PAPO FURADO by Jairo Lima
PAPO SOLTOMEU PERFILJAIRO LINKSMANDE BRONCA


Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Fábulas pós-modernas
Versos a granel


Cancão de fogo (teatro)
Cancão de Fogo
Jairo Lima




(PRÊMIO RECIFE DE HUMANIDADES 1973)

Peça de 1 ato e 4 cenas




PERSONAGENS:

(por ordem de entrada em cena)

MARIA PITOMBEIRA
MULHER ROUBADA
1o, 2o e 3o HOMENS
CANCÃO DE FOGO
CORNETEIRO
DR. RAIZ
BABAU
VENDEDOR
MULHER DE JOSÉ
MULHER RESFRIADA
MULHER
CORONEL
CATARINA
DAS DORES
VITALINA
MENINO
JOSÉ
FILOMENA
ONOFRE
JUIZ
ESCRIVÃO
UM HOMEM
Cortejo do BABAU e gente do povo










ATO ÚNICO

CENA I


(Ao acenderem-se as luzes entra correndo do fundo do palco uma mulher em adiantado estado de gestação. É Maria Pitombeira. Ao chegar ao centro da cena).

MULHER ROUB. - (off) Pega a ladrona!

MARIA PITOMB. - Por aqui, já vi, não posso!
(volta-se para fugir por onde veio, quando entram a 1a Mulher e 3 homens)

MULHER ROUB. - Me devolve meu vestido!

MARIA PITOMB. - Escute, senhora dona:
Não fica bem acusar
Um ente bom, inocente...

MULHER ROUB. - Ô cachorra de preá,
Mentirosa, semvergonha...

MARIA PITOMB. - Vejam a bondade em que dá!

MULHER ROUB. - Bondade em tu?
Quem foi que viu
De pedra escorrer tutano,
Urubu cagar pra cima,
Um mês valer por um ano?

MARIA PITOMB. - Acontece, sinhá dona
Que eu nunca quis lhe roubar.
O vestido estava no arame,
Quem mandou ele voar?
Foi cair perto de mim
Quando eu estava rezando,
Pedindo a Deus um molambo
Pra com ele me abrigar.
Quando vi, pensei comigo:
O bom Deus já me atendeu.
Teve gosto no modelo,
Escolheu bem o tecido;
Se eu não aceito o presente
Vai ver, Deus fica ofendido.
Isso foi tudo que fiz,
Juro pela Virgem Pia.

MULHER ROUB. - Tu estavas no meu terreiro...

MARIA PITOMB. - Consulte as profecias
E veja que, para Deus,
Todo o Mundo é uma sacristia
Onde quem pede, recebe e
Quem implora se alumia.
A senhora foi o instrumento
Da divina sabedoria!

MULHER ROUB. - Mentira, eu ti vi puxando
Minha roupa do arame!

MARIA PITOMB. - E será que é pecado
Ajudar obra de Deus?
Colaborar no milagre?
Cerzir o que o Céu teceu?

MULHER ROUB. - Eu só quero o meu vestido!

1o HOMEM - (à MULHER ROUB.) Cale a boca, sua
hereje. Basta de reclamação!

2o HOMEM - (idem) Não sei como ela ainda fala
Ouvindo essa explicação!

3o HOMEM - Essa boca tagarela
Deve ter parte com o Cão.

MULHER ROUB. - Não acreditem, é mentira.

MARIA PITOMB. - (chorando) Tenham de mim compaixão!
Já estou sentindo no buxo
As tripas se remexer...

1o HOMEM - Pobrezinha, o filho dela
É bem capaz de nascer.

MULHER ROUB. - Fingimento da sujeita!

MARIA PITOMB. - Ai meu Deus, me valha e guarde!

1o HOMEM - Onde é que está o seu homem?

MARIA PITOMB. - Correndo a propriedade.

MULHER ROUB. - De quem? Que mal lhe pergunte.

1o HOMEM - (repreensivo, à MULHER ROUB.) Virgem Santa,
que maldade!
Tenha dó dessa infeliz,
Se cale, por caridade!

MULHER ROUB. - É danado, fui roubada
Não posso nem reclamar
De todos recebo ofensas...

MARIA PITOMB. - Vejam a bondade em que dá:
Eu aqui me lasco toda,
E ela a se lastimar... Aiiiii! Aiiiii!

1o HOMEM - Tá chegando a hora boa...

MARIA PITOMB. - Experimente parir
E depois me diga se é bom.
Esse danado, infeliz,
Desce, se espreme, recua...

MULHER ROUB. - Já perdi meu vestido
Vou comprar outro na rua...

1o HOMEM - Pode ficar por aqui
Para ajudar no parto.

MULHER ROUB. - Só era o que me faltava!

MARIA PITOMB. - Cuidado, vai ser agora!
Vai nascer no meio do tempo,
Na vista de tantos homens...

2o HOMEM - S’esconda naquela touceira.

(MARIA se arrasta até a touceira)
(à MULHER ROUB.) A senhora acompanhe.

MULHER ROUB. - Ai, que triste sorte a minha.

(MARIA grita. A MULHER ROUB. Corre para onde ela está. Pausa)

2o HOMEM - Que será que aconteceu?
(Ouve-se um choro de recém-nascido)

1o HOMEM - Já nasceu!

2o HOMEM - Que ligeireza!

3o HOMEM - Será menino ou mulher?

(MULHER ROUBADA sai, limpando as mãos. Está sem a saia, os brincos, o crucifixo e o xale. Os homens olham admirados)

MULHER ROUB. - Foi tudo em paz. É menino.

(MARIA PITOMBEIRA sai também, andando lentamente, já sem barriga)
MARIA PITOMB. - Muito obrigado, sinhá dona.

MULHER ROUB. - Tu não mereces mas nessas horas a gente
ajuda até os bichos brutos. Sabe o que
mais? Estou tão satisfeita com a minha
boa ação, que vou oferecê-la em intenção
das almas aflitas. Chega me sinto leve...

(Quando pronuncia a última palavra, começa a compreender porque está se sentindo “leve”)

MULHER ROUB. - Cadê meu xale, meu brinco,
Minha saia de babado,
Minha pulseira de contas
Meu Cristo Crucificado?

MARIA PITOMB. - Examine o que quiser.
Eu não tenho nada, não.

1o HOMEM - (à MULHER ROUB.) Solte a outra,
cobra choca!

MULHER ROUB. - A danada me roubou,
Não vem falar de milagre!

(Os homens agarram a M. ROUBADA que se debate)

MARIA PITOMB. - (caída) Meus senhores, tenham pena
Dessa coitada infeliz.
Isso será lá resguardo,
Levar soco no nariz?

MULHER ROUB. - Me larguem, quero acabar
Essa cobra cascavel
Enquanto ela está no choco.

(Os homens soltam a M. ROUBADA, que se aproxima cautelosamente de MARIA)

MARIA PITOMB. - Pode me examinar.

MULHER ROUB. - Eu é que não sou besta.
Me agarrem novamente.
Se me aproximo dela
Me rouba até os dentes.

(MULHER ROUBADA é agarrada novamente)

MARIA PITOMB. - Isso já é safadeza,
Queres é ser apalpada...

MULHER ROUB. - Cachorra, cala tua boca
Ou não respondo por nada.
Tu me roubaste, infeliz...

MARIA PITOMB. - Oh, meu Deus, que triste sina!
Estou inocente, juro!
Pelo Cálice, pelo Pão!

(O menino chora)

Acudam aquele coitado!

(MARIA PITOMBEIRA corre para a saída, enquanto os outros dirigem-se para onde está o menino. Pausa. Ouve-se uma grande balbúrdia por trás da touceira. CANCÃO DE FOGO, de fraldas e com o produto do roubo na mão, pula a moita e corre)

MARIA PITOMB. - Corre por aqui, Canção!

(Saem correndo. Apagam-se as luzes para a)































CENA II

(No escuro, ouve-se o som de uma corneta que se aproxima. A luz vai crescendo e um corneteiro atravessa o teatro tocando. Vem seguido do Dr. Raiz, um vendedor de ervas medicinais, que traz em exposição na sua barraca as mais incríveis bugigangas).

RAIZ - Povo, meu povo, licença!
Abram alas pra passar
Um doutor em medicina
Física, Química e Astrologia.
Botânico e rezador.
Tenho imensa freguesia
Pois da Corte do Egito
Curei toda a fidalguia.
Sou uma das maravilhas
Do mundo civilizado:
Formado em bacharel
Na Turquia e no Japão,
Na Alemanha fui médico
E piloto de avião,
Camelô em Singapura
Usineiro em Paris
Fui monge no Vaticano
Sendo do Papa aprendiz.
Onde vou ninguém esquece
O grande Dr. Raiz.
E agora anuncio
Uma figura terrível, o grande Babau da Morte,
que neste momento invoco pelos grandes poderes
da minha mente.

(“Concentra-se”. Entra o Babau. É uma figura de folguedo popular apresentada por um homem metido numa armação de madeira que imita o corpo de um cavalo. A cabeça do “animal” é uma caveira de burro, ligada por uma rédea às mãos do “condutor”, de tal sorte que a boca da caveira abre-se e fecha-se a qualquer movimento nas rédeas).

BABAU - (canta e dança) Eu sou o Babau da Morte!
E comigo não tem apelação
Mato o rico, o pobre, a donzela,
Menino de peito e marmanjão.
E só pra juntar moça velha
Lá fora tem um caminhão.

(O Babau avança para Raiz que, de comum acordo com ele ensaia uma espécie de “tourada”).

RAIZ - Ê Babau, sai pra lá / Vai pontá teu patrão.


RAIZ - (anunciando em grandes brados) Pra se livrar da
sina tirana do Babau da Morte, o amigo só precisa
adquirir os xaropes do Dr. Raiz! Xarope Raiz salva
da Morte, afasta o Babau!
Infalível no mal do fígado, não conhece concorrente
na cura da tosse, defluxo ou constipação.
Atuando sobre a carne grossa da costela mindinha,
é o maior preventivo contra a dor de veado.
Elimina ainda o fedor de sovaco, cura reumatismo e
emenda osso triturado. Em Arcoverde uma velha de
oitenta e seis janeiros morreu por causa de trinta
peixeiradas que recebeu de mal jeito por cima do
coração. Após três longas horas de defuntismo,
deram-lhe para cheirar a tampa do frasco deste
incrível xarope. A velha arrotou, arregalou os olhos
e foi logo batendo mão dum cabo de enxada, sendo
que ainda hoje trabalha por dez homens no eito.
Casos como esse, afirmo sem medo de errar,
aconteceram aí por volta de uns mil.
E como prova do que estou dizendo, convido o meu
assistente Babau para uma pequena demonstração
de morrida e ressuscitação. (Ao Babau) Ô Babau, dá
aí uma morrida pro povo apreciar!
(O Babau “morre”) Observem agora, meus compadres
e minhas comadres, a miraculosa intervenção do
Xarope Raiz.
(Dá um frasco para o Babau cheirar. O Babau
“ressuscita”).
Levanta, Babau! (Babau obedece, investindo em
direção à platéia). Ninguém precisa ter susto, pois
Raiz tem absoluto controle sobre a Morte. Ê Babau,
sai pra lá, vai pontá teu patrão no reinado da Morte!
(perseguindo o Babau até fora de cena) Xô, bicho,
risca daqui. Ôôôôô. (Babau se retira):

(Ao público) Xarope Raiz, a maior garantia contra
o Babau da Morte! Cinco contos o frasco!
Quem vai querer?

(EMTRAM CANCÃO DE FOGO E MARIA PITOMBEIRA)

CANCÃO - Ôba, tem feira na rua.

MARIA PITOMB. - Cala a boca, vamos espiar.

RAIZ - Curo todo malefício com o poder dos meus xaropes!

MARIA PITOMB. - Canção, me dá o dinheiro...

CANCÃO - (Entregando um pacote de dinheiro a Maria) Toma lá, mas tem cuidado. Vê em quem passa o calote.
RAIZ - (à MULHER RESF.) Que é que a senhora tem?

MULHER RESF. - Um resfriadinho besta...

RAIZ - (Entregando-lhe um frasco) É só cheirar
este frasco.

(MULHER FAZ MENÇÃO DE ABRIR O FRASCO)

RAIZ - Se for aqui, perde o efeito.
Vá para casa, tranque a porta,
Tome um chá de erva-doce,
Por três dias se acame,
Fique quieta em seu lugar,
Depois disso abra o vidro
Cheire, espirre e pode andar.

MULHER RESF. - Quanto custa?

RAIZ - Cinco contos, é bem barato.

MARIA PITOMB. - (examinando jóias no mostruário de
um vendedor ambulante)
Virgem, que anel bonito!

MULHER DE JOSÉ - (puxando o marido pelo paletó, a Raiz)
Doutor, é triste o meu caso!

RAIZ - (ao Público) Façam fila, se aproximem.
(à MULHER DE JOSÉ) O que é que a
senhora tem?

MULHER DE JOSÉ - Não sou eu, é meu marido.

VENDEDOR - (à Maria Pitombeira) Escolha o que lhe convém.

MARIA PITOMB. - (ao Vendedor) Peraí, deixa eu pensar.

MULHER DE JOSÉ - (a Raiz) Nós estamos querendo um filho...

RAIZ - Desse remédio eu não vendo.

MULHER DE JOSÉ - Queria um chá pro José,
Para ele se animar...

RAIZ - Ah, já sei, já entendi.
Tenho um que é tiro e queda.

MULHER DE JOSÉ - Faz um menos?


RAIZ - Faço sim, mas não garanto.
É melhor comprar do bom.
O barato é perigoso.

MARIA PITOMB. - (ao Vendedor, pegando outro anel)
E este?

VENDEDOR - É precioso. Todo em ouro de lei.

MULHER DE JOSÉ - (a Raiz) Então passe pra cá o outro.

RAIZ - Tome lá, são cinco contos.

MULHER DE JOSÉ - Vôte, é caro!

RAIZ - Mas vale a pena, a senhora vai notar.

MULHER DE JOSÉ - Deus que lhe ouça. Vamos, Zé, começar
a trabalhar.
(O casal se retira)

MARIA PITOMB. - (ao Vendedor) Aqui está o dinheiro.

VENDEDOR - Até mais e obrigado.
(ENTRA O CORONEL)

CANCÃO - Olá, senhor coronel,
Como vai vossamicê?

CORONEL - Muito bem.

MARIA PITOMB. - (a Cancão, mostrando o anel que
acaba de comprar)
Vê só que troço mais lindo!

CORONEL - (à MARIA PITOMB.) Onde foi que arrumou?

MARIA PITOMB. - Não arrumei, foi comprado.

CORONEL - Quer dizer que não roubou?

MARIA PITOMB. - Sou séria.

CORONEL - Tás é doente. Vai consultar o doutor.

RAIZ - (avistando o CORONEL)
Seu Coronel ilustre,
Inteligência preclara,
Consciência impoluta...

CANCÃO - (à parte) Ô baba-ovo canalha!
RAIZ - Que vem ver aqui na praça
Misturando-se à ralé?
Vejam só que humildade
Pra ser o homem que é.

CORONEL - Quem é sério não passeia
Homem de posse não dorme.
Estou aqui com uma missão
Que me dá gosto e prazer:
Venho esperar minha filha...

RAIZ - Começo a compreender...

CORONEL - que está chegando de viagem.

RAIZ - De férias?

CORONEL - Já se formou.

RAIZ - Em que especialidade?

CORONEL - Tem o título de doutor
Na ciência social.

RAIZ - E isso, que vem a ser?

CORONEL - Confesso que não entendo
A ingrezia muito bem.
Só sei que o seu trabalho
É feito no meio do povo
Ela escuta as mazelas,
Toma nota do que ouve,
Depois fala como Governo
Que é pra ele se informar
Do que o povo precisa
Pra se arremediar.

RAIZ - Que coisa maravilhosa!
É nobre e santa a missão.
Lhe convido para um trago
Em honra da ocasião.

CORONEL - Eu aceito, e como prova de afeição
Você só paga a cachaça. Eu entro com o limão.
(saem CORONEL e RAIZ conversando)

MARIA PITOMB. - (furiosa) Ai! Cancão, Cancãozim, meu filho,
Desgraçaram tua mãe!

CANCÃO - Nessa ligeireza toda?
Aqui, no meio da praça?
MARIA PITOMB. - Não é o que tu estás pensando
A razão dessa desgraça.

CANCÃO - Então me fale, por Deus!

MARIA PITOMB. - Fui quengada!

CANCÃO - Virou quenga?

MARIA PITOMB. - Que nada, muito pior.

CANCÃO - Fale tudo d’uma vez.

MARIA PITOMB. - Ai, que vergonha tão grande,
Que castigo imerecido!
Para viver este dia
Antes nunca tivesse nascido!
Meu avô, na sepultura
Hoje deve ter mexido.
De pai, nem falo, o velho
Levantou da catacumba.
E meu marido, teu pai,
Foi sorte já ter morrido
Pra não ver essa infelicidade!

CANCÃO - Ô mãe, deixa de aperreio e
Me conta o sucedido.
O que foi que te fizeram?

MARIA PITOMB. - (inconsolável) Antes nunca ter nascido!
A minha honra, meu filho...

CANCÃO - Ah, se o problema for esse
Pode ficar sossegada:
Honra não paga armazém
Nem enche tripa, que eu saiba.

MARIA PITOMB. - Tu diz isso sem saber
De que é que estou falando.

CANCÃO - Pois diga, por caridade!

MARIA PITOMB. - Tu não me deixas falar...

CANCÃO - Se for porisso, me calo.

MARIA PITOMB. - Ouve o que vou te contar:
Eu fui roubada, meu filho!

CANCÃO - Faz favor de repetir?

MARIA PITOMB. - Fui roubada, estou dizendo.

CANCÃO - Ai, mamãe, meu bisavô...

MARIA PITOMB. - Hoje deve ter mexido...

CANCÃO - Vovô, nem falo, essa hora...

MARIA PITOMB. - Levantou da sepultura.

CANCÃO - E pai, um ladrão tão fino?

MARIA PITOMB. - Foi sorte já ter morrido!
(ABRAÇAM-SE CHORANDO)

CANCÃO - (muito digno) Mas lhe juro, minha mãe,
Pelo santo mais sagrado,
Que este dia não passa
Sem que eu tenha me vingado.
Só precisa me dizer
O nome do desgraçado.

MARIA PITOMB. - Pois foi o Zeca, meu filho,
Que vende ouro na feira.
Comprei-lhe aquele anel
Como se fosse jóia fina.
Veja só o resultado...

(MORDE O ANEL E MOSTRA A CANCÃO)

CANCÃO - Ai, que bicho mais ladrão!
Vendeu esse anel barato
Por ouro, sendo latão.
Vá-se embora, eu cuido disso.

MARIA PITOMB. - Fica com a minha bênção. (SAI)

CANCÃO - (PONDO A MÃO EM PALA SOBRE OS OLHOS
PARA MELHOR OBSERVAR)
Vem chegando Catarina
A filha do Coronel.
Ou não me chamo Cancão
Ou hoje ela está no papo.

CATARINA - (ENTRANDO) Ô Cancão, tu por aqui?

CANCÃO - Está aqui pra lhe servir
O seu humilde criado...



CATARINA - Ô que papo mais furado,
Cansado como ele só:
Já vi, é um recalcado
Burro, besta e bocó.

CANCÃO - Isso aí depois se vê... E a senhora
O que veio fazer aqui?

CATARINA - Visitar os dois caretas,
Curtir uma de rural.
Sacumé, fazer pesquisa
No meio da massa, afinal...

CANCÃO - Ah, já sei, to entendendo...

CATARINA - (NOTANDO QUE ELE NADA ENTENDEU)
Vou bater para você:
Os caretas são os velhos,
Pai e mãe, já tá sabendo?

CANCÃO - To sabendo, sim senhora.

CATARINA - Vim também pra respirar
Um ar menos poluído,
Gostoso de se cheirar.

(ASPIRA O AR, NO QUE CANCÃO A IMITA, FAZENDO UMA CARETA)

CANCÃO - Tão cagando por aqui!
(CATARINA SE AFASTA DE CANCÃO)
Engraçado, já passou.

CATARINA - Deve ter mudado o vento...

CANCÃO - (INDO ATÉ CATARINA, CHEIRANDO
NOVAMENTE E FAZENDO NOVA CARETA
DE DESAGRADO)
Ou o sujeito que peidou!

CATARINA - (DESCONVERSANDO)
Também venho a trabalho.

CANCÃO - O seu trabalho, o que é?

CATARINA - Desencucar a galera, já viu? Liberar os
grilos reprimidos dos caretas, arredondar
os quadrados e outras mumunhas mais...
(ENTRAM DAS DORES E VITALINA)

CANCÃO - E como é que se faz isso?

CATARINA - Fica aí de olho, e sente o drama.

(TIRA DA BOLSA UM LÁPIS E UMA CADERNETA, ENCOSTA A BOLSA E DIRIGE-SE ÀS MULHERES)

CATARINA - Como é, amizade, posso levar um papo?

DAS DORES - Senhora?

CATARINA - Negó seguin: eu faço as perguntas e as distintas
respondem, tá? – Tu és casada?

DAS DORES - Com a graça de Deus.

CATARINA - (À VITALINA) Tu também?

VITALINA - Não senhora.

CATARINA - E... não tem alguma...é...ligação?
(gesto)

VITALINA - Sou direita!

CATARINA - Manjei, mas é que na tua idade...

VITALINA - Cá pra nós, vergonha não tem idade não,
minha filha.

CATARINA - Quantos filhos já tens?

DAS DORES - Estou com um ano de casada...

CATARINA - E quantos filhos tem?

DAS DORES - Só pode ser um, né? que a gente é pobre
mas não é rato, não.

CATARINA - (ANOTANDO) Um filho. Lactante, não é?

DAS DORES - Não senhora. Severino, quando se batizar.

CATARINA - E quer ter mais?

DAS DORES - Se for a vontade de Deus.

CATARINA - Sem essa. Isso só depende de você.
Me diz uma coisa: a distinta se sente em
condições de sustentar uma patota
numerosa? Uma família numerosa?


DAS DORES - Ah, minha filha. Se a gente fosse pensar
nisso não casava.

CATARINA - Tu não achas que uma contenção da
natalidade resolveria tua problemática?

DAS DORES - Pode até ser...

CATARINA - Mas o que é que achas?

DAS DORES - De que?

CATARINA - Da contenção.

DAS DORES - E que troço é esse?

CATARINA - Você pode deixar de ter filhos.

DAS DORES - Né besta não? Só se caparem meu marido,
que Deus o livre!

CATARINA - Mas vocês estão mesmo por fora, hem?
Traduzindo para o dialeto das prezadas:
com menos filhotes, diminui a despesa
do leite, sentiu?

MULHERES - Não.

CATARINA - Vê se me entende. Os médicos americanos
descobriram uma incrível bolação: eles
criaram um pequeno dispositivo intra-uterino
que impede a fecundação e...

DAS DORES - Tu quer me dar isso em miúdo?

CATARINA - Bem, tu pega o dispositivo e... (termina a
frase no ouvido de Das Dores).

DAS DORES - O que? Mas com é que a senhora, uma moça
tão estudada, que fala tão diferente, vem com
uma conversa dessas pra minha banda? Pois
eu sou uma bruta, minha nêga, mas me dou
respeito. E você, pegue seu supositório e vá
encastoar na mãe desses galegos safados que
inventaram essa porcaria!

CATARINA - Essa sua colocação é inteiramente falsa...

DAS DORES - Cale a boca, sujeitinha?

VITALINA - Que foi que ela disse, Das Dores?
DAS DORES - Não te mete não, que não é conversa
pra moça ouvir...

VITALINA - (RETIRANDO-SE COM A COMPANHEIRA)
T’esconjuro, bosta de galinha choca!

(CANCÃO SE CONTORCE EM GARGALHADAS)

CATARINA - (à CANCÃO) Qual é a graça?

CANCÃO - Taí, gostei de ver. A senhora vai longe...

CATARINA - Essas matutas idiotas. Ultrapassadas.

CANCÃO - Quem manda a senhora ir conversar
safadezas mais elas?

CATARINA - Mas que safadeza? Corta essa! Vocês
precisam evoluir. Ainda acham que
sexo é safadeza, imagina!

CANCÃO - E não é, não?

CATARINA - Sexo é o maior barato, e toda mulher
tem que ter consciência disso. Levar a
coisa na esportiva, com naturalidade.
Sexo faz bem à saúde!

CANCÃO - Ah, porisso a senhora é tão disposta.
Robusta. Corada. Braçuda. Pernuda.
Coxuda.

CATARINA - Você acha?

CANCÃO - Já eu... é como a senhora vê. Sem sustança.
Fraco. Falta de... exercício. Sei não, não estou
lhe exigindo nada, mas já que a senhora gosta
tanto de ajudar o povo... Tirar da ignorância...
tratar da saúde... Será que o meu caso ainda
tem jeito?

CATARINA - Que caso?

CANCÃO - Essa falta de saúde... esses troços. Mas, não.
A senhora é filha de coronel, moça séria.

CATARINA - Esse papo já era. Sou uma mulher livre e
desimpedida, ó meu!

CANCÃO - Ôpa! Vai ver a gente se entende. Eu também
Sou um cancão livre e desimpedido.
CATARINA - E daí? Não vou com tua cara. Só saio
com um cara se ele estiver na minha.

CANCÃO - Ah, é, né? Depois vem com essa conversa
de que veio ajudar a gente. Acabá, encontra
um coitado na minha situação, pobre,
naufragado, doente, precisando de um
tratamento e nem liga. Tá bom...

CATARINA - Fim de papo. Tchauzão, hem?
A gente ainda se vê.
(Vai saindo quando sente uma dor intensa) Ai!

CANCÃO - Que foi?

CATARINA - Uma dor.

CANCÃO - Aí na barriga?

CATARINA - É, não posso nem andar.

CANCÃO - Espere aí que vou chamar o doutor.
(SAI À PROCURA DE RAIZ, VOLTANDO EM
SEGUIDA COM ELE)

CATARINA - Vá logo, corra! Diga que é uma emergência.

CANCÃO - Doutor, doutorzinho, corra que o caso é grave.

CATARINA - Eita dor da moléstia! Valei-me santas almas!

CANCÃO - Danou-se, a mulher já está perdendo até
o sotaque...

RAIZ - Que é que a senhora está sentindo?

CATARINA - Uma dor bem aqui. Acho que é um
embaraço gástrico.

CANCÃO - É o Babau que está judiando com a pobre.
Aliás, sem querer desmerece da sabedoria
do doutor, acho que se trata de um caso
claríssimo de caganeira galopante.

RAIZ - Como disse?

CANCÃO - Ca-ga-nei-ra, doença vulgarmente
conhecida como reira, chicotinho,
andaço, diarréia, etc.

CATARINA - Eu não agüento mais. Façam alguma coisa.
CANCÃO - É melhor a senhora fechar a boca pra
defender melhor a outra extremidade,
tá sabendo? (À RAIZ) Como dizia, doutor
é um caso típico de caganeira galopante.

RAIZ - Caganeira, vá lá. Mas, galopante?
Por que galopante?

CANCÃO - E o senhor ainda pergunta? Não vê que a
coitada não pode para num canto?

CATARINA - Tá saindo...

CANCÃO - Êpa, não vá se acovardar agora. Peraí.
Doutor, avia com esse xarope, condenado!

(RAIZ VAI À BARRACA CORRENDO E TRAZ UM REMÉDIO. CATARINA GEME)

RAIZ - (à CATARINA) Beba isso aqui. (CATARINA
OBEDECE) Agora, corra pra casa que é
lugar mais recatado.

CATARINA - Mas não dá tempo...

CANCÃO - (SOLÍTICO) Mato serve?

CATARINA - Qualquer coisa.

CANCÃO - Taí, perdeu a elegância mesmo...
Corra por aqui que a senhora vai dar no rio.

CATARINA - (SAINDO) Será que chego lá?

CANCÃO - (GRITANDO) Precisa papel?

(CATARINA VOLTA-SE E MOSTRA A CADERNETA)

CANCÃO - (VENDO A BOLSA QUE CATARINA
ESQUECEU) Dona, olha sua bolsa.
(PAUSA) Já está muito longe, depois
eu entrego.

RAIZ - Me diga uma coisa: quem é essa moça?

CANCÃO - Né Catarina, a filha do Coronel?

RAIZ - Por que não me disse logo, homem de
Deus? Vou avisar o sucedido ao pai dela. (SAI)

(CANCÃO, A SÓS, COMEÇA A REMEXER NA BOLSA DE CATARINA E ENCONTRA UM ENVELOPE. DEPOIS DE ALGUNS MOMENTOS DE HESITANTE OBSERVAÇÃO, RASGA O ENVELOPE E RETIRA UM CARTÃO)

CANCÃO - (OLHANDO O CARTÃO) Que vista mais
bonita! (OBSERVA O VERSO). Êpa, tem um
troço escrito aqui. (LÊ. SEU SEMBLANTE
PASSA DE DESPREOCUPADO PARA
EUFÓRICO E FINALMENTE PARA IRÔNICO).

CANCÃO - Hum... Hoje a feira está garantida, por
fraco que seja o dia.

(CANCÃO SAI E ENTRAM O CORONEL E RAIZ)

CORONEL - Cadê Catarina?

RAIZ - Foi ao rio fazer... não sei o que.

CORONEL - Vá chamá-la!

RAIZ - Eu, senhor Coronel?

CORONEL - Você mesmo, cabra, é uma ordem.
Que é que está esperando?

RAIZ - Mas a bichinha está tão adoentada.
Eu mesmo vendi-lhe um xarope.

CORONEL - Minha filha está doente? E o que é que tem,
tu não é doutor?

RAIZ - Sou, né?

CORONEL - Então? E ainda está esperando tempo ruim?
Vai buscar minha filha.

RAIZ - Tá certo, se é o senhor quem quer...
(PRENDE O NARIZ COM OS DEDOS E
SAI CORRENDO) Catariiina! Dona
Catariiina!

VENDEDOR - (off) Polícia!

CORONEL - Que latomia é essa? P’rondé que vai
nesse desembêsto?

VENDEDOR - Procurar o Delegado.

CORONEL - Sem primeiro falar comigo?
VENDEDOR - Me solte que estou com pressa.

CORONEL - Só solto se me explicar.

VENDEDOR - (MOSTRANDO ALGUMAS CÉDULAS)
Olhe aqui, seu Coronel!

CORONEL - (PEGANDO O DINHEIRO). Ah! Mas
quanta bondade sua... (põe o dinheiro
no bolso, muito satisfeito) Agora se
acalme, meu jovem, deixe de vexame
e me conte o seu caso.

VENDEDOR - Seu Coronel, o dinheiro...

CORONEL - Já entendi... Mas, olha, que isso fique
entre nós, hem? Se tu der com a língua
nos dentes e contar pro Delegado, tu
experimenta da banda podre... Quem
avisa, amigo é.

VENDEDOR - Mas seu Coronel, pelo amor de Deus,
tire esse dinheiro do bolso.

CORONEL - Tá ficando doido?

VENDEDOR - Deixe eu me acalmar que explico.

CORONEL - Abre essa matraca!

VENDEDOR - Seu Coronel, esse... esse dinheiro é falso!

CORONEL - Falso?

VENDEDOR - Sim senhor, não corre.

CORONEL - (TIRANDO O DINHEIRO DO BOLSO)
Tira isso daqui, tira isso daqui!
(EXAMINA AS NOTAS) Deixa eu ver.
É falso mesmo. Agora tu vais me
explicar essa história bem direitinho.

VENDEDOR - O senhor não deixa... Fui roubado, seu
Coronel. Vendi um anel de ouro... de
ouro mesmo! A Maria Pitombeira, acabá
a desgraçada me pagou com esse dinheiro
nojento.

CORONEL - A mãe de Cancão de Fogo?

VENDEDOR - Aquela amaldiçoada mesmo.
CORONEL - E por que não deixas de ser leso?
Tu já viste aquele pessoal comprar
nada na vida, um alfinete que seja?
Bem que eu desconfiei quando ela
mostrou aquele anel.

VENDEDOR - Pois eu não desconfiei de nada. Mas se
o senhor me ajudar a botar a sujeita na
cadeia, metade do que tem aí eu lhe darei
em dinheiro de mesmo. Não é tanto pelo
prejuízo, mas só para ter minha honra
lavada.

CORONEL - Vá p’ra casa sem sobrosso que eu vou
tratar com o Delegado. (SAEM)

CANCÃO - (ENTRA CANTANDO)
Hoje eu mostro a esses cabras
A malícia de Cancão.
Paro o sol no firmamento
Chamo o raio e o trovão.
Vou ao Céu e desço à terra
Mas não perco o rojão.

Cuidado, Dona Maria
Passe a chave no portão
Feche a porta com tramela
Que vem chegando Cancão.

Vou tirar leite de pedra
Amolar faca em sovaco
Sentar em cima das serras
E balançar os pés embaixo;
Mas deste rojão não saio
Cantando sem embaraço.

Quem tiver vinte, cuidado!
Cancão vai e tira dez.
Quando está com fome, come!
E pra correr tem os pés.

Herdei o que o mundo tem
Pois pai nunca enriqueceu.
Do Mundo tiro o que acho
Sem ligar pra quem perdeu.
No rojão não me embaraço
Canto dentro do compasso
Não sei o que é “meu” nem “teu”.

(AVISTANDO RAIZ) Lá vem o Dr. Raiz.
A vadiada vai começar agora!
RAIZ - (ENTRANDO) Cancão de Fogo!

CANCÃO - (CHOROSO) Senhor...

RAIZ - Viste o Coronel?

CANCÃO - Senhor, não! Ai, minha Nossa Senhora
do Amparo!
Salvai-me, Santa Rita do Catolé!
Valei-me, Virgem Santa do Bom Parto!
Mostrai-me o que tenho que fazer...

RAIZ - Que ladainha é essa, será o mês de maio?

CANCÃO - Meu Santo Onofre Padroeiro
São João, São Zé, São Joaquim
Com mais dez santos de quebra
Venham socorrer a mim...

RAIZ - O homem está aperriado mesmo. Que é
que tu tens, Cancão de Fogo?

CANCÃO - Ah, meu senhor doutorzinho,
É por causa do meu irmão.
Mãe é pobre, pai é morto,
Que triste situação!

RAIZ - Está doente o teu mano?

CANCÃO - Não haverá de estar, não?
Sofre da bola, o coitado.
Ai, meu São Jorge Guerreiro...

RAIZ - Para com essa latomia!
Quem sabe se pr’esse caso
Inda não há salvação?

CANCÃO - Já disse, Zequinha está doido.

RAIZ - E eu sou médico diplomado
Na Europa e na Bahia.
Leve o bichinho hoje à tarde
Que eu faço a operação.

CANCÃO - Muito obrigado, doutor.
Mas, é bom lhe avisar
Que meu irmão, por ser doido
Vai querer lhe enganar
Dizendo que não tem nada.


RAIZ - Pode ficar descansado.
Todo doido é assim mesmo.
Mand’ele me procurar,
O resto deixe comigo.

CANCÃO - (BEIJANDO-LHE AS MÃOS)
Até mais, meu doutorzinho.

RAIZ - E o Coronel, onde está?

CANCÃO - Deve estar na casa dele.

RAIZ - Pois vou lá agora mesmo.

CANCÃO - Peraí, não se apresse
Que é hora do almoço.
Não vá tratar com cachorro
Quando está roendo osso.

RAIZ - É mesmo, tu tens razão.
Vou cuidar da digestão,
Depois apareço lá.

(OUVE-SE SOM DE CANTO E BOMBOS)

RAIZ - Mas que zuada é essa?

CANCÃO - É o folguedo do Babau!

RAIZ - Já vou. Até que mais o veja!

CANCÃO - Vá em paz, eu sigo já.

(ENTRA O CORTEJO DO BABAU, AGORA VESTIDO POBREMENTE , COMO NAS FESTAS POPULARES)

TODOS - Lá vem, lá vem Babau, ê bumbá!
Chegou pra vadiar, ê bumbá!
Quem tem menina, que trate de vigiar.
Quem tem dinheiro, que venha nos ajudar.
E quem não tiver nada
Se assuba no pavilhão,
Levante nossa bandeira,
Defenda nossa nação!
Olh’o Babau, bate já, bate já, bate já.

(CANCÃO PUXA PELO BRAÇO UM MOLECOTE QUE ACOMPANHA O CORTEJO)



CANCÃO - (Ao menino, enquanto o cortejo evolui)
Menino, queres um trocado?
Tu conheces o vendedor
Que vendes anéis na feira?
Diz a ele que o doutor
Raiz tem uma encomenda:
Ele quer um anel de ouro
Chuviscado de brilhantes.
Mas, avise com cuidado
Pra Zeca levar o artigo
Na casa do Coronel
Por volta das duas horas,
Pois Raiz não quer ser visto
Comprando o tal anel
Que é pra uma sujeita
Casada, já me entendeu?
Pois toma aqui teu trocado
E se deres o recado
Na volta eu te arrumo mais...

(O MENINO SAI CORRENDO – A DANÇA SE INTENSIFICA. CANCÃO ADERE AO PRÉSTITO)

CANCÃO - (CANTANDO DENTRO DA MÚSICA DO BABAU)
É hoje o dia / Em que o mundo vai virar / A
terra treme na base / A luz vem espiar / O mar
mar recua pra terra / E a terra vira mar...

TODOS - Olh’o Babau, bate já, bate já, bate já!

(RETIRAM-SE. TEMPO. BLACK-OUT)




















CENA III

(CASA DE FAZENDA. UMA MESA E ALGUMAS CADEIRAS. EM CENA, FILOMENA, MULHER DO CORONEL, ESTÁ COSTURANDO)

FILOMENA - (CANTA) “Saudade, meu bem, saudade
Saudade do meu amor
Foi-se embora, não disse nada
Nem uma carta deixou”.
(BATEM À PORTA)

FILOMENA - Pode entrar. (ENTRA CANCÃO DE FOGO)

FILOMENA - Que queres aqui?

CANCÃO - Boa tarde, Dona Filomena, como vai passando?

FILOMENA - Como Deus é servido. Que deseja?

CANCÃO - Mas que vexame! A senhora parece que está
nervosa, nem me convida pra sentar.

FILOMENA - Se for porisso se sente, mas não demore a falar.
Que é que te traz aqui?

CANCÃO - Cadê sua filha, Dona Catarina?

FILOMENA - Chegou hoje de viagem e está adoentada.

CANCÃO - Vim trazer a bolsinha dela.

FILOMENA - A gente já estava dando por perdida. Quer
dizer que foi o senhor que encontrou?

CANCÃO - Pois é. Ela esqueceu a bolsa lá na praça.

FILOMENA - Pode me entregar que eu lhe arrumo um trocado.

CANCÃO - Dez contos me satisfazem.

FILOMENA - Dez contos? Estás pensando que eu sou
besta, é? Vai roubar outro. Pois agora
vais deixar a bolsa e eu não te pago nada.
Passa pra cá. Dez contos! Mas só no
inferno, mesmo...

CANCÃO - Dona Filomena, com todo o respeito que
me merece sua alta senhoria, eu não sou
homem de dar prego sem estopa não.
Passe pra cá os dez contos, que é o melhor
que a senhora faz.
FILOMENA - Sujeito mais atrevido! Me entrega essa bolsa já!

CANCÃO - (ABRINDO A BOLSA E RETIRAND O CARTÃO)
Não precisa se afobar, taqui a bolsa, pronto,
já vou embora.

FILOMENA - Peraí, e essa carta?

CANCÃO - Ah, Dona Filomenazinha, é uma vista tão
bonita! Acho que é do Recife. (MOSTRA O
CARTÃO DE LONGE)

FILOMENA - Um cartão postal! De quem é?

CANCÃO - Está endereçado à senhora...

FILOMENA - Então, me entregue.

CANCÃO - Acho que o Coronel, seu marido, vai gostar
de apreciar a paisagem. É muito bonita,
sabe? Dr. Onofre teve muito bom gosto.

FILOMENA - (UM POUCO SOBRESSALTADA) Onofre?

CANCÃO - Nome besta, né? Onofre. A senhora
deve conhecer...

FILOMENA - É... amigo da família...

CANCÃO - Ah... amigo de... cama e mesa, né?

FILOMENA - Mais ou menos...

CANCÃO - Deve ser, porque o que ele manda dizer
aqui... Por exemplo, tem um parte em que
ele chama a senhora de – deixa eu ver...
Ah, aqui está – “razão da minha vida”!

FILOMENA - Ah, seu Cancão, isto é apelido que eu
tenho desde menina. Deixe-me ver o
cartão.

CANCÃO - Que vexame é esse?

FILOMENA - É que Onofre é tão brincalhão com a
gente, que pode até parecer outra coisa...

CANCÃO - Deve ser mesmo.

FILOMENA - Ele é assim como se fosse da família.

CANCÃO - Estou entendendo. Bem, a senhora deve ter
mais em que cuidar. Até a vista.

FILOMENA - Mas, seu Cancão, e o cartão?

CANCÃO - Já disse: vou levar pro seu marido, Dona
“Razão da Minha Vida”. Desculpe estar
lhe chamando pelo apelido.

FILOMENA - Não faça isso, por favor.

CANCÃO - Por que? Um cartãozinho besta!
Que é que tem?

FILOMENA - O senhor sabe como é o meu homem.

CANCÃO - Eu não, quem deve saber é a senhora...

FILOMENA - Quanto é que o senhor quer pra me
devolver o cartão?

CANCÃO - Dez contos, não dou por menos.

FILOMENA - Mas eu não tenho esse dinheiro. Só
posso pagar com um mês.

CANCÃO - Com um mês, morrem os burros e quem
os tange...

FILOMENA - Que é que vou fazer, minha Virgem
Santíssima?

CANCÃO - Eu é que não sei. Até mais.

FILOMENA - Seu Cancão, pelo que for mais sagrado,
não faça isso comigo.

CANCÃO - No momento, minha dona, o que há de
mais sagrado são as minhas tripas que
está roncando de fome. Passe pra cá o
dinheiro e eu devolvo o cartão.

FILOMENA - Não posso, não tenho!

CANCÃO - (LENDO) “Lembra-se daquela noite na
“Pensão Venturosa”, quando os eflúvios
da noite silente...” Escreve bonito, hem?
Dá gosto!



FILOMENA - Ai, meu Deus, estou lascada! Se meu
marido vê isso... Olhe, seu Cancão, lá
fora tem uma porca prenha. Só lhe peço
que me dê tempo de vender a dita para
pagar o seu dinheiro.

CANCÃO - A conversa já melhorou...

FILOMENA - Espere aqui um pouquinho.
(VAI SAINDO, QUANDO ENTRA CATARINA)

CATARINA - Vai sair?

FILOMENA - (NERVOSA) Vou ali mais a porca e volto já.
Converse com o cavalheiro. (SAI)

CANCÃO - Com pouco sou general!

CATARINA - Me diga, Cancão de Fogo:
Por que mãe está tão nervosa
E saiu nesse alvoroço?

CANCÃO - Foi por causa d’uma porca
Que está prenha no alpendre.

CATARINA - E você, que faz aqui?

CANCÃO - Vim entregar um cartão
Dum cabra chamado Onofre.

CATARINA - Meu Deus! Há mais de dez dias que
esta carta está comigo para eu entregar
a mãe. Mas atrasei a viagem, cheguei
hoje, e esta tarde o tal cartão eu perdi.

CANCÃO - E eu achei mais adiante,
Abri com cuidado e li.

CATARINA - E que era que dizia
Esse tal desse cartão?

CANCÃO - Em resumo: que seu pai
Recebeu o Galardão
Que enfeita todo corno:
Dois chifres, sem remissão.

CATARINA - E mãe sabe dessa carta?

CANCÃO - Não lhe disse nada, não.
Fique sossegada, dona.

CATARINA - Se o velho vem a saber
Mata mãe sem piedade.

CANCÃO - E a senhora também,
Por sua leviandade
De ser a portadora da carta
Que descreve a maldade.

CATARINA - Por favor, rasgue esse troço.

CANCÃO - Só depende de você...

CATARINA - Ah, você quer fazer chantagem.

CANCÃO - Só quero vossamicê.

CATARINA - Eu lhe dou dinheiro e jóias.

CANCÃO - Dinheiro, já arrumei.

CATARINA - O que tu queres eu não faço.

CANCÃO - Tu não és tão emancipada?

CATARINA - Mas somente na Escola.
No duro, não sou de nada.

CANCÃO - Pois hoje tem aula prática
Ou conto tudo a teu pai.

CATARINA - Isso é coisa que se faça?

CANCÃO - Aí quem decide é tu.

CATARINA - Mas eu sou moça donzela.

CANCÃO - Então, passe muito bem.
Vou procurar o teu pai.

CATARINA - Espere!

CANCÃO - Então, tu vens?

CATARINA - E se eu for, tu me entregas
Este maldito cartão?

CANCÃO - Isso é coisa mais segura
Que a minha salvação.

CATARINA - Pois então, me acompanhe.

CANCÃO - Ôpa, vamos vadiar.

CATARINA - E se pai vem a saber?

CANCÃO - É bom se acautelar
Usa teu supositório...

CATARINA - Sem essa!

CANCÃO - Pois vamos lá. (SAEM E ENTRA RAIZ,
COM UMA MALETA)

RAIZ - Coronel! Coronel!

CANCÃO - (OFF, COM VOZ ENTRECORTADA)
Chega já. Se sente e espere um pouco.

(ENTRA O VENDEDOR COM UM PEQUENO EMBRULHO NAS MÃOS)

VENDEDOR - (BAIXO) Dr. Raiz! Dr. Raiz!

RAIZ - Que deseja?

VENDEDOR - Pssiu! Fale baixo e venha até cá.
Eu trouxe sua encomenda.

RAIZ - Eu não encomendei nada.

VENDEDOR - (MESMO TOM, EXPLICATIVO) Eu sou Zeca.
(RAIZ NÃO ENTENDE)
(MISTERIOSO) Zeca. Olhe aqui, eu trouxe o
anel da sua sujeita...

RAIZ - (À PARTE) Esse deve ser o doido de
quem Cancão me falou.
(AO VENDEDOR) Se acalme, meu
filhinho.

VENDEDOR - Tome o anel, por favor.

RAIZ - Mas primeiro se acomode,
Enfrente a situação.
Você vai ficar bonzinho
Depois da operação.

VENDEDOR - Tas doido, diabo doido!
Quem falou que estou doente?

RAIZ - Seu irmão já me falou
Da sua situação, (SEGURANDO-O)
Se acalme, sente aqui.
VENDEDOR - Me solta, tira essa mão.

RAIZ - Já vi que a sua doença
É pior do que eu pensava
Bem que me disse Cancão.

VENDEDOR - C’os seiscentos capirotos!
Esse Cancão não é filho
Da Maria Pitombeira?

RAIZ - Você sabe, é seu irmão...

VENDEDOR - Meu irmão? Só no inferno
Ou por parte de Adão.
O sujeito e a mão dele
São uma dupla de ladrões.

RAIZ - Tá piorando o seu caso.
Desconhece até a mãe
Que está tão preocupada
Só pensando em você.

VENDEDOR - Ai, já vi que tu és doido!

RAIZ - Não, o doido é você!
Mas já vou lhe operar.

VENDEDOR - Não se aproxime de mim.

RAIZ - Já te pego.

VENDEDOR - Meto o braço.

RAIZ - E eu te amasso o nariz.
O pior tipo de louco
É o que não sabe o que diz.

VENDEDOR - Vem pra cá, cabra safado.

RAIZ - Nem pense que vai fugir.
(SEGURANDO-O PELOS CABELOS)
sobe já naquela mesa.

VENDEDOR - Solta meu quengo, infeliz!
Só vim trazer a encomenda.
(EMPURRA RAIZ E O DERRUBA)
Socorro, alguém me acuda!
(ENTRA CANCÃO)

CANCÃO - Meu irmão! Dr. Raiz!

VENDEDOR - Chegou o filho da ladrona.

CANCÃO - Foi o destino quem quis.
Estou aqui, meu irmãozinho
Pra ajudar na tua cura.
Mas peço, por nossa mãe,
Que não manches nosso nome
Mesmo estando na loucura.

VENDEDOR - Minha mãe? Só no inferno...

CANCÃO - (A RAIZ) Cerca lá.

RAIZ - Se agarre com o paciente.

CANCÃO - Está seguro.

RAIZ - Eu pego as pernas.

VENDEDOR - Me soltem, bando de cornos!

CANCÃO - Calma calma, já-já fica bom
Pra fazer os gostos à mãe.

(AMARRAM O VENDEDOR À MESA E RAIZ COMEÇA A TIRAR SERROTES, MARTELOS E FACAS DA VALISE)

RAIZ - (AO VENDEDOR) E tu, cuida de
ficar quieto.

CANCÃO - (AMORDAÇANDO-O)
Meu irmãozinho querido,
Obedece ao Doutor.
Fica quieto, pensa em mãe
Como deve estar feliz
Neste sagrado momento.

RAIZ - Agora eu vou dizer
Com é a operação:
Começo pelo toitiço
Que vou abrir de facão.
Depois se rasga a chapada
Que fica em cima do quengo,
Bota os miolos pra fora
E lava n’água de sal.
Aí se procura um caldo
Que está na raiz do piloro,
Se evacua a traquinanha
Que é um líquido seboso,
Tirando todo o toucinho
Da raiz até o talo.
Cutuca o cerebedelo,
Liga a mente com o sovaco,
Desvia a catarineta,
Dá-se um ponto, faz-se um traço.
Depois, regula-se a válvula
Controladora da fala
Pra baixar um pouco o tom.
Dá-se um nó, e, sem malícia,
Posso afirmar com perícia
Que o sujeito fica bom.

(COMEÇA A OPERAÇÃO, QUE DEVE SER ENCENADA COMICAMENTE, COM MUITO TALCO POLVILHADO, RUÍDO DE SERROTE E MARTELADAS, ESGUICHOS DE TINTA VERMELHA E ETC.)

CORONEL - (ENTRANDO) Que bagunça é essa em
minha casa. Pensam que não tem dono, não?

RAIZ - É não, só tô operando
O irmãozinho de Cancão.

CORONEL - E será que meu telheiro
É sala de operação?

RAIZ - Foi o jeito, o homem é doido.

CORONEL - Deixe-me reparar.
(DESCOBRE O ROSTO DO VENDEDOR)
Esse homem é o Vendedor
Que veio denunciar
A mãe de Cancão de Fogo.
(A CANCÃO) Tu agora vais contar
Essa história muito bem.
(A RAIZ) mas primeiro solta o homem.

RAIZ - Eu não sabia de nada
Foi Cancão que me enganou. (COMEÇA
A DESAMARRAR O VENDEDOR)

CANCÃO - Ora, senhor Coronel
Foi um ato de cristão.
Esse pobre tava doido.

VENDEDOR - Ai, a minha cabecinha... Coronel resolva
o meu caso, o senhor me prometeu.

CORONEL - (AVANÇANDO PARA CANCÃO) Agora
tu me pagas,
Por fim te botei as mãos.


CANCÃO - (ESCONDENDO-SE POR TRÁS DO VENDEDOR)
Ninguém pense que se livra
Da quengada de Cancão.
Tu roubaste minha mãe
Vendendo, por ouro, latão.
Mas agora estou vingado!

VENDEDOR - Espia pr’esse ladrão!
O dinheiro de tua mãe
Nem estava em circulação!

CORONEL - Acaba com esse bate-boca!
(A CANCÃO) Vou te levar pra prisão.
Teje preso, bicho ruim.

CATARINA - (ENTRANDO) Pai, não faça isso não!

CORONEL - (À CATARINA) Tu ainda defenses esse caba?

CATARINA - Ai, meu pai, nem sei como diga
O sujeito me enrolou
Me botou no pé do muro...

CORONEL - Ai meu Deus, eu fico louco!
O que foi que aconteceu?
Filha ingrata, miserável?

CATARINA - Cancão me comprometeu.

CORONEL - Quer dizer, tu não és moça?

CATARINA - Agora, só na idade.
Mas quero casar com ele
Pra honrar minha virgindade.

CORONEL - (SOLTANDO CANCÃO) Ah, cachorro
miserável
Dessa agora tu escapaste.

CANCÃO - Pra cair noutra pior?

CORONEL - E também não quer casar?

CANCÃO - Prefiro ir pra cadeia
Comer feijão do Governo
A comprar feijão pros outros...

CORONEL - Desonraste minha filha.
Ou casas, ou eu te capo. (PUXA A
PEIXEIRA)

CANCÃO - Não fui eu, foi o Raiz!

RAIZ - Que é que eu tenho com o pato?

CANCÃO - Foi teu xarope, infeliz,
Que deste a ela na praça
A causa dessa desgraça.

CORONEL - (À CATARINA) É verdade o que
ele diz?

CATARINA - Sim, tomei desse xarope.
Mas o que tem isso a ver?

CANCÃO - Me creia, seu Coronel:
Esse doutor charlatão
Preparou uma ingrezia
Pr’ela perder a razão
E tentar me seduzir.
Resisti, mas a carne é fraca...
Ela me fez ameaça
E aí... eu me perdi!

RAIZ - Mentira, amaldiçoado!

CORONEL - (A RAIZ) Já vi que foi teu feitiço.
Muito minha filha mudou.

CANCÃO - (AJUDANDO) Voltou até à maneira
De falar do interior...

RAIZ - (A CANCÃO) Eita, serpente do mal!
(AO CORONEL) É conversa, Coronel.

CATARINA - Quero casar com Cancão!

VENDEDOR - E eu, que fiquei roubado
E com o totó lascado
Por causa de uma encomenda?
Pra mim há justiça ou não?

CORONEL - Raiz, tu me desonraste.

RAIZ - (AFLITO) Ela estava com caganeira.
Aí, eu dei o xarope.

CORONEL - Ficaste boa, filha?

CATARINA - Piorou, virou chicote.


CANCÃO - (DOMINANDO A CENA) Então não
era pra tripa
O remédio que tu deste.

CORONEL - (A CANCÃO) Mas, pesando bem, foste
tu o autor desta confusão:
vais agora pra cadeia
e te casas na prisão!

FILOMENA - (ENTRANDO) Consegui vender a porca!
Que diabo deu aqui?

CANCÃO - Repare, Sá Filomena,
Estão querendo me prender.
Se me prenderem, confesso
A “razão do meu viver”.

FILOMENA - Não, por Deus, não faça isto!
(SOLTANDO CANCÃO DA MÃO DO MARIDO)
Marido, perdoa Cancão!

CORONEL - Agora não entendo mais nada...

FILOMENA - Não me peças explicação.
Te suplico, de joelhos:
Salva o homem da prisão!

CORONEL - Tu soubeste o que essa peste
Preparou pra nossa filha?

FILOMENA - O que foi, por caridade?

CORONEL - Deflorou-lhe a virgindade.

FILOMENA - (À CATARINA) Sujeita, isso é verdade?
(CATARINA FAZ QUE SIM E FILOMENA
AVANÇA PARA CANCÃO)
Arranco-te os olhos da cara!

CANCÃO - (CORRENDO) Segura essa cascavel!

FILOMENA - Eu te pego, miserável!

CORONEL - (SEGURANDO FILOMENA PELO BRAÇO)
Pensa no que estás fazendo.
Temos que casar o homem.

FILOMENA - (SOLTANDO-SE E PARTINDO PRA CANCÃO)
Que mal faz um genro cego?

(QUANDO FILOMENA ESTÁ PRESTES A AGARRAR CANCÃO, SURGE ONOFRE)

ONOFRE - Reunião de família?

FILOMENA - (AMEDRONTADA) Onofre, tu por aqui?

CORONEL - (A ONOFRE) Meu amigo advogado!

FILOMENA - (ESTENDENDO POLIDAMENTE A MÃO A
ONOFRE)
Meu compadre, como vai?

ONOFRE - Tudo bem, e os compadres?

CORONEL - Levando, como se pode.

CANCÃO - Seu Onofre, seja benvindo!
É uma honra muito grande.

ONOFRE - O senhor já me conhece?

CANCÃO - Recebi o seu cartão.
Como vai a “Venturosa”?
Não é esse o nome da pensão?

CORONEL - Que história é essa, Onofre?

CANCÃO - (INDICANDO FILOMENA, ONOFRE
E A SI MESMO)
Nós três aqui entendemos,
Não é, dona Filomena?

FILOMENA - (PUXANDO CANCÃO À PARTE)
Aqui está o seu dinheiro.
(ALTO) Já não quer se retirar?

CANCÃO - O apurado foi pouco,
Ainda quero ficar.

CORONEL - Onofre, que estória é essa
Desse tal desse cartão?

ONOFRE - Um cartãozinho besta...

CANCÃO - (MOSTRANDO A FRENTE DO CARTÃO)
A vista é muito bonita!

CORONEL - É o Recife, deixa ver.


CANCÃO - O retrato foi tirado
Na praia de Piedade.
Vê quanta mulher bonita!

(VAI ENTREGANDO O CARTÃO AO CORONEL)

FILONENA - Meu marido, cuidado!

ONOFRE - (AO MESMO TEMPO) Seu coronel,
cuidado.

CORONEL - Que nervosismo é esse?
Será que não posso ver?

FILOMENA - (DESCONFIADÍSSIMA) É que só tem
mulher ruim mostrando as pernas
de fora.

CORONEL - Desde que seja a mulher dos outros
Pode ser ruim à vontade (TODOS RIEM)

CANCÃO - E se fosse a do senhor? (SILÊNCIO
SEPULCRAL)

CORONEL - Matava sem piedade!
Mas, graças a Deus, Filó
Só tem me dado bondade.

FILOMENA - (GAGUEJANDO) Faço o que posso, senhor.

CORONEL - Já viu tamanha humildade?
Mulher séria está aí.
(A CANCÃO) Agora, mostra o cartão.

ONOFRE - Mostre primeiro a mim.

FILOMENA - Eu também quero espiar.

CANCÃO - Já que tanto interesse
Em se apreciar a paisagem,
Vamos fazer um leilão;
Quem der mais, vê à vontade.

CORONEL - Por mim, não tenho interesse...

CANCÃO - O senhor fica de fora.
Se ninguém arrematar,
Lhe entrego e vou embora.
Vamos lá! Quem arremata
Esse bonito cartão?

ONOFRE - Ofereço vinte mil!

CANCÃO - É pouco, ninguém dá mais?

FILOMENA - Eu dou um bode capado,
Vinte galinhas pedrês,
Um boi, um santo, um vestido,
Dois capões e uma rês.

CORONEL - Ficaste doida, mulher?
Quer me deixar arruinado
Por uma prenda tão besta?

CANCÃO - Ô povo maleducado.
Com oferta tão pequena
Eu entrego ao coronel.

CORONEL - É melhor ficar comigo.

CATARINA - Mãe, aumenta a cotação
Ou nós estamos lascadas!

ONOFRE - Eu entro com um milhão!

FILOMENA - Eu ofereço esta casa!

CORONEL - Tem juízo, Filomena!

CANCÃO - Atenção pro resultado:
Ganha Onofre e Filó!
(À ONOFRE) Deixa ver o teu dinheiro.
(À FILOMENA) A casa fica onde está.
Providencie escritura.
Leve lá na minha casa
O juiz e o escrivão
Que eu faço a partilha
Desse famoso cartão.

CORONEL - Mas eu estou arruinado!

CATARINA - E eu, mulher sem marido.
Vou pra rua da amargura.

VENDEDOR - E eu, com o quengo lascado?

FILOMENA - Valei-me, oh virgem pura!

(CANCÃO CONTINUA CONTANDO DESPREOCUPADAMENTE O DINHEIRO)


CORONEL - (A CANCÃO) Mas tu me pagas, desgraça,
Cachorro amaldiçoado,
Espírito de perdição.

RAIZ - Tu quengaste toda gente
Mas comigo é diferente.
Vou dar a definição:
Do poder da minha mente
Você vai ver o prodígio
Na praga que vou rogar:
Tu vais morrer afogado,
Não na água, mas no vento,
Seco que só bacalhau.
Depois, tens um passamento,
E sem nem um santo bento
Na hora da extrema-unção
Vais direto pro inferno
Roubar as almas do Cão. (AJOELHA-SE
E CANTA)
Olé-lê Babau da Morte!
Traz a foice e o facão.
Veste o teu manto encarnado
Com escamas de dragão.
Bandeira preta arriada,
Vadeia de madrugada,
Traz a morte pra Cancão!

CORAL - (OFF) Ôlê-lê Babau Celeste!
Que decide a nossa sina,
Vem com a foice afiada
E um novelo de linha.
Corta o fio prateado
Que desenha o bordado
Dessa nossa estranha vida!

(RITMO. ENTRA O BABAU DE VERMELHO, COM UMA ENORME FOICE PRATEADA. SUA ENTRADA IMPONENTE A TODOS ATEMORIZA)

TODOS - Olh’o Babau, bate já. Bate já, bate já.

BABAU - Qual é a causa da briga?
Quem foi que amarrou o bode?
Apareça o responsável!
Venho impor respeito e ordem.
A sina do acusado
É inapelável: Morte!

CATARINA - Senhor Babau Poderoso!
O culpado é Cancão
Que tirou-me a virgindade
E depois me abandonou!
BABAU - Deixa de ser mentirosa;
Falsa, hipócrita e covarde!
Já foste de muito homem
Na tua Universidade.
Vai cuidar da caganeira
E deixa de dizer besteira.
Quem é mais que quer falar?

VENDEDOR - Ninguém tem mais razão
Nessa briga do que eu.
Pois tive o quengo operado
E ainda fui roubado
Por Maria Pitombeira
A mãe de Canção de fogo.

BABAU - É verdade, te roubaram
Mas porque tu és ladrão.
Recebeste a nota falsa
Mas vendeste, desgraçado,
Bem caro um anel de latão.
Em ti a vingança é justa.
Quem tem mais reclamação?

ONOFRE - E eu que perdi mil contos?

BABAU - Foi bem feito e merecido,
Pois enganaste teu amigo
Vadiando com a mulher dele.

FILOMENA - E eu que perdi a casa
Só por culpa de Cancão.
Sem falar na porca prenha
E o resto da criação.

BABAU - Teu castigo foi pequeno
Mulher galheira e canalha!
Que precisão tinhas tu
De enfeitar o teu homem
Com tamanho par de galhas?

CORONEL - Tu me traíste, Filó!
Vou tirar minha vingança.

BABAU - Fica quieto, corno velho,
Tu só quiseste ajudar
O safado do Vendedor
Porque ele te ofereceu
Metade da roubalheira.
Ao castigo te consagro:
Serás corno conformado
Pro resto dos dias teus!
(BABAU PÕE UM PAR DE CHIFRES NA TESTA DO CORONEL)

CORONEL - Neste caso, não reclamo,
E te perdôo, Filó!
E já que estamos sem dinheiro
Vou te arrumar uns parceiros
Pra tu vadiar melhor.

CANCÃO - A conversa está animada
Mas não deve ser cedo, não.
E já que está tudo arrumado
Vou me mudar pr’outro Estado.
Até mais, meu povo bom.

BABAU - (A CANCÃO) Peraí, que pressa é essa?
Então, tu és inocente?
Vais embora sem sofrer
Uma Ave-Maria de penitência?

CANCÃO - Acho que não tenho culpa.
Desculpe a comparação:
Mas ladrão que outro rouba
Tem cem anos de perdão.

BABAU - Pois tu, de todos, mereces
Um castigo bem maior.
Vais morrer!

CANCÃO - Não diga isso
De minha mãe tenha dó!

BABAU - Já está dada a sentença.
Vais cumpri-la sem detença.
Vou te reduzir a pó.

(RECOMEÇA O RITMO. BABAU INDICA QUE DEVEM AGARRAR CANCÃO. DEPOIS DE ALGUMAS CORRERIAS, ELE É FINALMENTE CERCADO)

BABAU - (BRANDINDO A FOICE) Chegou tua
hora extrema!

CANCÃO - Mas primeiro me atenda
Cumprindo um pedido meu.

BABAU - Concedo. O que tu queres?

CANCÃO - (APONTANDO PARA CIMA)
Segurar este satélite
Que vem caindo do Céu.

(TODOS OLHAM PARA CIMA, ATEMORIZADOS. CANCÃO FOGE)

TODOS - Pega Ladrão!!!!

(BLACK-OUT)










CENA IV


(CASA DE CANCÃO DE FOGO. UMA ARCA, CADEIRAS, UMA CAMA MUITO VELHA)
(EM CENA, MARIA PITOMBEIRA)

CANCÃO - (ENTRA CORRENDO) Mamãe, mamãe,
me acode!

MARIA PITOMB. - Cancão, o que aconteceu?

CANCÃO - (TIRANDO O DINHEIRO DO BOLSO)
Almufambe esse dinheiro!

MARIA PITOMB. - Mãe do Céu, ficamos ricos!
Mas tu não pareces alegre.

CANCÃO - Estou num aperto danado.
Mãe, eu fui condenado.

MARIA PITOMB. - Condenado? Em que prisão?

CANCÃO - Na prisão da sepultura,
Em cova rasa e escura
Vai-se acabar teu Cancão.

MARIA PITOMB. - Deixa de brincar comigo.
Agora que estamos ricos
Vamos viver regalados.
Comer do bom e do melhor,
E vestir rendas e brocados.
Fazer festas animadas
Que aturem a semana inteira...

CANCÃO - Ah, s’isso fosse verdade...
MARIA PITOMB. - Vai ser verdade, Cancão...
Com essa riqueza toda
Vamos viver abastados
Pro resto dos nossos dias.
E seremos respeitados
Bem servidos, bajulados,
Como gente importante.
Pois ladrão é só quem rouba
Um pãozinho pra comer.
Quem rouba muito tem glória
É citado nas Escolas
Que é pra ninguém esquecer.

CANCÃO - Pra mim já não é vantagem
Toda riqueza do Mundo
Pois a Morte me procura.

MARIA PITOMB. - A morte?

CANCÃO - Sim, o Babau.

MARIA PITOMB. - Que dia amaldiçoado!
Meu filho, estás lascado!

CANCÃO - Mas não me entrego assim, não!

MARIA PITOMB. - Não adianta, meu filho.
Aceita logo o castigo.
Da morte ninguém escapa.

CANCÃO - Mas inda sou Cancão de Fogo
E se a Morte quer me pegar
Tem que ser mais viva que eu.

MARIA PITOMB. - Isso de nada adianta...

CANCÃO - Preste atenção no meu plano:
Estás vendo aquele baú
Ali, no canto da sala?
Vê bem: ele tem um buraco na tampa
Por onde passava o vêio.

MARIA PITOMB. - É como você diz.

CANCÃO - Pois eu me escondo nele
Com conforto e sem perigo.
Pelo buraco respiro.

MARIA PITOMB. - E eu, que devo fazer?


CANCÃO - Tu vais ficar como estás
Cuidando da tua casa.
Mas diga que eu fui embora
Quando a Morte perguntar.

MARIA PITOMB. - Mas ninguém engana a Morte!
Cancão, vê lá o que faz.
(OUVE-SE A MÚSICA DO BABAU SE
APROXIMANDO)

CANCÃO - Mãe, eles já estão chegando.

MARIA PITOMB. - Estão perto daqui.

CANCÃO - Não esqueça sua parte...

MARIA PITOMB. - Digo que tu te danaste
Pro sertão do Piauí.
(CANCÃO ENTRA NA ARCA)

MARIA PITOMB. - (BATENDO NA TAMPA DA ARCA)
Fica quieto, eles já vêm.

(ENTRA O BABAU, SEGUIDO DE TODOS OS PERSONAGENS DA CENA ANTERIOR, MAIS O ESCRIVÃO E O JUIZ)

TODOS - É o Babau da Morte!
É o Babau da Morte!
Rei de um Reinado.
Pai de uma Nação.
Ele vem de dia
Trazendo a noite,
Dentro do seu manto
De escuridão.

MARIA PITOMB. - Aqui eu. Precisava tanta gente pra vir
buscar a Vida de uma velha?

BABAU - O teu dia não chegou
Embora muito não tarde.
Vim buscar o teu filho.

MARIA PITOMB. - Não sei dele, não.

BABAU - (RINDO) Quer enganar a Morte, é?
Está bem, eu espero. (SENTA-SE NO BAÚ).

MARIA PITOMB. - Êpa, não sente aí, não.
Tome cá uma cadeira.


BABAU - Aqui está muito bom.
Onde é que está o Cancão?

MARIA PITOMB. - E eu sei?
Passou por aqui, arrumou a mala
E danou-se sem destino
Pelo meio da caatinga.

BABAU - Dessa ele se livrou.
Vou-me embora, fique em paz
Até chegar sua vez.

MARIA PITOMB. - Vá por ali, talvez o senhor o encontre.
Ele não disse para onde ia.

(O BABAU SE LEVANTA DO BAÚ E SOLTA UMA GARGALHADA)

BABAU - Esse aí já tá no papo!
Peidei dentro do baú.
Essa hora está morrendo,
E eu vou pra Caruaru
Matar um velho de cem anos
Que está ferido no braço.

(RETIRA-SE RINDO E DANÇANDO. REPETEM-SE OS VERSOS DA
ENTRADA. MARIA CORRE E ABRE O BAÚ)

MARIA PITOMB. - Cancão! Estás vivo? Me fala!

CANCÃO - Eita catinga da gota!
Estou sem força, estou morrendo... (RETIRAM
CANCÃO DO BAÚ E DEPOSITAM SOBRE A
VELHA CAMA) Chamem Juiz e Escrivão
pr’eu fazer meu testamento
Antes que a vida se acabe.

JUIZ - Eu sou o juiz da vila
E esse é o Escrivão.

CANCÃO - Já farejaram a carniça?

JUIZ - Viemos trazer a escritura
Da casa do Coronel
Que ganhaste no leilão.

CANCÃO - Pois chegaram em hora boa.
Tome nota em seu registro
Da vontade de Cancão:
Pra mãe, deixo duas casas:
Esta e a do Coronel,
Com tudo o que tem dentro.
Pro senhor e pro Juiz...
ESCRIVÃO - Vai deixar coisa pra nós?...

CANCÃO - Deixo um Edifício inteiro
Com bem mais de três andares
No bairro de Santo Antônio,
Avenida Guararapes,
Na capital do Estado.

JUIZ - Mas vejam quanta bondade!

CANCÃO - Agora, deixa eu morrer.

MARI APITOMB. - Cancão, meu filho adorado!

CANCÃO - (À MARIA) Já quengamos muita gente
Por esse mundo de Deus.
Mas a Morte me quengou.
Foi mais esperta que eu...
(MORRE. MARIA PITOMB. CHORA)

JUIZ - Se console, sinhá dona.
Seu filho foi bom cristão
Generoso e Magnânimo.
Digo com tino certeiro:
A despesa do enterro
É minha e do Escrivão.

ESCRIVÃO - De minha parte, eu prometo:
O inventário completo
Não vai lhe custar tostão.

JUIZ - Vou providenciar um enterro
De primeira qualidade
Como reconhecimento
À sua imensa bondade. (SAEM O JUIZ
E O ESCRIVÃO)

TODOS - (MÚSICA DE “INCELENÇA”)
Levai, oh santa incelença
O bagaço do Cancão
O sujeito mais safado
Que andou pelo sertão.
A cova em que se enterrar
Tem que ser larga e profunda
Senão ele ainda rouba
Os ossos das catacumbas.
Se for pro Céu, tome tento
Meu São Pedro guardião.
Passe toda virgem à chave
Bote os anjos na prisão.
Se tiver dinheiro, guarde.
Não confie nas vantagens
Que vai lhe contar Cancão.
(ENTRA UM HOMEM TRAZENDO UM CAIXÃO DE UM COLORIDO VISTOSO, ENFEITADO DE BANDEIRAS. CANCÃO É POSTO NO CAIXÃO E LEVADO EM CORTEJO, ENQUANTO OUVE-SE O)

CÂNTICO DO ENTERRO:
Adeus, adeus Cancão
Começaste a viagem
Pras terras do outro lado
Pro sertão da eternidade
Onde tudo é luz sem sombra
Como um grande meio dia
Ao lado de Jesus Cristo
E da Santa Virgem Maria!

(TODOS SE RETIRAM, ENQUANTO MARIA PITOMBEIRA PERMANECE CHORANDO. PAUSA LONGA. OUVE-SE UM GRITO: “FUI ROUBADO! PEGA LADRÃO!”)

(ENTRAM O JUIZ E O ESCRIVÃO).

JUIZ - Que moleque mais safado!

MARIA PITOMB. - Tem respeito, desgraçado!

ESCRIVÃO - O teu Cancão me enganou!

MARIA PITOMB. - Mas como, se já está morto?

JUIZ - Telefonei pro Recife
E o Edifício que existe
Na Avenida Guararapes
É o prédio dos Correios...

MARIA PITOMB. - Que é que tem? Elo só disse que deixou
Não disse que era dele.
E se nada ele levou
Deixou tudo que era estrada
Mata virgem e serrote.
Deixou até o Amazonas,
As praias, os ribeiros,
As cidades, as construções.
Deixou pontes, usinas, rios
E mais os vinte e tantos estados
Que forma nossa nação.

ESCRIVÃO - E a despesa do enterro?

MARIA PITOMB. - Tu disseste e declaraste
Que gastavas esse dinheiro
Porque Cancão era bom.

JUIZ - Pensamos que era bondade
Do patife do teu filho
Um edifício nos deixar...

MARIA PITOMB. - Pois então, não reclame.
Quis roubar, saiu roubado.
VEJA A BONDADE EM QUE DÁ!
E agora, vá-se embora
Se suma de minha casa
Mas antes, me escute cá:
A derradeira quengada
Que preparou o meu filho
Foi coisa de bom cristão.
Pois quis fazer como Cristo
Que na hora do suplício
Morreu entre dois ladrões. (INDICA O
JUIZ E O ESCRIVÃO).


FIM DA PEÇA.

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