PAPO FURADO by Jairo Lima
PAPO SOLTOMEU PERFILJAIRO LINKSMANDE BRONCA


Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Fábulas pós-modernas
Versos a granel


Livro das árias e das horas (poesia)

jairo lima

livro das árias e das horas & pequeno livro das nuvens

Não é doutro modo, senão dizendo, que crias: todavia as criaturas criadas por tua palavra não chegam à existência todas ao mesmo tempo nem de toda a eternidade.

"As Confissões" - Santo Agostinho

para

jairo joão lirêda lúcia mário hélio neide pietro yerma

recife, 95,96

 

 árias

...

ímpia de sombra a planície do sol se anuncia ao relógio da tarde

e expectantes acordes de cobre se recolhem aos desvãos mais escuros do dia

o vento invoca os profetas do sono

o sal talha seus pórticos que um verde responso salmodia

ainda e ainda é tarde ainda e ainda é dia

diz a luz de flores explodidas em vi-gí-li-as

nesse tempo sem ti o branco sem ritmo é fratura exposta da vida

vejo-te viva em clarins sem saudade

e assim como te vi entrar inconvidada por sob os lençóis da noite

assim te vejo em seiva cósmica de lavas contemplar

a gênese do nada

e percorrer com um olhar cansado o medo

ainda neste dia ainda nesta hora ainda anunciada ainda neste dia

vejo-te ainda e te vejo sempre ainda como coisa incriada

como animal dessangrado ao relevo das pedras

o que te vejo é portal de ébano e diz-se assim

portal de nada

é aço coagulado vagando a nado pelas trevas apaziguadas

o teu ser é contraste entre mim e o meu medo






...



pássaros insones inscrevem suas órbitas no espelho

da tarde

a água lava em seu remanso a sombra das folhas

deste dia

e por dizer-te em vértices de telhados digo-te tanto

proclamo-te

no sangue inaugural do sol com seus turíbulos de

espanto

menos que sombra de ti é o signo profano que

te anuncia

no mais são vestes de nuvens e olhos místicos

que se aninham no côncavo das vogais cantantes

e pronunciam esta tarde o teu nome (dizer-te é here-

sia)

salmos cantos volutas litanias

um poema ainda não dito espreita a tua voz

para arrebatar-te o silêncio e tecer em torno do

teu corpo uma parábola de gritos




...

em lento marulho a espuma se enrodilha e arde no seu mormaço de prata

claras visões são mastros à espreita do mais leve sinal de cansaço no dorso das ondas

e desta forma se sabe mar o mar força e arco

em parágrafo azul se escreve onda e mar fogo e navio

marulhos se inscrevem em verdes parágrafos

com ventos sem nome e sem ninfas a noite faz e refaz o seu traço

altas e majestosas eram as damas do azul marinho

incertas entre o destino de ser mar e de ser astro

horas assim são torres de mármore ou capitéis de vidro ou arcos crucificados no azul

claro

de repente a varanda do dia consorcia minutos e vigílias e vácuo e ébano e carvalho

lentas e luminosas fontes sal da quilha se despedem

vão e vão atrás do sinal que se esconde atrás da lanterna que se esconde atrás da popa

o navio surge impetuoso em vigas de ferro e aço

e o crime se proclama em longitudes e latitudes como se fora um peixe sem sombra

denso mormaço

vagarosos turbilhões de estrelas estalam em suas roldanas de puro cansaço

é noite ainda e assim - noite - é o dia

que inventa os aviões e os carros entre as casas gementes

e a água que se infiltra nos rebocos é água em maresia

verdejante alfombra de cerâmica fria se fecha em planos horizontais entre mormaço e mormaço

ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia



...

ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia

eras quando palmeiras virgens de postais diziam coisas de ver e seguir-se

eras quando coisas de ver

via-se então além das cercanias do ser que és

varrendo

da memória

a retina

que fixa e amplia o és

mesmo que o seja sejam rajadas e o som

mesmo quem és em ser

não saber a que vem o suor da brasa que crepita

ao som da flauta ímpia jornada de pedras e urzes em brasa

e eram casas ante casas e casas anátema de casa

a distância azulejava o cume que no horizonte era linha divisória de água e água em terra firme e velada nostalgia de pintassilgos e pardais

eras como se é não sendo eras guia eras astro eras mãos vazias que se estendiam sobre

na cidade talhadas grossas de aço

erguiam o universo ofuscante de lâmpadas que incandesciam e espoucavam

de quando em quando

de vez em vez

menos se era dia quando só brilhos emplastrados de fulgurações acordavam quando

ventanias de chuva e água e água e água

como para que os peixes sem sombra tanto

de um pérfido sentir azedado infame e infamado

corte o caule do templo e exponha as raízes profanas

até que de noite seja o dia da ira

infernal

e não mais saber que eras é apartar-me do teu és

vem de longe a mancha que anuncia

a luna traz um crime em seu branco nome

vem te ver se és e traze o lume verde em fagulhas de verde em fulgor de verde

vem te ver antes que os montes desabem sobre o teu nome que é

és em nome



para que em teu nome se possa dizer ainda

és

mesmo que sejas no eclipse da sílaba mais clara que te pronuncia.



anda ainda a ver a varanda generosa do sim

nela podes ser pois a ela não importa que sejas em carne ou em som de sílabas

há um acorde suspenso sobre a tua sombra

sete notas de uma escala em ordem insana dizem sim ao teu nome

agora o tempo se enrosca em teu cabelo e te arrebata o nome

és sim

agora sei o teu nome e sei da gruta onde tremente pende o teu nome

o teu nome é sim

sim és em teu nome

as nuvens suspendem suas águas sobre a sílaba mais clara do teu nome

não sabe ainda te dizer a montanha nem o rio que desce e contorna a montanha

mas a luz, a luz te diz o nome sim

agora te sei és sim

o olho que te vê benigna retina dourada

cordas retesadas em salto de felino

tu és vista em és em clave exata

sonata

ou fuga insolente das pedras martirizadas

tudo te sabes ser em és e em sim.




...



a cor da luz em indulgente liturgia acende prismas de cristal e alumia a porta

entreaberta

que introduz aos prados do vento

lá dentro um ídolo ancestral habita

jejuno de sol sua face de jade se faz descolorida

reconta-se o mito em vagas incessantes de memória aflita

e se reconstrói a história de quem habita entre ontem e ontem uma manhã benigna

assim o tempo lavra o seu campo de plantio

a água em carne viva em suntuoso arquejo respira delirante e devora partículas consagradas ao medo

e uma voz de sal enclausurada em diamante recita versos minerais

ao ouvido das sombras prolongadas sobre a pele da terra envidraçada em marrom silêncio

há uma Voz que prescreve andamento e canção à coreografia dos nervos





a palavra


inesperado corte na carne do invisível se faz de dálias dormentes em

visceral

mente se expõe ao ritmo surdo da rima

rios em naipes de madeira e pedras vigílias

articulados entes cegos em mira de trompas

velado acorde em cantaria de fino lavor

infinitas

eqüidistantes

obras primiciais em ouro tom

palato e língua

vem e se está em planalto de nuvens.

um dia a obra acorda a um gesto demiurgo e se faz superfície líquida e corrente de luz em som que se prolonga em trinos concertados de cravos veneráveis que se afundam na película mais azul da luz.

palavra é pintura e hálito

carne em vento é palavra e pode ser tanto ou como ou alfinete cristal robalo

em infusão no pântano dos significados

estabelecida em tons lunares solares ou estelares

assim elas podem ser ocasos

ou irem ao encontro do inexprimível impacto

que dá músculo sangue e nervo ao vento

se quando é noite





os gatos



harpejam-se dorsos

à imponente cerimônia do tato

órbitas de líquida luz esculpem ogiva no espaço

tímbales poderosos marcam a cadência solene do passo

contraindo os seus músculos siderais gira a esfera azul sob o gato

que espreita os ponteiros - o tempo é sua caça

e com garras de jade se incrusta no dia

em si mesmo ídolo altar e pedra isenta-se da sombra

e se proclama na nudez calada que antecede o seu nome

as luas contemplam absortas a graça de sua luz

e suspendem suas marés e ventanias enquanto ele passa

depois do último luzeiro fica o seu rastro

dança em aço assim diz a canção que descreve o seu nome

plenos de si como sóis imersos em sangue

alongam o gesto que os faz ser gatos

aos seus pés o tempo geme, dominado

não são jardins nem mirantes nem alegres cercanias

são pedras que rompem e desviam o leito das horas

são o desvio

o olhar que os encontra enche-se de sabedoria ao ler sua escritura profana




a casa



negro silêncio

guarda as salas

abóbadas inazuis confinam a sombra

que geometricamente talha a pausa entre gritos de luz

mortalha

a que o fagote dá cor

retalhos de sol pendem coagulados de portas e janelas

e os armários inscrevem sacrários para o sono dos panos

(dentro esvoaça um pássaro acordado)

na casa a voz mais alta é marromdourado

há um céu de candeias que inala luz

quando a hora exala a noite para dentro dos seus muros

e no mais recôndito do escuro

a casa respira os seus vãos

solar, sólido, soledade

pedras e madeiras, em ritmo binário,dançam antigo esplendor

ao som cor de parto

às três da manhã o sol ainda é improvável.





lúcia neuenschwander





um mar gótico com pele de algas pálidas

diz, em vislumbre de hera,

de um olhar que se abisma em coisas de entorno

entre paredes de cal viva o seu halo de casa

cordeiros de luz que vestis vossas vestes de gala

logo depois do seu espaço é o espaço da casa

e além dele a fronteira do mundo

linha vertical que o sol escala

cordeiros de sangue que agonizais em gume de espada

brancos vestígios brandos de ontem

se intercalam entre réstias de fala

a palavra procura o rio e se confunde com suas águas

imersa é a palavra que se cala

até que se acendam os luzeiros benedictus

que enlouquecem os sinos (nada se dirá até que o sinal que sabes nos advirta de que vens)e é chegada

nasces tantas vezes quantas sejam as

horas

horas de hera, horas de sal, horas de mordaça

empunhando vitoriosas tuas mãos sobre o telhado da casa

gótica é a linha que se traça no retângulo do dia para que a noite possa ter portas e o silêncio encontre o seu bronze num poente em brasa.





horas



soneto da tua hora





brancas tuas horas se intercalam

entre notas de cravo cindindo a melodia

do é que em ti se abisma e se declara

imponente fachada de impossível alvenaria

brandem brancas brisas e te consagram

o sangue

um veio de lava escorre da montanha e se faz rio

teu é este vento rude e a desolação de trompas soterradas

teu é este estar em ti luzeiro sem alvorada

e este leão que se mata diante do sol

teu é o estandarte em grinaldas

agora repõe teus átomos

em ordem clássica

em tempo de sonata - eis a tua hora (agora e sempre)






sonata da tua hora





seja agora

longe ao norte te vê um claustro de margaridas em pétalas

aqui te vê uma semínima na tangente de um compasso

largas calmarias se intercalam entre colunas de alísios

os violinos em larga calmaria se despedaçam na luz

fagotes trêmulos recitam poemas sem carne ainda

e o coro dos metais sidéreos desenha melismas entre o cristal e a retina

o olho respira a luz e vê -

vê sem cuidados a sombra que, ao norte, se estende além do claustro

e a flauta afiada que rasga um vocalise nos músculos do poema

para que a água, que te faz olhos, se faça tema

um oboé impede o pouso do pássaro

a tarde, suspensa, modela a mesma hora

até que o dia lembre da noite como uma antiga narrativa

a que se cravaram ferros em cada sílaba

- o ontem, imóvel, esquece o gesto que faz passar a vida





quarteto da tua hora





cravelhas retesam quatro ventos sobre o mapa da hora

e um compasso cinzalento ralenta a nave que se vê no brilho do seu espelho

dança-se a espera do momento

que há-de ser dito em partitura de mármore, prata e vinho

um Fá sustenido em pedras ara o dorso do deserto

(quem viu teus átomos esvoaçarem livres sem alma antes de ti avencas, minerais, floradas, cobre, barro, pena, sentiu teu alento insinuar-se entre o sol e sua clave entre a Luna e o seu arco entre o dicionário e o poema)

um livro antigo agoniza entre uma dama e um cavalheiro

esconde o teu país na palavra somente para que não o vejam os astros e dele só se escute o nome somente e a melodia somente e ao meio-dia somente deixa que tua sombra emane do teu corpo e se crave rígida na pedra em que pisas sem arbustos nem serpentes - deixa que o teu clavicórdio murmure pétalas.

Somente.

o ar amanhece só veste os seus vidros e se põe em calma a desbastar os montes e cavar os rios

vem ainda amanhã





as águas da tua hora





clara senhora

atenta aos cristais que eriçam espumas

no torso oblíquo das marés encarnadas em lumbre

clara senhora

consorciados em sua rosa os ventos encenam calmarias

geométricos nadas

senhora clara

que das águas a faca aguda alumiada espia da amurada e circunda

os ferros da ampulheta cravada nos temas que ainda não são palavras

senhora clara

ali onde as lobas bebem o rio e os ciganos afundam os seus cantis

ali é o longe e, depois dali, a planície dormente das dálias

ali a água arqueja o dorso e salta sobre telhados em febre que colhem, queimam e explodem as águas

névoas se fazem nuvens, que se fazem teto, que se fazem água

clara senhora os teus olhos a fria água navalha

lendas de águas vivas afogam tua cintura - vaga após vaga -




os cavaleiros da tua hora





há-de vir o primeiro em esporas de prata dizer-te o sal

em seu elmo o trigo acena de sua haste e o seu tropel é medonho

ondas e corais se despedaçam sob os trovões do seu cavalo

o outro há-de vir incerto de sua fúria

este traz flautas em sua aljava e um ramo de algas no cabelo

hás-de vê-lo à tarde se interpondo entre ti e o teu medo

o terceiro, em vestes talares, te entregará um templo de mármore

onde um sacrário vela um espelho

atenta aos sinais dos teus cavaleiros verás em teu corpo um signo de horas

e mecanismos roldanas de carne e brilho sem teto

hoje será agora em ossos e nervos pois já se pronunciou

jaz pronunciada

a derradeira palavra que te salva do indizível

árvore porta epístola janela madrugada silenciam na memória das eras

uma tocha de sangue arde no preto preto do seu lago fumegante

a mordaça já se estende sobre o acorde da cantata

dizer infame de pedra areia e estampido

outras são agora o sentir ser víscera nas entranhas do universo

estás acordada

vê, antes que o sol te arrebente os tímpanos, as notas em sua inelutável cadeia

estenderem-te os braços

o cobre o bronze estão exaustos

tudo pára a espera do teu gesto

já te preparas

a roupa o mote a ceia

ainda depois se ouvirá o clamor dos pássaros

antes que asas sejam labirintos


lembra-te

ainda

o verso?

o soneto, a sonata, o quarteto?

desde que baixaste pela madrugada a água te dedilha os cabelos

azulejos e rochas se desvanecem para que o ar recite os seus mistérios

que agora se ouvem

(há uma pausa entre o sim e o não)

o sol em ouro arrebata todas as auroras, assassina todas as manhãs

e impõe seu facho à noite e ao gelo da noite

Silêncio. Mataram as Horas. AGORA É SÓ.

Seja agora.

a liturgia se esqueceu do pão

Quando o fumo acre se dissipe haverá novamente o não

e os claustros cultivarão a rosa dos ventos - dia - tarde - noite - madrugada

não mais terão olhos e sim pétalas de prata em órbitas agitadas

pétalas de prata girando desgovernadas em suas órbitas de então

o olho

o não

quatro cavaleiros invadiram o teu reino e rasgaram as velas do teu navio e romperam os silos dos teus grãos e beberam os vinhos guardados em tua mais secreta metáfora e te expulsaram os rios

Agora é não.

chora a morte da tua hora mais sagrada

os ponteiros retorcidos agonizam

agora é não




o rio da tua hora





no princípio um som de vidros desenha no vale a caligrafia dos rios

pouco a pouco a Palavra alteia-se e ressoa na hora mais íntima da tarde

pedra e clamor é a respiração dos sinos

um fantasma incólume anuncia a tempestade

vastos panos de águas ondeantes encastelam-se em nuvens dessangradas

e lançam um desígnio fatídico sobre a hóstia do teu nome - profanada

(o pássaro enlouquece de dor e, na vidraça do horizonte, fere suas asas)

em cada marca dos teus pés no chão a água escreve a provisória saga

ventos vestígios evocam temas deslembrados em fuga sincopada

o mito devora o teu nome

cada sílaba se dissolve na lenta digestão dos signos

até que outros sentidos cravem pregos em tuas mãos

agora és não

a hora flutua sobre as cristas das águas




a casa da tua hora





casa dizíamos em címbales

e fazíamos deuses com o barro da horta

o teu pronome cantava em coro com os timbres das avencas

nós éramos, dizíamos, e a tua hora bania as traves do teto

e gritava ao espaço - sentíamos - era lá que a água adormecia em febre

lentamente o éramos esculpia as nossas caras

vastidões

de horas

graves

em cadência medida

vagavam minutos em torno do sabre

e assim o relógio, dividido em fatias

verdescuro, azulmarinho, vermelhocobre

dizia horas e não dizia do sal que havia nos dias

insolente flauta atraía as nuvens para o fogo da casa

assim fazíamos liturgias sem panos nem pães

até que o cansaço dissipasse os fumos ondeantes das vigias do sol

ríamos

éramos nós legião de fancaria que divertia os pequenos deuses morenos que habitavam o nosso redor

um espelho impiedoso contemplava a nossa alegria e nos guerreava com ginetes alados cavaleiros armados lanças afiadas que se abeiravam do nosso riso e diziam feridas e caminhos de pó




adagio molto e mesto da tua hora





lástima

a ampulheta já calou a voz que declinava o teu nome

os nervos crispados da infanta madrugada fazem tremer a terra isenta

da tua sombra



o halo de tua pele, interdito às retinas, alcança-o um verbo no pretérito

uma pedra na praia observa calada ... lentamente do verso desprende-se

uma rima

violoncelomar decanta o sal das águas e incrusta a esmeralda no ostensório desse dia



(a tarde) (a noite) (a madrugada) ----------- o dia----------- teu verso

ENFIM

já se vê, além do espelho, os músculos da montanha retesados

em mesa de nuvem o tempo devora Partículas de luz

não venhas mais que é hoje

é plena madrugada

é plena Luna

terra minguante deserto última palavra acorde verdescuro sangue transfigurado réstia revogada

não venhas mais que é hoje

os dentes da Luna cravaram-se no teu pelo

adagas navegam na órbita do teu sangue - o tema ergue o punhal sobre

o teu nome

leva teu pássaro ao aprisco de trevas onde pastoreia o ontem

se és em deslembrada luz enreda-te nos fios de tua carne até que o sim te sangre e imponha à lâmpada passante uma fronteira guardada por lobas assassinas

que se lançam à presa,espumantes de fúria, e gritam:HORAS, este é o nosso nome



as margens da tua hora



inicia-se o pássaro na geografia do teu exílio

varandas lentas lentas ampulhetas transferem ao sol o mormaço

de tuas colunas brancas (nuvens) ainda inescritas

a que o mar intercala um parágrafo

(um cálice vertical recolhe os despojos de tua sombra)




os anjos da tua hora





amplas cortinas de cânticos se enroscam nas colunas alísias

e o corcel clarinante conduz o Semblante com seu estandarte encarnado

tu, pedra, tu, palavra romã, palavra hortaliça

teu são estes gestos do som, encurvadas escalas, cromáticos imãs

que conduzem as manhãs para os campos do Emblema -

Em que poema guardaste estes ventos de ontem?

um barco sem rimas faz e refaz sua rota mastigando o ferro do astrolábio

para se inscrever exata a sombra revoga a latitude da cor

agora, é a ausência que relata:

eras de medo e de dor e de extremada ira se abateram sobre a frase dita ontem e o Trono engoliu os prodígios dos mares - deixa teu nome nesta hóstia de sangue até que o tempo apague os vulcões do sol

são da mesma natureza de cristal cavalo e cavaleiro / íntimos esplendores/ resplandecentes vigas de ar incandescente /vermelho rubro encarnado /pulsam nos teus peitos /o ar galopa agarrado às tuas crinas/ O OLHO DEVORA A LOBA que interdita a manhã

vagamente

lenta

a rima colhe a romã

agora, é o navio que relata:

testemunho com meus ferros os mares de âncoras, peixes e marinheiros e a linha que sincroniza as palavras que te dizem com o hálito que te faz ser.

Foi branco e azul o relato. A manhã também foi branca e azul. A bússola escolhe um rumo errático. Latitudes e longitudes e astros e ventanias e espumas e tripartido dia. Tudo pode ser.




a catedral da tua hora





(em junho)

-águas desenluaradas

-norte em sangue

-espelho em luz vitral

-ventoArdente

-cajado cravado no ventre da ovelha

............solo

luna ausente

pandeiros frios

ressoa uma luz polar ali onde

então se vê os lábios da pedra

dulcíssimo harpejo

crava o teu medo na Fera

(junho)

já são dias os punhais

a navalha está ferida na retina

beija os teus mansos panos

e vai buscar o rastro da montanha

em (dezembro) o eclipse elide a luz

a partir de então o (junho) desse ano será somente teu como palavra sussurrada num útero sem Luna

a Loba está atenta

à dicção dos cristais






as vestes da tua hora


eras limo

torturado em ardente (junho)

as sílabas concêntricas do teu verde

diziam vestígios azuis

torre fincada em prata - o teu navio

se banhava em algas e corais vadios cantavam um ditirambo

ao que reluz (inventário das águas)

a Loba desaba a pata sobre o rastro da Luna

e só nos deixa o poema como pátria sem lagos

ou porta sem quintais ou árvore sem ar

........................ou, ainda, éramos ontem

Por que com azuis, vermelhos, verdes, amarelos, roxos, incendiamos as águas da retina?

sabe, então, que a palavra que te rima se perdeu entre ventos e jamais encontrou a ilha que mirava nos mapas de tuas veias

ensina este naufrágio ao teu mar






os olhos da tua hora





coluna branca de mármore llena

vergôntea de ausência brotando da ruína

ali sentado, Loba aos seus pés, Logos mirava

luna llena

e por dizer-te erguia pálidas sílabas

e narrava-te em Semblante e Emblema

o uivo da Loba escorria-lhe por entre os dedos das mãos

em sua gruta de cristal a taça guarda o poema

o teu

clarivários acordes en noche de luna llena

manhã desguardada irrompe em lumbre pleno

sentir

saber do sol como anátema - a voz dita o teu rumo em ecos

a Loba, num estuário escrito, esconde o teu tema na concha da língua

Logos espreita a digestão do teu nome

mas, éramos ainda

a Tocha, que já não te vê, impõe silêncio às tuas retinas

é de aço esse querer

é de chuva a água clareada que olhos te diz ser





o livro da tua hora



eram horas esguias

(em rígido contraponto os metais do relógio coagulavam, gota a gota, o sono do dia)

antigos presságios da Presença esbatiam o mapa do Nome

o Ontem desenhava sua capitular em águas salinas distantes

ainda éramos sós

os fachos se postavam à distância e nos seduziam

(íamos)

até onde era impossível estar - os luzeiros sempre nos precediam

Portal Obscuro confundia os signos que já não atendiam pelos nomes

furacões eram os fogos que desnomeavam flores e pedras

até que não mais sabíamos

soubéramos, antes,

no capítulo que trata das transformações havia um Comando Vazio

esplêndidas massas de ar se moviam entre as linhas do Texto

em que duas cores, alternadamente, prevaleciam sobre o branco -

a Loba, saciada, nos negava a guerra

estávamos em terra de naufrágio - Pássaro e Estrela a Arca recolhia

ainda éramos ontem

e já não havia porta por onde o mar nos mirasse

Cronos tenta a Loba com a Fome - mas os seus pelos se mantêm em repouso,

o mar em morta maresia, o corpo em declive deságua nos arrecifes - único Sol

sol bastante eternamente isento de Lunas frias

agora já não íamos





tua Face reluzia até onde te pôde ver o Facho de Luz

em glissandos o teu nome se perdia de Ti -

subitamente fez-se uma tarde em que o Pássaro morria

já não era teu o fulgor das pupilas, aquele que se compraz em prantos

o ontem anunciava nascer




o porto da tua hora





em teu vértice se arrima mar de espuma rija

águas íntimas te espreitam do abismo - Olho mira -

peles de alga doce mansa desbastam a arquitetura do pó

a tarde, viva em suas brasas, deita tintas sobre a lã de planícies e colinas

já pode ser amanhã

ensina a Luz às pedras ressentidas -------- o Calor abriga o Sono da loba

místicas mágicas tracejam a Dor - ainda hoje - a hora aflita

Desejo convoca o Pássaro ao pátio das Nuvens -

vindo tão somente de ti a Voz, não mais querer, somente Luna iminente,

canta em Tímbales Sinos Corais Pandeiros plenas notas verdes - Agonia

diz ao Outro que se cale. A tua cor se esvai em sangue.

o porto da tua nave já não mais é ontem.

É luz. É dia.

Terra sem sombras. A Loba, exânime, fecha os olhos e faz de suas trevas elegia.

Pandeiros, tímbales, luzeiros, te consagram o Hoje.

Mar de cinzas. Maré morta. Maresia.






o poema da tua hora



estavas em mar

lâminas pedras Tu descrente de trevas Loba pagã

e eras miríades de búzios ou ervas negras em desmanhã

e eras como o suor da lâmina adormecida em pedras

teu hálito chove a montanha - sol palustre desardente pupila

vazio ocidente - eras, agora, o fio da água na avelã

eras água fios de pedras miríades de olhos ressurgidos

de sonos vãos. Infla teus panos de manhã.

Eras em mar. O teu olho ainda crê na ressurreição do sono.

olha-Te o espelho (lago+vidro)

olha-Te o vitral (olho+vidro)

olha-te a estupenda Carcaça (logos+vidro)

a Loba distende os ombros e lambe os lábios do sol

Vê agora com que alívio o Pássaro se desprende dessa manhã

eras mitodália vindo dos gelos da Luna eras mitosal em límpido esplendor de águas notívagas

eras Grito arrebentando o teu sangue vivo eras a nascente dos ventos madrugada lívida Espectro astral eras como só se é em Ti

Dizer, intercalando silêncios e sílabas, é dizer-Te

poema descarnado a que Memória aleita e envolve em ruínas




a lenda da tua hora







infinitas esferas caminhantes, cegas candeias em mar de leite negro

lá, onde morrem todas as horas, a Loba acorda inconstelada

florado olhar, imarcescível pelo

ali Tua voz se ouve límpida lâmpada álgida

vaticinando a Queda, quando ontem éramos,

e Diz como abóbada, de Cronos inabitada,

há-de impor fronteiras à escala cromática do Medo

Trono firmado entre nações de Pássaros e Pássaros

a mão direita erguida, a mão esquerda abaixada

apontam ambas o fragor do mesmo abismo

tremem asas na esplêndida redoma sem ventos

tremem asas

uma Sentença harpejo descendente se declara

tremem asas até o esplendor do grito

agora a Loba relata de uma trincheira em brasas:

não vi mais Teu ontem sob águas e asas

duras fragas alcançam-me o Olhar

a tua sombra se esconde sob o cardume tardio das nuvens

não vejo mais os clamores de tuas palavras

sal nos meus olhos é vestígio do teu mar




o roteiro da tua hora



lago embriagado em cinzas assinala a rota do Teu pátio

de onde a hora se esquiva

Loba

amantíssima

te

restitui

o

linho

da

manhã.

ásperas névoas pairam sobre as vozes da cantata

ária

da

hora

iminente

em pausa de espumas o mar invade o Teu nome

o

pássaro

rasga

a

pele

do

dia

águas pesadas pedras carnívoras espelho esplêndido - Teus




a consagração da tua hora





a Loba traz para o Teu átrio a palavra alazão;

músculos nulos de cansaços, olhos em aço, sombras em não.

sim clarente límpido sim presente

em Tuas vestes clarínias

polo acendido em crateras claras, videntes vates do sim

em Ti, somente em Ti, resplandecente jorro faz tarde e manhã

nas primícias da tua hora - verdegelo estelamar de leite cariciante

sim

altares reluzentes oráculos sim frementes guizos

nervos novos reluzentes chuva gelada cantiga sim

de Ti somente há-de vir árvores amaciadas

lã.

depois de entrever Tua luz entre claro e claro

ser

ser só depois de Te ver clarim esplêndido

deixa passar Tua água pela palavra hortelã para que o verdeclaro desta hora seja Pássaro Lago Estrela Sim amanhã








o caos da tua hora



vizinha em morrer urgente a Loba estaca sobre a palavra

átona

que Diz em trêmulo ser sempre ser=========desfaço

=====================================faço

====================================refaço

foi ontem

havíamos de ser

microesplende orvalho matina

em volutas sobre o chão desaba Tua crina

cala a Voz, esmaga a língua================relato

a palavra tilápia desce em prata sobre o corpo do rio

longe ainda ao nascer me trago extremas campânulas

(revogadas as palavras florais restam pétalas duras ferinas)

o EnteQueVêOEu cruza as patas e vigia de espaço em espaço

entre sol e mar, lunavírgula

zune o aço do prato / anda ainda a ver





monólogo da tua hora





a Veste ouviu do teu Corpo o seguinte relato:

entre nós os suores corriam inacessíveis brisas te trazia ao calor do teu lã nem o que me dizias de carne eram profetas litanias sem fim e entre o máximo espelho da mirada em que toda a tarde se diluía eras, sim, a fonte de onde provinha a Semelhança que há em Mim

desabam outras grutas explodem lúminas pedras olhos olhares e não vias que Aquilo que estava entre Si era carne em verdade e símbolos para uma poesia que querias em Ti

das palavras de peixes as tilápias eram agrado e mais um som em A soprava sobre a febre em pele viva irmos assim em vida até que o colapso lunar decida entre Ti e Outro

sim Te ouvi pelos poros e nos nós dos meus tecidos ficou de Ti um vestígio que agito em (maio) quando ainda eras por vir

alarga-te em Mim cresce no céu desnublado Pássaro; a luna escassa não te diz o Sim grita o teu nome no aço - terra lenta conduz o teu Sono

a lágrima vem de Mim






as veias da tua hora




do Pouso o Pássaro relata:

águas conflagradas se miram entre trovões

e o vinho morto e o grão do vento leste

adiam a sombra da Efígie sobre a pedra quente

os Olhos em rota de colisão

estás

entre flores de nervos a mandíbula da Loba se escancara

e dilacera o sim que vestes sobre tuas vestes

o pano adia a luz da tua pele até que o não

até que o não anule o Teu prodígio que se diz:

floradas. Lentíssimas águas. Vapores oblíquos esplendores Sobre Ti

mas

rebanhos se perdem nos longes da mirada

luna amarga invade o Pátio em Teu nome e fere o vértice do telhado

eras em mar

calada luna inunda as veias da Palavra

exato agora é o Não

em Ti uma nuvem se rompe exato Não

talvez inda queiras vir, lâmpada de sal, lâmina florada




as nuvens da tua hora





e seguiu-se um relato de chuvas e de nuvens antigas

e de suas sombras erguidas sobre as torres dos sinos

dia imenso

ontem

ventos maciços empunhavam a lâmpada sobre mastros oscilantes

era assim

e assim os Olhos inundados de brilhos diziam sim ao aço

a Loba fincava as garras no limiar das horas

era assim

aí então já se podia ver a Dama Antiga e o Cavalheiro Antigo

em gesto clássico de gaivota

no baile daquelas lunas tardias

os marinheiros sopravam as mãos

gementes dias

era assim

assim se ia ao mar

as mãos inda vazias

esplêndida luna exata

exata luna esplêndida

daqueles dias



os ares da tua hora

lentíssimas avencas

(respiram) águas.

À flor das águas o gume do navio

ondas.................................................dálias

lentas.................................................águas

+ um lírio

afogado em sal

dia de tarde cheia

(ontem ouviu-se o corte da lâmina

no leito do vidro

quando a palavra louça se ofereceu a Ti num turíbulo incendiado,

quando o pássaro disse Sim com o gume de suas asas

e o lã de suas penas molhadas,

quando era já tarde cheia, luna plena, ..................quase setembro)

o machado afia o seu gume no gume da água

lentíssimo gelo alarga o branco lã.

ontem Memória envolveu seu relato em transparente véu

e assim o dito restou exato em cada sílaba

e nos ares sibilantes de suas flautas

o Sim resvalou em fuga cromática

e se prendeu nos acordes incertos

que se tresmalhavam já na fronteira do silêncio

antes eras em mar

e no remanso da página a palavra pensa e extrai as palavras que se cravam na pele do poema

ao dizeres Pássaro

alteia a voz nas palavras dos olhos e das asas

e diz, com o acento mais dramático,

do abismo que se mede entre o Pouso e o Alto

e convoca palavras ferozes para dizer o grito de amanhecer

e todas as palavras que não digam coisas como água e pedra

afasta-as de Ti.





memórias da tua hora

ontem

a louça da manhã

memórias em nuvem

a carne viva do pão

ontem

a espada incerta do seu aço

o gume em brilhos prolongados sobre o dorso das tábuas

relógios imodulados

ontem era vasta a ferida que ardia no sol sem ventos

ontem era estávamos

éramos ontem

uma luz sem memória se estilhaçava contra o muro de pedras - enlaçada -

em heras a Loba, pintada num pano de linho

na Loba era sangue em sangue em clorofila de sangue

na carne viva da árvore a palavra tanino

navegávamos ontem distantes

éramos em mar e navegávamos

ontem era distante e navegávamos entre destroços florais do meio-dia

em luz a lenda se avivava - éramos ontem - dizia-se em touros

adormecidos entre pétalas de vidro



(a parola templária e a parola engaste vinhas ouví-Las das próprias esmeraldas)

eram assim aqueles dias

e assim eram dias veludos de luz amaciada

e assim eram os ditos daqueles dias máximos esplendentes

naqueles tempos não havia em nada um certo sentido

para cada coisa a sua palavra magra

para cada ritmo o seu compasso estreito

palavras eram velas no mastro - cada uma ao seu vento

e quando a noite dura dedilhávamos

(estávamos ainda em mar)

a cada mar correspondia um só intento




o lã da tua hora



a Tua palavra disse ontem o Teu nome

e com o lã das penas do Teu pássaro migrou para um parágrafo distante

Olhos que não diziam ser ouviram oTeu relato

uma balada antiga

cantava a saga do Teu pássaro



o mar deteve a ponte que conduzia em incensos o teu Nome

e ocultou em sargaços a luz que te Dizia dia

antes

a redoma calava-se entre gritos

Loba lã dissemos nesse imenso dia

o mastro do navio rasga a redoma - imenso ontem - e expõe as traves do dia

fomos em éramos

somos em ontem

Loba lã em águas vivas dizíamos




as lâminas da tua hora





extrema nau mastreada

(em gramas o tombadilho)

imersa na luz molhada

nau extrema mastreada

travado o leme, o dia feroz navega por entre estridentes brilhos

a Loba tritura os ossos da água e dilacera-lhe os nervos com os dentes incisivos

até que o sangue, também água, ou rubro nome floral

até que o sangue interceda pela verde alva

e o sudário das pedras desmorone

até que o Nome Sim Te Sangre sobre um planalto de algas

até que as veias se arrebentem e deixem verter o Teu nome inteiro

e único

como corpo vivo

vivas explodem em lâminas as ondas assinaladas pelo EnteQueOlha

ofuscada pelos gritos das gaivotas, Memória conta e reconta as suas sagas

mas Cronos já não as vê, surdo pelo turbilhão das asas

anátema

Memória narra a sua última saga

depois o Não é soledade e chaga

depois O não é o Pelicano que voa e pousa entre vidros agonizantes

extrema nau mastreada

extremo ontem

a grama dissolve o Mapa que Te sabia o nome

Memória exala o extremo relato que Te dizia

és

imenso éramos sobe em fumo dos teus pés e te anula o Lã



a faca da tua hora




ei

a tua túnica descarnada

ei

a tua túnica que vive por sob a faca

ei

em pétalas a tua túnica descarnada

branca é a dor na tua túnica por sob a faca

o céu em tua túnica tem vidraças

e sob o céu um bosque de ramagens

Memória, andando à esmo, pisou nas ramagens de tua túnica de linho

falésias

andando entre mar e mar Memória escolhe à esmo um nome para o brilho pesado do teu olhar

esta faca jugular de madrugada faz medo

esta lâmina regular canta um motete com o aço do seu fio

ei

Memória dança descalça e faz voar os cabelos

duro é o nome pesado do teu olhar

o teu nome em tua Faca é cavalo-estrela-do-mar

a tua faca de aço é sargaço com brilho

vive




agora



canto cerimonial de visitação à tua hora


urnas de luz em ar transfiguradas

sal evocado em flautas, mar em Semblante de ecos

canto o fio da navalha que se intercala no Sim

imenso Ontem predador da Tua agora

a pele devastada em trevas acende sílabas às margens da Tua hora

já Te vejo refletir nos vidros incruentos deste vento

o mar de signos reflue na quilha da tua pele

e escava o Lã dos Teus verdes

imenso Agora lejano - Tua manhã esplêndida És,sim.

extrema madrugada faz do meu Vejo-te um cálice vibrando entre silêncios

II

trago três palavras ao Teu país somente: lejano

ontem

agora

e mais três ícones extremos: montanha

rio

hora

deixo-te mar como Emblema calado além da porta do Teu ontem

e deixo-te o Ontem como Semblante de suas águas carnosas

a Tua Loba, em asas do Teu Pássaro, sobe ao mirante dos tempos

e nubla os olhos de dor sobre o mapa do Teu nome

AGORA




III

máximo

aço

sangra

o dorso

do sol

em compasso

¾

máxima

luna

ferida

máxima

luna

crescente

¼

esplende

em Ti

o

EnteQueSente

o

teu

nome

roça

a pele

de

tua mão

IV

o EnteAgora, indivisível do teu Ontem,

nasce e morre tantas vezes quanto os átomos de tua hora consentem

és em pedra que o ar colhe e consome

e já então és sopro dentro do ventre da flauta que Te vocaliza o nome



posso, então, refazer com sopros a arquitetura de tua sombra

deitada sobre agora

e Tua saga recontá-la em Sinos iminentes

em onde Te guardo, imenso nome,

que até aos vulcões das estrelas sejas imune?

V

Levo à soleira de TeuÉs as palavras de mares, lunas, árvores, terra e de ventos

e construo uma paisagem noturna em canto de oboés

a que a palavra gesto dá rítmico movimento

levo-te a ladainha das chuvas, das flores e das frutas

levo-te a Loba, enfim,

mesmo assim o TeuÉs se detém numa fronteira de vidros

Vejo-te VitralEnteQueÉs

e com timbales e pandeiros chamo-Te pelo Sim do teu nome

lentíssimas areias brancas cravam tua Sombra no deserto

VI

Memória refaz o seu relato:

ímpia de sombra a planície do sol se anuncia

e a água lava em seu remanso a sombra das folhas deste dia

com ventos sem nome e sem ninfas a noite faz e refaz seu traço

ácida fonte bebe gota a gota a luz do dia

reconta-se o mito em vagas incessantes de memória

a tarde, suspensa, modela a mesma hora

consorciados em sua rosa os ventos encenam calmarias

ainda depois se ouvirá o clamor do Pássaro

que enlouquece de dor e, na vidraça do horizonte, fere suas asas

o relógio, dividido em fatias, diz as horas e não diz do sal

a Loba, exânime, faz das trevas elegia



um cálice vertical recolhe os despojos de tua sombra

amplas cortinas de cânticos se enroscam nas colunas alísias

ressoa uma luz polar ali onde então se vê os lábios da pedra

torre fincada em prata - o Teu navio

no baile daquelas lunas tardias

- a palavra tilápia desce em prata sobre o corpo do rio

- o Sim grita o Teu nome no aço

- os rebanhos se perdem nos longes da mirada

lentíssimas avencas respiram águas

eram assim aqueles dias

uma balada antiga canta a saga do Teu pássaro

o Teu navio navega feroz por entre brilhos estridentes

vive

VII

Na fronteira do Ontem a Loba refaz o seu relato:

imenso é o Dia Agora

imenso o Vitral que talha em cristal o Teu És tremendo

imenso o Vinagre da fome de ser em Ti

toma o Sal dos meus olhos e desenha o lã de Tua pele linho



entre Ontem e Agora

Portal de ébano que se diz

Portal de nada

lâmina de água entre o és e o seu pretérito




se vieres agora serei Tua voz no pátio da luna

........................................................................aguarda, implora

e farei para Ti um sangue de vinhos

e de um pão mergulhado na saliva da lenta madrugada

te farei um corpo com suores

.........................................................................agora

sou Lobalã, Lobalinho, extremo Nome do Teu Nome

vive de minhas águas

escuto

então

o não



VIII

o Pássaro acorda entre pandeiros

e canta um triunfo para o sol esplêndido sol exato

a montanha ergue o Teu tema com os punhos cerrados

pratos, vastos timbales, zinco, fulgurações de astros

lâmina clara de luna

e Tu, erguendo-Te por sobre o gume das ondas

cantas o Nome, o Sim, o Aço

dança o Teu Pássaro nos vidros desnublados da Tua manhã

vive, esplêndido Nome exato

a Loba e o Pássaro levam ao teu Agora a hóstia inflamada do sol

para que tragas a Tua carne para dentro do meu nome

aqui há ventos e vinhos embriagados no lã da tua hora

vive a Tua Agora

o Teu poema se cala

em silêncio o Teu pássaro inclina as asas, invoca a rota dos teus Olhos e pousa no Teu Nome.

fim do livro das árias e das horas



pequeno livro das nuvens



prólogo e cena

seara quente

à flor das águas

incenso alado

calados repuxos de vapores

dóricos ares

enublam azuis

velozes

águas em pedra recolhem ecos no espaço

II

mutantes ameias castelares

inesperadas paredes decalcadas em gelos

então

surge o metro da terra em suas sementes e grãos de águas

à noite, da janela, um grito iminente espia calado o escuro

centímetros recitam a distância do grito para o chão

um tiro, a luz do poste cambaleia

damas antigas em mármore medem com os olhos a radiação da lâmpada que divide em claro e escuro oscilantes o rosto semblante e os afluentes das mãos

sinuosângulos traçam o perfil das veias pulsantes dilatadas

retângulos inscrevem palavras úmidas e aquelas de estio

entre aqui e ali, linha tracejada

segmentos vazios

subitamente a nuvem gesticula e o ar se faz macio.

III

subitamente, então, a luz gesticulada se expande em fatias ressonantes

que articulam fuzis e tambores

o corpo deitado assinala a diagonal da praça

a pedra observa calada a dicção dos vapores

um cão refaz o retângulo da praça

em limpas paralelas

paralelepípedos maciços sustentam em músculos o cão sobre a Terra

pelas ruas transversais trafegam agrimensoras nuvens

mede-se a ponte e os seus arcos

mas não se leva em conta as sombras passantes de hoje



salmo e glória



régua de prata impõe geometria exata

ao gesto anfíbio

o círculo se detém na fronteira do compasso

linha pontilhada se estende do olhar exilado ao mapa do exílio

estátua

grécias colunatas fincadas na crosta do estio

invocam-se as águas

nuvens intermitentes solares rubros máquinas lâmpadas em fio

ainda distante calada a pedra da fronteira vê o rio

lâminas estagnadas

ares

vivos pólos macios





sol e água



corte no olhar

em planta a topografia do rastro luminante

que se deita sobre pós e águas rente à flor passante

ferro de espada e gume

(jorro quente de sangue)

em plantas a retina abrasada explícita fonte

em plantas o raio voraz tremente lume

escamas rígidas coaguladas ardente nuvem

oblíquas sílabas de pedra escandem o metro - lá longe

sob o rosto do sol o vento entulha nuvens

sob o rosto do sol

dorme em águas a linha do horizonte

entre aqui e ali o olho Afastado sonha uma ponte

entre aqui e ali

dorme em águas a linha do horizonte

linha lenta ondulada dorme em águas

linha lenta Afastada sonha pontes

sílabas em lava

lentas águas recolhem as fibras translúcidas do ar

e tecem a mordaça que detém o grito nas muralhas do horizonte

lentas águas.






agora e longe





à feição de uma nuvem Afastada o metro escava milimétricos prismas

e vê em seus espelhos úmidos a Carcaça desolada - informes ares a que o vento dá esquinas

panos vastos sem luz

panos vastos

entre o lago e a montanha, adágios em ruínas,vozes Afastadas,

fibras entrelaçadas /onduladas /taça plena/ amarga luz ceg-an-te

ulisses inteiro sobre as águas - vagamente a tarde recolhe trovões

- ulisses inteiro sobre as águas oscilantes

vagamente a tarde recolhe trovões distantes

vagamente a tarde recolhe em brasas

ácida

fonte

o peito do mar em quilha rasga panos de águas

ulisses acorda em pé sobre as vagas

trovões

simétricos

lhe resguardam a fronte

nuvens em olhos des-alumbrados gotejam sangue

toda a tarde é ulisses em pé acordado

o seu olhar Afastado expulsa as águas da tarde

simétricas fontes acordadas em março

des-azulando o país longe

vapores tardes mansos acordam em gritos verticais

a morte e depois da morte o silêncio macio dos panos

peixe em prata sobre a espuma

remanso lento lentíssimo sol sobre as nuvens

em luz se vê ulisses banhado em corais - agora longe





vôo e exílio





há um vôo entre aqui e lá-distante que o olhar Afasta e anula

sobre a Carcaça desolada há uma parábola vazia, um caminho sem pegadas, uma crescente crua e muda

o pássaro banhado em não sabe o caminho

o pássaro banhado em não sabe o designo

mas não acende os cristais que acolhem acesos o rastro interdito

olhos de sal escassos prescrevem desertos aos vales do exílio

a luna de sol nascido deixa tênues vestígios de ouro corroídos de ácidos

vivos

o mar devolve os seus naufrágios em uma

então







nuvens e tarde



na cave azul dos olhos [então] o vôo que arrebata e modula os seus próprios ventos

ulisses inane arranca as esferas dos olhos que oferece [então] ao abismo sangrento

na tardemundi o sol [então] lava o semblante em visgos

o mapa abraça o braseiro vivo para que a distância se deite sobre o leito fumegante até que

então a corda de aço dedilha um grito

as sereias sussuram telêmaco em acordes sombrios ante os olhos abertos de ulisses

[então] o metro expõe as suas vísceras arfantes como um legado esculpido em sangue nas presas de um cão enraivecido

um corte diagonal descerra em planos simétricos Afastados a p a u s a dilacerada entre gemidos

ulisses vem porque um presságio de naves já se faz amanhecido

vem em naves tecendo a cor do seu corpo em brilhos

[então] em pé, ulisses acorda vivo entre as nuvens da tarde.




sono e cinzas



destroços

ondas

terra

ilha firme

largo percurso do olhar

saliNo

desfiladeiro de velas gráVidas

ondas cavadas lenTas

abrem em remanso um ninho para a naVe exilada

na palavra repetida LONge lonGE

onde habita

um hálito de sol já todo consumido

em esta tarde se ouvirá ainda a invocação antiga aos profetas embriagados em sono interminável de cinzas

em esta tarde ainda

então

o vento baterá às portas do sonho antigo

para que um vaticínio amargo como pão deitado em vidros

seja um nome que repouse sobre nuvens cansadas

até que a tarde se Afaste do seu sol

e o frio possa [então] se abrigar em seus espinhos






azul e sombra

às nove horas

do milésimo dia

penélope espera

na sala vazia

senta e fica

olho no dia

mão na agulha

linha Afastada

que inventa azuis

vai e volta faz refaz

a mesma fábula

às nove horas

do milésimo dia

o sol que vem da janela

divide o seu corpo

em dois azuis

um azul de sombra

um azul de luz

na sala vazia

vastos planos azuis

lutam contra o dia

que morre

da mesma hemorragia

que mata todos os dias

sem transição

a escuridão se enfia

na sala azul

onde penélope inventa cada dia

o mito de quem espera

não mais por ulisses

nem por rebanhos ou nuvens

que o mundo sabe apascentar suas coisas

no seu ritual diário

de acender e apagar luz

penélope espera

sente que com ela as ovelhas esperam

as nuvens esperam

o mundo todo espera os seus navios

nos seus portos

e nessa espera não há agonia




relato



Afastei-me de mim

quando águas em setembro ondas e gaivotas gritavam sim ao irembora

e as pátrias eram rochedos mortos de águias fincadas em duro seco destino

de olhos perfurados na brasa do sol de setembro

Afastei-me de mim quando [então] as quilhas se aprumavam para o não só águas

e os desterros tinham vozes de pátrias sereinas Afastadas

e suas vozes molhadas em bronzelava soavam em rebate de tardes em primícias salgadas

Afastei-me de mim

e deixei às pressas um legado de tramas e um fio longo de anos e anos

e que a vontade que de mim ficava tecesse o seu pano

que podia ser de coisas do céu das terras ou submersas nas ondas

e [então] foi visto um chegar supremo ao nada

em águas gaivotas de setembro e em canto de trompa guerreira avançada

e me olhavam sem medo os olhos que ameaçavam

mas não restava sem mim um único grão daquela tarde que não fosse irembora

avessa saudade

e fui como se vai somente porque cedi àquela tarde

e aos seus ventos soprados por vulcões dominantes em ilhas luminadas

em setembro

e fui e uma gaivota inclinou as asas e feriu o olho

que sangrento iluminava a tarde encarnada encarnada encarnada

em mim kyrie das guerras devastadas entre gritos moribundos

descia em calvário aquela mesma tarde.

Afastei-me de mim.
 



( relato)





e a (minha) nave rolava sobre o espelho em que a tarde bebia as suas nuvens molhadas

trovão Afastado anunciava outro ali lontano

gaivotas interditavam portos e acendiam maresias

pedras triunfais detinham panos oscilantes

já era tarde (em mim)

algas avançavam hambrientas sobre a (minha) saga e gravavam uma caligrafia de corais sobre a madeira molhada

(estou) em pé acordado sobre a única hora desta tarde afogada em vapores quentes

MarDeVaporesLentosLentaRedomaAFASTADA






ecce filius tuus





(então) Afastei-me de ti e vi com olhos banidos o rastro de tua nave

quando já não mais te vi vi a cal viva da tarde

e assim vivi meu exílio entre paredes lembradas dos teus suores

e assim vivi setembros dilacerados de ventos

eusemti, eusemnave

em tua casa limpa os armários acordam panos

e indagam do teu agora

do teu agora lontano

a casa vê em seus cantos

o veio azul transpirando

a casa vê seus perfumes

que o vento vai confiscando

a casa pensa suas nuvens

em suas cores e tramas

*penélope fia e desfia

uma memória de ramas*

*penfi e desfi merama*

*noite e dia

notedi

ua merama*

é noite nos teus armários e nas tuas janelas e os teus ventos e os teus vinhos se derramam






terceiro relato





digo-te, ainda, que a distância que se mede entre mim e o PólemAfastado

se diz em quadrados contidos

em cárcere de paredes sem grades

em verso alvenaria áspero improlixo

digo-te, ainda, que não é pentágono ou círculo o que me amarra as veias:

a mordaça do meu sangue

são quatro traços retos duros devotados a si mesmos

digo-te, ainda, assim: não são acrósticos que te incrustem o nome como hálito no vento

o teu nome Afastou-se das flautas para ser só pensamento

o teu nome é um segundo nomeVazio de ti desencarnado mudo irrecitável

indizível agora o teu és imenso é como tudo que, de nada, só cabe na memória das noites como pássaro ausente da noite em que o vento

digo-te mais: sinto uma luna de carne se desgarrando de mim

e uma dor que, de tão minuciosa, Afasta-me o lamento

telêmaco vivo se cala ante meus olhos congelados

e me vê refazer os fios ontem emaranhados

vivo em febres

o que em mim é sou já não sabe de mim





quarto relato





em chuvas, o mar Afastado pronunciou o meu nome nausícaa

na tarde enlouquecida de trovões uma coluna de ar respirava modulando o meu sim meu nome nausícaa

em percussão de pedras o clamor do sim meu nome nausícaa

areia dura batida de vagas

o sim meu nome descalça nausícaa

avista o despojo Afastado que as ondas do mar vieram trazer à praia

(e já se recolhem aos ventos ferozes daquela tardesetembro

deixando aos meus olhos a aventura de ver o que, já não em mar,

teimava em se contorcer como se um frêmito de pedras

estremecesse a areia dura batida das vagas que)

de repente nausícaa se compadece com os olhos de tua pele

fustigada pelo suor das nuvens

e te leva pelas suas terras de borboletas e flores

e te serve o vinho temperado e o mel

e te entrega na concha das mãos os peitos

e te lê no riso calado o desejo

e se faz tua sombra

sim nausícaa, já deslembrada dos seus cabelos,

se emaranhou no teu corpo

e colou sua pele nos teus pelos

e fez de suas coxas um como abrigo de ventos

e te implorou que a rota dos teus olhos se desviasse do mar

mas o teu riso calado só me dava exílios

ao invés de recolher, vivo em sua carne,

o meu nome nausícaa






quinto relato



conta, telêmaco, os dias em que, Afastada, vivi sob um pálio de silêncio.

conta como neguei à minha boca até mesmo a palavra que dá nome ao Afastado e substância ao meu lamento.

conta das noites, telêmaco, em que as nuvens me anunciavam imensos campos de águas em silêncio e em silêncio de águas os meus olhos parados e entre águas e águas o corpo invisível do vento.

aos que te quiserem ouvir diz que penélope aguarda em vazia calma o pólem intenso que diz não ao vir, em mar fendido de lanças, mortas marés de motores líquidos em chamas verdes azuis brancas em ondas espumas tantas.

e se ninguém te quiser ouvir te ouvirá a montanha e o seu eco contará o meu nome penélope ao rio que o terá como um naufrágio e o entregará ao mar.



sexto relato





nuvens deitadas sobre a tarde - eu, presa das águas

na hora em que o vento já rasgara suas mordaças

e o frio cravava espinhos nos ombros das vagas

eu, presa das águas, atingido no olhar por alfinetes de prata

que águia lenta cultivava em lenta aljava

sob os olhos cinzalentos dos nimbos que miram águas

eu, presa das águas.

dos nimbos que miram águas a tarde nutre as suas águias

e em mim, presa das águas, o sol acende essas brasas

pensa, pois, em mim como presa de um horizonte inerte que não arqueia a linha das águas para engolir essa luz coagulada e deter a tarde de nimbos, vagas e águias.

pensa em mim como um sangue emparedado no veio da pedra

ou então, pensa em mim como a tarde pensa em nuvens

e em vagas e em águias

pensa em mim como a tarde pensa em mim sobre as águas

pensa em mim como coisa da tarde, à deriva na luz em brasa

pensa em mim como ÁguiaOfuscada







sétimo relato





o sangue coagulado dos ponteiros mantém a tarde acordada

horas imóveis me espreitam sobre o branco estridente das nuvens

é balada o que estas águas me recontam em atônita maresia de lunas ofuscadas

Sou em mar. E morro em lembranças vivas de sombras e praias. Sou pedra em mar e um fio movente de sopros clarina nomes nausícaa, penélope, telêmaco e mais suores de mortos em ilhas que o metro duro e salgado destas cinzáguas Afasta dos meus olhos e dispersa em memória afogada nos vapores tardios. Ao relento.

sou ainda até que esta tarde arrebente os seus ventos. até que as fronteiras desta tarde levantem os seus ferros e as lunas naveguem à deriva em seus oceanos pretos. ainda sou a tarde, nausícaa, penélope, telêmaco.





oitavo relato





para que as nuvens cheias

incertas dos seus rumos

se façam panos minguantes

e a tarde negue suas lâmpadas

aos olhos

para que o cinzaescuro

confunda os relógios amordaçados

sobre mastros fincados nos portais

das horas

(e os horizontes deitados no escuro se mantenham Afastados)

sustento com as mãos a bruta arquitetura dos claustros

que confinam os cantos das sirenas

em cordas de ares átonos

(simétrica pausa entre o sim e a cor do aço)

e agora as vozes de ulisses, penélope,telêmaco, nausícaa se farão ouvir por um breve intervalo nas nuvens que condenarão os seus trovões ao silêncio e negarão ares aos seus pássaros vivos entre lençóis quadrados e lumbres verticais

o sangue de todas as coisas expira num calvário nublado

ventos

mornos

morrem

um a um

crucificados

na assimetria

das traves

de setembro

a tarde se ergue em gumes de lanças contra suas nuvens e insiste, com ventos lavados, na memória de suas cinzas e pós e terras e folhas e verdes e roxos e azuis e veios amarelados e seivas verdes e encarnados clarões

ulisses já é tarde sozinho

entre ventos cruzados









nono relato





prisioneiro da tarde amor se fez esfera girante em órbita de si mesmo

e para mim restou incerto semblante desenhado em águas contra o muro

um ser que anda sem deixar pegadas

senão aquelas que tenho cravadas no vale dos peitos

à noite um clarão verde de lunas assustadas

aflora em meu travesseiro

e me acorda de sonhos íngremes - cansada

e me propõe vigílias e desterros

morro acordada o que vivi em sonhos íngremes

cansada da luna da noite das horas e de seus ponteiros

em trevas desço à noite e amanheço em trevas uma alvorada

sem clarinetes ofuscantes ou ginetes triunfais

que, rompendo suas baias enubladas, me conduzam diante

de ti que és sol - sol embebido em sangue








décimo relato



em teu exílio de águas e vapores esperas a hora

tecendo na luz o sal dos olhos e cálices herméticos para o sangue

um jorro de prata em Tua garganta já espreita em grito o dia-noite da tua chegada

e telhas ressonantes e cimento bruto acenderás com o pálido incenso que vens em salmo vivo

és a hora em que vens, istmo.

és a hora em que nas vigas do sol se vê o touro em águas ostentando lento os seus vestígios

és em leão refletido nos duros brilhos do zinco

olho encantador sereno e bruto e severo em miradas que afogam esferas exiladas em tão longe que não lhes chegam voz ou aceno



em este lá habita a tua lenda recontada desde os mares

chegas trazendo mastros, ferros e velas e sagas

trompa grave e serena já aprende o clamor do teu vens

para ensinar o teu timbre à flauta inicial que te recitará o nome




décimo primeiro relato



atenta às águas desta tarde

recolhe vapores dispersos

e talha em chumbo a proa desta nave alada

com que navegas deitada sobre ventos

cala os teus trovões e escuta as vozes Afastadas

que se erguem em motete assimétrico

(cada canto contido em suas fronteiras de vidro)

pede agora aos teus vapores que reinventem as águas de setembro

para que a tarde tenha minúcias de cristal em seus cabelos

(então)

as horas, arrastando seus panos molhados,

se esquivarão da rota dos ponteiros

e a tarde ampliará lentíssima a infância das luzes

uma trincheira de lumiáguas mantém as pedras Afastadas do sono

o sol respira parado sobre as nuvens







décimo segundo relato





fincada nos caibros da tarde a nuvem recita mármores

escandidos em segmentos

em fragmentos de sílabas troncos cabeças membros Afastados

descarnado branco lodo veio verde intenso

na única hora em que a tarde

máquinas de luna escavam com os dentes o lodo dos mares

e eu vejo o suor minando nos músculos dos relógios acesos no corpo lento desta hora única hora em que a tarde

em que a tarde vê fragmentos e, fincada nos caibros, recita mármores

após o que a hora mastigará os seus segmentos em percussão de sinosaços

e o mar de agora é o mar em que agora o vento parte em gomos simétricos a única hora desta tarde

em vez de penélopetelêmaco luna Afastada me dá esta tarde ancorada

em setembro interminável

em que os rochedos emergem do salgado hades para mirar um terraço de nuvens e lunas

até que o vinho embebido em vapores anuncie em nuvens o último sol desta tarde






décimo terceiro relato





navegoscilante tarde

em que te penso atado aos ventos terrais que me longe de ti

arena branca de algas cremadas

eu pousada na sílaba inicial das águas

vejo na nuvem fraturada de trovões

o teu oráculo em fragmentos que o motor das vagas Afasta de mim

vejo-te claridade assomada em fios d’água

revelando-se nos grãos da nuvem macerada

vejo-te máscara imposta aos ritos de minha carne

espraiada sobre a várzea do meu sangue

dizendo-me lunas lunas navegantes pupilas úmidas voantes

tarde inavegada

vejo-te em tarde caiada ofuscante detida nos sulcos de memória encravada

pálida estrela adiada, vejo-te hoje em clamor de hinos invadindo a nave dos meus olhos

de tua luz sou campo e casa e ofereço a rota do meu sangue para que esta hora tua seja celebrada em harpas



epílogo e cena





(então) as nuvens estalaram seus trovões e baixaram grandes águas

sobre a tarde

e cortinas cinzentas em cheiro azedo úmido em nacos

empapados de lama em pedra barro

e as águas deitadas no vento se atiravam contra as serras

subitamente (então) a nave recolhe os seus ferros e parte

a tarde está morta

ulisses matou a tarde

nuvens de lábios mornos recitam o corpo em retas retângulos quadrados (outubro) a luz se faz cegante ulisses corpo contra o barro molhado mastros sorvem nuvens Afastadas e a pedra na fronteira das águas recita ulisses morto

ulisses morto na diagonal da tarde

subitamente (então) a nuvem gesticula e o ar se faz gelado









fim do pequeno livro das nuvens






























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