
CINCO POEMAS PARA NATAL Jairo Lima
Chegada
e então?
É você esta que vejo entre flocos de nuvens brancas
que posso afastar com um dedo?
E aquela serpente lenta, arqueada em desafio,
estendida em curvas mansas, esta serpente é teu rio?
Desço mais
vejo tuas casas alegres subindo e descendo encostas
e teus edifícios magros
como crianças franzinas com suas facas entre os dedos
ou como pequenas lâminas que se erguem contra o sol
mas não conseguem dete-lo:
em sua arrogância ingênua
se dissolvem na paisagem
e nem aos pássaros fazem medo
e em fitas de asfalto tremulante vejo carros e ônibus e gente de brinquedo
aqui do alto não me pareces mal
gosto de ti, e gosto mais ainda de algo indecifrável
que está no teu ar transparente e carnal
o que te vejo, mais do que cidade, é luz queimante
que me introduz sem segredos, por limpas veias de ventos,
em teu encanto cegante e brutal
toco teu solo e o estampido das turbinas te anuncia:
Natal
Fevereiro
Correm por aqui notícias
de que os ventos hão de repetir os seus gemidos
e que um mar tremente, em febre, em força, em fúria
há de ter, em suas garras de espuma, o sangue do sol amanhecido
essas são coisas que aqui me dizem
e eu te digo
este mar, que assusta gaivotas,
cujas asas recurvas servem a outros mares recurvos de abrigo,
aqui é só água deitada sob o nada
mesmo quando os ares sopram brisas acalmadas
e o sol, caída a tarde, inventa a noite e os seus círios
a terra é branca e dura
e ergue-se em ondas que, de tão lentas,
se vêem paradas entre mansas madrugadas e incendiados poentes
este reino é de águas mornas e areias acamadas
que o vento arrasta, levanta e esmaga com os dentes
Grande hotel
Pequeno, limpo, acanhado,
Empurra, com relutância, o vento de suas esquinas
E ali se posta, calado
Não reparei se consegue espiar o mar;
Acho que não;
Não o vi, saudoso, como quem avista navios
Nem assombrado como quem se ofusca
No espelho branco do chão
Antes o vejo como menino ingênuo e pacato
Ou como velho e doce professor aposentado
A pastorar a decadência sem fim das horas de torpor
Que escorrem pelos becos escaldantes
Triturando os ossos da tarde e bebendo o seu suor.
Os seus corredores, no entanto, espantam
De tão jovens e caiados
Ali não se ouvem vozes,
Não ressoam passos e nem se lembra a dor
Das cortinas queimadas na explosão
Diária do sol
Vai chamar Humphrey Bogart, menino,
Aquele ali, de costas, em frente à porta
Do elevador.
No bar
Chegaste a mim não como lume
Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa
Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas
E eu te vi.
Te vi como se vê mares e dunas
Como coisas que são sem oráculos nem seitas
Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
E parecia que contigo aquela noite estava feita
Te vi coxas, riso, ombros e mãos
Perdidos entre afago e maldição
Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce
Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
Se colam, se penetram, se invadem;
Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
Destruindo colheitas
Aquela noite só prometia suores
Conquistados a cada beijo
Os latifúndios do desejo
Eram cada vez maiores
(-----------)
Vim de longe
Em hora incerta
Vim de lunas
Vim de céus perfurados de estrelas
Vim de amores submersos em dores e desfeitas
Para que celebrasses a consagração bizarra
Que faz a carne virar pão
O sangue virar vinho
E a cama virar mesa
Onde a fome dispõe as suas facas
Para cortar as carnes e sugar a seiva
(-----------------)
Farol bar
Eu ontem comemorei
Minha hora mais aflita
Bebendo cerveja fria
Comendo filé com fritas
Em hora incerta
Vim de lunas
Vim de céus perfurados de estrelas
Vim de amores submersos em dores e desfeitas
Para que celebrasses a consagração bizarra
Que faz a carne virar pão
O sangue virar vinho
E a cama virar mesa
Onde a fome dispõe as suas facas
Para cortar as carnes e sugar a seiva
(-----------------)
Farol bar
Eu ontem comemorei
Minha hora mais aflita
Bebendo cerveja fria
Comendo filé com fritas
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