Papo Furado by Jairo Lima
PAPO SOLTO
JAIRO
Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Catrevagem
JAIRO


CINCO POEMAS PARA NATAL 

Jairo Lima


Chegada

e então?

É você esta que vejo entre flocos de nuvens brancas

que posso afastar com um dedo?

E aquela serpente lenta, arqueada em desafio,

estendida em curvas mansas, esta serpente é teu rio?

Desço mais

vejo tuas casas alegres subindo e descendo encostas

e teus edifícios magros

como crianças franzinas com suas facas entre os dedos

ou como pequenas lâminas que se erguem contra o sol

mas não conseguem dete-lo:

em sua arrogância ingênua

se dissolvem na paisagem

e nem aos pássaros fazem medo

e em fitas de asfalto tremulante vejo carros e ônibus e gente de brinquedo

aqui do alto não me pareces mal

gosto de ti, e gosto mais ainda de algo indecifrável

que está no teu ar transparente e carnal

o que te vejo, mais do que cidade, é luz queimante

que me introduz sem segredos, por limpas veias de ventos,

em teu encanto cegante e brutal

toco teu solo e o estampido das turbinas te anuncia:

Natal 


Fevereiro

Correm por aqui notícias

de que os ventos hão de repetir os seus gemidos

e que um mar tremente, em febre, em força, em fúria

há de ter, em suas garras de espuma, o sangue do sol amanhecido

essas são coisas que aqui me dizem

e eu te digo

este mar, que assusta gaivotas,

cujas asas recurvas servem a outros mares recurvos de abrigo,

aqui é só água deitada sob o nada

mesmo quando os ares sopram brisas acalmadas

e o sol, caída a tarde, inventa a noite e os seus círios

a terra é branca e dura

e ergue-se em ondas que, de tão lentas,

se vêem paradas entre mansas madrugadas e incendiados poentes

este reino é de águas mornas e areias acamadas

que o vento arrasta, levanta e esmaga com os dentes


Grande hotel

Pequeno, limpo, acanhado,

Empurra, com relutância, o vento de suas esquinas

E ali se posta, calado

Não reparei se consegue espiar o mar;

Acho que não;

Não o vi, saudoso, como quem avista navios

Nem assombrado como quem se ofusca

No espelho branco do chão

Antes o vejo como menino ingênuo e pacato

Ou como velho e doce professor aposentado

A pastorar a decadência sem fim das horas de torpor

Que escorrem pelos becos escaldantes

Triturando os ossos da tarde e bebendo o seu suor.

Os seus corredores, no entanto, espantam

De tão jovens e caiados

Ali não se ouvem vozes,

Não ressoam passos e nem se lembra a dor

Das cortinas queimadas na explosão

Diária do sol

Vai chamar Humphrey Bogart, menino,

Aquele ali, de costas, em frente à porta

Do elevador. 


No bar

Chegaste a mim não como lume

Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa

E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos

E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

E eu te vi.

Te vi como se vê mares e dunas

Como coisas que são sem oráculos nem seitas

Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:

Ali estavas de pé em frente aos panos da noite

E parecia que contigo aquela noite estava feita

Te vi coxas, riso, ombros e mãos

Perdidos entre afago e maldição

Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse

Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma

Se colam, se penetram, se invadem;

Não são asas de pássaros, são patas de cavalo

Destruindo colheitas

Aquela noite só prometia suores

Conquistados a cada beijo

Os latifúndios do desejo

Eram cada vez maiores

(-----------)


Vim de longe

Em hora incerta

Vim de lunas

Vim de céus perfurados de estrelas

Vim de amores submersos em dores e desfeitas

Para que celebrasses a consagração bizarra

Que faz a carne virar pão

O sangue virar vinho

E a cama virar mesa

Onde a fome dispõe as suas facas

Para cortar as carnes e sugar a seiva

(-----------------)


Farol bar

Eu ontem comemorei

Minha hora mais aflita

Bebendo cerveja fria

Comendo filé com fritas





11000000101000001000100010001000100010001111111110001000100000001010101010101010110000001111000010100000111111111000100011110000