PAPO FURADO by Jairo Lima
PAPO SOLTOMEU PERFILJAIRO LINKSMANDE BRONCA


Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Fábulas pós-modernas
Versos a granel


Ilustríssimos Senhores (teatro)

Jairo Lima e Lúcio Lombardi

ILUSTRÍSSIMOS SENHORES

Prêmio de Comédia do XI Concurso Nacional de Dramaturgia/1979

 

Instituto Nacional de Artes Cênicas - INACEM

 

PERSONAGENS

(por ordem de entrada em cena)

1º REI MAGO

2º REI MAGO

3º REI MAGO

GABRIEL

MARIA

JOSÉ

1º PASTOR , depois JOAQUIM

2º PASTOR

3º PASTOR

1ª PASTORA, depois ANA

4º PASTOR

5º PASTOR

2ª PASTORA

SENHOR DE TERRAS

BURGUÊS

MULHER DO POVO

PASTORES E PASTORAS

ATO 1

Cenário: um telão ao fundo mostrando um céu estrelado, uma gruta, um boi, um jumento e ovelhas pastando ao longe. Mais à frente vê-se uma estrela de cauda confeccionada em papel laminado dourado. Em frente à gruta, uma manjedoura com um boneco representando o menino Jesus.

A cena começa com todos os personagens de um presépio ( MARIA, JOSÉ, PASTORES etc.) em atitude de adoração, como nas estampas populares. Ouve-se um coro cantar o "Noite Feliz". Em dado momento entram em cena os três Reis Magos.

1º REI MAGO - Trago ouro...

2º REI MAGO - Incenso...

3º REI MAGO - e mirra...

Entra GABRIEL , vestindo roupas comuns e trazendo sob o braço um par de asas. Chegando à frente do presépio, joga as asas no chão e cruza os braços).

GABRIEL - Nesse presépio eu não entro!

MARIA - Escuta aqui, Gabriel: eu, que sou Nossa Senhora, mando muito mais do que tu, lá no céu. Que é isso? Tá se rebelando? Quer dar uma de ateu? Ponha logo suas asas e anuncie de uma vez a sua primeira fala que é: Gloria in excelsis Deo!

(Os pastores, tentando salvar a situação, formam apressadamente um coral escondendo assim Gabriel.

PASTORES - (cantam) Et in terra pax hominibus bonae voluntatis.

GABRIEL - Dou um doce pra quem souber o que está cantando.

JOSÉ - (para MARIA ) Ô Maria, que vexame!

MARIA - E o povo, o que vai pensar?

(José se dá conta do público e, cheio de dedos, vem à frente tentar remediar a situação)

JOSÉ - Respeitável público. Desculpem a molecagem de Gabriel.

GABRIEL - Não tô fazendo molecagem nenhuma.

1º REI MAGO - Cala a boca, imbecil.

GABRIEL - Cala a boca você, seu reizinho de pastoril. Era só o que faltava. Fique na sua, tá?

1º REI MAGO - Sou figura importante.

GABRIEL - Só quando tá calado, fazendo pose de santo.

1º PASTOR - Como é, parou o drama, foi?

JOSÉ - (Aflito, tentando mais uma vez dissimular a situação para o público, assumindo o papel de diretor do espetáculo) Foi só um mal entendido. Pessoal, nos seus lugares, vamos organizar o presépio. Maria, adora o menino. Vamos lá, mundiça, tudo de mãos postas. Pastores, não fiquem muito em cima dos Reis Magos, não. (aos Reis Magos) Vocês, venham mais pra frente. Assim. Vamos começar tudo de novo.

(A cena se arruma novamente. Gabriel permanece no palco, à parte, emburrado)

1º REI MAGO - Trago ouro...

2º REI MAGO - Incenso...

3º REI MAGO - e mirra...

GABRIEL - Muito bem. Mas primeiro alguém vai me explicar o que diabo vem a ser mirra.

1º PASTOR - Tu de novo? Porra, nunca vi drama pra sair mais errado.

GABRIEL - Agora você falou. Tá tudo errado, mesmo. Quem já viu Nossa Senhora, uma pobre desvalida, vestida de rainha, coberta de jóias, dentro duma estrebaria?

MARIA - Deixa de ser burro. Tu nunca reparou nas estampas? Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Ó, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro... tudo ali, vestida no capricho. Era bem pra mãe de Deus andar esmolambada? Me erra.

GABRIEL - Engraçado, mulher tão fidalga, tão granfina e casada com um reles marceneiro.

JOSÉ - (indignado) Marceneiro pode ser tua mãe. Eu, São José, sou santo, meu camarada. Respeito é bom, hem?

GABRIEL - Santo, marceneiro, não deixa de ser salário mínimo, né? Onde ia arrumar dinheiro pra mulher andar nos trinques?

JOSÉ - Ô, jumento, só que na hora em que Cristo nasceu ele deixou imediatamente de ser marceneiro e já figura de manto bordado e resplendor de ouro.

1º PASTOR - (que está suando muito e se abanando debaixo de uma chuva de "neve") Olha, se vocês vão continuar nesse bate-boca eu vou me aliviar deste cobertor (Retira a túnica de pastor)

GABRIEL - (ao 1º PASTOR ) Olha aí, não ficou muito melhor?

1º PASTOR - Pelo lado do calor ficou ótimo, agora, pelo lado do presépio acho que não fica decente, não.

GABRIEL - E tu pensa que os pastores do tempo de Jesus andavam cheio de babados no meio dos carrapichos? Pastor é que nem boiadeiro, vivo no meio do mato botando sentido nos bichos. Havia bem de viver com roupa de festa esperando lapinha?

1º PASTOR - Se é assim como você diz...

1º REI MAGO - Seja lá como for! Vamos em frente com esta história que rei como eu só veste coroa, manto e espora.

GABRIEL - Falou igualzinho a Herodes, que sempre quis ser o bamba. Aqui, de Rei, só o Cristo que nasceu e viveu pobre. Agora, vejam esta cama...

MARIA -Não bula aí, Gabriel!

GABRIEL - Mãe que é mãe não deita o filho nesse enfeite de papel, cortante que nem espinho.

MARIA - Mas fica bonito no palco.

GABRIEL - Em matéria de menino, mãe abre mão de regaço? Que absurdo, deixar o pobre, nuinho, levar frio no espinhaço.

MARIA - Deus é Deus, não sente frio.

GABRIEL - E como é que suou sangue se não tinha a matéria igual à de qualquer homem?

MARIA - Isso cheira a heresia. Eu, hem?

GABRIEL - Cheire lá como quiser. No drama que eu imagino Maria é muito mulher. José é Zé Marceneiro, nada de santo. Seu Zé. E eu me chamo Gabriel.

MARIA - Mas não deixa de ser anjo...

GABRIEL - Anjo, não, assombração. Eu apareço a Maria lá no meio da função, numa cena tão linda que é melhor eu não contar agora pra não tirar o grande efeito deste drama.

MARIA - (começando a se convencer) Vai ser bonito de mesmo?

GABRIEL - Tanto quanto possa ser a beleza que carregue eu, todo o elenco e você.

JOSÉ - E eu não dou mais palpite? Me digam como é que é. Comprei o pano, pintei o céu de azul, botei rabo dourado numa estrela e fiz perfeita imitação de um presépio granfino digno de qualquer salão. E como se fosse pouco, ainda botei anúncio no rádio, chamei a televisão e dei entrevista aos jornalistas. Quer dizer: gastei do meu dinheiro só pra você vir dizer que o cenário não presta, o figurino tá por fora, e mais isso, e mais aquilo. Logo você, Gabriel, contratado em cima da hora pra dizer um texto besta, pegar a grana e ir embora. Distinto público, desculpe a minha afobação, mas anjo desse quilate não entra em meu drama, não. Vai, desinfeta o ambiente!

GABRIEL - Texto besta, seu Zé? Meu texto fez história nesse mundo. Pra começo de conversa deu uma reza famosa.

MARIA - Ave Maria, apois não é mesmo? Pra mim, presépio sem anjo é como planta sem talo, é carro sem roda, é cobra sem rabo, é roça sem chuva, é boi sem cercado, é mote sem rima, igreja sem adro. É porisso, Gabriel, que agora fico ao teu lado. Eis aqui tua criada, pode mandar teu recado.

GABRIEL - Primeiro, tire essa faixa, arranque o manto das costas e vire gente, moça!

1º PASTOR - Pessoal, me ajuda aqui a tirar a rabuda.

(Os pastores derrubam a estrela de cauda do cenário)

JOSÉ - Aqui não se mexe em nada.

2º PASTOR - (pegando a manjedoura como o Menino Jesus) Ei, minha gente, onde é que eu ponho esse boneco e a palha?

3º PASTOR - Esconda aí nas coxias. (O 2º PASTOR retira-se levando o Menino e a manjedoura).

JOSÉ - Será que não falei claro? Parem aí, senão eu arrebento quem de vocês se atrever a tocar numa palha. Sou muito macho pra isso.

1º PASTOR - (referindo-se à flor que JOSÉ segura na mão direita, como nas gravuras populares). Arrepara só na florzinha na mão dele... Vem pra cá, machão!

JOSÉ - (muito ofendido com a insinuação) Essa flor que trago aqui faz parte da tradição.

1º PASTOR - (arrancando o lírio da mão de JOSÉ) Essa não!

JOSÉ - Pois José, de profissão, era santo padroeiro.

MARIA - (tirando-lhe a túnica) Marceneiro!

JOSÉ - E o que é que São José trazia na mão?

2º PASTOR - (entregando-lhe uma caixa de ferramenta) Serrote, pua e formão!

JOSÉ - E o seu manto como era?

1º REI MAGO - (desdenhoso) Uma bata de operário.

JOSÉ - Sua comida?

3º PASTOR - Marmita.

JOSÉ - Sua reza preferida?

GABRIEL - Trabalho.

JOSÉ - Que graça tem São José ser igual a um Zé qualquer que vive só do trabalho?

GABRIEL - A graça reside nisso: ser gente é ter compromisso com uma estrela e uma cruz. A primeira, obra divina, e a segunda obra- prima de um marceneiro qualquer.

JOSÉ - E por que cruz é obra-prima?

GABRIEL - Pois se ela é um instrumento que simplesmente não deixa a gente cruzar os braços? Vista de perto é a morte. Vista de longe, um abraço.

JOSÉ - E o milagre, onde fica, num mundo de marceneiros e operários?

GABRIEL - Quer ver milagre? Pois não. Vamos lá, pessoal, retirem o céu e suspendam a gruta do chão.

(O telão onde está pintado o céu e a gruta sobem e desaparecem no alto).

JOSÉ - (pesaroso) Lá se vai o meu cenário.

GABRIEL - Lá se foi a ilusão. Agora fica a verdade: Zé, operário da serra, Maria, sua mulher, o céu igual ao de hoje. A gruta, um canto qualquer perdido no meio do mundo. Lugar sujo e apertado, assim como uma tapera abandonada no mato ou um mocambo no mangue. Enfim, um lugar tão feio, tão sem status e nobreza que nenhuma imobiliária botava ali sua tenda pra lotear e vender. Quanto a José, já sabemos que era um simples artesão que não teve muita fama e só ganhava uns trocados com a sua profissão. Maria era calada, vivia lá no seu canto, mas, se quisesse podia ter tido fama no mundo pois sabia traçar versos, era grande repentista. Um dia lhe deram um mote e ela fez o Magnificat, assim todo de improviso. Mas, não quis nunca saber disso e sempre cuidou doutra vida.

2º PASTOR - (indicando Maria) Fazer repente é com ela. (Pra Gabriel) E a gente, como fica?

GABRIEL - Vocês vão ter um papel sem nenhuma dificuldade pois pastor é gente pobre, igual a você, compadre.

2º PASTOR - Pode deixar que a gente faz este papel no capricho, pois desde a hora em que nasce a gente só treina isso.

1º PASTOR - Não quero representar eu mesmo. Estou cheio de ser pastor. Droga. Há dez anos não saio disso. E olhe que sou bom ator, já representei no circo o papel de Nosso Senhor.

GABRIEL - Fizeste o papel de Cristo?

1º PASTOR - Com muita honra e esplendor.

GABRIEL - Pois então, meu camarada, como Cristo é só um bebê, tu hás de ser seu avô. Tu fica com o papel de Joaquim.

1º PASTOR - Tá certo, já melhorou.

JOSÉ - Que sujeitinho caviloso. Se começa por meu sogro esta história não tem fim. Daqui a pouco Abraão, Isaac, Jacó, Judá, Tamar, Farés e Aram, sem falar de Josafá, chegam aqui com Eleazar, Natan, Jacó e Noé com a barca cheia dos bichos. E aí, só quero ver como é que é.

GABRIEL - Deixe de seu exagero e respeite seus parentes que, segundo diz a Bíblia, é tudo gente decente. Mas no drama que eu penso eles vão ficar ausentes. Começa tudo com Ana Joaquim, José...

1º REI MAGO - (interrompendo) e a gente?

GABRIEL - Vocês só entram mais adiante, na festa.

1º REI MAGO - Bendito 6 de janeiro que sempre persegue gente. É no drama, é no Natal, somos os derradeiros sempre. E tudo o que a gente faz é entregar os presentes.

(Os reis magos pegam a estrela de cauda que estava jogada no chão, põem na cabeça e se retiram com ela)

GABRIEL - E agora, distinto público, vai começar nosso drama, se ninguém mais atrapalhar.

MARIA - Espera aí, e mamãe? Cadê ela?

JOSÉ - (ironizando Gabriel) Conhece tanto a história que até esqueceu minha sogra. Cadê Santana?

2º PASTOR - E a gente, já está em cena?

1ª PASTORA - Já vamos cantar agora?

GABRIEL - Não, não, sai todo mundo e só fica a senhora.

(Todos saem, exceto a 1ª Pastora)

1ª PASTORA - Só sei cantar mais o coro.

GABRIEL - Deixe o canto pra outra hora. Você vai fazer Santana, mãe de Nossa Senhora e avó do Menino Deus.

ANA - Não mereço tanta glória.

GABRIEL - Glória a Deus nas alturas do céu, na terra e no mar!

Glória a Deus na Galiléia, Pernambuco e Ceará.

Glória a Deus que viu o mundo nascer, crescer, se empinar e tomar o freio nos dentes pro seu caminho encontrar.

Glória a Deus na encruzilhada de caminhos tão diversos: de um lado o oprimido, de outro lado o perverso.

Glória a Deus que aparta a briga das esferas do universo, calculando pelas massas o afastamento correto.

Glória a Deus e aqui me valha na história que vou contar: me dê tutano e talento e, aos que vão representar junto comigo, dê verdade e sentimento. A vocês, distinto público, que Deus dê discernimento pra poder apreciar o maior drama do universo.

Quando Deus criou o mundo

abriu-se um grande registro

pra tomar nota dos feitos

que queriam acontecidos.

Na folha 1 tá escrito

em fina caligrafia

um nome que tem princípio

com "M" de maravilha

Depois de um "A" tem um "R"

assim como de rainha

Em seguida vem um "I"

que imortal anuncia

E aí, sem mais nem menos

Entra um "A" de agonia

dando por finda a palavra

que o livro principia

(GABRIEL sai)

ANA - (chamando e como que completando o texto anterior de GABRIEL ) - Maria!

(MARIA entra)

MARIA - Senhora? Eu estava no quarto.

ANA - Rezando?

MARIA - Arrumando a cama.

ANA - Tu não cansa de trabalhar?

MARIA - Gosto de tudo bonito e arrumado.

ANA - Esta casa está um brinco. Mas, não vês que não é tua?

MARIA (brincando) Tá me botando pra fora?

ANA - Tu me entendes...

MARIA - Outra vez? Ô, mãe, quando for o dia, você vai saber na hora.

ANA - Sei lá, teu gênio é esquisito.

MARIA - Sou diferente?

ANA - Talvez.

MARIA - Como assim?

ANA - Vê tuas primas: casaram quase de vez. Aí, fizeram barrigas de dar gosto de ver e encheram a casa de filhos.

MARIA - Eu mesma fiz os bordados.

ANA - Com mão e fada. Soubesse como foram elogiados? Teu nome, de boca em boca, correu por aqueles lados. Diziam: moça prendada e ainda não casou. Pretendentes é o que não falta.

MARIA - Mais de um já me abordou.

ANA - E você?

MARIA - Pra ser sincera, o que é meu ainda não chegou.

ANA - A farinha que se come não volta mais pro bornal. Eu e teu pais somos velhos...

MARIA - A idade é coisa normal.

ANA - Mas traz também incertezas que é melhor prevenir pra não ter que remediar. Sabe, filha, o casamento põe as coisas no lugar e dá segurança pra gente enfrentar a velhice mais descuidada.

MARIA - Tudo tem hora e lugar. Trago em mim um sentimento difícil de explicar, mas que é tão claro e tão certo, maravilhoso e profundo que me dá certeza de que não perco por esperar.

ANA - Tuas visões, novamente?

MARIA - Ah, mãe, a senhora pensa que é invenção.

ANA - Delírios de tua mente. Mentira sei que não é, não.

MARIA - (séria) Mãe, é verdade de mesmo.

ANA - Na tua idade, Maria, tem que ter moderação com tanto trabalho e reza. Tu nunca pensa em diversão, passear com tuas primas, ir à festa de Caicó... essas coisas naturais pra quem tem a tua idade. Hoje é dia de feira e festa da padroeira, e tu ficas socada em casa, o que é uma grande besteira. Pelos menos hoje dê descanso pra vassoura, se aparte das agulhas, bote de lado a tesoura e livre o dedo do dedal.

MARIA - (rindo) Tenho lá jeito pra isso.

ANA - Que é que te falta? Beleza? Se for, o sol não tem brilho nem a noite tem estrelas. Quanto a ser inteligente, basta dizer, somente, que repentistas afamados como Louro da Caldéia, Zefa de Nazaré e Severino Jacó, que já cantou pra Herodes, um dia, de sol a sol, todos te respeitam tanto que só de ouvir teu nome perdem a rima e o valor.

MARIA - Tudo isso é dom de Deus, Ele que faça bom uso. Olha, mãe, essa noite vi em sonho uma visagem assombrosa, figurando um cavaleiro. O trotear do seu cavalo ribombava na amplidão e o cavaleiro, esquipando, fazia sombra e clarão, tal e qual uma tempestade com muito raio e trovão.

ANA - Vôte, que armada, até faz medo.

MARIA - O cavaleiro, de pele, era meio acaboclado. Trazia manto nas costas de um couro aveludado. Do chapéu pendia estrela de um brilho alucinado. Quando o cavalo esbarrou fez a mesura elegante de um cavalo marinho se curvando pra adiante, o cavaleiro se apeia...

ANA - E o sucesso?

MARIA - Segue avante. Pois nisso a estrela amacia a cruz luz dos seus raios deixando ver os dois olhos, que eram extraordinários. Pois, em vez de uma pupila, um deles mostra um estábulo. E no outro, lacrimoso, nasce a sombra de uma cruz, de maneira que o semblante do errante cavaleiro se divide em sombra e luz.

Aí, deu aquele clarão, ele encheu de ar as bochechas, feito os anjos da igreja, e soprou forte no chão. Depois montou no cavalo que o vento fez alado e se abalou do sertão.

(Maria chora. Ana se abraça com ela)

MARIA - Mãe, eu tenho medo.

ANA - Medo de que?

MARIA - Não sei, não. Sei que é terrível e sereno, é bonito e é cruento e faz do meu corpo fraco o latifúndio imenso pra uma semente de sol.

(Batem à porta)

ANA - Tão batendo. Deixa que eu atendo. Vá lá dentro, lave o rosto e bote um pouco de pó.

(Maria sai. Batem de novo)

ANA - Já vou indo. Um momento.

JOSÉ - (entrando) Dá licença?

ANA - Tome assento. Veio falar com Joaquim?

JOSÉ - Brigado. (Permanecendo em pé) Tá bom assim mesmo.

ANA - A que o moço se destina? Veio falar com meu marido?

JOSÉ - Estive com ele na feira e estou trazendo a cadeira que ele encomendou.

ANA - Então o senhor é feirante?

JOSÉ - A bem dizer, marceneiro, mas para apurar uns trocados a mais às vezes vendo na feira.

ANA - Então não é daqui de Caicó?

JOSÉ - Não senhora, só venho aqui em dia de feira.

ANA - Bonita a sua cadeira. Mas, que foi que deu em Joaquim? Gastar dinheiro em cadeira... desculpe falar assim, mas o senhor errou de porta. Aqui a gente não tem dinheiro mode estruir em cadeira.

JOSÉ - A senhora atende por Ana?

ANA - Sim, senhor.

JOSÉ - Sendo assim, não há engano. A encomenda está entregue e eu já posso partir.

ANA - Homem, tome um cafezinho primeiro.

JOSÉ - Fica pra outra, dona. Ainda tenho uma entrega.

JOAQUIM - (entrando) Ôpa, chegou a cadeira. Uma obra de primeira, tão boa assim nunca vi. Que é que tu achas, Ana?

ANA - Faço gosto, mas, e o preço?

JOAQUIM - Nem foi tão caro assim. Paguei com um saco de milho, não foi rapaz?

JOSÉ - Foi sim, senhor.

JOAQUIM - Esse cabra é bom no serrote.

ANA - E quem disse que era ruim? Me admira tu, liso como a gente tá, comprando uma cadeira só por beleza. Bote reparo, não, moço.

JOAQUIM - Que nada. Nossa filha é bordadeira e bem que merece sentar no conforto, a bichinha.

ANA - Então é um presente pra Maria? Mas, tá, só quem advinha. Precisava a coitadinha de uma alegria assim pra lhe afastar o sobrosso.

Maria, anda cá, Maria. Vem ver o que trouxe Joaquim. (Para José) Como é o nome do moço?

(Entra Maria. Ela e José fixam o olhar um no outro. Tudo o que dizem passa a ser ambíguo pois eles só têm palavras um para o outro, embora Ana e Joaquim não entendam exatamente a que eles estão se referindo).

JOSÉ - (aparentemente respondendo a Ana mas falando pra Maria) Me chamam Zé Marceneiro.

MARIA - Eu me chamo Maria.

JOAQUIM (falando com Maria e referindo-se à cadeira) - Olha aqui, não é bonita?

JOSÉ - (Para Maria, mas, aparentemente, comentando a fala de Joaquim). A mais linda que já vi!

JOAQUIM - (Para Maria, referindo-se à cadeira) Era o que tu esperava?

MARIA - (Referindo-se a José, porém aparentemente falando sobre a cadeira) - Esperei por toda a vida.

ANA - (desconfiada) Taí, nunca vi ninguém ficar tão feliz com uma cadeira sem nem mesmo olhar pra ela.

JOSÉ - (Levando a cadeira até Maria) - Maria, te senta aqui. Hoje te fiz a cadeira. Amanhã levanto casa bonita em torno de ti. Faço cama, faço mesa, banco, porta, penteadeira, guarda-roupa, petisqueira e, com o maior cuidado, vou fazer berço entalhado para aquele que vai nascer.

JOAQUIM - Êpa, que o cabra é poeta e tá querendo chamego. E sem nem falar comigo. Vou lá entregar minha filha assim, prum desconhecido?

ANA - Por aí não há perigo que Maria, para essas coisas, ainda falta desasnar.

MARIA - Quer saber de uma coisa? Caso com ele.

ANA - Que é isso, por Nossa Senhora?

MARIA - Por mim, já tá decidido. Santana, eis aqui teu genro. São Joaquim, neste momento, dê o seu consentimento pois o nosso casamento não foi decidido aqui.

JOAQUIM - Maria, não te conheço. Pois tu nunca, desde o berço, ousou desobedecer.

ANA - Joaquim, tenha mão, se cale. Estou ouvindo um batimento estranho no coração. Alguma coisa acontece aqui, neste exato momento, que eu não sei o que é, mas que me faz ter certeza de que nesse ponto da estória não convém interromper o que agora se ata.

JOAQUIM - Tá bom, deixa como está que é assim que deve ser. E agora, o que é que eu faço?

ANA - Faz a festa, chama o povo. Bota os músicos pra tocar. Anuncia aos quatro ventos que a nossa filha Maria com São José vai casar.

JOSÉ - Santana, precisa lá isso...

ANA - Que é que tu achas, Joaquim?

JOAQUIM - Não acho nada, estou perdido. Não sei mais o que dizer.

ANA - E só preparar a festa.

JOAQUIM - Como é a parte da festa?

MARIA - Papai, que esquecimento.

JOAQUIM - Isso não estava na peça.

MARIA - E como era?

JOAQUIM - Lembro não. Mas acho que depois disso já vinha a anunciação.

JOSÉ - Distinto público, desculpe essa grande confusão. Mas esse velho só serve para atrapalhar a função.

JOAQUIM - Velho é a mãe, seu coisa!

JOSÉ - Mais respeito.

ANA - Joaquim, não se afobe, não. Com pouco essa peça sacra termina com palavrão.

JOAQUIM - Taí, ficava moderno.

JOSÉ - Na sua concepção.

JOAQUIM - Tu só és santo no drama. Te conheço, meu irmão.

JOSÉ - Boto já você pra fora.

MARIA - Faz isso, não. E o casamento?

JOSÉ - Ah, um Joaquim dessa marca lhe arrumo mais de mil, por exemplo, um Rei Mago ou alguém do pastoril.

JOAQUIM - Paga o cachê atrasado? Se pagar, me mando agora mesmo.

JOSÉ - E danado. Monto a peça, gasto os tubos com o cenário, pago a taxa da Prefeitura e o aluguel do teatro, a ainda tem figurino e folha suplementar, sem falar na propaganda. Some tudo, camarada, e veja só quanto dá.

JOAQUIM - Não tenho nada com isso.

JOSÉ - Arte se faz com amor.

JOAQUIM - Diga isso ao meu credor.

MARIA - Ô, Gabriel, vem aqui que tá a maior confusão.

GABRIEL - (entrando) Eu estava ouvindo ali.

MARIA - E por que não apartaste?

GABRIEL - Porque não sou o destino nem vim por fatalidade dizer o que deve ser. O que trago é liberdade de julgar e de escolher. Ouçam minha proposta: discutam, se quiserem, e só aceitem as coisas que acharem que é verdade. Que Deus nunca há de querer sujeição nem arrogância pois um ato de amor é sinal de abundância.

JOSÉ - (a Joaquim) Tás vendo? Levaste um esporro. Agora vê se aprende.

JOAQUIM - Tu ainda não entendesse. Ele quis dizer, somente, que o difícil no santo é saber também ser gente. Não é isso, Gabriel?

GABRIEL - Gostei de tua maneira de falar do livre arbítrio. E isso mesmo, Joaquim. Agora, tu vens comigo. Vamos chamar a mundiça pra festa do casamento (saem)

MARIA - Casamento? Valei-me, e meu vestido?

ANA - Ei, menina, usa o livre arbítrio e te apresenta assim mesmo, não vai dar tempo mesmo nem de botar um beliro nos cabelos.

MARIA - Me dá o braço, José, pra gente entrar na igreja.

JOSÉ - Vamos pular esta cena?

ANA - E o público vai entender? Vão pensar que se amancebaram.

JOSÉ - Que nada, o público é sabido e logo vai perceber que a cena do casamento é para se subentender.

MARIA - E mesmo, essa cena é chata, quem já casou sabe o que estou dizendo. Vamos, então, pra cena da festa.

ANA - E cadê os convidados?

JOSÉ - Estão esperando.

ANA - E tu tás esperando o quê? Começa logo!

JOSÉ - Só se for agora. Maestro, castiga a música. (Música. Entram todos os atores em cortejo, exceto os Reis Magos. Começa o forró. Maria e José sentam-se e ficam assistindo. Em certo momento o 2º e 3º Pastores vêm para o primeiro plano).

2º PASTOR - Rapaz, me dá uma mão que estou perdido da silva.

3º PASTOR - Que é que há?

2º PASTOR - Sei lá pronde diabo vai esta peça. Olha, eu mesmo fui um dos que concordaram que já era tempo de modernizar, mas, aqui pra nós, eu não estou entendendo é nada. Que é que a gente, que é pastor, faz nessa cena de forró?

3º PASTOR - Gabriel já explicou.

2º PASTOR - Explicou mas não entendi.

3º PASTOR - Cara, esta cena é uma festa. A gente representa os convidados.

2º PASTOR - Mas o que é que a gente diz?

3º PASTOR - Basta fingir que está falando, faz só o pantim, não precisa dizer nada. Que nem em filme de rei. Sabe como é, fica aquela ruma de gente comendo uva e fazendo mesura uns pros outros. Depois, você faz de conta que dá parabéns pros noivos e se manda.

2º PASTOR - Se manda como? Disfarça e vai saindo, é? E não tem "deixa" pra sair, não?

3º PASTOR - Tem. Depois que José se despede de Maria e vai pra casa a gente acompanha ele e se retira também.

2º PASTOR - Mas é nada! Então o noivo vai se despedir da noiva no dia do casamento e vai pra casa sozinho, é?

3º PASTOR - Rapaz, naquele tempo os noivos só iam morar juntos com um ano de casados. Quer dizer, não era bem um casamento, era mais um noivado.

2º PASTOR - Eu, hem?

3º PASTOR - Pois era assim.

(4º PASTOR se aproxima dos outros e fala abrindo teatralmente os braços).

4º PASTOR - Quem sois vós? Convivas que como eu vindes a saudar os nubentes?

2º PASTOR - Êpa, esse tá pior do que eu.

3º PASTOR - (para o 4º PASTOR ) Jumento, essa fala é da outra peça. Aqui é tudo no popular, não tem esta história de nubentes, não. Cala a boca, disfarça e volta pro forró que tu és bom é nisso.

(4º PASTOR volta a dança. Aproxima-se o 5º PASTOR vestindo batina de padre)

5º PASTOR - Será que já é hora de fazer o casamento?

3º PASTOR - Pronto, agora só faltava essa armada. Tira essa batina. Tu não visse que cancelaram a cena do casamento? O, meu Deus do céu! Vamos falar com Gabriel que aqui está a maior confusão!

(Quando eles vão se retirando para o fundo surgem em primeiro plano os três Reis Magos, andando e falando solenemente)

1º REI MAGO - Trago ouro.

2º REI MAGO - Incenso.

3º REI MAGO - e mirra...

2º PASTOR - (volta-se e grita desesperado) De novo? Fechem o pano, pelo amor de Deus!

FIM DO PRIMEIRO ATO









ATO 2

(Maria entra em cena sobressaltada)

MARIA - Que será que há comigo?

Ouvi pipocos, estampidos, vi clarões de estrelas loucas traçando riscos no céu.

Pensei que a casa ia abaixo.

Mas aqui está tudo calmo. Então, a louca sou eu? Em mim cavalgam medos e se apeiam agonias. De onde vieram as vozes? E os clarões, vieram de que luzeiro? Terá sido fogo no canavial? Ou relâmpagos forasteiros de tempestades distantes? Talvez seja apenas medo o que me ferve no sangue, pintando em ouro e vermelho as visagens assombrosas que eu vi no meu pesadelo.

Ai, Maria, que fazes tu no terreiro assim tão de madrugada? Desse ouvido para o vento. Deixasse solto o teu medo.

Agora, recolhe a calma desta noite e, em sossego, embala o sono perdido nas varandas de tua rede.



Canto (off) Cavalo marinho

pisa devagar

nesta nuvem branca

que vem pelo ar.

Cavalo marinho

não esquipe, não

que tua pisada

parece um trovão

Cavalo marinho traz o cavaleiro

com lança de fita que nem um guerreiro

cavalo marinho cavalga baixeiro

com patas de bronze pisando maneiro

Cavalo marinho chegou na função

pedindo licença pra aparição.

(GABRIEL, montando um cavalo marinho, com manto e estrela brilhante no chapéu de couro, entra dançando em torno de Maria como um mestre-sala em torno de uma porta-bandeira)

CANTO (agora muito forte, presente) - Cavalo marinho chegou na função

pedindo licença pra aparição.

GABRIEL - Eu te saúdo, Senhora, em nome do meu Patrão que aqui me manda saber como está vossamicê. E os seus, como é que estão?

MARIA - Levando a vida, como se pode. Levando a vida, como pobre. Mãe, cuidando da casa, José na carpintaria e eu ajudando Joaquim. E o patrão, como vai?

GABRIEL - Saúde ali não tem fim. Mas vive preocupado com o que aqui acontece: injustiça, guerra, fome que o pequeno padece pela ambição do mais forte.

MARIA - Você veio nos salvar? Veio fazer o milagre do pão se multiplicar e o frio fugir da carne? Então, comece logo, meu senhor, que a humanidade tá cansada de esperar.

GABRIEL - O mundo não é um circo e eu não sou mágico, Maria. O truque que anuncio é coisa da própria vida. O que trago é incompleto mas há de ser infinito. É rede, mas vai ser peixe. É linha, vai ser vestido. É um pontinho de nada, mas vai ser bordado bonito. De tijolo vai ser casa, de verso vai ser poesia, de fogo vai ser o sol, de noite vai ser o dia. É semente de universo que no teu ventre se aninha.

MARIA - Se é tão grande e poderoso, como vou sustentar nos meus braços? Pra voar nesse infinito preciso, antes, ser pássaro e aprender com o abismo a não ter medo nem cansaço.

GABRIEL - Então, aqui nesta hora, te faço ave, Maria. A graça de Deus em ti anuncia a presença do Senhor.

MARIA - Escolheu a mim, somente?

GABRIEL - Escolheu somente a ti entre todos os viventes.

MARIA - Estou à disposição. O que não sei é se cabe, na minha grande humildade, a encomenda do Patrão.

GABRIEL - Há de caber, na verdade, como pássaro no ninho ou flor que se tem na mão.

(Ouve-se música de pífanos, bombos e pratos)

MARIA - Senhor, ouço sons de festa. Conversas, cantigas, risos, tinir de cristais e guizos, com repiques de viola. Tem festa dentro de mim!

Só o batuque do surdo é que dá um tom soturno de mau agouro.

(Música cessa subitamente)

MARIA - Agora já sinto medo.

GABRIEL - Não confia mais em mim?

MARIA - Daqui a pouco você vai embora e eu fico aqui.

GABRIEL - Minha missão terminou e a tua começa agora. Vais ter um filho.

MARIA - Mas como, se sou donzela?

GABRIEL - O que acontece em ti é obra de Deus.

MARIA - E como devo chamá-lo? Todo pai tem direito a dar pitaco no nome do filho.

GABRIEL - O Patrão gostaria que ele se chamasse Emanoel. É um nome bonito e significa Deus conosco aqui na terra.

MARIA - Taí, gostei de verdade. Emanoel. Escolheram com carinho o nome do meu menino que, apesar de ser Deus onipotente, hei de te com ele o maior cuidado pois todo menino é fraco e tem que ser protegido. Pra lhe ensinar a viver direi antigas palavras que minha mãe me dizia e no remanso das águas cantarei de alegria lavando roupa pra ele.

GABRIEL - Pois cuida do teu menino e que Jesus te acompanhe.

MARIA - (ri) Você acaba de deixar ele comigo.

GABRIEL - Meu cavalo marinho já tá impaciente pelo caminho de casa, onde esperam uma resposta dessa minha embaixada.

(Canta) - Epa, cavalo marinho, troca passos pelo chão

roda em volta do terreiro, faz a tua saudação

que a dona da casa é fina e merece louvação

E agora, solta o freio, levanta os cascos do chão

te empina para aquela estrela

que ela indica a vereda pro nosso grande sertão

(Sai. Canto em off) –Cavalo marinho pisa devagar

nessa nuvem branca que vai pelo ar

(Vozes se perdem na distância. Maria fica só. Subitamente ouvem-se aplausos na coxia. Gabriel entra carregado pelos atores que o aplaudem e a Maria.)

JOSÉ - (que entrou por último e não aplaude) Mas como é que se interrompe o porra do drama numa parte tão sublime, bando de jumentos?

ANA - (A Maria) - Menina, como tu falasse bonito!

JOAQUIM - Onde aprendeste este texto?

MARIA - Aprendi com ninguém. Veio na hora, assim.

2º PASTOR - (a Maria) - Como foi aquela estória do papoco? Como foi? Diz de novo.

MARIA - Deixa me lembrar, ainda tô meio lezada. Eu entrei assim, aí parei, fiquei olhando pra cima, aprumei a voz na goela e soltei: que será que há comigo? Ouvi pipocos, estampidos, vi clarões de estrelas loucas, traçando riscos no céu. Foi arretado, não foi?

ANA - Me arrepiei toda nessa parte. Coisa mais mimosa.

2º PASTOR - Só não entendi tu falar em fogo no canavial. Lá onde Jesus nasceu tinha canavial?

MARIA - Sei lá, deve de ter. E o povo lá adoçava café com que?

2º PASTOR - Tem mais respeito, tu acha que Nossa Senhora havéra de viver tomando café como qualquer doidinha daqui?

MARIA - Ah, meu filho, vida de mulher pobre é a mesma merda aqui, na Galiléia, onde for. Eu sei o que sente uma mulher sem eira nem beira que vai botar filho no mundo.

JOSÉ - Mas você tá falando do filho de Deus, é muito diferente.

MARIA - Lá vem ele de novo. Diferente em que? Esqueceu qual foi o fim dele, torturado até a morte?

GABRIEL - (interrompendo. A conversa tá muito boa mas mata uma galinha gorda e convida o povo pra conversar em sua casa. Vamos lá, vamos recomeçar a peça. Agora vem a cena de Maria e Isabel.

JOSÉ - Essa cena é linda.

GABRIEL - (Ao público) Isabel era prima de Maria e estava grávida de seis meses. Maria foi visitá-la e foi ficando, foi ficando, e terminou passando três meses na casa dela, cuidando do enxoval do menino deus. Vamos começar a cena, minha gente.

2ª PASTORA - (que desde o início da fala de Gabriel tentava se intrometer na conversa) Seu Gabriel, falar franqueza, a menina que fazia Isabel já pecou os picuai e se picou.

GABRIEL - É tu nada.

2ª PASTORA - E apois? Mode que o noivo dela é muito ciumento.

GABRIEL - E daí?

2ª PASTORA - (num ímpeto) Daí que quando viu ela buchuda de seis meses saiu arrastando a coitada por uma asa. O bucho ainda está aqui, ó. (Mostra uma barriga de pano que tem nas mãos). Mas eu sei a parte dela, quer ver? (Fala muito rápido para não dar chance de Gabriel interromper a sua performance). Agora, vou explicar uma coisa: quando Maria apontou na porta, São João batista pulou na barriga de Isabel e ela conheceu que Maria estava esperando o Menino Deus. Aí, Isabel colocas as mãos no bucho e exclama: Está dançando o menino aqui na minha barriga, sinal de que nesta casa entrou o senhor da vida. E eu nem varri a casa pra tão honrosa visita. Aí, Maria se encostou no portal, como quem quer e não quer, olhou pro bucho de Isabel e disse: Então já sabes de tudo? Nisso, Isabel responde: Queria esconder o sol ou engarrafar o mar? Bendita serás para sempre entre todas as paridas e bendito é o teu buxo pelo que traz de verdade e vida. Aí, Maria disse a parte mais linda: Dás alívio à minha alma e ela agradece ao Senhor, embora sem entender porque foi que Ele ajustou a empreitada mais cara com o menor servidor. Que será que viu em mim, além do humilde amor que santifica o seu Nome em cantigas de louvor? Pra defender o meu Filho não tenho leis nem exércitos. Me falta ouro pro manto e jóias para o seu cetro. No entanto, Ele é um rei, e eu só tenho desertos para lhe dar como pátria.

(A partir do momento em que 2ª PASTORA começa o texto final de Maria, ela e José vão para o fundo do palco e se colocam um em frente do outro, guardando distância entre eles. Os demais atores se retiram. Gabriel fica atrás de José. Em dado momento, José dá as costas a Maria e faz menção de retirar-se. Gabriel o detém e diz o texto seguinte, que deve começar imediatamente após o término da fala anterior)

GABRIEL - José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo. E ela dará a luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.

(A 2ª PASTORA vai até Maria e coloca nela a barriga de pano que deve ficar por sobre sua roupas, presa por tiras aos ombros como um avental).

MARIA - (enquanto a 2ª PASTORA lhe coloca a barriga) Pra defender o meu filho não tenho leis nem exércitos. Falta ouro pro seu manto e jóias para o seu cetro. No entanto, ele é um Rei e eu só tenho desertos para lhe dar como pátria.

(GABRIEL e a 2ª PASTORA saem de cena. José e Maria ficam sós, dão-se as mãos e iniciam uma caminhada. Entram o SENHOR DE TERRAS , o BURGUÊS e a MULHER DO POVO).

JOSÉ - (ao SENHOR DE TERRAS ) - Rico senhor destas terras que confinam com o deserto. Viemos aqui cumprir decreto de César Augusto que ordena recensear todo o povo deste mundo. Batemos toda a cidade em busca de uma hospedaria ou de uma cama qualquer em que se deite Maria pra dar à luz o nosso filho. Mas estamos na alta temporada, todas as pensões estão operando em overbook e as casas de família não aceitam hóspedes. Será que o senhor podia dar um rancho pra nós dois? Qualquer cantinho servia.

SENHOR DE TERRAS - E o primeiro filho de vocês?

JOSÉ - Conta pra ele, Maria.

MARIA - Trago um rei aqui comigo.

SENHOR DE TERRAS - E a senhora é rainha?

MARIA - Sou nada, a gente é pobre. Mas não tem uma profecia de que vai surgir no mundo um rei do povo? Pois é isso, em mim vai se cumprir a mais esperada das profecias.

SENHOR DE TERRAS (desconfiado) - Ouvi falar na igreja.

MARIA - Pois então? Eu sou Maria, a virgem que concebeu aquele que um belo dia vai dar terra pros pobres e humildes.

SENHOR DE TERRAS - Parabéns, dona Maria. Que bom que a senhora vai ter muitos quadros de terra para distribuir com os pobres. Assim, a senhora me alivia de socorrer essa gente que, por não ter valia, come do meu pirão e me acusa de explorar os bóia-frias.

JOSÉ - Então, podemos ficar?

SENHOR DE TERRAS - Muito prazer eu teria de fazer este favor a gente tão importante. Mas temo que vosso filho, na pressa de ser herói, comece nas minhas terras a dividir os meus bois, meus pastos, minhas nascentes e me deixe, simplesmente, na indigência. E aí, desesperado, vou bater nas cancelas das fazendas atrás de quem me contrate como bóia-fria. E pro patrão ter pena, vou trazer uma mulher buxuda que vai parir um menino, conforme a tal profecia que promete um salvador para essa gente vadia, inimiga do trabalho. E agora, senhor, bom dia, passe bem e vá embora.

(JOSÉ e MARIA dirigem-se ao BURGUÊS )

JOSÉ - Ô de casa. Quem é dono desta linda casa?

BURGUÊS - Dentro de um mês, apenas, pago a última prestação e ela será toda minha. E vocês, quem são?

JOSÉ - Somos José e Maria.

BURGUÊS - O casal da profecia? Pois entrem, a casa é de vocês.

JOSÉ - Que legal.

MARIA - E um homem decente.

BURGUÊS - E lamentável, somente, Sueli não estar aqui.

JOSÉ - Sueli?

BURGUÊS - É a patroa. Foi ao shopping e me deixou sem a chave de casa. Mas, em que posso ser útil?

JOSÉ - A gente só quer um quartinho onde Maria possa ter o seu menino.

BURGUÊS - O rei do povo? Imagine! Não pode nascer assim de maneira tão sem classe. Este é um momento da história que não vai se repetir e precisamos, os burgueses, colaborar com o evento, pois nosso lema é servir. Que tal fazermos quermesse?

JOSÉ - Não dá tempo, Maria está pela boca.

BURGUÊS - E uma rave?

MARIA - Queremos só um colchão, uns paninhos limpos e um teto pra proteger o nosso filho. Precisa luxo não, senhor.

BURGUÊS - Mas isso é muito pouco, o que é que a sociedade vai dizer?

MARIA - Só basta isso mesmo.

BURGUÊS - De jeito nenhum, isso vai comprometer minha imagem. Só estou esperando a chave para lhe oferecer toda a casa. Já pensou? Vai ser um arraso abrigar em minha casa o salvador da humanidade. Tive sorte, não é verdade? Vocês procuraram a mim e não ao SENHOR DE TERRAS .

JOSÉ - O senhor conhece ele?

BURGUÊS - Pois se ele é dono do banco que financiou minha casa. A mulher dele é uma simpatia, assim com Sueli. Sou recebido na casa dele mas, prefiro, pode ter certeza este estilo despojado e informal de vocês.

MARIA - O senhor é gente boa, mas saiba que aquele outro se negou a nos ajudar.

BURGUÊS - Como foi? Não acredito. Ele é a bondade em pessoa, imagina. Um exemplo pra comunidade. Tem sempre alguns caluniadores que dizem que ele não trata bem os empregados, estas coisas que dizem os invejosos. Acho, meus amigos, que vocês é que não entenderam o que ele quis dizer.

JOSÉ - Ele nos botou pra fora.

BURGUÊS - Acho que não foi bem isso. De qualquer modo...

JOSÉ - (interrompendo) E o rancho que o senhor nos prometeu? Sua mulher ainda demora pra trazer a chave de casa?

BURGUÊS - Chega já, mas, um estábulo não seria melhor pra vocês? Imagine o efeito. Um rei nascendo na maior simplicidade. Além do mais, nosso decorador nos fez ver que o estilo rústico agora está com tudo. E tão chique, entende? Minha casa, naturalmente, está às ordens, mas acho melhor a gente esquecer esta promessa impensada. Depois, chegam os vizinhos pra tomar um drink, as crianças fazendo aquela algazarra na piscina, não, não dá certo. O nascimento de um santo que vem salvar a pobreza precisa desta pureza que só um estábulo oferece. Vá lá, se deite na palha e contemplando os jumentos e sentindo aquele cheirinho doce de merda de boi, traga ao mundo o nosso guia. E agora, senhor, bom dia, passe bem e vá-se embora.

(José e Maria dirigem-se à MULHER DO POVO )

JOSÉ - Ô de casa!

VOZ - Ô de fora!

JOSÉ - E de paz?

VOZ - Já vou abrir.

(Aparece a MULHER DO POVO )

JOSÉ - Tenho um assunto a tratar. A senhora pode nos ouvir?

MULHER DO POVO - Não posso resolver nada sem meu marido estar aqui.

MARIA - Preciso de sua ajuda.

JOSÉ - Minha mulher vai parir.

MULHER DO POVO - Pois chegaram na hora errada. Meu homem não tem hora pra chegar.

JOSÉ - E onde posso encontrar ele?

MULHER DO POVO - Por aí, em todo lugar. Trabalhou numas pirâmides pro faraó do Egito e empreitou com os gregos um Parthenon esquisito. Em Roma fez um palácio que chamam de Vaticano. Fez templos no oriente e extraiu a picareta o mármore imponente da estátua da liberdade. Depois, suou no calor do ventre escuro da terra para construir os metrôs. Se o senhor quer encontra-lo, procure pelos andaimes dos edifícios de luxo ou nas bocas das fornalhas onde se produz o ferro pra construir as cidades. E aí que passa o dia pra de noite vir cansado dormir um sono de pedra em que o sonho é o andaime que se escala de noite e se desarma mais tarde quando o sol traz o dia. Aí, ele acorda e despenca na realidade.

JOSÉ - Preciso falar com ele. Minha mulher, nesse estado, não pode esperar mais tempo. E não há nesta cidade um lugar que abrigue e alivie nosso cansaço.

MARIA - Ele vai nascer do povo. Abra sua porta, comadre, pois o que trago aqui é a própria divindade.

MULHER DO POVO - Vem com atestado de santo? Como saber se é verdade ou se é promessa, feito as de político, que se esquece mais tarde? Aqui já muitos passaram falando em mudar a vida. Mas a vida tem seu curso e não pode ser detida só com palavras. Sabe que aqui na esquina nasceu um santo outro dia? Aqui mesmo, bem pertinho. Fez três ou quatro milagres, depois pegou anemia e cumpriu sem ter vontade, num caixão de caridade, sua última profecia. Não, comadre, o seu menino precisa mesmo é de pão. De barriga vazia vira anjo tão ligeiro que nem lhe dá alegria. Além do mais, nesta casa são sete. E nosso pão, me desculpe, não dá mais uma fatia. E agora, compadre, ande! E se tudo for verdade, volte pra nós algum dia. Por ora, moça, bom dia, passe bem e vá-se embora.

(A MULHER DO POVO se retira. Maria e José ficam sós).

JOSÉ - Lá se vai a esperança.

MARIA - Lá se foi a ilusão, agora fica a verdade. O céu por gruta e a gente perdido no meio do mundo, num lugar pobre, afastado, assim como uma tapera abandonada no mato ou um mocambo no mangue.

JOSÉ - Aqui vai chegar um rei.

MARIA - E eu só tenho desertos para lhe dar como berço. José, tô com medo.

JOSÉ - Medo de quê?

MARIA - Não sei, não. Sei que é terrível e sereno, é bonito e é cruento e faz do meu corpo fraco o latifúndio imenso para uma semente só.

JOSÉ - Como há de ser o menino?

MARIA - No começo, pequenino. Mas, há de ser infinito. De tijolo vai ser casa, de verso vai ser poesia, de fogueira vai ser o sol, de noite vai ser o dia.

JOSÉ - Então, afasta os cuidados e te faz ave, Maria, que a graça em ti anuncia a presença do Senhor.

MARIA - José, ouço sons de festa. Conversas, cantigas, risos, tinir de cristais e quizos, com repiques de viola. Tem festa dentro de mim.

(Música. Maria retira a barriga de pano, enrola-a e aconchega nos braços como um bebê)

MARIA - Glória a Deus nas alturas do céu, na terra e no mar.

JOSÉ - Glória a Deus na Galileia, Pernambuco e Ceará.

MARIA - Glória a Deus que viu o mundo nascer, crescer, se empinar e tomar o freio nos dentes pro seu caminho encontrar.

JOSÉ - Glória a Deus na encruzilhada de caminhos tão diversos, de um lado o oprimido, do outro lado o perverso.

MARIA - Glória a Deus naquela estrela que esta noite endoideceu e em gritos de luz ferina nos acena lá do céu, mostrando aos homens do mundo que no mundo um deus nasceu.

(Entram o SENHOR DE TERRAS , o BURGUÊS e a MULHER DO POVO ).

SENHOR DE TERRAS - Nós vimos a sua estrela e viemos adorar. Como Senhor da Terra não posso me conformar que este que brevemente vai ser líder popular venha ao mundo sem comigo se aliar. Precisamos promover a governabilidade do reino dos céus e isto só se alcança com a aliança entre nós.

BURGUÊS - E isso mesmo, companheiro, falou e disse. E que tal comemorar esta grande união das forças políticas do céu e da terra com uma grande apoteose que fique para sempre na memória dos povos?

SENHOR DE TERRAS - Bem pensado, eu entro com o capital para a festa.

BURGUÊS - (indicando a MULHER DO POVO ) A mão-de-obra tá aqui. O marido desta dama é mestre de construção e ela, certamente, sabe fazer surgir aqui mesmo e agora uma obra grandiosa. Ao trabalho, minha amiga, faça descer o telão e distribua com o povo roupas decentes e adequadas para a grande ocasião.

MULHER DO POVO - E pra já.

(O cenário inicial começa a ser remontado sob o comando da MULHER DO POVO . Os atores entram em cena e começam a vestir as roupas do presépio inicial).

SENHOR DE TERRAS - (a uma atriz) Venha cá, Regina Coeli, aqui está o seu manto pra vc se vestir de Nossa Senhora.

(Veste o manto na atriz)

BURGUÊS - Pra São José padroeiro, descendente de Davi, sujeito de nobre berço, o lírio que Sueli cultivou com mão de fada.

(Entrega o lírio a um ator que já está vestido como São José de lapinha)

SENHOR DE TERRAS - Agora, vem o delfim! Maestro, prepare o coro e cante "Noite Feliz".

(Um boneco é colocado na manjedoura, já forrada com papel dourado. Todos se ajoelham e cantam o "Noite Feliz". Cai neve.)

GABRIEL - (entra e dirige-se a Maria e José que estão em primeiro plano, separados da "lapinha".) - José, filho de Davi, toma Maria e o menino e parte logo daqui, pois eles querem matá-lo.

(José e Maria, ela aconchegando o "menino" de pano, saem pelo corredor central da platéia enquanto Gabriel continua a falar do proscênio).

GABRIEL - Adeus. Nos veremos nos desertos do Egito, nas cruzes da Galiléia, nas catacumbas de Roma, nas fogueiras da inquisição. E onde quer que em seu Nome se sofra perseguição.



FIM DE ILUSTRÍSSIMOS SENHORES




























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