
Feliz é o polvo José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers
Pensei em começar este texto dizendo "feliz é o polvo...". Mantive apenas o título, pois, se optasse em seguir adiante, os que conhecem as principais características físicas do molusco marinho, poderiam achar que o espaço não é/não seria propício. Também correria o risco de entrar em temas que não me dizem respeito e são mais apropriados para aqueles que vivem da pesca, biólogos, pesquisadores, psicanalistas, antropólogos, sociólogos e afins. Outro risco que não deve ser afastado seria o de ser xingado - Dona Iraci poderia entrar injustamente na dança - e taxado de analfabeto, o que não seria grande ofensa. Estaria me juntando a outros, com possibilidade de criar associação em defesa da classe, bloco de Carnaval ("Analfas na Folia"), reunir votos para eventual candidatura, etc.
Digo que o meu polvo - para quem rendo homenagem - tem pouco a ver com o polvo profeta, o que previa vitórias na Copa da África, exceto pela semelhança e parentesco. O meu é aquele que tem tentáculos, fica entocado nas rochas dos oceanos e só sai do 'lar doce lar' quando vai atrás de alimentação ou quando está a fim de 'ficar' com uma 'polva'. Como não posso ficar neste lero-lero, fica o esclarecimento que o 'polvo' do título não é o mesmo que povo. O meu povo, ao contrário, geralmente gosta de um auê e os espécimes mais novos gostam de 'ficar' de forma intensa, principalmente em festas (carnavais, micaretas e assemelhados), baladas e festivais de única fórmula, onde não pode faltar os sincronizados bater palmas e o levantar de mãos, promovidos por com dois objetivos: grana para quem organiza e incentivo ao 'ficar', para que se forme o círculo de retorno nos próximos, que 'pinte' mais grana, aumento do número de 'ficantes', e assim por diante.
De certa forma, o polvo se assemelha ao povo. Ambos se deixam enganar por acreditar que ouvem ou estão vendo algo que aparenta ser do seu interesse e, quando caem na real, são colhidos por um arpão que provoca algum tipo de perda, às vezes de forma irreversível. Em qualquer dos casos, corre-se risco de morte, principalmente para as espécies que têm oito tentáculos. Na outra, considerada inteligente, os arpões podem provocar demência, perda de memória, e a sensação, passado algum tempo, de que caíram no conto do arpão.
Vai começar, dentro em breve, o período do acasalamento das espécies. Como têm memória curta, desejo, desde já, boa sorte a ambas, recomendando o cuidado de verificar com quem estão se juntando e, principalmente, qual a decisão a ser tomada de olho no futuro. Imaginar que o que ocorreu no passado pode, dependendo do choque, servir ou não de lição. Importante: os arpoadores renovam as técnicas a cada dia. É necessário, pelo menos, o uso de lentes ou de lupa para não haver a tal ilusão. Quem não tiver os devidos cuidados, certamente será arpoado e ficará pelo menos com duas cicatrizes: uma no coração e outra na mente. Em síntese: quem avisa amigo é. Mais: alerta geral: vampiros, sanguessugas e predadores à solta!
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Entre umas e outras
José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br
Nos tempos de hoje, temos que ser cautelosos com certas afirmativas ou certas negativas. Não tem nada a ver com o politicamente correto, que é uma moda cretina e, como moda, vai dar lugar à outra, e assim sucessivamente. Quando se diz "estou dentro", já vão imaginando que estamos mergulhados até o pescoço ou nariz, quando queremos apenas molhar os pés e sentir a temperatura da água. Por razões como essa, venho me acostumando a fazer alerta e prestar esclarecimento, até de forma cansativa ou repetitiva sobre isso ou aquilo, para não correr o risco de receber qualificação indevida, ser condenado injustamente e, a seguir, caminhar para a forca, fuzilamento ou fogueira - o que seria injusto, pelo menos.
Em pleno Séc. 21, com informação a torto e a direito entrando por todos os lados e buracos, tenho a sensação de que estamos vivendo um radicalismo próximo ao que se viveu nos períodos de chumbo do Brasil, onde não havia meio termo, não havia trilhas: ou se estava na direita ou na esquerda. Se o sujeito apreciasse alguém que tivesse ligação com um lado, automaticamente, estava matriculado no curso de excomunhão e passaria a ser visto como do contra. Até bobagens, como o uso de guitarras elétricas na MPB recebeu a tarja de importante e passou a ser visto como delito hediondo e inafiançável. Respeitadas as proporções, vive-se, hoje, momento parecido. Os radicalismos estão em voga e quem faz parte do clube dos vegetarianos sequer pode olhar para os que apreciam uma maminha, e vice-versa.
Observem que 'gastei' dois parágrafos inteiros para justificar o que direi a seguir: FHC é o cara. Nada a ver com partido, nada a ver com cargo executivo, nada a ver com político e com ideologias. Estou falando do FHC cidadão, sociólogo, intelectual. O cara foi lá no Flip para falar sobre Gilberto Freyre - o homenageado deste ano - e disse o que muita gente gostaria de dizer: o antropólogo pernambucano não é o diabo. E nem santo. GF foi importante num trabalho de desvendar quem é o brasileiro; deu a sua valiosa contribuição e abriu leques para mostrar as nossas origens e porque somos isso que está aí, como também fizeram Sérgio Buarque de Holanda, Euclydes da Cunha, e dezenas de outras.
É importante tentar entender e juntar a visão de um Freyre com a de outro (Sérgio Buarque, em 'Raízes do Brasil'), para compreender, pelo menos em parte, o nosso jeito cordato, às vezes conivente e omisso, muito próximo da linha em que circulam os capachildos, de não querer absorver como ilegal e imoral a troca de dois votos por um milheiro de tijolos. É indispensável a leitura de 'Casa Grande & Senzala' para iniciar o aprendizado do conhecimento dos brasis e do 'por que o Nordeste não deu certo?'.
A casa informa: não sou candidato e não tenho filiação à agremiação, partido ou sindicato. Minto: sou filiado a uma entidade, mas não se aplica e não vai ao caso.
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Cobreiros José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers
O cobreiro é assim chamado na medicina popular e, por incrível que possa parecer, há quem diga que a cura se obtém através da reza e do uso de ervas (aroeira e arruda, principalmente), aplicada sob a parte infectada. Mesmo não sendo do ramo, sei que se trata de um vírus e que fica no corpo do hospedeiro - o ser humano - durante anos, como se estivesse em estado de hibernação, reaparecendo quando a pessoa já está adulta, às vezes com 40, 50, 60 anos de idade. O vírus é esperto e quando coloca os pés no palco, provoca irritação na pele, dor, coceira, tudo isso sem falar do aspecto - que não é dos mais belos.
A segunda década do Século XXI provavelmente pelo estado de coisas por que passa o mundo, inclusive o Brasil, aqui e ali, está tendo surtos de cobreiros, que, para o caso, podem ser taxados de racismo, xenofobia, intolerância, etc. Como os cobreiros que aparecem nas peles dos humanos, o cobreiro da intolerância é feio, incomoda e, o mais importante, não se cura com rezas, remédios caseiros, simpatias, 'surra' de ervas e chás. Exige tratamento adequado, conduzido por profissionais do ramo.
Recentemente, quando cidades de Alagoas e Pernambuco foram arrastadas pelas forças das águas, surgiu - do nada e de graça -, uma espécie de cobreiro que estava adormecido, com agitos isolados e até explicáveis (se é que podemos achar que há alguma chance de ser taxado de explicável, apenas pela localização e pela cultura) principalmente na Região Sul do País. O cobreiro ofendeu e atingiu vitimados pelas enchentes, que já estavam (e estão) com problemas até o nariz. O cobreiro também atingiu irmãos de outros estados, que já tem de sobra adversidades naturais do nascer ao morrer. Refiro-me a nós, os nordestinos.
O caso é sério e não teve a repercussão que merecia, ao contrário do caso do goleiro supostamente envolvido no sumiço da amante. Horas de imagens na TV, páginas inteiras de jornais e revistas, programas inteiros nas emissoras de rádio foram usados e perdidos sobre o episódio. Por outro lado, não vi uma notinha, nos mesmos meios, sobre uma "onda" que está pintando na Internet, contra os nordestinos, incentivando a discriminação sobre "os brasileiros do Brasil B". Temos, aí, um caso de cobreiro que não pode se combatido com rezas e chazinhos. Precisa ser combatido com o remédio mais acertado: a lei.
A sociedade tupiniquim precisa observar que esses cobreiros, inconvenientes e contagiosos, podem descambar para o absurdo, para o intolerável, para o terror e, por fim, para o horror. O que impressiona é que conhecidos movimentos da história tiveram os mesmos inícios e desdobramentos. Quem porventura achar que há exagero, leia "Cartas para Hitler", lançado recentemente. Terá condições de analisar, sob outro ângulo, o começo e o fim de uma ideologia que afetou toda a humanidade e deu no que deu.
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Amores expressos José Carlos L. Poroca Advogado, executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br
Ganhei do amigo DA o livro O Clube do filme. Não conhecia a obra, mas já sabia da história real do pai, o autor, que fez um pacto com o filho de 15 anos. O aborrecente estava na fase dos porquês e dos senões; não queria nada com nada e, na escola, vinha tendo desempenho sofrível: sem comparecer às aulas, com a mente no Tibete, deixando de fazer os deveres etc. O pai propôs a Jesse (o filho) parar de estudar com duas condições: primeira, passariam a ver juntos três filmes por semana; segunda, os filmes seriam escolhidos pelo pai.
O livro é interessante pelo menos por alguns aspectos, inclusive pela coragem do autor canadense em abrir para o mundo o resultado duma experiência que tinha tudo para ser um fracasso, com as implicações que poderia trazer. David Gilmour (não confundir com o músico da banda Pink Floyd) expõe com clareza e franqueza, as fraquezas e a insegurança que muitos pais têm (me incluo na lista) quando precisam lidar com os chamados 'momentos especiais' dos nossos filhos. E nem podemos ter como referência as 'nossas fases', pela distância temporal associada à complexidade e particularidade, maior ou menor, de cada caso.
A gente sabe que nem tudo que está escrito é verdadeiro, embora seja mostrado assim, mas, sem dúvida, a decência como o autor mostra o amor pelo filho, pela vida e pelo cinema é louvável. Mais: a relação honesta conduzida com o filho - como está no livro - serve pelo menos de exemplo para muita gente que começa ou vai começar a viver essas fases. Serve de lembrete para uma regra da vida muito simples: o relógio e o calendário só caminham numa única direção, sem possibilidade de replay.
A história é interessante (não conhecia nada parecido) e se não pode ser um referencial literário, pode servir de lição para pais, avós, filhos e netos. Melhor dizendo, serve para todos nós. Mesmo com os açúcares da narração, é possível ver, no caso, que existem formas de relacionamento, além das tradicionais,e muito além das certezas que julgamos ter para tudo. Pelo contrário, o caso do canadense mostra que se não houver sincronização entre palavra e gesto, a goteira do falso começará a pingar e tudo pode ir por água abaixo.
A história (e o livro) tem mais um ponto interessante que é saber quais foram os filmes vistos pela dupla no período em que foi desenvolvida a parceria. O pai catalogou todos e, a cada capítulo, faz comentários elogiosos (ou negativos) sobre a maior parte deles e a reação do filho sobre alguns. Vi quase todos. Se tivesse que fazer a minha lista (ou 'o clube do filme' - como ele chamou), em situação similar, excluiria pelo menos a metade catalogada. Despertou a curiosidade sobre um, que, no livro, recebeu destaque: Amores expressos. Vai ficar só na vontade, pelo menos por enquanto: o título não está disponível no mercado brasileiro.
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Orelha de couve flor José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers
Ficamos acostumados a ouvir coisas do tipo "fulano ficou rico!", "beltrano está em cima da carne seca", e por ai vai. Muitas vezes, talvez na maior parte dos casos, os que chegaram a certas posições renunciaram ao lazer dos domingos e feriados, viraram noites debruçados na busca de solução para problemas que se transformaram em jogadas de mestre, perderam horas de sono, etc. Há, sem dúvida, os casos de sujeitos que fizeram tudo isso e também algumas piruetas, passando a perna aqui e ali. Conheço alguns casos de ‘malabaristas’ - gente famosa que está aí, na mídia, mostrando o último clareamento dos dentes de milho.
Na mesma linha, mas sem o que costumam chamar de estrela, há os que remam a vida inteira e jamais conseguem chegar à outra margem. Não podemos chamar de insucesso ou de trabalho frustrado. São estrelas que não conseguem brilho suficiente para iluminar a si e a terceiros, ou porque faltou o 'ovo de Colombo' ou porque estavam no lugar e na hora errada, ou porque se deixaram levar pela paixão. O rabo de saia tem papel fundamental em processos dessa natureza, é inegável, e podem levar o sujeito para o céu ou para o subsolo da terra.
Podemos alegar que todos esses rumos estão atrelados ao que chamam de destino, o que não é totalmente falso e nem totalmente verdadeiro. Esse tal de destino às vezes coloca o sujeito em situações que não estavam no script e que podem mudar a sua vida, como o caso do sujeito que não jogava, foi comprar uma revista para ler durante a viagem, o dono da banca ofereceu um bilhete da loteria, ele não quis - alegou que estava 'sem dinheiro' - , o vendedor colocou o bilhete no bolso do seu paletó, dizendo: "pague-me quando puder". Final da história: bilhete premiado, números integrais na cabeça.
O genial Gene Kelly, em boa parte das filmagens de 'Cantando na Chuva', foi acometido de um mau humor à toda prova. Motivo? Doença. Para fazer a antológica cena em que canta "Sing in the Rain" e dança sob a chuva, adoeceu 'n' vezes, pois dos ensaios até chegar à edição que chegou às telas, trabalhou debaixo d'água durante semanas e, com ela, os atchins, gripes, resfriados, febres, dores, mal estar e tudo o que vem a reboque.
E em qual parte entra a 'orelha de couve flor'? No boxe. É como vejo e situo o brasileiro comum, o trabalhador, aquele que, verdadeiramente, 'dança na chuva', derrama suor e sangue (ou ambos) para ganhar o pão de cada dia. Estou me referindo ao patrício que, mesmo com quase nada, se integra e se entrega na solidariedade a irmãos menos afortunados. Luta, sangra, toma porrada, vai a nocaute e, no final, o que ganha? Nariz amassado, dentes quebrados, olho roxo, a tal 'orelha' e meio caminho para a Estrada de Parkinson, ou, se preferir, mais duas opções disponíveis: Avenida Alzheimer ou a Alameda Delirium Tremens.
****** Lorota boa José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers
O conhecimento do meu avô paterno se deu pelas fotos e através dos depoimentos de quem usufruiu do convívio. Com o avô materno ocorreu o contrário, até pelo período de convivência mais próxima que os netos tiveram. E sempre que vem a lembrança dele, surge a imagem de Luiz Gonzaga. Não é à toa. Pai Tonho, o avô, Era fã de carteirinha do Rei do Baião e gostava de escutar num passa-discos os bolachões de 45 e 78 rpms com as músicas que encantaram o Brasil e que estão aí, até hoje. Nesta semana, não pude deixar de associar o velho Lua com as notícias atuais do nosso Brasil, lembrando da canção "Que Mentira, Que Lorota Boa", que ele fez em parceria com Humberto Teixeira.
Refiro-me especificamente às declarações de bens dos candidatos. Dei risadas quando vi os valores do patrimônio de alguns deles. Bens imóveis que toda a torcida que lamentou o retorno antecipado da Seleção, sabe que um apê na rua tal vale uma fábula. Na declaração, o valor que ali consta não dá pra comprar um quarto daquele imóvel. Só para efeito comparativo, seria como adquirir uma mansão de alto luxo pelo mesmo preço de um apartamento de dois quartos num prédio caixão. Ou comprar um utilitário importado pelo mesmo preço desse automóvel de origem italiana que lançaram há pouco.
Risível - para não usar outra palavra - foi a quantidade de dinheiro que alguns candidatos declararam que guardam em casa. Um deles diz que mantém uns "trocados" para negociar isso e aquilo, que exige dinheiro vivo. Nada estranho se não esbarrássemos num ponto: a soma declarada ultrapassa a casa de R$ 1mi. A outra lamentável barreira está relacionada com o clima de (in)segurança que reina no País. Poucos são os que lidam com dinheiro vivo, que é um imã de primeira para atrair os amigos do alheio.
O pior fica para o final, quando se toma conhecimento da bagatela que os candidatos a presidência dizem que vão gastar nas suas campanhas: R$ 463.500.000,00! Sim, quase meio bilhão de reais. Ora, todo mundo sabe que os números são para atender formalidades legais. Na prática, nove entre dez (se não for dez entre dez) campanhas geralmente exigem gastos além dos declarados, principalmente quando ocorre a possibilidade de se ganhar o páreo na última curva. E é nela que mora o maior perigo, quando se vende alma, rins e coração; quando o toma-lá-cá fica mais acirrado; quando as composições ficam mais elásticas.
No mesmo momento em que se divulga o tamanho da gastança - e poucos tomam conhecimento -, a situação de alagoanos e pernambucanos atingidos pelas enchentes se assemelha à dos desabrigados haitianos. Confesso, mais uma vez, que estou em processo de desaprendizado. Cada vez mais fico sem entender o que significa e como funciona o sistema chamado de república federativa e o verdadeiro significado de vergonha e solidariedade. Pode ser que as mudanças façam parte do conjunto de novos costumes próprios de um país rico.
****** Contra o esquecimento Dellano Rios
Nem a morte garantiu ao sociólogo Gilberto Freyre (1900 - 1987) a sacralização dos clássicos. Se hoje é difícil encontrar um pensador da cultura sério que ouse dizer que sua obra é prescindível, Freyre está longe de ser um autor intocável. E ainda provoca reações apaixonadas, de adesão e rejeição.
À diferença de outros autores polêmicos, Gilberto Freyre municiou como ninguém seus detratores. Não bastasse serem controversas suas teses sobre a formação cultural brasileira, sobretudo em "Casa Grande & Senzala" e "Sobrados e Mucambos", o sociólogo jamais evitou tocar justamente nos pontos mais criticados. E, para escândalo dos analistas mais rigorosos, Freyre falou do sexo, de raças, dentre outros ninhos de vespa intelectuais, recorrendo às próprias memórias, colocando-se como protagonista e/ou partícipe daquilo que irritava seus rivais. Publicação exemplar nesse sentido é "Tempo Morto e outros tempos" (1975), composto a partir de trechos do diário mantido pelo escritor entre 1915 e 1930, cobrindo todo o período de sua formação intelectual - da paixão pela literatura, passando pelos estudos nos EUA e alcançando as primeiras obras. Trinta e cinco anos depois, aparece o que seria a continuação (ou atualização) daquele material.
Solidificação
"De menino a homem" é o primeiro volume de material inédito em livro de Gilberto Freyre lançado em 15 anos (o último foi "Novas conferências em busca de leitores"). Que ainda haja sobras valiosas no baú de Freyre não é de impressionar. O caderno de fotos do novo livro lembra o quanto o escritor tinha consciência do valor de sua produção, pessoal e pública. Contudo, assombra o fato desse texto específico ter ficado tanto tempo guardado.
Se em "Tempo Morto" Gilberto Freyre falou de sua formação, pessoal e intelectual, dos acertos e equívocos que a conhecida vaidade e a verve polemista do autor não permitem esconder, neste "De menino a homem" o autor revista o momento posterior, quando sua obra toma corpo, torna-se robusta e fixa os pilares sobre os quais irá se sustentar por mais meio século.
Aqui não se trata de diários, mas de um texto produzido já na maturidade, evocando os acontecimentos de um intervalo de pelo menos 40 anos.
São pouco mais de 120 páginas de recordações. A elas, somam-se fac-símiles de documentos mencionados no texto, um caderno de fotos que cobre igual período ao do que é narrado e 11 artigos breves, publicados na imprensa brasileira. Nestes, Gilberto Freyre fala de personalidades que marcaram sua trajetória, de familiares como seu irmão Ulysses, de interlocutores do meio artístico, caso dos escritores Manuel Bandeira e José Lins do Rego e do referencial maestro e compositor Heitor Villa-Lobos.
Peito aberto
No livro, o tom de Freyre já é o do autor consagrado. Assim, o personagem que emerge da coleção de episódios rememorados não surpreende. Na verdade, confirma a imagem que tradicionalmente se tem do autor.
O sexo tem presença marcante e magoa o leitor puritano (sobretudo nas passagens em que o escritor fala sem rodeios, nem alardes, de suas experiências homossexuais, na Europa). Porém, quando escreveu "De menino a homem", o autor parecia estar cansado da polêmica gratuita (ou pelo menos como motor de discussão). Lê-se um Gilberto Freyre notadamente melancólico, evocando uma série de episódios que se seguiram à Revolução de 30, quando ele, então opositor dos "revolucionários", se viu obrigado a deixar o País. Freyre não se dói tanto pelas agruras que passou fora do Brasil (a fome esteve no cardápio de seus males), mas pelo sofrimento infligido aos pais, que, em Pernambuco, tiveram sua casa destruída e os pertences afetivos saqueados.
MEMÓRIAS "De menino a homem" Gilberto Freyre R$ 59,00 256 PÁGINAS 2010 GLOBAL
****** Os pés José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br
A podolatria é um tipo de fetiche cujo desejo se concentra nos pés. Não está nos dicionários, mas o seu significado pode ser encontrado nas mentes dos podólatras e milhares de vezes na Internet. Também lá, é possível saber que o podólatra se excita ao tocar, lamber, cheirar, beijar e massagear os pés de outra pessoa. Acho a mania, digamos, esquisita. Vamos voltar no tempo. Imagine pessoas descalças andando por tudo quanto é chão e pisando em terra, grama e bosta. Continue imaginando e estimule a cena de alguém beijando e lambendo os pés dessa pessoa no final do dia. Haja amor. Se isso não bastasse, volto a defender a arte e o dom da Mãe Natureza, quase perfeita ao criar pés, mãos e outros membros do humano. Houve falhas, já comentei, nos braços e no nariz – mas já é outra história. Começar um texto com os pés talvez não seja uma boa idéia e há dúvida se é de bom gosto. Prefiro dizer que foi proposital para lembrar de um sujeito que não gostava de usar meias, achava desnecessário. Não era sinal de pobreza, pois tinha grana para calçar meias a cada quinze segundos e jogá-las fora após o uso. A mania não abalaria o seu orçamento, nem de longe. Posso dizer que era um pé quente. Aventurou-se como banqueiro (banqueiro de banco, de grana), foi gostando da brincadeira e não parou mais: o seu banquinho se tornou o maior do País. E continuou não usando meias. Quem o conheceu, chegou a dizer que não gostava de meias e muito menos de sapatos. Quando estava no gabinete, tirava o pisante e ficava com os pés em contato direto com o piso. Cláudio, p. exemplo, sofre com os seus. Aliás, sofre com uma parte dos pés: as unhas, que vivem constantemente encravadas, obrigando-o a fazer tratamento (dos pés, claro), pelo menos uma vez por mês. A coisa é tão séria que, em algumas ocasiões, não pode calçar sapatos; em outras, até andar ficou difícil. Nunca perguntei, mas taí um cara que não devia ter nenhuma vocação para a podolatria. Aliás, ver pés ou figuras de pés deve ter, para ele, o mesmo significado de quem sofre com os dentes e precisa ir ao dentista: só o cheiro assusta. Esse negócio de pé é complicado. Vi, na web, vários tipos de pés femininos: lindos, como os da Ana e da Fernanda; feios, como os da Jennifer e da Carolina – estes só devem receber sapatos; sandálias, jamais. Na verdade, quero confessar, não tenho nada contra os podólatras. O que eu queria desde o início e não sabia por onde começar era falar sobre a temperatura dos pés. Existem pés quentes, como os do banqueiro, e os frios. Estes, naturais, podem ser encontrados com mais intensidade na Europa oriental. Os por vocação, trazem a fama decorrente de praga, feitiço, simpatia ou defeito de fabricação, como ficou comprovado com Mick Jagger. Não é único. No Brasil, temos um, famoso e poderoso, conhecido de canto a canto do País. Já fizeram até um filme sobre ele, mas o assunto ‘pés frios’ não ganhou um segundo na fita. Na próxima, contarei como surgiu o esfriamento dos seus pés.
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Quanto mais aperta o nó, mais o pescoço sofre José Carlos L. Poroca (foto) Advogado, executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br
A Copa da África se encerrou, depois de 30 dias de competição. Gostaria que o Brasil tivesse levantado a taça, mas, cá pra nós, seria uma tremenda injustiça com seleções como a Espanha, a Holanda e a Argentina. Poderia, sem convicção, incluir a da Alemanha, que fez o dever de casa e cumpriu o que foi determinado pelo professor (deles): organização, disciplina, garra e determinação. Convenceu.
A partir da copa africana, poucos detalhes passarão despercebidos daqui pra frente. O show de imagens que se viu na tevê indica que, a partir de agora, ficará cada vez mais difícil se repetir o que era feito à sombra. A Copa da África trouxe surpresas. Sempre soube que atletas de cor negra eram da África e das Américas; olhos puxados, na Ásia. Não foi o que se viu. Os 'negros' europeus estavam em campo, mostrando que esse negócio de cor ou raça se resume a dois grupos: os bons e os ruins. E por falar nestes, não dá para deixar de comentar os retornos antecipados da Grécia, Inglaterra, Itália e França. Há quem diga que a performance deles tem relação com a economia dos seus países. A Copa de 2010 mostrou ao mundo, repetindo o que ocorreu na passada que, cada vez mais, o esquema tático, o trabalho em equipe e o preparo físico serão de extrema valia; a velocidade e a ocupação dos espaços do campo competirão em maior ou no mesmo nível da ginga, da firula, do individualismo e da pedalada.
Como o colibri se amarra numa flor e o urubu é fissurado numa carniça, o poder 'baba' por uma copa mundial de futebol. O país dá uma freada e a grande maioria do povo fica em estado de letargia em função, ainda que forçosamente, do jogo da Seleção com A ou B. Estima-se que o Brasil perde algo em torno de 25% do PIB no período em que a canarinha está em campo. Toda a economia é afetada, com raras exceções. Não é só: quando a Seleção joga (às vezes mal) e se entra em estagnação, o pais aumenta a fila dos sem-emprego: 1,8 milhões de brasileiros. É mais ou menos a soma das populações de Recife e Olinda. 1,8 milhões de desempregados não aparecem nas estatísticas de um jornalista que se apresentou em recente encontro na capital paulistana. Estava na plateia e, confesso que, emocionado, chorei. Orgulhoso, fiquei emocionado com o que foi exposto, orgulho de ser brasileiro. Pensei: passamos a viver o que se esperou há tempo; chegamos ao estágio, imaginei, de poder dizer que alcançamos o que se ouvia no passado ("este é o país do futuro").
Meu choro foi em vão: o palestrante não tinha os dados do desemprego ou não quis estragar a festa. No contrafluxo, a arrecadação de tributos cresceu 16,55% em relação ao mesmo mês de 2009. O que significa? Que a gastança poderá continuar até o final do ano, pelo menos. O mais interessante? Aproximadamente um quarto do bolo arrecadado é proveniente do imposto de renda. O que representa? Que as fatias do bolo continuam sendo mal distribuídas. Brasil!
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