PAPO FURADO by Jairo Lima
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Banca do Antonio Nahud Jr
Banca do Fernando Monteiro
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do Joca Souza Leão
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Banca do Laélio Ferreira
Banca do Marcos Silva
Banca do Pietro Wagner
Banca do Ronald Guimarães
Banca da Sonia Bierbard
Banca da Yerma Magalhães
 

Feliz é o polvo
José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento
shopping centers

Pen­sei em co­me­çar este texto di­zen­do "feliz é o polvo...". Man­ti­ve ape­nas o tí­tu­lo, pois, se op­tas­se em se­guir adian­te, os que co­nhe­cem as prin­ci­pais ca­rac­te­rís­ti­cas fí­si­cas do mo­lus­co ma­ri­nho, po­de­riam achar que o es­pa­ço não é/não seria pro­pí­cio. Tam­bém cor­re­ria o risco de en­trar em temas que não me dizem res­pei­to e são mais apro­pria­dos para aque­les que vivem da pesca, bió­lo­gos, pes­qui­sa­do­res, psi­ca­na­lis­tas, an­tro­pó­lo­gos, so­ció­lo­gos e afins. Outro risco que não deve ser afas­ta­do seria o de ser xin­ga­do - Dona Iraci po­de­ria en­trar in­jus­ta­men­te na dança - e ta­xa­do de anal­fa­be­to, o que não seria gran­de ofen­sa. Es­ta­ria me jun­tan­do a ou­tros, com pos­si­bi­li­da­de de criar as­so­cia­ção em de­fe­sa da clas­se, bloco de Car­na­val ("Anal­fas na Folia"), reu­nir votos para even­tual can­di­da­tu­ra, etc.

Digo que o meu polvo - para quem rendo ho­me­na­gem - tem pouco a ver com o polvo pro­fe­ta, o que pre­via vi­tó­rias na Copa da Áfri­ca, ex­ce­to pela se­me­lhan­ça e pa­ren­tes­co. O meu é aque­le que tem ten­tá­cu­los, fica en­to­ca­do nas ro­chas dos ocea­nos e só sai do 'lar doce lar' quan­do vai atrás de ali­men­ta­ção ou quan­do está a fim de 'ficar' com uma 'polva'. Como não posso ficar neste lero-lero, fica o es­cla­re­ci­men­to que o 'polvo' do tí­tu­lo não é o mesmo que povo. O meu povo, ao con­trá­rio, ge­ral­men­te gosta de um auê e os es­pé­ci­mes mais novos gos­tam de 'ficar' de forma in­ten­sa, prin­ci­pal­men­te em fes­tas (car­na­vais, mi­ca­re­tas e as­se­me­lha­dos), ba­la­das e fes­ti­vais de única fór­mu­la, onde não pode fal­tar os sin­cro­ni­za­dos bater pal­mas e o le­van­tar de mãos, pro­mo­vi­dos por com dois ob­je­ti­vos: grana para quem or­ga­ni­za e in­cen­ti­vo ao 'ficar', para que se forme o cír­cu­lo de re­tor­no nos pró­xi­mos, que 'pinte' mais grana, au­men­to do nú­me­ro de 'ficantes', e assim por dian­te.

De certa forma, o polvo se as­se­me­lha ao povo. Ambos se dei­xam en­ga­nar por acre­di­tar que ouvem ou estão vendo algo que apa­ren­ta ser do seu in­te­res­se e, quan­do caem na real, são co­lhi­dos por um arpão que pro­vo­ca algum tipo de perda, às vezes de forma ir­re­ver­sí­vel. Em qual­quer dos casos, corre-se risco de morte, prin­ci­pal­men­te para as es­pé­cies que têm oito ten­tá­cu­los. Na outra, con­si­de­ra­da in­te­li­gen­te, os ar­pões podem pro­vo­car de­mên­cia, perda de me­mó­ria, e a sen­sa­ção, pas­sa­do algum tempo, de que caí­ram no conto do arpão.

Vai co­me­çar, den­tro em breve, o pe­río­do do aca­sa­la­men­to das es­pé­cies. Como têm me­mó­ria curta, de­se­jo, desde já, boa sorte a ambas, re­co­men­dan­do o cui­da­do de ve­ri­fi­car com quem estão se jun­tan­do e, prin­ci­pal­men­te, qual a de­ci­são a ser to­ma­da de olho no fu­tu­ro. Ima­gi­nar que o que ocor­reu no pas­sa­do pode, de­pen­den­do do cho­que, ser­vir ou não de lição. Im­por­tan­te: os ar­poa­do­res re­no­vam as téc­ni­cas a cada dia. É ne­ces­sá­rio, pelo menos, o uso de len­tes ou de lupa para não haver a tal ilu­são. Quem não tiver os de­vi­dos cui­da­dos, cer­ta­men­te será ar­poa­do e fi­ca­rá pelo menos com duas ci­ca­tri­zes: uma no co­ra­ção e outra na mente. Em sín­te­se: quem avisa amigo é. Mais: aler­ta geral: vam­pi­ros, san­gues­su­gas e pre­da­do­res à solta!

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Entre umas e outras

José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

Nos tempos de hoje, temos que ser cautelosos com certas afirmativas ou certas negativas. Não tem nada a ver com o politicamente correto, que é uma moda cretina e, como moda, vai dar lugar à outra, e assim sucessivamente. Quando se diz "estou dentro", já vão imaginando que estamos mergulhados até o pescoço ou nariz, quando queremos apenas molhar os pés e sentir a temperatura da água. Por razões como essa, venho me acostumando a fazer alerta e prestar esclarecimento, até de forma cansativa ou repetitiva sobre isso ou aquilo, para não correr o risco de receber qualificação indevida, ser condenado injustamente e, a seguir, caminhar para a forca, fuzilamento ou fogueira - o que seria injusto, pelo menos.

Em pleno Séc. 21, com informação a torto e a direito entrando por todos os lados e buracos, tenho a sensação de que estamos vivendo um radicalismo próximo ao que se viveu nos períodos de chumbo do Brasil, onde não havia meio termo, não havia trilhas: ou se estava na direita ou na esquerda. Se o sujeito apreciasse alguém que tivesse ligação com um lado, automaticamente, estava matriculado no curso de excomunhão e passaria a ser visto como do contra. Até bobagens, como o uso de guitarras elétricas na MPB recebeu a tarja de importante e passou a ser visto como delito hediondo e inafiançável. Respeitadas as proporções, vive-se, hoje, momento parecido. Os radicalismos estão em voga e quem faz parte do clube dos vegetarianos sequer pode olhar para os que apreciam uma maminha, e vice-versa.

Observem que 'gastei' dois parágrafos inteiros para justificar o que direi a seguir: FHC é o cara. Nada a ver com partido, nada a ver com cargo executivo, nada a ver com político e com ideologias. Estou falando do FHC cidadão, sociólogo, intelectual. O cara foi lá no Flip para falar sobre Gilberto Freyre - o homenageado deste ano - e disse o que muita gente gostaria de dizer: o antropólogo pernambucano não é o diabo. E nem santo. GF foi importante num trabalho de desvendar quem é o brasileiro; deu a sua valiosa contribuição e abriu leques para mostrar as nossas origens e porque somos isso que está aí, como também fizeram Sérgio Buarque de Holanda, Euclydes da Cunha, e dezenas de outras.

É importante tentar entender e juntar a visão de um Freyre com a de outro (Sérgio Buarque, em 'Raízes do Brasil'), para compreender, pelo menos em parte, o nosso jeito cordato, às vezes conivente e omisso, muito próximo da linha em que circulam os capachildos, de não querer absorver como ilegal e imoral a troca de dois votos por um milheiro de tijolos. É indispensável a leitura de 'Casa Grande & Senzala' para iniciar o aprendizado do conhecimento dos brasis e do 'por que o Nordeste não deu certo?'.

A casa informa: não sou candidato e não tenho filiação à agremiação, partido ou sindicato. Minto: sou filiado a uma entidade, mas não se aplica e não vai ao caso.

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Cobreiros
José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento shopping centers

O cobreiro é assim chamado na medicina popular e, por incrível que possa parecer, há quem diga que a cura se obtém através da reza e do uso de ervas (aroeira e arruda, principalmente), aplicada sob a parte infectada. Mesmo não sendo do ramo, sei que se trata de um vírus e que fica no corpo do hospedeiro - o ser humano - durante anos, como se estivesse em estado de hibernação, reaparecendo quando a pessoa já está adulta, às vezes com 40, 50, 60 anos de idade. O vírus é esperto e quando coloca os pés no palco, provoca irritação na pele, dor, coceira, tudo isso sem falar do aspecto - que não é dos mais belos.

A segunda década do Século XXI provavelmente pelo estado de coisas por que passa o mundo, inclusive o Brasil, aqui e ali, está tendo surtos de cobreiros, que, para o caso, podem ser taxados de racismo, xenofobia, intolerância, etc. Como os cobreiros que aparecem nas peles dos humanos, o cobreiro da intolerância é feio, incomoda e, o mais importante, não se cura com rezas, remédios caseiros, simpatias, 'surra' de ervas e chás. Exige tratamento adequado, conduzido por profissionais do ramo.

Recentemente, quando cidades de Alagoas e Pernambuco foram arrastadas pelas forças das águas, surgiu - do nada e de graça -, uma espécie de cobreiro que estava adormecido, com agitos isolados e até explicáveis (se é que podemos achar que há alguma chance de ser taxado de explicável, apenas pela localização e pela cultura) principalmente na Região Sul do País. O cobreiro ofendeu e atingiu vitimados pelas enchentes, que já estavam (e estão) com problemas até o nariz. O cobreiro também atingiu irmãos de outros estados, que já tem de sobra adversidades naturais do nascer ao morrer. Refiro-me a nós, os nordestinos.

O caso é sério e não teve a repercussão que merecia, ao contrário do caso do goleiro supostamente envolvido no sumiço da amante. Horas de imagens na TV, páginas inteiras de jornais e revistas, programas inteiros nas emissoras de rádio foram usados e perdidos sobre o episódio. Por outro lado, não vi uma notinha, nos mesmos meios, sobre uma "onda" que está pintando na Internet, contra os nordestinos, incentivando a discriminação sobre "os brasileiros do Brasil B". Temos, aí, um caso de cobreiro que não pode se combatido com rezas e chazinhos. Precisa ser combatido com o remédio mais acertado: a lei.

A sociedade tupiniquim precisa observar que esses cobreiros, inconvenientes e contagiosos, podem descambar para o absurdo, para o intolerável, para o terror e, por fim, para o horror. O que impressiona é que conhecidos movimentos da história tiveram os mesmos inícios e desdobramentos. Quem porventura achar que há exagero, leia "Cartas para Hitler", lançado recentemente. Terá condições de analisar, sob outro ângulo, o começo e o fim de uma ideologia que afetou toda a humanidade e deu no que deu.

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Amores expressos
José Carlos L. Poroca
Advogado, executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

Ganhei do amigo DA o livro O Clube do filme. Não conhecia a obra, mas já sabia da história real do pai, o autor, que fez um pacto com o filho de 15 anos. O aborrecente estava na fase dos porquês e dos senões; não queria nada com nada e, na escola, vinha tendo desempenho sofrível: sem comparecer às aulas, com a mente no Tibete, deixando de fazer os deveres etc. O pai propôs a Jesse (o filho) parar de estudar com duas condições: primeira, passariam a ver juntos três filmes por semana; segunda, os filmes seriam escolhidos pelo pai.

O livro é interessante pelo menos por alguns aspectos, inclusive pela coragem do autor canadense em abrir para o mundo o resultado duma experiência que tinha tudo para ser um fracasso, com as implicações que poderia trazer. David Gilmour (não confundir com o músico da banda Pink Floyd) expõe com clareza e franqueza, as fraquezas e a insegurança que muitos pais têm (me incluo na lista) quando precisam lidar com os chamados 'momentos especiais' dos nossos filhos. E nem podemos ter como referência as 'nossas fases', pela distância temporal associada à complexidade e particularidade, maior ou menor, de cada caso.

A gente sabe que nem tudo que está escrito é verdadeiro, embora seja mostrado assim, mas, sem dúvida, a decência como o autor mostra o amor pelo filho, pela vida e pelo cinema é louvável. Mais: a relação honesta conduzida com o filho - como está no livro - serve pelo menos de exemplo para muita gente que começa ou vai começar a viver essas fases. Serve de lembrete para uma regra da vida muito simples: o relógio e o calendário só caminham numa única direção, sem possibilidade de replay.

A história é interessante (não conhecia nada parecido) e se não pode ser um referencial literário, pode servir de lição para pais, avós, filhos e netos. Melhor dizendo, serve para todos nós. Mesmo com os açúcares da narração, é possível ver, no caso, que existem formas de relacionamento, além das tradicionais,e muito além das certezas que julgamos ter para tudo. Pelo contrário, o caso do canadense mostra que se não houver sincronização entre palavra e gesto, a goteira do falso começará a pingar e tudo pode ir por água abaixo.

A história (e o livro) tem mais um ponto interessante que é saber quais foram os filmes vistos pela dupla no período em que foi desenvolvida a parceria. O pai catalogou todos e, a cada capítulo, faz comentários elogiosos (ou negativos) sobre a maior parte deles e a reação do filho sobre alguns. Vi quase todos. Se tivesse que fazer a minha lista (ou 'o clube do filme' - como ele chamou), em situação similar, excluiria pelo menos a metade catalogada. Despertou a curiosidade sobre um, que, no livro, recebeu destaque: Amores expressos. Vai ficar só na vontade, pelo menos por enquanto: o título não está disponível no mercado brasileiro.

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Orelha de couve flor
José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento shopping centers

Ficamos acostumados a ouvir coisas do tipo "fulano ficou rico!", "beltrano está em cima da carne seca", e por ai vai. Muitas vezes, talvez na maior parte dos casos, os que chegaram a certas posições renunciaram ao lazer dos domingos e feriados, viraram noites debruçados na busca de solução para problemas que se transformaram em jogadas de mestre, perderam horas de sono, etc. Há, sem dúvida, os casos de sujeitos que fizeram tudo isso e também algumas piruetas, passando a perna aqui e ali. Conheço alguns casos de ‘malabaristas’ - gente famosa que está aí, na mídia, mostrando o último clareamento dos dentes de milho.

Na mesma linha, mas sem o que costumam chamar de estrela, há os que remam a vida inteira e jamais conseguem chegar à outra margem. Não podemos chamar de insucesso ou de trabalho frustrado. São estrelas que não conseguem brilho suficiente para iluminar a si e a terceiros, ou porque faltou o 'ovo de Colombo' ou porque estavam no lugar e na hora errada, ou porque se deixaram levar pela paixão. O rabo de saia tem papel fundamental em processos dessa natureza, é inegável, e podem levar o sujeito para o céu ou para o subsolo da terra.

Podemos alegar que todos esses rumos estão atrelados ao que chamam de destino, o que não é totalmente falso e nem totalmente verdadeiro. Esse tal de destino às vezes coloca o sujeito em situações que não estavam no script e que podem mudar a sua vida, como o caso do sujeito que não jogava, foi comprar uma revista para ler durante a viagem, o dono da banca ofereceu um bilhete da loteria, ele não quis - alegou que estava 'sem dinheiro' - , o vendedor colocou o bilhete no bolso do seu paletó, dizendo: "pague-me quando puder". Final da história: bilhete premiado, números integrais na cabeça.

O genial Gene Kelly, em boa parte das filmagens de 'Cantando na Chuva', foi acometido de um mau humor à toda prova. Motivo? Doença. Para fazer a antológica cena em que canta "Sing in the Rain" e dança sob a chuva, adoeceu 'n' vezes, pois dos ensaios até chegar à edição que chegou às telas, trabalhou debaixo d'água durante semanas e, com ela, os atchins, gripes, resfriados, febres, dores, mal estar e tudo o que vem a reboque.

E em qual parte entra a 'orelha de couve flor'? No boxe. É como vejo e situo o brasileiro comum, o trabalhador, aquele que, verdadeiramente, 'dança na chuva', derrama suor e sangue (ou ambos) para ganhar o pão de cada dia. Estou me referindo ao patrício que, mesmo com quase nada, se integra e se entrega na solidariedade a irmãos menos afortunados. Luta, sangra, toma porrada, vai a nocaute e, no final, o que ganha? Nariz amassado, dentes quebrados, olho roxo, a tal 'orelha' e meio caminho para a Estrada de Parkinson, ou, se preferir, mais duas opções disponíveis: Avenida Alzheimer ou a Alameda Delirium Tremens.

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Lorota boa
José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento shopping centers

O co­nhe­ci­men­to do meu avô pa­ter­no se deu pelas fotos e atra­vés dos de­poi­men­tos de quem usu­fruiu do con­ví­vio. Com o avô ma­ter­no ocor­reu o con­trá­rio, até pelo pe­río­do de con­vi­vên­cia mais pró­xi­ma que os netos ti­ve­ram. E sem­pre que vem a lem­bran­ça dele, surge a ima­gem de Luiz Gon­za­ga. Não é à toa. Pai Tonho, o avô, Era fã de car­tei­ri­nha do Rei do Baião e gos­ta­va de es­cu­tar num passa-discos os bo­la­chões de 45 e 78 rpms com as mú­si­cas que en­can­ta­ram o Bra­sil e que estão aí, até hoje. Nesta se­ma­na, não pude dei­xar de as­so­ciar o velho Lua com as no­tí­cias atuais do nosso Bra­sil, lem­bran­do da can­ção "Que Men­ti­ra, Que Lo­ro­ta Boa", que ele fez em par­ce­ria com Hum­ber­to Tei­xei­ra.

Refiro-me es­pe­ci­fi­ca­men­te às de­cla­ra­ções de bens dos can­di­da­tos. Dei ri­sa­das quan­do vi os va­lo­res do pa­tri­mô­nio de al­guns deles. Bens imó­veis que toda a tor­ci­da que la­men­tou o re­tor­no an­te­ci­pa­do da Se­le­ção, sabe que um apê na rua tal vale uma fá­bu­la. Na de­cla­ra­ção, o valor que ali cons­ta não dá pra com­prar um quar­to da­que­le imó­vel. Só para efei­to com­pa­ra­ti­vo, seria como ad­qui­rir uma man­são de alto luxo pelo mesmo preço de um apar­ta­men­to de dois quar­tos num pré­dio cai­xão. Ou com­prar um uti­li­tá­rio im­por­ta­do pelo mesmo preço desse au­to­mó­vel de ori­gem ita­lia­na que lan­ça­ram há pouco.

Ri­sí­vel - para não usar outra pa­la­vra - foi a quan­ti­da­de de di­nhei­ro que al­guns can­di­da­tos de­cla­ra­ram que guar­dam em casa. Um deles diz que man­tém uns "tro­ca­dos" para ne­go­ciar isso e aqui­lo, que exige di­nhei­ro vivo. Nada es­tra­nho se não es­bar­rás­se­mos num ponto: a soma de­cla­ra­da ul­tra­pas­sa a casa de R$ 1mi. A outra la­men­tá­vel bar­rei­ra está re­la­cio­na­da com o clima de (in)se­gu­ran­ça que reina no País. Pou­cos são os que lidam com di­nhei­ro vivo, que é um imã de pri­mei­ra para atrair os ami­gos do alheio.

O pior fica para o final, quan­do se toma co­nhe­ci­men­to da ba­ga­te­la que os can­di­da­tos a pre­si­dên­cia dizem que vão gas­tar nas suas cam­pa­nhas: R$ 463.500.000,00! Sim, quase meio bi­lhão de reais. Ora, todo mundo sabe que os nú­me­ros são para aten­der for­ma­li­da­des le­gais. Na prá­ti­ca, nove entre dez (se não for dez entre dez) cam­pa­nhas ge­ral­men­te exi­gem gas­tos além dos de­cla­ra­dos, prin­ci­pal­men­te quan­do ocor­re a pos­si­bi­li­da­de de se ga­nhar o páreo na úl­ti­ma curva. E é nela que mora o maior pe­ri­go, quan­do se vende alma, rins e co­ra­ção; quan­do o toma-lá-cá fica mais acir­ra­do; quan­do as com­po­si­ções ficam mais elás­ti­cas.

No mesmo mo­men­to em que se di­vul­ga o ta­ma­nho da gas­tan­ça - e pou­cos tomam co­nhe­ci­men­to -, a si­tua­ção de ala­goa­nos e per­nam­bu­ca­nos atin­gi­dos pelas en­chen­tes se as­se­me­lha à dos de­sa­bri­ga­dos hai­tia­nos. Con­fes­so, mais uma vez, que estou em pro­ces­so de de­sa­pren­di­za­do. Cada vez mais fico sem en­ten­der o que sig­ni­fi­ca e como fun­cio­na o sis­te­ma cha­ma­do de re­pú­bli­ca fe­de­ra­ti­va e o ver­da­dei­ro sig­ni­fi­ca­do de ver­go­nha e so­li­da­rie­da­de. Pode ser que as mu­dan­ças façam parte do con­jun­to de novos cos­tu­mes pró­prios de um país rico.

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Contra o esquecimento
Dellano Rios

Nem a morte garantiu ao sociólogo Gilberto Freyre (1900 - 1987) a sacralização dos clássicos. Se hoje é difícil encontrar um pensador da cultura sério que ouse dizer que sua obra é prescindível, Freyre está longe de ser um autor intocável. E ainda provoca reações apaixonadas, de adesão e rejeição.

À diferença de outros autores polêmicos, Gilberto Freyre municiou como ninguém seus detratores. Não bastasse serem controversas suas teses sobre a formação cultural brasileira, sobretudo em "Casa Grande & Senzala" e "Sobrados e Mucambos", o sociólogo jamais evitou tocar justamente nos pontos mais criticados. E, para escândalo dos analistas mais rigorosos, Freyre falou do sexo, de raças, dentre outros ninhos de vespa intelectuais, recorrendo às próprias memórias, colocando-se como protagonista e/ou partícipe daquilo que irritava seus rivais. Publicação exemplar nesse sentido é "Tempo Morto e outros tempos" (1975), composto a partir de trechos do diário mantido pelo escritor entre 1915 e 1930, cobrindo todo o período de sua formação intelectual - da paixão pela literatura, passando pelos estudos nos EUA e alcançando as primeiras obras. Trinta e cinco anos depois, aparece o que seria a continuação (ou atualização) daquele material.

Solidificação

"De menino a homem" é o primeiro volume de material inédito em livro de Gilberto Freyre lançado em 15 anos (o último foi "Novas conferências em busca de leitores"). Que ainda haja sobras valiosas no baú de Freyre não é de impressionar. O caderno de fotos do novo livro lembra o quanto o escritor tinha consciência do valor de sua produção, pessoal e pública. Contudo, assombra o fato desse texto específico ter ficado tanto tempo guardado.

Se em "Tempo Morto" Gilberto Freyre falou de sua formação, pessoal e intelectual, dos acertos e equívocos que a conhecida vaidade e a verve polemista do autor não permitem esconder, neste "De menino a homem" o autor revista o momento posterior, quando sua obra toma corpo, torna-se robusta e fixa os pilares sobre os quais irá se sustentar por mais meio século.

Aqui não se trata de diários, mas de um texto produzido já na maturidade, evocando os acontecimentos de um intervalo de pelo menos 40 anos.

São pouco mais de 120 páginas de recordações. A elas, somam-se fac-símiles de documentos mencionados no texto, um caderno de fotos que cobre igual período ao do que é narrado e 11 artigos breves, publicados na imprensa brasileira. Nestes, Gilberto Freyre fala de personalidades que marcaram sua trajetória, de familiares como seu irmão Ulysses, de interlocutores do meio artístico, caso dos escritores Manuel Bandeira e José Lins do Rego e do referencial maestro e compositor Heitor Villa-Lobos.

Peito aberto

No livro, o tom de Freyre já é o do autor consagrado. Assim, o personagem que emerge da coleção de episódios rememorados não surpreende. Na verdade, confirma a imagem que tradicionalmente se tem do autor.

O sexo tem presença marcante e magoa o leitor puritano (sobretudo nas passagens em que o escritor fala sem rodeios, nem alardes, de suas experiências homossexuais, na Europa). Porém, quando escreveu "De menino a homem", o autor parecia estar cansado da polêmica gratuita (ou pelo menos como motor de discussão). Lê-se um Gilberto Freyre notadamente melancólico, evocando uma série de episódios que se seguiram à Revolução de 30, quando ele, então opositor dos "revolucionários", se viu obrigado a deixar o País. Freyre não se dói tanto pelas agruras que passou fora do Brasil (a fome esteve no cardápio de seus males), mas pelo sofrimento infligido aos pais, que, em Pernambuco, tiveram sua casa destruída e os pertences afetivos saqueados.

MEMÓRIAS
"De menino a homem"
Gilberto Freyre
R$ 59,00
256 PÁGINAS
2010
GLOBAL

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Os pés
José Carlos L. Poroca
Advogado e executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

A podolatria é um tipo de fetiche cujo desejo se concentra nos pés. Não está nos dicionários, mas o seu significado pode ser encontrado nas mentes dos podólatras e milhares de vezes na Internet. Também lá, é possível saber que o podólatra se excita ao tocar, lamber, cheirar, beijar e massagear os pés de outra pessoa. Acho a mania, digamos, esquisita. Vamos voltar no tempo. Imagine pessoas descalças andando por tudo quanto é chão e pisando em terra, grama e bosta. Continue imaginando e estimule a cena de alguém beijando e lambendo os pés dessa pessoa no final do dia. Haja amor. Se isso não bastasse, volto a defender a arte e o dom da Mãe Natureza, quase perfeita ao criar pés, mãos e outros membros do humano. Houve falhas, já comentei, nos braços e no nariz – mas já é outra história.
Começar um texto com os pés talvez não seja uma boa idéia e há dúvida se é de bom gosto. Prefiro dizer que foi proposital para lembrar de um sujeito que não gostava de usar meias, achava desnecessário. Não era sinal de pobreza, pois tinha grana para calçar meias a cada quinze segundos e jogá-las fora após o uso. A mania não abalaria o seu orçamento, nem de longe. Posso dizer que era um pé quente. Aventurou-se como banqueiro (banqueiro de banco, de grana), foi gostando da brincadeira e não parou mais: o seu banquinho se tornou o maior do País. E continuou não usando meias. Quem o conheceu, chegou a dizer que não gostava de meias e muito menos de sapatos. Quando estava no gabinete, tirava o pisante e ficava com os pés em contato direto com o piso.
Cláudio, p. exemplo, sofre com os seus. Aliás, sofre com uma parte dos pés: as unhas, que vivem constantemente encravadas, obrigando-o a fazer tratamento (dos pés, claro), pelo menos uma vez por mês. A coisa é tão séria que, em algumas ocasiões, não pode calçar sapatos; em outras, até andar ficou difícil. Nunca perguntei, mas taí um cara que não devia ter nenhuma vocação para a podolatria. Aliás, ver pés ou figuras de pés deve ter, para ele, o mesmo significado de quem sofre com os dentes e precisa ir ao dentista: só o cheiro assusta.
Esse negócio de pé é complicado. Vi, na web, vários tipos de pés femininos: lindos, como os da Ana e da Fernanda; feios, como os da Jennifer e da Carolina – estes só devem receber sapatos; sandálias, jamais. Na verdade, quero confessar, não tenho nada contra os podólatras. O que eu queria desde o início e não sabia por onde começar era falar sobre a temperatura dos pés. Existem pés quentes, como os do banqueiro, e os frios. Estes, naturais, podem ser encontrados com mais intensidade na Europa oriental. Os por vocação, trazem a fama decorrente de praga, feitiço, simpatia ou defeito de fabricação, como ficou comprovado com Mick Jagger. Não é único. No Brasil, temos um, famoso e poderoso, conhecido de canto a canto do País. Já fizeram até um filme sobre ele, mas o assunto ‘pés frios’ não ganhou um segundo na fita. Na próxima, contarei como surgiu o esfriamento dos seus pés.

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Quanto mais aperta o nó, mais o pescoço sofre
José Carlos L. Poroca (foto)
Advogado, executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

A Copa da África se encerrou, depois de 30 dias de competição. Gostaria que o Brasil tivesse levantado a taça, mas, cá pra nós, seria uma tremenda injustiça com seleções como a Espanha, a Holanda e a Argentina. Poderia, sem convicção, incluir a da Alemanha, que fez o dever de casa e cumpriu o que foi determinado pelo professor (deles): organização, disciplina, garra e determinação. Convenceu.

A partir da copa africana, poucos detalhes passarão despercebidos daqui pra frente. O show de imagens que se viu na tevê indica que, a partir de agora, ficará cada vez mais difícil se repetir o que era feito à sombra. A Copa da África trouxe surpresas. Sempre soube que atletas de cor negra eram da África e das Américas; olhos puxados, na Ásia. Não foi o que se viu. Os 'negros' europeus estavam em campo, mostrando que esse negócio de cor ou raça se resume a dois grupos: os bons e os ruins. E por falar nestes, não dá para deixar de comentar os retornos antecipados da Grécia, Inglaterra, Itália e França. Há quem diga que a performance deles tem relação com a economia dos seus países. A Copa de 2010 mostrou ao mundo, repetindo o que ocorreu na passada que, cada vez mais, o esquema tático, o trabalho em equipe e o preparo físico serão de extrema valia; a velocidade e a ocupação dos espaços do campo competirão em maior ou no mesmo nível da ginga, da firula, do individualismo e da pedalada.

Como o colibri se amarra numa flor e o urubu é fissurado numa carniça, o poder 'baba' por uma copa mundial de futebol. O país dá uma freada e a grande maioria do povo fica em estado de letargia em função, ainda que forçosamente, do jogo da Seleção com A ou B. Estima-se que o Brasil perde algo em torno de 25% do PIB no período em que a canarinha está em campo. Toda a economia é afetada, com raras exceções. Não é só: quando a Seleção joga (às vezes mal) e se entra em estagnação, o pais aumenta a fila dos sem-emprego: 1,8 milhões de brasileiros. É mais ou menos a soma das populações de Recife e Olinda. 1,8 milhões de desempregados não aparecem nas estatísticas de um jornalista que se apresentou em recente encontro na capital paulistana. Estava na plateia e, confesso que, emocionado, chorei. Orgulhoso, fiquei emocionado com o que foi exposto, orgulho de ser brasileiro. Pensei: passamos a viver o que se esperou há tempo; chegamos ao estágio, imaginei, de poder dizer que alcançamos o que se ouvia no passado ("este é o país do futuro").

Meu choro foi em vão: o palestrante não tinha os dados do desemprego ou não quis estragar a festa. No contrafluxo, a arrecadação de tributos cresceu 16,55% em relação ao mesmo mês de 2009. O que significa? Que a gastança poderá continuar até o final do ano, pelo menos. O mais interessante? Aproximadamente um quarto do bolo arrecadado é proveniente do imposto de renda. O que representa? Que as fatias do bolo continuam sendo mal distribuídas. Brasil!


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