PAPO FURADO by Jairo Lima
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Tudo mal: Jabor
Marcos Silva

Arnaldo Jabor foi um bom diretor de cinema, "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada" são frutos tardios do Cinema Novo (pós-Macunaíma) que merecem ser revistos sempre. Ele optou, nos últimos longos e insuportáveis anos, por Imprensa e Televisão. Seu estilo (?) é lamentável. A mescla de Glauber Rocha com Paulo Francis deu em nada ou em tudo de ruim - Tudo mal!
Criticar Lula é normal e até necessário. Assim como criticar o PSDB é normal e até necessário. Mas Jabor assumiu o pífio papel de ideólogo anti-Lula. Para tanto, renunciou a elementos mínimos de argumentação lógica em nome da ideologia peessedebista. Daí, FHC é o bem, Lula é o mal. Se os papéis se inverterem, continuaremos na mesma: é preciso argumentar com um mínimo de análise e demonstração. FHC e Lula não nasceram do nada nem fizeram o país a sua imagem e semelhança - não são Deus! Chamar os oponentes de soviéticos e bolch eviques é ignorar até a queda do Muro de Berlim! Insulto não é explicação.
Discussão política não pode se deter em moral do ressentimento - ódio contra os que estão por cima. Os que estão por cima resistem muito bem a esse ódio, que paralisa apenas quem odeia. É preciso analisar e apresentar argumentos alternativos efetivos, diferentemente do que faz uma torcida frustrada.
Melhor rever "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada".

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Sobre o "Boletim Sentimental da Guerra no Recife”
Marcos Silva

Não vivi a época da Segunda Guerra Mundial, nasci depois. Mas tenho lembranças de infância que incluem homens e mulheres falando sobre a presença dos americanos em Natal, o deslumbramento de muitas mocinhas com os soldados ianques, namoros, transas, até gravidez - teve caso de americano que casou com namorada brasileira, minha mãe conhecia duas moças que foram pros EEUU com os maridos!
Mauro Motta é um bom poeta, pai do excelente antropólogo Roberto Motta - ter um filho como Roberto já é um grande ato poético. Lembro do poema "Boletim sentimental da Guerra no Recife"* sendo declamado em Natal por uns amigos de esquerda, com ares de crítica anti-imperialista. Sempre achei o poema simplificador nesse aspecto. Quero crer que as moças (e duas delas eram minhas tias!) gostaram do que faziam. Pra que marcar o gozo pela culpa? Se muitas tiveram a vida destruída, a culpa não é do gozo e sim dos preconceitos sociais então vigentes.
Claro, poesia é mais que registrar o que aconteceu, sabemos isso desde o velho Aristóteles. O problema é que meus colegas anti-imperialistas, declamando Motta, agiam como se o poema dele fosse tal registro fidedigno. Melhor pensar: gozar é tão bom! Pena que os preconceitos sociais estraguem tudo depois.

* Para ler o poema acesse ANTOLOGIA/Mauro Mota

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“A terra" d'Os sertões 
Literatura como História.
Marcos Silva

Euclides da Cunha, n’ Os sertões (CUNHA 1985; IDEM 2009. As citações desse livro doravante remeterão à última edição), constrói uma sólida ponte Art nouveau que liga Machado de Assis (MACHADO DE ASSIS 1994) a Guimarães Rosa (GUIMARÃES ROSA 2006), depois de passar por Sylvio Romero (ROMERO 1954) e Cruz e Souza (CRUZ E SOUZA 1961), mais as grandes veredas subseqüentes de Augusto dos Anjos (ANJOS 1996), Mário de Andrade (ANDRADE, M. sem data), Gilberto Freyre (FREYRE 1978), Sérgio Buarque de Hollanda (BUARQUE DE HOLLANDA 1975), Graciliano Ramos (GRACILIANO RAMOS 1977), João Cabral de Mello Neto (MELLO NETO 1978) e Ariano Suassuna (SUASSUNA 1972), levando também às saídas cinematográficas de Glauber Rocha (ROCHA 1963) e Nelson Pereira dos Santos (SANTOS 1963). Naquele livro, Euclides escreve poema, panfleto, monografia: o ambicioso escritor fazia tudo isso muito bem e ao mesmo tempo.
Essa obra-prima retoma e amplia duras indagações sobre o Brasil. Percebe um país que é euro-afro-indígena e onde a força intelectual e a sociabilidade de afro e indo-descendentes desmentiu qualquer hierarquia racial, embora argumentos desse universo apareçam no livro (mas confrontados por ele mesmo! – nesse aspecto, próximo de Sylvio Romero [ROMERO 1954]); invoca a incontornável cientificidade moderna de maneira trágica mas com alguma esperança; e enfrenta uma cultura popular maior que as mazelas a seu redor.
Walnice Nogueira Galvão, numa perspectiva diferente da que adoto, enfatiza o par determinismo/herói na concepção de História desenvolvida por Euclides da Cunha (GALVÃO 1984, p 36). Entendo que a escrita de Euclides introduz tensões sem retorno no conceito de determinação. Na parte “O homem”, d’Os sertões, Euclides alinhou um tópico com o título “Variabilidade do meio físico” e outro com o título “... E a sua reflexão na história” (CUNHA 2009, pp 77/85 e 85/90). Considero sintomática a escolha de reflexão, ao invés de reflexo: a primeira palavra remete a pensamento e ação. Em obra mais recente de minuciosa análise literária, Galvão salienta o caráter narrativo d’ Os sertões, seu teor enciclopédico e o freqüente emprego de oxímoros (paradoxos problematizadores) pelo escritor (GALVÃO 2009), donde aquela anterior indicação de determinismo sofrer nuançamentos – a autora indica exemplo dessa natureza em relação ao conceito de raça (IDEM, p 41).
Euclides da Cunha publicou tal obra em 1902 e se referiu a um tempo histórico fortemente caracterizado pela então recente experiência republicana brasileira. Ao mesmo tempo, ele indicou o século XIX como “nosso” (CUNHA 2009, p 47) e falou em “meados deste século” referindo-se ao XIX (IDEM, p 65). Esse viés esboça uma caracterização do tempo histórico que não se confunde com o calendário, questão que seria posteriormente, e por vias muito diversas, discutida por Walter Benjamin (BENJAMIN 1995). Num plano mais pessoal, Cunha sugere uma auto-identificação como homem daquele século XIX – no Brasil, tempo de lutas por Abolição e República -, imerso num outro com novas perturbações e desafios.
Alguns leitores das áreas humanísticas tendem a considerar a primeira parte d’ Os sertões (“A terra”) muito técnica, entre a Geologia e a Fitogeografia, e pulam diretamente para “O homem” ou mesmo “A luta”. Fazem mal. Cada pedaço d’ Os sertões remete aos outros, a terra é o homem e é a luta. O livro de Euclides metaforiza, nos homens e em seus combates, camadas de terra que se misturam pela ação de chuva e mais fenômenos da natureza – erosão, climas... E a obra também funciona como um organismo: cada fragmento remete aos outros. As raças humanas, nessa obra, existem em quadros da natureza (solos, regimes de chuva) e possuem histórias – não são apenas determinadas biologicamente, interferem naqueles quadros.
Seus sertanejos, caracterizados em algumas passagens como mestiços desengonçados ("Quasímodo" – referência ao personagem disforme de O corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo - HUGO 1988), têm uma porção gigantesca ("Hércules" – o semi-deus grego, dotado de força descomunal - HESÍODO 1991), que o combate contra as tropas republicanas revela plenamente mas a simples sobrevivência cotidiana já indicava largamente. Militante na implantação da república – coisa do povo! – no Brasil, Cunha critica duramente o regime já implantado por destruir esses homens e mulheres do sertão (povo brasileiro real) sem os entender.
O presente texto, concentrado na primeira parte d’ Os sertões – “A terra” -, comenta a escrita de Euclides na construção de um entendimento da Guerra de Canudos através de angustiadas indagações preliminares sobre o ser Brasil. Tal ângulo do livro, um clássico da Literatura brasileira, é parte fundamental de um percurso de escrita que abrange identificação de documentos (textos, paisagem, vestimentas, alimentação, rituais religiosos) e bibliografia analítica, tratamento crítico desses materiais e a síntese interpretativa e textual.
O livro Os sertões evidencia o sentimento da transdisciplinaridade (História, Geografia, Antropologia, Geologia etc. – CHESNEAUX 1995; as relações de Euclides com as Ciências Naturais foram estudadas com rigor no livro Ciência e Arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais, de José Carlos Barreto de Santana [SANTANA 2001]) num país onde as disciplinas estavam pouco consolidadas academicamente: o ensino superior no Brasil, em 1902 (primeira edição d’ Os sertões), era ainda muito restrito, concentrado em poucas áreas (Direito, Medicina, Engenharia e raras outras) e nos maiores centros urbanos. A formação humanística se dava naquele primeiro campo (Direito) e em seminários católicos embora também se fizesse presente, em boa parte, também nas outras áreas (Medicina, Engenharia) e nas academias militares (espaço de formação muito destacado em relação a Euclides por Olímpio de Souza Andrade e Galvão, dentre outros [ANDRADE, O. S. 2002; GALVÃO 1985; IDEM 2009]) como uma espécie de universidade antecipada (SILVA 2007).
É um ensaio que antecede até, por caminhos muito diferentes, o grande estudo de Lucien Febvre sobre o Franche-Comté (FEBVRE 1970), que prefigurou a Escola dos Annales, marcada por interdisciplinaridade e ousadia interpretativa no conhecimento histórico. Ao mesmo tempo, e analisado à luz de Michel de Certeau, o ato de escrever, em Euclides da Cunha, não se confunde com um ornato justaposto (ou “uma borda, a ornamentação literária”, no dizer de Luiz Costa Lima – LIMA 1997, p 209) ao que se conhece, como retórica oca: o conhecimento histórico se faz possível através dessa escrita, ligação entre a pesquisa e sua fruição por terceiros, e a partir de documentos e interpretações metodologicamente justificadas; ser Literatura, nesse caso, é ser História como campo de conhecimento (DE CERTEAU 1982).
História e interpretação de Os sertões, de Olímpio de Souza Andrade, destaca o zelo documental associado à elaboração textual em Euclides (ANDRADE, O. S. 2002). Realçando poesia e ficção no fazer euclidiano, Andrade aborda menos “A terra” que as outras partes do livro.
O excelente romancista Lima Barreto, na obra-prima Triste fim de Policarpo Quaresma (LIMA BARRETO 1990), sugeriu uma referência indireta à escrita de Euclides e de outros de seus contemporâneos através do personagem Dr. Armando (arrivista, marido de Olga, afilhada e admiradora de Policarpo):
“O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral.”
Apesar da excepcional qualidade dessa obra de Lima Barreto, tal caracterização de uma escrita postiça e ornamental não é adequada no que se refere a Euclides, que trabalha o verbo de forma literária e extremamente ligada ao universo conceitual construído por sua análise. E Olímpio de Souza Andrade narra uma passagem biográfica de Euclides que o aproxima de Policarpo avant la lettre: por ter criticado, em nome da lei e em plena ditadura de Floriano Peixoto, uma sugestão de “repressão sumária de opositores políticos menos maleáveis”, feita pelo senador cearense João Cordeiro, ele sofreu sanções profissionais – transferência de posto para a cidade mineira de Campanha. Seu sogro, General Sólon Ribeiro, por discordâncias similares, foi transferido para o Mato Grosso, o que equivalia a exílio (ANDRADE, O. S. 2002, pp 90/ss). O episódio é evocado também por Walnice Nogueira Galvão (GALVÃO 1984, p 30).
A presente discussão se aplica a um livro, Os sertões, que desejou ser História como conhecimento – quer dizer, reflexão sobre diversificados documentos de época, indagação sobre o tempo humano -, e não apenas como tema. Não se trata, portanto, de uma análise com pretensões de generalização dessa identidade entre História e Literatura para qualquer obra literária ou histórica: de nossa parte (historiadores), infelizmente, nem todos somos Euclides; da parte dos literatos, infelizmente, nem todos querem discutir explicitamente História, embora estejam todos na História.
Na “Nota preliminar” daquele livro, Euclides aponta como núcleo da obra apresentar “os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil” (CUNHA 2009, p 17), que estariam em processo de extinção (CUNHA 2009, p 18). Essa terminologia contribui, certamente, para uma leitura da obra como largamente centrada em determinantes aspectos raciais, o que o próprio texto, todavia, trata de desmentir. Mesmo um intérprete maduro, como Nelson Werneck Sodré, pode incorrer nessa leitura (WERNECK SODRÉ 1965) - induzido pelo próprio Euclides... Há interpretações alternativas da questão nos estudos mais recentes de Ricardo Luiz de Souza (SOUZA 2007) e Ricardo Sequeira Bechelli (BECHELLI 2009), que deixam clara a existência de infinitas nuances nesses argumentos sobre raça.
Iniciando o tópico “A terra”, Euclides introduz um vocabulário de natureza teatral (“desmedido anfiteatro” [o vocábulo, todavia, também faz parte do universo geológico, referindo-se a uma área erodida, em forma circular, numa encosta de montanha ]; “majestoso palco” – CUNHA 2009, p 22) que começa a evidenciar o forte caráter literário dessa escrita, apegada a metáforas que indicam sua face de construção verbal em busca de significados derivados de escrita e leitura pacientes. O leitor se encontra diante de um escrever que oferece indícios estéticos, associados à interpretação conceitual. Sem beleza (interpretada) não há conceito.
Cunha justifica seus exageros verbais em nome de falar sobre um país “onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina” (CUNHA 2009, p 23). Como o livro aborda paisagem natural, grupos humanos e lutas sociais e políticas, pode-se entender que a referida oficina gera, no final de contas, homens e mulheres. Portentosa oficina: qual a dimensão desses seus “produtos”, entre Quasímodo e Hércules?
Antes de tentar responder a essa questão, vale registrar que a Natureza dos sertões aparece no volume como monumento “espontâneo” (CUNHA 2009, p 25) mas paralelo aos monumentos construídos por homens e mulheres: menires, muramentos, coliseus, aduelas, abóbada... Se a comparação remete a grandiosidade e beleza, não perde de vista o caráter de fazeres humanos incrustados na matéria natural da paisagem. Ao mesmo tempo, a comparação evidencia o anúncio do olhar que apreende aquele mundo: Euclides da Cunha fala do mundo e sobre si mesmo, descobrir os sertões brasileiros é descobrir-se e se expor. Ao indicar a “impressão dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão” (CUNHA 2009, p 36), o escritor fala do país e de si, homem que sente a dor e tenta conhecer tal mundo.
Seu olhar narrativo e analítico penetra no território dos sertões como se fosse o de um bandeirante ou um sertanista (CUNHA 2009, pp 26/28), metáfora de ocupação territorial e evocação do Brasil histórico que não se reduz à política imediata. Cunha humaniza o relevo através de adjetivação: “incoerente”, “surpreendido” e “Terra ignota” (CUNHA 2009, pp 27/ss; Galvão fala em “dotar de vida, de vontade própria e de movimento aquilo que ´´e inerte e inorgânico” – GALVÃO 2009, p 40). Constatado o desconhecimento, seu livro se apresenta como remédio para essa situação. A problemática da missão literária, estudada por Nicolau Sevcenko em relação a Euclides da Cunha e Lima Barreto (SEVCENKO 2003), é anunciada pelo próprio Euclides nessa tarefa de conhecer o país,
“mercê da proverbial indiferença com que nos volvemos às coisas desta terra, com uma inércia cômoda de mendigos fartos” (CUNHA 2009, p 41).
A chegada à aridez significa, para o escritor, atingir plenamente o sertão inóspito – “pardo requeimado das caatingas” (CUNHA 2009, p 30). A partir daí, o vocabulário adquire caráter mais plenamente dramático, como “aspecto atormentado das paisagens” e “martírio da terra” (IDEM, p 32), “cenários emocionantes” e “Natureza torturada” (IDEM, p 33). Vale realçar que o viés do martírio, evocando na natureza um trajeto cristão dessacralizado, servirá de mote para o restante do texto, inclusive em seu marcante desfecho:
“O martírio do homem, ali, é o reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida.
Nasce do martírio secular da terra...” (CUNHA 2009, p 70).
Nesse final e desde antes, a terra vira corpo (transubstanciação leiga) em simétrica relação e identidade com o humano. Superar o martírio do homem – gigantesca tarefa social e política – é enfrentar o martírio da terra. Se o engenheiro Euclides pode evocar instrumentos técnicos diante do último desafio, o cidadão Cunha bem sabe que o passo anterior se dará na arena das relações de poder entre os homens. Sozinha, a técnica pouco conseguirá. Sem técnica, a política permanecerá na retórica vazia. E essa técnica também se faz argumento político.
A escrita de Os sertões evidencia com intensidade o olhar de quem convive com esse mundo:
“À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscantes, num irradiar ardentíssimo” (IDEM, p 33)
Esse trecho escancara efeitos do panorama comentado sobre quem o vê, enfatizando de forma superlativa sua dura materialidade que pode chegar a cegar (brilho, ofuscamento), maior desafio para quem quer dominá-la através dos instrumentos de saber transmutados em meios para superar limites humanos. A dificuldade, todavia, precisa ser enfrentada para que sejam atingidos os efeitos transformadores sobre sofrimentos ainda maiores. O martírio do homem se transfigura, também, em martírio do sábio (não fosse ele, obviamente, também humano), regenerador de toda a espécie, Prometeu além do mito.
Euclides caracteriza os sertões brasileiros como “região incipiente ainda se preparando para a Vida” (CUNHA 2009, p 36). Se essa imagem evoca uma situação biológica e cultural de infância, ela também remete como metáfora ao país de História recente e república ainda mais próxima cronologicamente daquela data. No último sentido, é como se a república brasileira ainda se preparasse para ser república e Brasil.
Na paisagem comentada, Cunha assinala “acervo enorme de casebres” (CUNHA 2009, p 40), paradoxo que confronta o respeitável acúmulo (acervo) ao lastimável conteúdo (casebres), realçando o fator humano em seu fazer como miséria.
O humano irrompe ainda mais dramaticamente no tópico “A terra” quando, sob o intertítulo “Higrômetros singulares”, o ensaísta nos apresenta um soldado:
“Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão, e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formado pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali havia três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nenhum verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculdara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura dos ares.” (CUNHA 2009, pp 43/44)
Esse trecho, de espantosa beleza, traz-nos, na descrição da paisagem, um soldado morto, surpresa humana naquela paisagem, o humano usado narrativamente como coisa – indicador do ar seco -, pouco adiante aproximado de um cadáver insepulto de cavalo:
“Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimes empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro” (IDEM, p 45).
As imagens verbais, em brilhante indicação do olhar, aproximam-se de uma pintura fantástica ao caracterizarem efeitos de luz que impediam a distinção entre céu e terra:
“Do topo da Favela, se a prumo dardejava o sol e atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno,atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.” (IDEM, p 45)
E a mesma seca aspereza se metamorfoseia em visão de inesperado mar, possível fonte de inspiração para o sertão-mar de Glauber Rocha (ROCHA 1964) e metáfora do difícil todo – Brasil e condição humana:
“estranho palpitar de vagas longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que caísse e refrangesse, e ressaltasse a luz esparsa em cintilações ofuscantes...” (IDEM, p 45)
Esse mundo não se oferecia sem dificuldades ao saber! E continha em si avessos perturbadores – o líquido na absoluta secura.
A apresentação do guerreiro morto como adereço da paisagem evoca – possivelmente de forma involuntária - um poema de Arthur Rimbaud, “Le dormeur du val”, de 1871, alusivo à Guerra franco-prussiana:

O dorminhoco do vale.

É um furo de verde onde canta um riacho
Que agrega loucamente às ervas uns halos
De prata; onde o sol, da montanha, num cacho,
Chispa: é um pequeno vale a espumar seus embalos.

Jovem soldado, aberta boca, crânio nu vem,
E a nuca se banhando em agrião folhagem,
Dorme; estendido o corpo nas ervas, há nuvem,
Pálido em verde leito, luz e chuva agem.

Com os pés nos gladíolos, dorme. E sorriu
Como o faria um bebê doente, tem frio:
Natureza, tão quente, acalanta-o no peito.

Os perfumes não mais excitam seu nariz;
Dorme sob esse sol, com as mãos nos quadris,
Tranqüilo. Rubros furos no lado direito.

(RIMBAUD apud SILVA, 2002)

Em Rimbaud, a revelação do soldado morto se sucede à visão de uma esplendorosa paisagem, marcada por cores e brilhos, texturas e materialidades diversificadas – requintada natureza morta. Cunha faz percurso paralelo sem deixar de ver a todo instante a mão humana (o reiterado vocabulário da arquitetura: “anfiteatro”) e o contraste entre aspereza da paisagem e nuances da vegetação. Num caso e noutro, ocorre uma perturbada relação com os valores do civismo na guerra.
Vale salientar que, nessa época (1902), Rimbaud ainda era escritor pouco conhecido, divulgado até então por Verlaine e poucos mais. O último autor, que organizou a coletânea Les poètes maudits e incluiu Rimbaud no volume – junto com Tristan Corbière, Stéphane Mallarmé, Marceline Desbordes-Valmore, Villiers de l’Isle-Adam e o próprio Verlaine (sob o anagrama Pauvre Lélian) -, não editou ali “Le dormeur du val” (VERLAINE 1972): o volume reproduziu, de Rimbaud, “Voyelles”, “Oraison du soir”, “Les Assis”, “Les effarés”, “Les chercheuses de poux” e “Bateau ivre”. Nesse sentido, a proximidade entre o poeta francês e a prosa poética do brasileiro pode ser mais atribuída a sensibilidades críticas latentes na passagem do século XIX para o seguinte que a efetiva inspiração via leitura do primeiro pelo outro.
Na narração da flora sertaneja, o ensaísta salienta a resistência ao clima e à carência de água, bem como a associação entre vegetais, que caracterizou como “plantas sociais” em sua ação adaptativa para melhor sobreviverem. O paralelismo com a população salta aos olhos.
Ao apresentar os cereus (mandacarus), Euclides afirmou que
“eles dão a ilusão emocionante de círios enormes, fincados a esmo no solo, espalhados pelas chapadas, e acesos” (CUNHA 2009, p 54).
Essa visão remete a altar ou velório, sacralidade ritual na natureza e limiar da vida. Nesse sentido, o sertão tem reafirmada a dimensão de sacrifício, ainda mais revestido de teor metafórico cristão. Essa metáfora é redirecionada (sem perda do martírio) para o espaço da tragédia quando compara as cactáceas conhecidas como cabeças de frade a cabeças decepadas (Galvão interpreta essa passagem como “premonição da degola na parte final da narrativa” – GALVÃO 2009, p 42).
Com a chuva, todavia, todo esse cenário muda. Ao invés de determinismo biológico, o escritor trabalha com indeterminações humanas, representadas por sofrimentos e sentimentos outros que a natureza expõe de forma especular às experiências de homens e mulheres. É assim que o o homem aparece como “agente geológico notável (...) fazedor de desertos” (CUNHA 2009, p 63) e não na condição de exclusivo produto deles.
A desertificação é lembrada por Euclides da Cunha como experiência histórica, iniciada no Brasil pela coivara indígena, mantida e agravada pelo colonizador através de pastoreio, mineração e bandeirismo de apresamento. Tanto o combate ao desflorestamento vinha já do século XVIII (fim da seca de 1791/1792) quanto as queimadas ainda eram praticadas na ocupação de terras feita em “nosso” século XIX (CUNHA 2009, pp 63/65).
A chuva transforma o sertão em paraíso – nem é preciso declarar explicitamente que, sem ela, o sertão era inferno -, abrindo temporada de “seis meses venturosos” (CUNHA 2009, p 59). O escritor nos traz uma sucessão de deserto/vale fértil. E a possibilidade de combater a desertificação é lembrada desde os romanos da Antiguidade, que conseguiram fazer recuar o deserto na Tunísia através de represamento de águas da chuva e da irrigação. Para Euclides, o Brasil podia fazer algo similar em seus sertões, evidenciando que as relações entre homem e meio eram de mão dupla, não apenas determinadas pela natureza.
Essa primeira parte d’Os sertões se encerra com o tópico “O martírio secular da terra” (CUNHA 2009, p 68/70), onde a construção de barreiras em vales e rede de açudes é defendida de forma enfática no belo desfecho, citado anteriormente:
“O martírio do homem, ali, é o reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida.
Nasce do martírio secular da terra...” (CUNHA 2009, p 70).
Afastado de uma religião martirológica, sem renunciar a uma visão leiga do martírio, o escritor convida a república a lançar mão da Ciência (transdisciplinar), que ele mesmo representa literariamente.
Torna-se ocioso pensar onde começa Literatura e termina Ciência, onde termina terra e começam homem ou luta. A dimensão dos produtos da oficina “Sertões”, antes evocada, parece ser a reafirmação da dupla Quasímodo/Hércules: a aparência pode até ser disforme mas a força é gigantesca; o corcunda, afinal, é capaz de paixão e generosidade em relação à bela Esmeralda...
E “O sertanejo é antes de tudo um forte”! (CUNHA 2009, p 114).
A ousadia de Euclides da Cunha é desafio para o leitor, e ainda mais para aquele que produz qualquer Ciência: ser ousado movendo-se com ele - comovendo-se.

FONTES INDICADAS:

ANDRADE, Mario de. Danças dramáticas do Brasil. São Paulo: EDUSP - Belo Horizonte: Itatiaia, sem data. Elaborado originalmente entre 1934 e 1944.
ANDRADE, Olímpio de Souza. História e interpretação de Os sertões, . 4ª ed. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2002. 1ª ed.: 1960.
ANJOS, Augusto dos. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. 1ª ed. de Eu: 1912.
BECHELLI, Ricardo Sequeira. Metamorfoses na interpretação do Brasil - Tensões no paradigma racista. Tese de Doutoramento em História Social, defendida na FFLCH/USP. São Paulo: digitado, 2009.
BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história”, in: Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985, pp 222/232.
BUARQUE DE HOLLANDA, Sérgio. Caminhos e fronteiras. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. 1ª ed.: 1957.
DE CERTEAU, Michel. Escrita da História. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense, 1982.
CHESNEAUX, Jean – Devemos fazer tabula-rasa do passado? Tradução de Marcos A. da Silva. São Paulo: Ática, 1995.
CRUZ E SOUZA, João. Poesia completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1961.
CUNHA, Euclides da. Os sertões (Campanha de Canudos). Edição crítica por Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Brasiliense, 1985. 1ª ed.: 1902.
IDEM. Os sertões (Campanha de Canudos). São Paulo: Ediouro, 2009 (Introdução de Walnice Nogueira Galvão, Notas de M. Cavalcanti Proença).
FEBVRE, Lucien. Phillipe II et la Franche-Comté – Étude d’Histoire politique, religieuse et sociale. Paris: Flammarion, 1970. Tese original: 1911.
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. 19ª ed.. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. 1ª ed.: 1933.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Euclidiana – Ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.
IDEM. “Introdução – Euclides, elite modernizadora e enquadramento”, in: CUNHA, Euclides da. História. Organização de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1984, pp 7/37 (Grandes cientistas sociais – 45).
GRACILIANO RAMOS. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1977. 1ª ed.: 1938.
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, [2006]. 1ª ed.: 1958.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo, Iluminuras, 1991.
HUGO, Victor. O corcunda de Notre-Dame. Tradução de José Gonçalves de Arruda Filho. São Paulo: Clube do Livro, 1985.
LIMA, Luiz Costa. Terra ignota: a construção de Os sertões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
LIMA BARRETO, Afonso Henriques. Triste fim de Policarpo Quaresma. Sao Paulo : Ática, 1990, pp 119/120. 1ª ed.: 1915
MACHADO DE ASSIS, Joaquim. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo : Ática, 1994. 1ª ed.: 1881.
MELLO NETO, João Cabral de. “Morte e vida severina (Auto de Natal pernambucano)”, in: Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. 1ª ed.: 1956.
RIMBAUD, Arthur. “O dorminhoco do vale”, tradução de Marcos Silva, apud: SILVA, Marcos. “Tempos de Rimbaud: Guerra franco-prussiana, pobres de França e Comuna de Paris”, in: ORSO, Paulino José, et. al. (Orgs.) – A Comuna de Paris de 1871 – História e Atualidade. São Paulo: Ícone, 2002, pp 105/127.
ROCHA, Glauber. Deus e o diabo na Terra do Sol. Rio de Janeiro: Copacabana Filmes, 1964.
ROMERO, Sylvio. Contos populares do Brasil. Edição anotada por Luís da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954 (Documentos brasileiros – 75B). 1ª ed.: 1883.
SANTANA, José Carlos Barreto de. Ciência e Arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais. São Paulo: Hucitec – Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001.
SANTOS, Nelson Pereira dos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Nelson Pereira dos Santos / Herbert Richers, 1963.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão – Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 1ª ed.: 1983.
SILVA, Marcos. “Câmara Cascudo, a cultura popular e a universidade”, in: Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia. Natal: EdUFRN - São Paulo: Terceira margem, 2007, pp 57/65.
SOUZA, Ricardo Luiz de – Identidade nacional e modernidade brasileira. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
SUASSUNA, Ariano. Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.
VERLAINE, Paul. “Les poètes maudits (1884 et 1888)”, in: Oeuvres en prose complètes. Texte établi, presenté et annoté par Jacques Borel. Paris: Gallimard, 1972, pp 633/691 (Bibliothèque de la Pléiade - 239).
WERNECK SODRÉ, Nelson. A Ideologia do Colonialismo. Seus reflexos no pensamento brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. 1ª ed.: 1961.


MARCOS SILVA é Professor titular de Metodologia da História na FFLCH/USP. Publicou individualmente, dentre outros livros, Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia. (Natal: EdUFRN - São Paulo: Terceira Margem, 2007). Propôs, co-organizou (com Júlio Pimentel Pinto e Maurício Cardoso) e é um dos autores de Metamorfoses das linguagens. Histórias, Cinemas, Literaturas (São Paulo: LCTE / Pós-graduação em História social da FFLCH/USP, 2009).

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Sobre o povo e as elites.
Marcos Silva

Jairo Lima criticou, com razão, o mito da sabedoria popular, lembrando-nos que Collor está sendo eleito em Alagoas. Eu relembro, para piorar o quadro: Collor foi eleito em 1989 presidente da república!
Sim, a sabedoria popular é um mito que as belas páginas de Rousseau e, depois, Michelet alimentaram. A própria noção geral de povo é um mito que a Revolução Francesa e suas sucedâneas sedimentaram largamente.
Entendo que o fato de estarmos diante de um mito não significa estarmos diante de um vazio.
Começarei por Collor: sim, ele está sendo eleito (e foi eleito antes) com a cumplicidade do tal povo. Agora: não se trata propriamente de uma cumplicidade espontânea.
Por um lado, existe a famosa propaganda e os investimentos que ela exige: os mais velhos lembrarão da campanha de 1989, da profusão de materiais publicitários e da voz unânime na grande Imprensa (que não é dominada pela "sabedoria popular "...) a favor de Collor. Por outro, como não existe povo em estado de santa pureza, e lembrando Jung, existem na sociedade fortes zonas de sombra a que o debochado bem-sucedido (e seus pares de outras famílias, nos sentidos mafioso e biológico do termo) atende/m muito bem. Collor não está sozinho, outros do mesmo nível social merecem iguais votações e apreços ou os apóiam com dinheiro e argumentos. Escutei, em 1989, um cultíssimo professor universitário declarando candidamente que votaria em Collor por falta de opção - numa república, qualquer um de nós pode ser opção!
Por outro lado, ainda, existe a pouco discutida conivência das elites. Pra começo de conversa, Collor e similares são elite - além de dinheiro, têm acesso a níveis de informação bastante diversificados e impõem suas personae de formas muito eficazes. Elite não é apenas Collor e similares, claro - eu e Jairo somos outros tipos de elite, não é? Nós, elites, pensamos de formas diversificadas, agimos de formas diversificadas. Nem sempre botamos a boca no trombone com força suficiente contra os desmandos de nossos pares de elite. Alimentamos o mito da sabedoria popular e pouco ou nada fazemos para que o povo real seja mais que o mito, para que o povo real venha a ter sabedoria real.
Sabedoria, popular ou de elite, não é espontânea, ela se constrói, pode ser perdida... Os clássicos instrumentos de educação e cultura (escola, biblioteca, museu, sala de concerto, galeria de arte etc.) são fundamentais para sua existência. Outros instrumentos cotidianos - convívio, debate - estão cada vez mais raros.
Considero necessário encarar as sabedorias populares ou de elites como metas que poderão ser atingidas no combate aos Collors da vida. O pior é que o mundo tem mais Collors que críticos.
De qual lado ficaremos?
Não basta denunciar a falsa sabedoria popular...

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Da nação potiguar

Marcos Silva e Joel Carvalho apresentarão canções que compuseram em parceria desde fins dos anos 60. O espetáculo DA NAÇÃO POTIGUAR contém algumas das músicas que integram o cd com o mesmo título, em fase de finalização. Esperamos por todos vocês no campus da UFRN, Praça da Reitoria, Natal (RN), dia 27 de julho/2010, terça feira, 16 horas.

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A une passante
Charles Baudelaire

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?

Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !

1) Tradução de Guilherme de Almeida

A Uma Passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na etern idade?

Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

2) Tradução de Jamil Haddad Mansur

A uma Passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago, e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!

3) Tradução de Ivan Junqueira

A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

4) Tradução de Juremir Machado da Silva

A Uma Passante

A rua ensurdecedora num alarido rugia em torno.
Alta, magra, toda de luto, dor majestosa,
Passou uma mulher, com a sua mão suntuosa
Levantando, balançando do vestido seu contorno.

Ágil e nobre, com as suas pernas de gata.
Eu bebia crispado e esquisito como um falcão
No olhar, céu lívido que germina um furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago... a noite! – Fugidia beleza,
Cujo olhar me fez de repe nte nascer outra vez,
Só te reverei na eternidade com certeza?

Longe, bem longe: tarde demais! Nunca talvez!
Não sei para onde foges, não sabes aonde eu vou,
Ó você que eu teria amado, ó você que não ousou!

5) Tradução de Marcos Silva

A uma passante

Rua ensurdecedora ao meu redor urrava.
Alta, magra, em só luto, só dor majestosa,
Uma mulher passou, com uma mão faustosa
A guirlanda e a barra erguia, balançava;

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, crispado, eu bebia, como em contra-mão,
Em seu olho, céu claro, grão de furacão,
Doçura que fascina e prazer que mata.

Um clarão... a noite! – Fugidia beleza
Cujo olhar me fez de repente renascer,
Só te verei depois na eternidade acesa?

Longe, tão longe! tarde! talvez jamais te ver!
Ignoro onde foges, não sabes onde eu ia,
Ó tu que eu amaria, ó tu que o sabias!

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Tradução, tradutor, traduzido.
Marcos Silva

Jairo:

O tema que vc sugere para nosso diálogo é excelente: o que se lê numa tradução (o tradutor ou o traduzido)?

Minha primeira resposta é: lemos, antes de mais nada, o traduzido; mas essa leitura é feita através do tradutor; nesse sentido, lemos sempre os dois.

Tendo a pensar que quem traduz declara amor p elo original e apresenta aos outros seu entendimento daquele original. Nenhuma tradução abolirá o original – no caso de um grande escritor como Baudelaire, que traduziu outro grande escritor como Allan Poe, o resultado final deu lugar a um novo belo texto em francês mas ninguém deixará de poder ler a primeira versão em inglês.

Traduzir poemas é dar conta de vocabulário, ritmos, rimas (quando existem), figuras de linguagem...

Costumo fazer um paralelo entre uma tradução e as versões no poema-processo: nunca chegaremos à tradução definitiva, cada uma é uma aproximação marcada pelo presente do tradutor.

Traduzo poemas que eu amo, sempre de forma humilde e convidando o leitor a ler o original, inclusive a fazer sua tradução pessoal – que findamos fazendo mentalmente quando lemos noutra língua.

Abraços de afeto e admiração.

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Ética nicomaquéia
Marcos Silva

Caros amigos:

Sou plenamente favorável a criticarmos os políticos, ainda mais os que estão no governo – faz parte do exercício do poder ser criticado. Entendo que a crítica deve se pautar por valores políticos. Comentar a vida sexual de políticos e de seus apoiadores é se situar abaixo de qualquer crítica.

Combater os erros do governo Lula se situa a quilômetros de distância de falar sobre a vida sexual dele e de seus apoiadores. O desargumento é tão mesquinho que seu autor nem merece ser citado. Vamos preservar a dignidade da argumentação política. Até quando ela for usada contra pessoas que nós consideremos indignas da política.

Abraços.

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O dorminhoco do vale.
Arthur Rimbaud
Tradução de Marcos Silva

É um furo de verde onde canta um riacho
Que agrega loucamente às ervas uns halos
De prata; onde o sol, da montanha, num cacho,
Chispa: é um pequeno vale a espumar seus embalos.

Jovem soldado, aberta boca, crânio nu vem,
E a nuca se banhando em agrião folhagem,
Dorme; estendido o corpo nas ervas, há nuvem,
Pálido em verde leito, luz e chuva agem.

Com os pés nos gladíolos, dorme. E sorriu
Como o faria um bebê doente, tem frio:
Natureza, tão quente, acalanta-o no peito.

Os perfumes não mais excitam seu nariz;
Dorme sob esse sol, com as mãos nos quadris,
Tranqüilo. Rubros furos no lado direito.

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Militares são cidadãos
Marcos Silva

Caros amigos:

Tenho lido indagações em diferentes espaços (inclusive neste blog) sobre os militares brasileiros, vozes que perguntam onde eles estão na atual conjuntura do país.

A resposta é simples mas difícil: estão aqui, entre nós, que não somos militares. Militares são cidadãos, como nós. Cobrar alguma ação deles, DENTRO DA LEI, é cobrar ação, IGUALMENTE DENTRO DA LEI, de nós outros, civis.

Convivo pessoalmente com poucos militares. Os que conheço são pessoas de bem – acredito que a maioria de seus colegas também seja assim. Se os militares e os civis se mostram indignados com tanta coisa que acontece em nosso país, eles também sabem (e nós, civis, sabemos com eles) que a ação civil-militar de 1964 e o regime que se lhe seguiu contribuiu largamente para formar o Brasil violento e corrupto de hoje. História não é o presente imediato, História é acúmulo de experiências. A ditadura produziu monstros que estão soltos até hoje. Discordo muito dos que consideram haver monstros prioritariamente entre militares. A lógica da monstruosidade, nas sociedades humanas, é se espalhar por diferentes esferas de convívio. Empregadores que pagam salários de fome, pol íticos corruptos e torturadores (civis ou militares) são igualmente monstruosos.

Sobre a tortura: pra que mentir, alegando que foi problema apenas de alguns militares? Aconselho todos a verem o filme “Cidadão Boilesen”: civis torturadores (ou financiadores da tortura, o que dá no mesmo) aparecem às pencas.

Abraços.

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Caros amigos:

O Papo Furado publicou uma bonita tradução, de Delfim Guimarães, do poema “Le Tonneau de la Haine”, de Charles Baudelaire.

Localizei outra tradução, feita por Ivan Junqueira:

xxxxx

O TONEL DO ÓDIO


O Ódio é o tonel das pálidas Danaides frias;
Por mais que da Vingança o braço rubro e forte
Derrame-lhe às entranhas ermas e sombrias
Baldes cheios de sangue e lágrimas da morte,

O Diabo lhe abre furos nunca imaginados,
Que verteriam séculos de esforço e suor,
Mesmo que à vida ela trouxesse os condenados
Para ao corpo infligir-lhes castigo maior.

O Ódio é um ébrio perdido ao fundo da taverna,
Que sente a sua sede emergir do licor
E ali multiplicar-se qual hidra de Lerna.

- Mas quem bebe feliz verá seu Vencedor,
E ao Ódio resta apenas a amarga certeza
De saber que jamais dormirá sob a mesa.

xxxxx

Há algum tempo, traduzi o mesmo poema assim:

O TONEL DO ÓDIO

O Ódio é o tonel das Danaides frias;
Distraída vingança, braços rubros e fortes,
Fina a precipitar nessas trevas vazias
Baldes cheios de sangue e lágrimas das mortes,

O Demo faz secretos furos nos abismos,
Por onde fugirão suores e esforços,
Mesmo se reviver quem morreu em seus sismos,
E p ara torturar ressuscitar-lhes dorsos.

O Ódio é um ébrio no fundo da taberna,
Que sente sempre a sede nascer de um licor
E se multiplicar como a hidra de Lerna.

- Mas felizes bebuns conhecem o Vencedor,
E o Ódio é condenado, lamentável proeza,
A não poder jamais dormir sob essa mesa.

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Contra novos maniqueísmos
Marcos Silva

Prezado François Silvestre:

Gosto muito de seu verbo indignado, todos nós precisamos de intelectuais assim. E gosto também de sua militância contra os maniqueísmos. Quero apenas enfatizar que é perigoso o realce exclusivo ao que não presta como único patrimônio da humanidade: brancos e pretos podem ser sacanas, ricos e pobres podem ser corruptos, homos e héteros podem ser preconceituosos... Sim, tudo isso é verdade. Mas sinto falta – contra novos maniqueísmos – de acrescentarmos: brancos e pretos pode m ser excelentes criaturas, ricos e pobres podem ser de uma honestidade espantosa, homos e héteros podem ser pessoas solidárias... Meu receio, como seu admirador, é que seu olhar reine soberano diante da miséria humana – todos podem ser o pior – e não incorpore algumas pequenas nesgas de beleza que rolam por aí. É um receio de amigo (embora eu tenha visto vc poucas vezes, ouso consi derá-lo amigo) e que, certamente, vê as referidas nesgas de beleza muito presentes em seu trabalho de escritor.

Com carinho e votos de um excelente 2010

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Diante dos editores (c. "Diante da lei", de Kafka)
Marcos Silva

Caros amigos:

Algumas respostas de editores a candidatos podem ser engraçadas. Na maioria das vezes, todavia, são burocráticas e até atos falhos. Recebi uma resposta recente de tom patético: "Seu livro é de caráter excepcionalmente bom. Infelizmente, não se enquad ra em nossa programação." Conclusão: a programação não é do mesmo nível que o livro!
É claro que um editor deve saber dizer sim ou não, de acordo com seus interesses - inclusive de mercado. Regras banais de boa educação devem prevalecer. Melhor dizer "Seu livro não nos interessa" que tentar fazer humor em cima dos outros - e, quase sempre, sem talento algum para o gênero.
Abraços.

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Reler Platão
Marcos Silva

Caros amigos:

Diante de tantas platitudes que a grande Imprensa publica com ares de sub-Filosofia, aconselho a releitura do texto “Sofista”, de Platão. De passagem, acrescento que sofística não se confunde com Retórica pois o bom retor é dotado de Ética.

Abraços.

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Aos que vão nascer
Bertolt Brecht
Tradução de Paulo César Souza]

1

É verdade, eu vivo e m tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar
Por acaso fui poupado (Se minha sorte acaba, estou perdido!)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso beber e comer, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastad o da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

2

À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pân tano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

3

Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pemsem em nós
Com simpatia.

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To kitsch or not to kitsch – Poesia dos Anjos.
Marcos Silva

Quando eu era adolescente e começava a ler textos literários mais complexos, ouvia muita gente declamar Augusto dos Anjos em Natal. Eu considerava o poeta estranho e surpreendente mas não conseguia entender o entusiasmo de seus admiradores.

Depois, adulto, reli dos Anjos e li alguns de seus comentaristas, dentre os quais o bom poeta Ferreira Gullar.

Gosto muito de Augusto. Penso que ele faz Poesia num tom retórico que os posteriores a Verlaine (que torceu o pescoço da retórica) tendem a não apreciar. Mas esse dos Anjos escreveu decassílabos perfeitos, como “Acostuma-te à lama que te espera”, no nível de Camões, para expressar uma angústia moderna própria a quem vivia o mundo a caminho da Primeira Guerra Mundial, expondo a miséria humana diante do triunfo da técnica.

Incluo Augusto en tre os grandes poetas brasileiros, precedido por Cruz e Souza, sucedido por Drummond, Murilo, Cecília e poucos mais.

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Carta para Maciel
Marcos Silva

Maciel:

Eu não considero a ditadura de 1964/1984 apenas militar: ela foi, desde o começo, militar e civil; nem todos os militares da época a apoiaram (alguns foram punidos pelo regime), nem todos os civis a apoiaram (muito foram punidos pelos regime).

Infelizmente, existiu uma ditadura. Falo assim porque arbitrariedades, censuras e coerções são infelicidades públicas.

Penso que militares, ontem e hoje, são cidadãos que pensam sobre o país, trabalham, participam dos horizontes políticos nacionais dentro da lei.

Existiu tortura, melhor que ela tenha diminuído (ainda há tortura em delegacias e presídios). A maioria dos militares brasileiros de hoje não têm responsabilidade pelos desmandos ditat oriais.

A única maneira de civis e militares se entenderem é conversando: fazemos parte do mesmo país, estamos no mesmo barco em meio a vendavais.

Abraços ente cidadãos.

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Males, que Contra Mim vos Conjurastes
Luís Vaz de Camões

Males, que contra mim vos conjurastes,
Quanto há-de durar tão duro intento?
Se dura, por que dure meu tormento,
Baste-vos quanto já me atormentastes.

Mas se assim porfiais, porque cuidastes
Derribar o meu alto pensamento,
Mais pode a causa dele, em que o sustento,
Que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E pois vossa tenção com minha morte
É de acabar o mal destes amores,
Dai já fim a tormento tão comprido.

Assim de ambos contente será a sorte:
Em vós por acabar-me, vencedores,
Em mim porque acabei de vós vencido.

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Toda palavra é permitida
Marcos Silva

Prezado Fernando Monteiro:

Obrigado por comentar meu pequeno texto sobre o uso pejorativo da palavra “retardado”.

Não escreverei esse dicionário proposto por você porque penso que toda palavra é permitida. E toda palavra tem conseqüências de significação. E toda palavra pode ser criticada – as palavras que eu uso podem e devem ser criticadas.

Se vc reler meu texto que critica o referido uso pejorativo, verificará que não proíbo aquele autor (nem ninguém) de usar a palavra que quiser. Apenas demonstro meu profundo mal-estar com os significados que são alimentados num texto como aquele. Discordo dele sem o insultar. Que será do mundo sem o direito à discordância?

Já li textos seus. Considero-os suficientemente bons para não precisarem se basear na desqualificação dos outros a partir de critérios que são referentes a doenças. Humilhar doentes é coisa de um tipo de articulista que vc, evidentemente, não é. Por favor, não se nivele àquele autor porque vc está a léguas (seria melhor anos-luz?) do que ele escreve. E vc, como homem culto e sensível que é, conhece os usos que o Nazismo e o Stalinismo fizeram da categoria “doente mental”: suporte para o descarte de seres humanos. A dissidência, na URSS tardia, era punida com internamentos psiquiátricos (sei que vc sabe disso tanto quanto eu, talvez até mais). E nos democráticos EEUU, lobotomias foram alegremente praticadas até data recente. Em compensação, o que são o idiota de Dostoievski, o desvairado Lear e a enlouquecida Cassandra? Seres humanos! Coisa de Literatura, que o texto comentado por mim antes não sabe se fazer.

Quanto ao politicamente correto: discordo de normas de uso do vocabulário (dicionários sobre o que dizer...) que, nos EEUU, viraram apenas suporte para a indústria de inde nizações, ao invés de fazerem parte do universo reflexivo e do debate entre as pessoas sobre o que elas são e o que elas querem para o mundo. Defendo a responsabilidade em relação ao que se escreve porque eu prezo muito a escrita. Vivemos em sociedade. Existem valores nessa sociedade (veja só o que fizeram com Nietzsche, depois que ele morreu!). Se nós partirmos para “cada qual faz e fala o que quer, sem espaço para o contradito”, renunciaremos ao convívio minimamente civilizado.

Gosto muito do texto de Nietzsche sobre a morte de Deus: trataremos desse tema gigantesco como se fosse uma ponta de cigarro usado no cinzeiro? E outros temas quase tão gigantescos quanto esse – ser homem, ter valores -, o que faremos deles?

Continuarei a ler seus textos com prazer porque eles não se reduzem àqueles preconceitos destrutivos. Você é da família dos que fazem Literatura.

Abraços.

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Limitação intelectual de comentarista
Marcos Silva

Li, com mal-estar, o texto "2012 retardados". Antes de escrever para vocês, consultei um dicionário bem tradicional para ter certeza sobre o significado da palavra "Retardado": "indivíduo com problemas mentais de saúde, débil mental, louco". O título usado pelo autor daquele texto significa, portanto, "2012 indivíduos com problemas mentais de saúde, débeisl mentais, loucos". E o texto trata esses supostos indivíduos de maneira arrogante e destrutiva - por serem doentes, merecem execração pública.
Se o autor do texto tiver razão em seu juízo sobre o filme que aborda, penso que ele comete um crime por agredir pessoas doentes. E agride essas pessoas pelo simples fato de elas serem doentes.
Minha manifestação não se enquadra na categoria do "politicamente correto". Penso que na tradição cristã mais banal, insultar os fracos é apenas covardia. E numa pe rspectiva clínica mais que secular, tirar a s correntes dos loucos e parar de espancá-los é uma atitude mais que consolidada. O que é pior: o politicamente correto defensor dos fracos e dos oprimidos ou o intelectualmente presunçoso agressor desses mesmos fracos e oprimidos? Será que estamos assistindo a um novo convite para massacrar os massacráveis?
O autor daquele comentário demonstra extrema limitação de vocabulário quando quer criticar alguma maneira de pensar. E atesta extrema falta de educação no sentido mais banal dessa expressão. Além de exemplificar o nível a que a Imprensa brasileira chegou.
Discordar não é insultar. Para insultar, não é preciso escrever na Imprensa: qualquer bate-boca de boteco é suficiente.
Abraços a todos.

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A eternidade.
Arthur Rimbaud
Tradução de Marcos Silva

Me encontra, invade
- ? – A Eternidade.
É o mar seguido
Com o sol ido.


Alma sentinela,
Me faça o jogo
Da noite imbela,
Do dia em fogo.

Lutas humanas,
Torcedor vão,
De lá tu emanas
E voas então.

Pois de vós somente,
Brasas de cetim,
Dever se desprende
Sem dizer: enfim.

Não há esperança
Amanhã não há.
Ciência passe ânsia,
Suplício virá.

Me encontra, invade
- ? – A Eternidade.
É o mar seguido
Com o sol ido.

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A falta que a história faz
Marcos Silva

Elogiando o livro "Fascismo de esquerda", de Jonah Goldberg, João Pereira Coutinho abusa de generalidades que reduzem Fascismo e Socialismo/Comunismo a um denominador comum: o sacrifício das liberdades garantidas pelo Liberalismo. Nesse sentido, o Liberalismo aparece como um destino sem problemas da humanidade, a partir do qual t udo é julgado e homogeneizado. E as metáforas preconceituosas ("filhos bastardos de Rousseau e de Marx", como se os filhos legítimos tivessem assegurados direitos a heranças, raciocínio cartorial e de reforço à propriedade) fazem tabula rasa de experiências históricas concretas. É assim que Coutinho afirma: "Goldberg sabe que, na violência e na desumanidade, os totalitarismos do século 20 não tiveram paralelo com nenhum momento da história americana." Os negros que morreram assassinados pela Klux-Klux-Klan devem estar aliviados p orque as violências que sofreram não eram totalitárias, eram violências garantidas pelo legítimo Liberalismo na versão anglo-americana (Locke incluía a escravidão entre os direitos de propriedade). Não é preciso ler bibliografia muito especializada para verificar o caráter inócuo de uma declaração como aquela: uma audição de "Strange fruit" na bela voz de Billie Holiday já é suficiente, com o eventual ac réscimo de uma sessão do filme "Imitação da vida", de Douglas Sirk. Os fatos de que Mussolini foi líder socialista antes do Fascismo e de que o nome do Partido Nazista significava "Partido Nacional Socialista" não transformam todo Socialismo ou Comunismo em Fascismo. Não consta que os partidos socialistas ou comunistas tenham aderido ao programa do Facismo italiano nem que tenham apoiado ou mesmo tolerado o Nazismo - o mesmo não pode ser dito em relação a grandes empresários capitalistas nem a grandes órgãos da Imprensa liberal como, entre nós, o jornal "O Estado de São Paulo". A tolerância de amplos setores liberais em relação ao Nazi-Fascismo em suas fases iniciais, consideradas mal menor e remédios eficazes contra o Socialismo ou o Comunismo, não são levadas em conta por Jonah nem por João Pereira. O encarceramento de socialistas e comunistas pelo Fascismo italiano e pelo Nazismo não merecem a atenção do livro nem de seu comentarista . Goldberg rediz, com menor elegância expositiva, questões que Hannah Arendt explorou bem melhor no clássico "Origens do totalitarismo" - afinal, ela relembrou o racismo e o imperialismo como bases do totalitarismo. E Coutinho combate um Socialismo/Comunismo que não passa de fantasma argumentativo - ele precisa ser informado de que o bloco soviético acabou e que os partidos comunistas mudaram de nome e perderam poder pelo mundo afora. Goldberg e Coutinho raciocinam como se a História - campo de experiências humanas - não existisse. E como se o Liberalismo (em a bstrato, e não sua realização histórica) fosse uma entidade acima do bem e do mal. Isso se chama ideologia.

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Filmes que eu amo
Marcos Silva
Jairo:

Na categoria filmes que eu amo (sem pensar em análise racional, sem ordem hierárquica), incluo:

Amor sublime amor
Sete noivas para sete irmãos
A estrada < br />Quanto mais quente melhor
Se meu apartamento falasse
Vidas amargas
Aquele que deve morrer
Uma mulher para dois
Punhos de campeão
Bagdá café

Abraços.

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Amigos do Papo Furado:

Vi a lista dos "filmes bestinhas" que Jairo divulgou. Entendo que o adjetivo tem uma dose de carinho - bestinhas de que se gosta. Declaro que gosto muito do gênero musical em cinema. Primeiramente, pela fantasia maluca de personagens começarem a cantar e dançar a toda hora (dá a impressão de que é fácil, deve ser a coisa mais difícil do mundo). Em seguida porque muitos deles incluem músicas e coreografias ótimas mesmo. Por último, tendo em vista o rigor cinematográfico de tantos profissionais envolvidos em sua feitura.
No caso de "A noviça rebelde", o diretor é Robert Wise, que dirigiu obras-primas como "O dia em que a terra parou" (1951), "Punhos de campeão" (1949) e "Amor, sublime amor" (1961 - provavelmente, o mais belo musical jamais feito).
Gosto muito da abertura de "A noviça rebelde", as cenas de montanha. Depois, o filme perde o pique visual (sobra pique melódico, claro).
Fica combinado assim: só se for bestinha no sentido que a gente usa nas horas de amor - quer dizer, êta coisa boa!
Abraços.

PS: Esqueci de realçar minha afeição especial pelo musical "7 noivas para 7 irmãos". Gosto muito da missão civilizatória da mulher naquele filme. E da energia meio abestalhada dos machos. E do convite ao amor = civilidade + energia abestalhada. O filme é mais esperto do que a gente costuma imaginar em relação ao gênero.
Abraços.

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Coral de ação de graças
Bertold Brecht

(tradução de Paulo Cesar Souza)

1
Louvem a noite e a escuridão que os cercam!
Venham em grande número
Ol hem no céu os cúmulos
O dia logo se encerra.

2
Louvem a grama e os bichos que a seu lado vivem e morrem!
Vejam como a vida
Também eles partilham
E juntamente com vocês morrem.

3
Louvem a árvore, que da podridão cresce em direção ao céu!
Louvem a podridão!
Louvem a árvore que dela se almenta
Mas louvem igualmente o céu.

4
Louvem de coração a memória ruim do céu!
Que ele não guarda
Seu nome ou sua cara
Ninguém sabe ao que ainda é fiel.

5
Louvem o frio, a treva e o que apodrece
Olhem o que é feito:
Nada lhes diz respeito
E podem calmamente morrer sem prece.

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Jairo:

Se Barack Obama já tivesse fechado Guantánamo e reatado relações diplomáticas com Cuba (criticando o que quiser do regime, é claro), até que seria um nome a se cogitar. Por enquanto, o prêmio é submissão aos EEUU ou, quando muito, confiança no porvir. Afganistão e Iraque continuam na mesma. As críticas ao Irã e à Coréia do Norte se mantêm confusas - o país detentor do maior arsenal atômico do planeta criticar outros que talvez cheguem a fabricar - ou já estejam fabricando - artefatos atômicos parece piada.
Eu preferiria atribuir o Nobel da Paz a instituições que lutam contra novas formas de escravidão no mundo atual.
Obama parece desempenhar bem uma função de public relations de seu país: eleito um negro num país de recente passado racista, parece que tudo mudou; pode ser que algo (muito pouco) tenha mudado mas nem tanto.
Lula também figura internacionalmente como public relations e grande n ovidade - eleito um ex-operário num país de recente passado ditatorial etc.
Abraços.

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Prezado Jairo:

Encaro o Nobel de Literatura como Loteria e Academia de Letras: tem horas em que acerta - mas não é o mais freqüente. Deixaram de fora Tolstoi, Proust, Guimarães Rosa...
Pior que Literatura somente o Nobel da Paz: o nome de Bush chegou a ser cogitado neste ano! Só se fosse Nobel das Pás (de coveiro).
Abraços.

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Apolo/Dioniso: um no outro.
Marcos Silva

Quando Nietzsche falou em Dioniso, operou uma reviravolta na leitura da Grécia clássica. Ao invés de uma mitologia embalsamada, ressurgia um mundo de intensa vitalidade e em pleno fazer-se.
Mais de cem anos depois, ficar repetindo a oposição Apolo/Dioniso como exclusão pura e simples é embalsamar Nietzsche. E sua aplicação ao par bossa nova/rock é muito limitada.
Aconselho a audição de bossa nova e seus desdobramentos. Canções como "Bim-bom" e "Oba-la-la", são puro equilíbrio apolíneo? A delicadeza dos ritmos não oculta o gozoso de sua penetr ação corporal. E que dizer das aventuras de Baden Powell e Edu Lobo? Pra entornar mais o caldo, o Apolo do violonista dança capoeira com Exu! E o Apolo do outro compositor briga junto com os quilombolas!
Aconselho a audição de rock and roll e seus desdobramentos. As canções de Jimmi Hendrix e Carlos Santana são puro êxase dionisíaco? Lembro de Santana falando que usou LSD poucos minutos antes de de se apresentar em Woodstock. Não errou um compasso sequer! Por que será? A resposta é óbvia: anos de estudo racionalíssimo! As letras de Cazuza revelam um leitor dedicado do cancioneiro brasileiro mais clássico: Apolo-Dioniso?
É preciso não permanecer em 1968 - ano em que o disco "Tropicália" foi gravado. Mas é ainda mais necessário não ficar num patamar pré-Tropicália. Rita Lee gravou não sei quantos rocks com voz de Nara Leão!
Opor tipos ideais é fácil. Entender um no outro é mais complicado mas sempre interessante.

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Corpo de tudo
Marcos Silva

O rio inda é água,
Sopa de detritos.
A alma, naufrago-a,
Afogar meus mitos.

A brasa inda é chama:
Incêndio no prédio.
Alguém mais me ama,
As cinzas do tédio.

O ar inda é vento:
Sopro tempestade.
Seguir tempo lento,
Barca sem saudade.

A terra inda é vala:

A cova da planta.
Buraco de bala,
Derradeira manta.

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Da nação potiguar
Marcos Silva

Estou gravando um cd com Joel Carvalho, dentro do "Projeto Núbia Lafayete", da Fundação José Augusto. Reunimos canções que fizemos juntos desde fins dos anos 60 (três delas são de Joel sozinho). A faixa de abertura é:

- VAMOS, CABOCLO, P’RA NOSSA ALDEIA (Dom ínio público, recolhida por Mário de Andrade, no RN, em 1928) / DA NAÇÃO POTIGUAR (Joel Carvalho e Marcos Silva) – O canto dos Cabocolinhos fala de terra e identidade; a tradição e o folguedo são de consciência conformista (essa terra não é nossa) e também luta (essa terra foi e poderá ser nossa?). O canto de memória e projeto, no tempo do MST e num estado pioneiro no genocídio dos índios (tribos extintas no século XIX), indaga sobre presente, passado e futuro.

Vamos, caboclo, pra nossa aldeia:
Terra de branco é terras alheia.

Vamos, caboclo, pra nossa terra:
Terra de branco é terras de guerra

Vamos, caboclo, vamos pelejar:
Vamos, caboclo, pra nosso lugar

Vamos, caboclo, vamos embora:
Terra de branco é terras de história.

A nação potiguar que existiu no passado
Era livre de dia, semana e mês.
Antes de europeu ter a terra tomado,
Ela se d esenhava sem hora nem vez.

P'ra lembrar, p'ra lembrar,
Da nação potiguar.
P'ra lembrar, p'ra lembrar,
Da nação potiguar.
P'ra lembrar, p'ra lembrar,
Da nação potiguar.
P'ra lembrar, p'ra lembrar,
Da nação potiguar.

A nação potiguar que existiu no presente
É banguela, branquela, vive no vazio.
Frente ao novo holocausto, disfarça e mente

E se vende barato ao turista no cio.

P'ra lembrar... (refrão).

A nação potiguar que existiu no futuro
Será o que quiser e ousar se fazer
Pisando vidro em caco, no topo do muro,
E encarando a dureza de algo inverter.

P'ra lembrar... (refrão).

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Jairo: É covardia colocar uma pintura de Morandi na apresentação do Papo Furado. O homem é bom demais! Assisti a uma exposição dele no MASP, anos 90: fantástico! Escrevi algo sobre ele: suas pinturas colocam o cotidiano no friso (garrafas, copos etc.), substituindo as figuras mitológicas dos frisos clássicos. Grande!
Abraços

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Amigos: Li a declaração do governador do MS sobre Carlos Minc. Fiquei impressionado com o nível da fala: chamar gay de veado é coisa dos anos 50, pré-Pasquim; e declarar que estupraria o outro em público é incentivo ao crime - nunca soube que gays querem ser estuprados, querem comer e ser comidos numa boa, como qualquer heterosexual dos dois sexos.
A pessoa que falou isso é um governador de estado. Parece que ele não sabe segurar a língua e expõe em público seus desejos íntimos, pensando que insulta os outros. Achei deprimente. Tenho muita pena dele e das pessoas que são obrigadas a transar com ele. Talvez uma boa terapia ajude.
Abraços

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