o sol esplêndido sol exato
a montanha ergue o Teu tema com os punhos cerrados
pratos, vastos timbales, zinco, fulgurações de astros
lâmina clara de luna
e Tu, erguendo-Te por sobre o gume das ondas
cantas o Nome, o Sim, o Aço
dança o Teu Pássaro nos vidros desnublados da Tua manhã
vive, esplêndido Nome exato
a Loba e o Pássaro levam ao teu Agora a hóstia inflamada do sol
para que tragas a Tua carne para dentro do meu nome
aqui há ventos e vinhos embriagados no lã da tua hora
vive a Tua Agora
o Teu poema se cala
em silêncio o Teu pássaro inclina as asas, invoca a rota dos teus Olhos e pousa no Teu Nome.
fim do livro das árias e das horas