PAPO FURADO by Jairo Lima
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Entrevista a Lívio Oliveira
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Lampião no inferno (teatro)

Jairo Lima

LAMPIÃO NO INFERNO

1972

PERSONAGENS

(por ordem de entrada em cena)







Lampião

1ª Mulher

1º Homem

Anjo

Padre Cícero

Cão Coxo

Forrobodó

1º,2º,3º, e 4º Demônios

Satanás

Canguinha

Leva-e-Traz

Trepadeira

Vulto

Pilão Deitado

Vozes, Soldados e Demônios













(Esta peça foi baseada nos seguintes folhetos de cordel: "A Chegada de Lampião no Inferno", de José Pacheco; "O Casamento de Lampião com a Filha de Satanás" de José Costa Leite; "A Eleição do Diabo e a Posse de Lampião no Inferno", de João José da Silva e "O Sanfoneiro que foi tocar no Inferno", de José Costa Leite.









Cena 1

Ao apagarem-se as luzes, ouvem-se fortes acordes de uma viola num crescendo arrebatado. Luz amarela em resistência descobre a figura de Lampião no centro do palco, sobre um praticável, braços abertos punhal na mão, expressão de altiva ferocidade. Fora do teatro, ouve-se uma descarga de bacamarteiros. Tempo. Pela porta de entrada da platéia, surgem os soldados correndo em fila indiana, subindo ao palco e percorrendo-o em círculos.Prosseguem os disparos em cena. A luz se amplia definindo toda a cena. Súbito, os soldados se retiram e a luz se concentra sobre LAMPIÃO.

LAMPIÃO - Sou Lampião, o famoso bandoleiro do sertão. Cabra que ouve o meu nome deixa uma poça no chão: de mijo, se for valente... os frouxos eu não conto, não. Coveiro, quando me vê, se ri todo satisfeito e diz pra mulher: "Ferve a água que o angu já vem de jeito. E pode comprar fiado que o pagamento eu prometo". Moça donzela suspira e pede benção aos pais. Os véios dizem à cabrita: "Vai moça e não volta mais. Se puder, morra com honra; se não puder, tanto faz...

1ª MULHER - Seu Lampião, tome tento no triste da minha história: do rancho em que eu morava o dono mandou-me embora. Agora, que é que eu faço? Valei-me Nossa Senhora!

LAMPIÃO - Minha dona, qual o estado em que se encontra agora?

1ª MULHER - Sou viúva de um vaqueiro honrado, de Bodocó, morrido de uma chifrada que lhe lascou o totó.

LAMPIÃO - Morreu com honra o sujeito e eu vou lhe arremediar. Volte agora pro seu rancho e deixe os cabras encostar. Adispois, dê um assovio que é pra eu poder encostar.

1ª MULHER - Deus lhe abençoe, meu valente! A virgem santa lhe guie! Meu padim, o Padre Cícero, seja a luz do seu caminho. Pois, quem vale às viúvas tem no céu o seu coxim. (sai)

1º HOMEM - Lampião, se tu és macho, desafia o meu punhal!

LAMPIÃO - De onde saiu essa peste? Do meio do matagal?

1º HOMEM - Cabra, se tu és de briga, tua vez chegou agora.

LAMPIÃO - Briga de muita conversa, ou é de puta ou de sogra. (puxa o punhal)

1º HOMEM - No brilho da minha lâmina vai escorrer o teu sangue. (puxa, também, o punhal)

LAMPIÃO - Toma tento que esta faca já provou bofe de homem.

1º HOMEM - Só se foi de cabra mofino ou velho morrendo de fome.

LAMPIÃO - Vamos ver se a peixeira dá fé da tua valia.

1º HOMEM - Toma lá essa enfiada! (Lampião se desvia e o 1º Homem cai).

LAMPIÃO - Lá se foi a valentia.

1º HOMEM - Já estou de pé, seu safado! (Lampião derruba-o com uma "rasteira").

LAMPIÃO - Mas, não demora a folia. (crava-lhe o punhal). Tu já te chamas defunto, sem flores nem cortesia. (ouvem-se tiros). A polícia. Que é que eu faço?

VOZ - Bicho, chegou teu fim.

LAMPIÃO - Macaco, eu estou sozinho. Traição se faz assim.

VOZ - Nós somos mais do que vinte. Te entrega, bexiga ruim!

LAMPIÃO - Me pegar não é tão fácil. (abriga-se).

VOZ - Tá numa moita de espinhos. Em cima dele, cambada!

SOLDADOS - Tão fechados os teus caminhos.

(Tiroteio, gritos, correrias. Luz, em cortes dinâmicos revela fragmentos da cena. Lampião solta um grande grito. Black-out).

VOZ - A cabeça!

VOZ - Traz a faca!

VOZ - Com força, aí no cangote.

(Música. Luz vermelha, em resistência, desfaz o black-out, mostrando um soldado, sujo de sangue, sustentando a cabeça decepada de Lampião com a mão direita).

SOLDADO - Esse é o fim do cangaço!

TODOS - Vai se lascar no inferno!

1ª MULHER - (entra correndo) Lampião, roubaram a casa! (Soldado exibe a cabeça de Lampião para ela).

Quem vai me valer agora? Danação de Satanás! Abram a cancela do inferno, pois lá poderá ter paz. (black-out)







Cena 2

Uma cancela de fazenda. Um tamborete onde está sentado o Cão Vigia. É (sempre) noite. Vigia está enrolado num capote grosso, praticamente só com o rabo do lado de fora. À entrada de Lampião ele está cochilando. Lampião entra com um Anjo.



ANJO - Aqui começa o inferno.Quem entra não volta mais.

LAMPIÃO - Não tenho medo do escuro e quero ver Satanás.

ANJO - (afetado) Vocês dois fazem parelha. Vá falar com o capataz. É um cão chamado Coxo, parente de Leva-e-Traz.

LAMPIÃO - Tu não vem?

ANJO - Deus me livre de cruzar estes umbrais. Daqui, volto agora mesmo, não vou nem olhar pra traz.

LAMPIÃO - Só lhe peço uma fineza...

ANJO - O que é?

LAMPIÃO - Assubindo para o céu me procure, por favor, na corte celestial o santo de mais louvor: o meu padim Padre Cícero! E diga a ele onde estou.

ANJO - Nem pense que adianta essa tua petição. Padre Cícero não vai ser coiteiro de Lampião.

LAMPIÃO - Pois ele já me honrou com o título de Capitão. Além de santo, ele é macho, e tem em mim um irmão.

ANJO - Valei-me, que heresia! Bate a boca, excomungado!l No sofrimento do inferno vais purgar o teu pecado. Adeus, que mais eu não fico. Tomei o caminho errado.(desaparece)

LAMPIÃO - Quando Deus vestiu os anjos com esses camisolão era por não estar bem certo se eles eram macho ou não. Volta cá, mané-moleza, não vou te fazer mal, não!

PADRE CÍCERO -(aparecendo por trás de Lampião). Estou aqui.

LAMPIÃO - (ainda sem ver P.Cícero).Deixa de ser mole, asneira! Eu só queria saber... (volta-se e se depara com P.Cícero). Meu padim!

PADRE CÍCERO - Cabra atrevido, que foi que te ouvi dizer?

LAMPIÃO - Eu? Nada. Falava só pra poder dispairecer.

PADRE CÍCERO - Lampião, maior pecado não há que a mentira.

LAMPIÃO - Me desculpe, meu santinho. (imitando voz "sacerdotal" para enganar o santo).Só vós podeis me valer!

PADRE CÍCERO - Já tás falando difícil...

LAMPIÃO - Quando se está em terra estranha, o primeiro que se aprende é o jeito que o povo fala, pra não ficar diferente. E o sotaque do outro mundo é esse, não é, decente?

PADRE CÍCERO - Matuto danado de esperto, tás querendo me enrolar. Desengrola tua língua. Que é que tu quer falar?

LAMPIÃO - Meu padim, me desculpe. Não sou homem de cobrar, mas... cadê o seu prestígio? Como é, não vai me salvar?

PADRE CÍCERO - Ah, Lampião, a política do céu é bem diferente. Lá não se dá coito a bandido, nem se oferece patente. Não sabes que o Pai Eterno é grande e onisciente?

LAMPIÃO - Mas, se o senhor desse um jeito...

PADRE CÍCERO - Pra que tu quer se salvar? O céu é bom pelo clima e pela paisagem de lá. De resto, só tem novena.Tu ia te chatear.

LAMPIÃO - E o senhor?

PADRE CÍCERO - Sendo santo é lá que é meu lugar, Mas tu, que gosta de samba, não ias te adomar.

LAMPIÃO - Sendo assim, retiro a queixa.

PADRE CÍCERO - É o melhor. Vai em paz. Se Deus não fica contigo, conversa com Satanás. Quem sabe, vocês se entendem... (desaparece).

LAMPIÃO - (só).Ô, merda, só dou pra trás! (dirigindo-se ao Cão Coxo).Ô, de casa! Cadê o dono da propriedade?

COXO - (bocejando).Quem vem lá?

LAMPIÃO - Lampião, rei do cangaço!

COXO - Aqui não tem essa história de rei, não. Entrou, experimenta da macaíba.

LAMPIÃO - Moleque, não se alvoroce.

COXO - (à parte).É alma mal-educada. Vai virar assombração.

LAMPIÃO - Deixa de prosa e vai chamar o teu patrão.

COXO - Essa hora tá dormindo.

LAMPIÃO - Pois vá acordar o homem.

COXO - Agora, só amanhã. Com o frio que tá fazendo...

LAMPIÃO - Pensei que aqui fosse tudo fogo.

COXO - Já foi. Teve tempo que isso aqui era uma beleza, tinha pra mais de cem tacho de óleo fervendo. O fogaréu passava o dia aceso. Agora, com a crise, tá como pode ver: lenha é garrancho que dá aquele foguinho minguado, minguado, que nem dá pra esquentar as mãos. Tás chegando em tempo ruim.

LAMPIÃO - Mas, será possível uma coisa dessas? Isso só pode ser falta de administração.

COXO - Lá isso é. Mas, também é gente demais que vem praqui. A gente já tá enjeitando. Só fica com os piores, que nem o senhor.

LAMPIÃO - Por mim, não faço questão do seu rancho. Vim praqui porque não tinha pra onde ir. Depois, soube que tinha umas mulheres...

COXO - Ter, tem, mas é tudo passada na casca e na gosma, nem dá gosto. O senhor quer saber de uma coisa? Esculhambação demais termina perdendo a graça.

LAMPIÃO - Taí, nunca vi um cão desanimado que nem tu. T’esconjuro.

COXO - É a idade. Cinco milhões de anos nas costelas desanimam qualquer um. Precisava me ver quando eu tinha meus quinhentos anos. Aí, sim. Eu não era porteiro, não. Tomava conta da pá no paiol da merda.

LAMPIÃO - Como era isso?

COXO - Era um tanque cheio de merda até a altura do pescoço. Aí, a gente socava os cabra, deixando pra fora só do queixo pra cima.

LAMPIÃO - E a pá?

COXO - Era engraçado. A gente rodava a pá, aí todo mundo se abaixava pra não levar cacetada, e tome bosta na cara. Aquilo é que era tempo...

LAMPIÃO - Tinha muita gente no paiol?

COXO - E faltava? A maioria era gente importante. Dava gosto espiar pra cara deles...

LAMPIÃO - Taí. Já fiz muita coisa nesse mundo...

COXO - Nesse, não, no outro.

LAMPIÃO - Pois é, no outro... mas nunca tinha pensado nisso. Já vi que a ruindade de vocês é apurada.

COXO - (sincero).Obrigado, a gente faz o que pode.

LAMPIÃO - Bem, a conversa tá boa, mas tá ficando tarde. Que horas são no teu relógio?

COXO - (consultando o relógio). Nunca mais!

LAMPIÃO - Como é?

COXO - É só o que os relógios daqui marcam: nunca mais, nunca mais...

LAMPIÃO - Vôte! Bem, de qualquer jeito, já deve ser tarde.

COXO - Tarde? (solta uma gargalhada).

LAMPIÃO - Pra onde é que eu vou?

COXO - Se espiche por aí mesmo, que depois a gente vê se dá um jeito. Deixa o pessoal pegar no serviço. Agora, tá tudo dormindo.

LAMPIÃO - Então, passa pra cá esse capote que o frio tá de lascar.

COXO - Tinha graça! Alma aqui tem muito pouco luxo.

LAMPIÃO - Nêgo, não me faz repetir o que já falei: passa pra cá o capote.

COXO - Né besta, não, moleque atrevido!

LAMPIÃO - Como é que é a história? Eu que já passei fogo num batalhão de macacos, vou agüentar prosa desse sagüi fantasiado de diabo?

COXO - Se entope já, ou eu te exemplo.

LAMPIÃO - Moleque, me dá o capote...

COXO - (pra dentro). Forrobodó! Vigia a macaíba! ( o cão Forrobodó aparece, vindo de dentro).

FORROBODÓ - (para dentro). Arrocha, negrada! (aparecem outros demônios, todos portando tridentes. Demônios cercam Lampião).

LAMPIÃO - Lutar com um homem desarmado é covardia.

1º DEMÔNIO - Ô, lê, lê, lê, lê, ô.

2} DEMÔNIO - Carrega no pau...

3º DEMÔNIO - Futuca na bunda...

4º DEMÔNIO - Faz dele mingau... (demônios formam um círculo em torno de Lampião).

LAMPIÃO - (encarando-os um a um, em movimentos bruscos e violentos). Bexiga-lixa do inferno, estupor, doença ruim, ferida braba de velho, consciência de Caim, prosopopéia de gago, olha que isso não fica assim.

FORROBODÓ - Ô, lê,lê,lê, lê, ô.

1º DEMÔNIO - Recebe isto aqui. (bate em Lampião com o tridente).

2º DEMÔNIO - Faz volta e gira.

3º DEMÔNIO - E torna a girar.

4º DEMÔNIO - Tu leva pancada até nós cansar.

LAMPIÃO - (agarrando o tridente do 1º Demônio). Me dá esse pau.

1º DEMÔNIO - (ao 2º Demônio). Se agarra com ele. (O 2º Demônio agarra Lampião pelas costas).

LAMPIÃO - Me solta, imoral!

DEMÔNIOS - No inferno é assim, é bom tu te acostumar. Essa tua valentia nada vai adiantar.

LAMPIÃO - O pior dos sofrimentos é eu ter que te escutar.

FORROBODÓ - Traz o tacho com o azeite! (entram mais dois demônios com um tacho. Forrobodó indica o tacho à Lampião e fala). Nele tu vai cozinhar.

LAMPIÃO - Mas, primeiro tu me pega.

FORROBODÓ - Isso não vai demorar. Atrás dele, cambada!

(Começa uma perseguição à Lampião dentro do teatro, em meio a gritos, saltos e muita confusão. Os personagens desaparecem da platéia por diversos pontos. A cena permanece vazia por algum tempo. Subitamente, entra Lampião por um lado e os demônios por outro, encontrando-se todos novamente. Lampião traz um porrete na mão).

LAMPIÃO - Agora essa nossa briga muda um pouco de feição.

DEMÔNIOS - Espia, ele tá armado.

- Em cima desse ladrão!

- Ai meu rabo, infeliz!

(A desordem é total. Só Coxo assiste, fleumaticamente, a briga, sem se envolver com ela).

LAMPIÃO - ( a Coxo) Ai, tu tás aí?

COXO - (amedrontado). Só tava apreciando...

LAMPIÃO - Melhor se aprecia de dentro. (dá-lhe uma cacetada no pé). Você já pode ir entrando.

COXO - (pulando num pé só).Meus irmãos, ai que mazela, acertou no meu pé manco!

LAMPIÃO - Não seja por isso, cabra. (dá-lhe nova cacetada, agora no outro pé).Me empresta o teu tamanco.

(Coxo cai. Lampião tira-lhe o tamanco e joga-o no grupo que avança para ele. Com o susto, os demônios recuam e Lampião aproveita para dar uma ripada geral que derruba a todos. Depois, derrama o azeite sobre eles, entre gritos de dor).

LAMPIÃO - Acabou-se a prosa deles; agora, já posso entrar. Quem quiser ir pro inferno é só me acompanhar.

(Música. Luz vai caindo em resistência. Lampião corre em direção à cancela).





Cena 3

( A corte de Satanás. O cenário fica à critério da Direção, observando-se, apenas, que Satanás deverá ocupar posição proeminente. A corte poderá ser composta pelos demônios da cena anterior, ou por outros tipos, segundo ainda o entendimento do encenador. Há um ar de fausto decadente no ambiente).

SATANÁS - Como Príncipe do Inferno convoquei esta assembléia pra tomar conhecimento de tudo o que aqui se faz. Pois, bem sabem os companheiros, meus irmãos da malandragem, os dias da mocidade já me ficaram pra trás. Já não tenho aquele força, perdi a agilidade, não posso mais andar a pé por toda a propriedade. Canguinha, fala primeiro, como vai o teu setor?

CANGUINHA - Eu cuido dos que são cornos, mas não fiz melhoramentos, pois falta lenha pro forno e até pro aquecimento. É tanta gente chegando lá no meu departamento, que não há chifre que chegue. Acabou-se o sortimento.

SATANÁS - Canguinha, voa pra terra, procura de porta em porta. Onde tiver mulher safada tu chega, bate e encosta. Procura o marido dela; os chifres tu traz na volta.

CANGUINHA - Isso é que são providências. Vou à terra e volto já. Dêem-me licença os senhores, não quero me demorar. (sai).

SATANÁS - Fala agora Leva-e-Traz, encarregado do samba.

LEVA-E-TRAZ - Descobri um sanfoneiro que na terra foi capaz de bater na própria mãe em noite de sexta-feira, no dia 13 de agosto, em cima de uma ribeira. Apareci pro sujeito: ele de medo gelou. Falei: vamos pro inferno. O cabra não concordou. Avoei na goela dele até que ele se finou. Depois, esperei a alma na cancela do inferno. Levei logo ele pro samba e ele inda hoje tá lá. Quando cansa, leva um murro e volta a se animar.

SATANÁS - Fizeste bem. Me orgulho muito de ti. Agora, quero falar... (entra o 1º Demônio).

1º DEMÔNIO - Satanás, filho das trevas, valha a tua proteção! Tamos correndo perigo.

SATANÁS - Que foi?

1º DEMÔNIO - Chegou Lampião.

SATANÁS - Que é que tem? Tu não é macho?

1º DEMÔNIO - É grande a minha aflição. Lampião fez um estrago...

SATANÁS - Onde está o cão vigia?

1º DEMÔNIO - Chega já, já tão trazendo.

TODOS - Trazendo? Que aconteceu?

1º DEMÔNIO - Tá esmorecido das pernas.

SATANÁS - Que é que tu tás dizendo?(entra o 2º Demônio).

2º DEMÔNIO - Satanás, grande perigo! Atacaram o paiol, abriram o cano da merda e tá se formando uma enchente.

SATANÁS - E tu, onde é que estavas, canalha incompetente?

2º DEMÔNIO - Tava cuidando da pá, como é minha obrigação, quando me surge um vulto dizendo-se Lampião; com a mesma pá que eu tava bateu-me: caí no chão. Aí, foi tanta pancada no rabo, nas mãos, nas pernas, que me deixou sem ação.

(Entra o Cão Coxo conduzido numa padiola)

SATANÁS - Com os seiscentos mil diabos do inferno! Coxo, que te fizeram?

COXO - Ah, meu patrão, sua conta tá errada. Com os quinhentos e quarenta e seis mil diabos do inferno, porque cinqüenta e quatro mil não são mais cão pra nada. Tá uma danação lá fora. É cão com o rabo cortado, caras ensangüentadas, pelo voando pra todo lado e não tem quem agarre o homem. Aquele cabra deve estar com o diabo no couro.

SATANÁS - Com o quê?

COXO - Desculpe, foi força de expressão.

(Começa-se a ouvir ruídos de pancadaria, fora do teatro, que vão crescendo até a balbúrdia total. Gritos, latas batendo, explosões, urros. Em cena reina a maior confusão).

SATANÁS - Se aqui não tem homem, vou cuidar dessa questão.

(Entra Lampião sujo e descabelado, trazendo nas mãos a porteira do inferno, que joga aos pés de Satanás. É precedido por um séquito de cães estropiados, em quem ele dá, vez por outra, um pontapé, um puxão de rabo, um cocorote).

LAMPIÃO - (irônico) Quedê o dono da casa?

SATANÁS - (altivo) Está falando com ele.

LAMPIÃO - Não gosto de dar em velho.

SATANÁS - Que maior atrevimento! Eu sou Belzebu, o Príncipe das Trevas, a única criatura que desafiou a Deus.

LAMPIÃO - Grande vantagem. Pra vir reinar nessa porqueira? Tu perdeste a batalha com Deus e ainda não entendesse. Vê só que porcaria, tudo caindo aos pedaços...

SATANÁS - O ambiente pode não ser dos melhores, mas exige-se respeito.

LAMPIÃO - Não grita comigo, não, que eu fico nervoso. Já tô fazendo muito favor de não te lascar a cara e tu ainda quer te meter a besta.

SATANÁS - Vê lá como fala...

LAMPIÃO - Passa pra lá!

SATANÁS - Não se atreva, bandido.

LAMPIÃO - Tu ainda estás prosando?

SATANÁS - Maior poder não há que o que reina no inferno. Dos males tenho o comando, dos homens decido a sina.

LAMPIÃO - Escuta lá, Satanás. Leva a sério o que eu te digo: o teu inferno já foi muito melhor protegido. Mas, agora que eu cheguei, tá tudo comprometido.Toco fogo no teu trono, destruo teus armazéns, a cancela ponho abaixo, vivo não deixo ninguém.

SATANÁS - Lampião, a tua força não tem sobre mim poder. Pois, embora revoltado, fui um anjo...

LAMPIÃO - Custa a crer. Pois tás um velho mofino, pior não podia ser.

SATANÁS - Este teu atrevimento vou agora castigar. (aos demônios) Em cima dele, meus filhos, pra nossa honra vingar.

(Os demônios avançam. Lampião volta-se e os encara. Os demônios estacam).

1º DEMÔNIO - (forte) Agora!

(Nenhum demônio se mexe. O 1º Demônio está muito constrangido).

1º DEMÔNIO - (baixo e desanimado) Agora!

DEMÔNIOS - (num fio de voz) Em cima dele!

LAMPIÃO - (ri, vitoriosamente e fala a Satanás) É essa a tua puliça?

SATANÁS - (com raiva) Ataquem!

(Repetem-se os mesmos gritos desanimados e ninguém avança. Lampião faz uma careta e grita. A debandada é geral. Fica apenas Satanás).

SATANÁS - Nunca pensei assistir a essa desmoralização. Ah, se eu não fosse eterno, matava-me com a própria mão pois, pra vergonha tão grande, não existe explicação.

LAMPIÃO - Vamos acabar com as lamúrias, quero aqui animação. Traz as mulher, faz um samba; é tua parte de cão.

SATANÁS - Sou príncipe...

LAMPIÃO - Pobre diabo, obedece a Lampião.

SATANÁS - (levantando os braços para o alto) É mais uma desfeita tua? Tua vingança não tem fim? Mandaste aqui o teu filho, há muito tempo atrás, libertar as almas puras das garras de Satanás, tirando o melhor bocado que para o diabo existe que é perseguir os justos e zombar dos infelizes. Mas, tudo isso foi pouco; não ficaste satisfeito. Agora, mandas um bandido perseguir-me deste jeito!

LAMPIÃO - Cala a boca, esp’rito ruim, e obedece ao que eu te digo: traz as mulher, faz um samba; ligeiro, senão m’irrito.

(Satanás dirige-se a um congo e toca-o três vezes. Os demônios vão voltando, atemorizados. Com eles vem o Sanfoneiro e a filha de Satanás).

SATANÁS - Trepadeira!

TREPADEIRA - Senhor, meu pai?

SATANÁS - Vai ter samba, eu me retiro; tu cuida dos convidados.

LAMPIÃO - (à Satanás) Tu fica pra assistir.

TREPADEIRA - Que rapaz mais zangado! Como é teu nome, meu filho?

LAMPIÃO - Lampião, sou afamado.

TREPADEIRA - Gosto de homem valente.

LAMPIÃO - Tal e qual Maria Bonita. Por falar nisso, ela não tá aqui, não?

TREPADEIRA - Não. Eu sabia que tu vinhas. Aí, dei um jeito de desviar ela pro purgatório.

LAMPIÃO - Como é que se vai pra lá?

TREPADEIRA - Nos sábados tem condução. Mas, como hoje ainda é quinta, aproveita a diversão.

LAMPIÃO - Sanfoneiro, puxa o fole! Mas, primeiro vou dizer o regulamento da dança que é pra ninguém se esquecer: quem desrespeitar as damas comigo vai se ver.

(Música. Todos dançam, enquanto a luz cai em resistência)





Cena 4

(O mesmo cenário da cena anterior).

LAMPIÃO - Em primeiro lugar, vou casar com sua filha.

SATANÁS - (resmunga).

LAMPIÃO - Em segundo lugar, já é tempo de se resolver quem é que manda aqui no inferno.

SATANÁS - Eu.

LAMPIÃO - Tu, coisa nenhuma. Ninguém mais te respeita. Quando o comandante perde o controle da tropa já é tempo de se aposentar. Depois, tu tás muito velho, desanimado, sem pulso, e a cambada faz o que bem entende. Isto aqui está uma bagunça, Satanás!

SATANÁS - (humilde) É, eu sei. Mas o que tu queres fazer não é possível. As coisas do céu e do inferno são imutáveis. Imagina se Deus ia deixar ninguém no lugar dele!

LAMPIÃO - Mas, tu não és Deus. Deus não tem idade, e tu ficas velho todo dia que passa.

SATANÁS - Mas, também sou eterno.

LAMPIÃO - Aí é que se dana tudo. Chupado como tu estás, vás terminar aquele esqueleto rabudo sem serventia pra nada. Não pode. Não dá certo.

SATANÁS - É fogo.

LAMPIÃO - Vamos fazer um trato: a gente faz uma eleição. Se os cabras te escolherem, é tu; se não...

SATANÁS - Tu ficas no meu lugar?

LAMPIÃO - É o jeito, né?l (bate no gongo chamando os demônios).

SATANÁS - Atenção, negrada. Lampião quer falar com vocês.

LAMPIÃO - Vocês todos já me conhecem e sabem do que sou capaz. Agora, prestem atenção: Satanás e eu decidimos que esse inferno é muito pequeno pra nós dois. Ou eu ou ele deve ficar no comando. Ele já é velho, cansado, sem sustança pra nada. Já eu, se eleito, prometo reformar todos os setores que estão por aí na maior esculhambação. Prometo que o inferno vai voltar a ser o que era, porque do jeito que está não assusta mais nem beata. Não tem graça o povo na terra rezar: "livrai-nos do fogo do inferno", se aqui não tem fogo nem pra esquentar a água do café. Vocês é que escolhem. Agora, tem uma coisa: é bom não se esquecerem que vencedor ou vencido eu continuo por aqui. E, se Satanás ganhar... vocês sabem, né?

DEMÔNIOS - Sabemos todos, sabemos todos.

LAMPIÃO - Tem outra coisa. Vou me casar com Trepadeira e, se eleito, ela é que vai ser a primeira dama, em lugar de Maria Massimina.

SATANÁS - Posso falar agora?

LAMPIÃO - Pode.

SATANÁS - Eu queria dizer que concordei com a proposta de Lampião. A eleição tá aberta e o voto é livre. Quem é que vocês escolhem?

DEMÔNIOS - Lampião.

- É o maior.

- Já ganhou. -

- Viva o Rei do Cangaço.

SATANÁS - Tu ganhasse. (vai até Lampião e coloca-lhe o manto) Trepadeira! Traz um rabo.

(Trepadeira traz um rabo e coloca-o em Lampião).

LAMPIÃO - Só não estou gostando muito é desse troço...

SATANÁS - Que é que tu quer? Diabo sem rabo é que não reina no inferno.

COXO - Viva o novo Satanás!

DEMÔNIOS - Viva!

SATANÁS - Agora, toma o centro, símbolo do poder infernal.

(Lampião, ao segurar o cetro, grita de dor)

SATANÁS - (rindo) Tem que se acostumar, foi você que escolheu.

(Lampião trinca os dentes, mas segura o cetro).

SATANÁS - Coxo, providencia o casamento.

COXO - É pra já. Forrobodó, tu vai ser meu assistente. Vai buscar o material.

FORROBODÓ - Volto já. (sai)

LAMPIÃO - ( a Coxo ) Também não precisa muita cerimônia. Com uma noiva dessas...

TREPADEIRA - Dessas como?

LAMPIÃO - Meio desencaminhada, né? Não vejo necessidade de muito aparato.

COXO - A noiva pode não ser lá muito virgem, mas a lei tem que ser cumprida.

TREPADEIRA - Que é que vocês tão pensando? Sou moça donzela. Trepadeira... é o nome de uma planta...

de uma plantinha, pronto...

COXO - Que se trepa em tudo que é pau que encontra...

TREPADEIRA - E daí? Não deixa de ser planta... plantinha.

LAMPIÃO - Tá bom. Trepando ou não trepando, vamos logo com isso.

FORROBODÓ - (entrando) T’aqui a encomenda.

COXO - Não esquecesse nada?

FORROBODÓ - Tá tudo aqui. (entrega um grande livro, pena , tinteiro, capa preta e uma marreta dessas usadas por palhaços).

COXO - Aproximem-se os dois. Virgulino da Silva, por alcunha Lampião, aceita a donzela Trepadeira por sua legítima esposa?

LAMPIÃO - Aceito.

COXO - É muita coragem! Trepadeira, aceita Lampião como teu legítimo esposo?

TREPADEIRA - Se pai faz gosto...

SATANÁS - Faço gosto, sim, minha filha.

TREPADEIRA - Então, aceito.

COXO - ( a Forrobodó) Assistente, tás tomando tudo no assento?

FORROBODÓ - Tô, sim.

COXO - (enrolando Lampião e Trepadeira no manto preto) Em nome das leis do inferno eu vos declaro cão e coa para toda a eternidade. Que sejam infelizes para sempre. (dá uma marretada na cabeça dos dois)

LAMPIÃO - Ai, meu quengo, excomungado!

DEMÔNIOS - Fala, Satanás!

SATANÁS - Esse é um dia de festa e grande satisfação. Tô casando minha filha com o famoso Lampião; na terra, rei do cangaço e do inferno prefeito de ação. O casamento foi feito com a minha aceitação. Trepadeira, minha filha, ele agora é teu patrão. Cuida de tomar juízo, evita a corrupção. Lampião já tem prestígio, veste o manto, porta o cetro; vai reinar por muitos anos, disto estamos todos certos. Tá proclamada a folia, mas com ordem e com respeito.

COXO - O inferno tá mudado: em vez de cão, é prefeito.

LAMPIÃO - Satanás, dê cá um abraço nas costelas do teu genro.

SATANÁS - Com muito gosto, meu filho; és de bom discernimento. (abraçam-se)

LAMPIÃO - Agora, Coxo, vigia uma cachaça da boa. De chope traz mil barris. Conhaque e vinho pra patroa. Corre ao armazém central e traz todo refrigerante. Comida, vê que não falte galinha, pato e peru: do chão, traz tudo que ande; do céu, enjeite urubu. Traz cachaça "Amansa Corno", "Serra Grande" e "Pitu".

COXO - Já vou indo e volto já. Cambada, prepara o bico. Vai ter fartura no inferno. Leva-e-Traz, tu vem comigo.

(Música. Dança. Corte na luz).







Cena 5

(Depois da festa. Lampião está derreado sobre o trono, com a cabeça entre as mãos. A luz concentra-se sobre ele. À direita, vai surgindo um vulto encapuçado, trazendo a cabeça de Lampião sob o braço, de maneira que a cabeça, de início,não seja distinguida pela platéia).

LAMPIÃO - Quem vem lá? (o vulto não responde) É de paz? (pausa) Vamos, fala, quem és? Solta a língua, diabo! (pausa longa) Ah, tu quer brincar comigo. Que é isso que tu traz aí embaixo do braço? Ah, não quer falar? Se for mudo, se aproxime, já vi que tu pode andar. Pelo poder de Satanás eu t’esconjuro! Serás tu assombração?

Alma penada do inferno? Consciência de ladrão? Anda, fala, não demora que paciência não espicha que nem fole de sanfona. Anda cá, eu te ordeno, deixa de brincar comigo. Ah, não quer? Então eu vou lá, pra te sangrar, seu bandido!

(puxa o punhal e tenta levantar-se)

LAMPIÃO - Com os diabos do inferno, não posso me levantar. (toca o gongo) Cambada, vem cá, me solta. Leva-e-Traz, Forrobodó, Coxo, Canguinha, Cipó, é vosso chefe que fala!

(os Demônios entram em silêncio, em procissão, e formam um semicírculo em torno do trono).

LAMPIÃO - Vocês também tão calados?

(Neste instante, o vulto desfere um grito tremendo e corre ao centro do palco aonde deposita a cabeça de Lampião. Luz vermelha sobre a cabeça. A luz de cena cai).

LAMPIÃO - Me tirem daqui, eu ordeno. Me soltem, tô preso!

COXO - É minha a primeira espetada!

(Coxo crava o tridente na cabeça decepada. Lampião leva as mãos à própria cabeça, no lugar em que a outra foi espetada, e grita de dor).

FORROBODÓ - Eu vou puxar as orelhas.

(A todo movimento dos demônios na cabeça decepada, corresponde uma reação de Lampião, como se os golpes fossem vibrados no seu próprio corpo).

1º DEMÔNIO - Azeite quente, cambada! (derramam azeite sobre a cabeça decepada).

LAMPIÃO - Ai, minha cabeça tá fervendo, tragam água!

DEMÔNIOS - Toma mais essa aqui! ( giram em torno da cabeça decepada desferindo golpes. Lampião está desesperado. Entra Satanás, imponente.

LAMPIÃO - Me soltem daqui, covardes!

SATANÁS - (com dois punhais nas mãos) Tu, que me roubaste o trono. Tu, que usurpas o meu cetro. Agora vês que o reinado de Satanás é incerto. Ah, Lampião, jamais ninguém quiz ficar no meu lugar, pois governar sobre os tristes, castigo maior não há. Fui um anjo, é bem verdade; me revoltei contra Deus. Por isso, em todo o universo ninguém sofre como eu. Mas, agora eu divido contigo a minha sina. Não reclames, tu quiseste ocupar o horrível posto. Sofre agora, alma danada, teu suplício me faz gosto.

( Crava os dois punhais nos olhos da cabeça decepada. Lampião leva as mãos aos olhos. Ao retirá-las, o sangue lhe desce pelas órbitas, escorrendo pelo rosto)

LAMPIÃO - Estou cego, tudo é treva.

(Lampião desce do trono e é empurrado de lá para cá pelos demônios, até que o derrubam).

LAMPIÃO - Se arrependimento matasse...

SATANÁS - Não te queixes, já estás morto.

LAMPIÃO - Pequei muito sobre a terra, porém, por ignorante. Valei-me meu padim Cirço, nesta hora tão minguante!

(Sinos. Os demônios recuam. Surge Padre Cícero)

PADRE CÍCERO - Arrependimento não mata, meu filho, mas dá vida. ( toca-lhe os olhos) Vamos, levante-se.

LAMPIÃO - (voltando a ver) Meu padim...

PADRE CÍCERO - Satanás, volta ao teu posto. (Satanás, com um rugido, volta ao trono).

PADRE CÍCERO - (arrancando o manto de Lampião) Tira este manto de treva e o cetro da perdição. Devolve tudo ao Demônio. Pra ti ainda há perdão.

LAMPIÃO - Mas, como, meu santo padre?

PADRE CÍCERO - Vou te dizer, meu irmão: precisamos, lá no céu, de tua reputação pra fazer frente a um anjo que também que virar cão.

(Entra correndo Pilão deitado, um cangaceiro).

PILÃO DEITADO - Um momento, meu padim! Fui cabra de Lampião; meu nome é Pilão Deitado. Peço sua aprovação para voltar para o mundo virado em assombração. E contar pelas esquinas mais escuras, e nos desertos, nas encruzilhadas soturnas, em todo caminho incerto: do que aqui foi passado farei relatório certo. (dirigindo-se ao público) Ouçam agora os senhores o que tenho que contar. É um folheto bonito que todos podem escutar. Escrito por Zé Pacheco. Melhor poeta não há! (tira um folheto de cordel do embornal e começa a recitar)

"Um cabra de Lampião

Por nome Pilão Deitado

Que morreu numa trincheira

Em certo tempo passado

Agora pelo sertão

Anda correndo visão

Fazendo malassombrado

E foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar

O inferno neste dia

Faltou pouco pra virar

Quem duvidar nessa história

Pensar que não foi assim

Querer zombar do meu sério

Não acreditando em mim

Vá comprar papel moderno

Escreva para o inferno

Mande saber de Caim".

Recife, 10 de setembro de l972




























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