Cantiga do vinho Jairo Lima
agora que o vidro fino do ar está em Teu lugar como o murmúrio de um sol ausente
agora que entre mim e o elo de Tua mão se interpõe uma antiga canção e um caminho de ventos e tua Ausência pesa como um deus a quem negaram febres e incensos
agora que só restam as garras da memória para me manterem preso ao Teu nome faz desta dor cravada em minhas horas uma porta que me leve ao Teu agora
pássaro da noite, ateu, se em teus poderes cabe a glória de esquecer o que te roubou a tarde no esplendor do teu ninho
faz desta dor uma taça para uma urgência de vinhos
****** Chegada Jairo Lima
e então? É você esta que vejo entre flocos de nuvens brancas que posso afastar com um dedo?
E aquela serpente lenta, arqueada em desafio, estendida em curvas mansas, esta serpente é teu rio?
Desço mais
vejo tuas casas alegres subindo e descendo encostas e teus edifícios magros como crianças franzinas com suas facas entre os dedos ou como pequenas lâminas que se erguem contra o sol mas não conseguem dete-lo:
em sua arrogância ingênua se dissolvem na paisagem e nem aos pássaros fazem medo
e em fitas de asfalto tremulante vejo carros e ônibus e gente de brinquedo
aqui do alto não me pareces mal gosto de ti, e gosto mais ainda de algo indecifrável que está no teu ar transparente e carnal o que te vejo, mais do que cidade, é luz queimante que me introduz sem segredos, por limpas veias de ventos, em teu encanto cegante e brutal
toco teu solo e o estampido das turbinas te anuncia: Natal
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Fevereiro Jairo Lima
Correm por aqui notícias de que os ventos hão de repetir os seus gemidos e que um mar tremente, em febre, em força, em fúria há de ter, em suas garras de espuma, o sangue do sol amanhecido
essas são coisas que aqui me dizem e eu te digo
este mar, que assusta gaivotas, cujas asas recurvas servem a outros mares recurvos de abrigo, aqui é só água deitada sob o nada mesmo quando os ares sopram brisas acalmadas e o sol, caída a tarde, inventa a noite e os seus círios
a terra é branca e dura e ergue-se em ondas que, de tão lentas, se vêem paradas entre mansas madrugadas e incendiados poentes
este reino é de águas mornas e areias acamadas que o vento arrasta, levanta e esmaga com os dentes
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Grande hotel Jairo Lima
Pequeno, limpo, acanhado, Empurra, com relutância, o vento de suas esquinas E ali se posta, calado
Não reparei se consegue espiar o mar; Acho que não;
Não o vi, saudoso, como quem avista navios Nem assombrado como quem se ofusca No espelho branco do chão
Antes o vejo como menino ingênuo e pacato Ou como velho e doce professor aposentado A pastorar a decadência sem fim das horas de torpor Que escorrem pelos becos escaldantes Triturando os ossos da tarde e bebendo o seu suor.
Os seus corredores, no entanto, espantam De tão jovens e caiados
Ali não se ouvem vozes, Não ressoam passos e nem se lembra a dor Das cortinas queimadas na explosão Diária do sol
Vai chamar Humphrey Bogart, menino, Aquele ali, de costas, em frente à porta Do elevador.
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No bar Jairo Lima
Chegaste a mim não como lume Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa
Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas
E eu te vi. Te vi como se vê mares e dunas Como coisas que são sem oráculos nem seitas Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão: Ali estavas de pé em frente aos panos da noite E parecia que contigo aquela noite estava feita
Te vi coxas, riso, ombros e mãos Perdidos entre afago e maldição
Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce
Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma Se colam, se penetram, se invadem; Não são asas de pássaros, são patas de cavalo Destruindo colheitas
Aquela noite só prometia suores Conquistados a cada beijo Os latifúndios do desejo Eram cada vez maiores
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Vim de longe Em hora incerta Vim de lunas Vim de céus perfurados de estrelas Vim de amores submersos em dores e desfeitas Para que celebrasses a consagração bizarra Que faz a carne virar pão O sangue virar vinho E a cama virar mesa Onde a fome dispõe as suas facas Para cortar as carnes e sugar a seiva
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Farol bar Jairo Lima
Eu ontem comemorei Minha hora mais aflita Bebendo cerveja fria Comendo filé com fritas
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A hora anunciada Jairo Lima
De outra vez traga-me o trem noturno que vara as trevas confiado tão somente no brilho do seu trilho
traga-me o sol facho o leite de pendente luna mas venha só e embrulhe seus presentes em papel crepom fita verde ou encarnada para que o imprevisto de tua chegada seja calmo como um lago sem ventos lento, calado, lento como coisa anunciada
para que esse trem, esse sol e essa luna pareçam coisas simples pareçam coisas tuas
para que essas luzes amordaçadas no papel de presente se tornem previsíveis e marquem, simplesmente, o dia, a hora, o minuto, de tua chegada
ou ainda como se o tempo saltasse sobre as asas da noite e lhe cravasse os dentes
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Noturno Jairo Lima
Galos verdes gatos plácidos quietas sementes de luna brotam brandas pele azul acidez do espaço
pálios brónzeos limpos traços astro flácido galos verdes trinos vários vaga serpente de aço vozes brancas rosas rubras verde amarelo azul mormaço
verde (chão) azul (espaço) varandas de fria luna silêncios súbitos verde azul azul espaço galos gatos galos gatos galos crinas azuis verdes mormaços pálios pátios
tropel cansaços traços brancos galos verdes gatos plácidos quietas sementes de luna brotam brandas pela azul acidez do espaço
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Futuro Jairo Lima
Quem vai para o futuro sem saudades não deixa marcas na carne do tempo ido nem se compraz em fantasmas como se cada dia tivesse renascido
quem vai para o futuro sem saudades vai desfazendo a teia da memória essa espiã do tempo vai mastigando os próprios nervos indo só porque se vai sem pressa, sem vontade, assim como nascendo
sem suores noturnos sobressaltos sem deuses nem guias assim sem agonia sem misticismo, sem fé assim se vai para o futuro sem saudades
se vai só pelo ir sem volúpia de caminhos e chegadas se vai porque o sangue escava suas minas sem perguntas e se tem que ir
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Amaretti di Saronno Jairo Lima
Vi à luz da lâmpada fluorescente a embalagem pálida do amaretti di saronno com os seus sonhos de mares e de naves
vi com que coragem se anuncia antica fabbrica infância à deriva na luz atemporal do lume imprevisível que não diz de muitos dias tardes
tocada pelo vento a vela então se abre e reconduz o rótulo do amaretti di saronno antica fabbrica à condição de ave
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Rimbaud Jairo Lima
era uma mulher sem nexo mas com filhos de olhos duros vidros aspeados por sobrancelhas de pó enegrecido
era um sol deslembrado de sombras e de mundos amanhecidos e eu dizia aos seus olhos pequenos e incompassivos que rimbaud já foi rimbaud e eu não precisava de pedras nem de vidraças para escrever um livro nem de tetas negras ou deserto infame nem de calvários para purgar meu sangue ali, naquela hora afastada eu ouvia sorrindo o seu gemido e lhe negava o verso que implorava e, como o dia apaga da noite os vestígios, eu esmagava, um a um, os acordes que conduziam a lembrança de suas dores para o olvido
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A foto que eu vi Jairo Lima A Fernando Monteiro
vi o sangue e o pus de Anna Akhmátova celebrados em duras taças de granito e ali estava um corpo de suores feito poema transformado em mito ou salmo de escárnio e maldições ferozes ou ainda em memória de gritos
vi a grande mordaça cujo número é vinte e dois jogada inútil num monte de pó para que um canto, uma blasfêmia fosse buscar sua têmpera nas próprias fornalhas do sol
ah, estes clarões de sangue como iluminam e rasgam as rimas, os risos, os guizos a sensibilidade em febre, assustada de minúsculos passarinhos que negam o trovão da Grande Mágoa e se entretêm em cantar pequenas insolências ritmadas em versos ruiz
vi, de fato, a foto ensangüentada enclausurada num sacrário ateu e vi escrito em suas carnes devastadas queste parole di colore oscuro que dante um dia no inferno viu
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Tia Jairo Lima
Com pelos de cachorro minha tia enchia almofadas para alfinete pensando utilizá-las algum dia (se o pelo for de cachorro o alfinete não enferruja, dizia) não sei de que vale esta ciência não sei de que vale esta ciência hoje em dia sei apenas que eram vivas almofadas que eram vivas almofadas da minha tia
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Certidão Jairo Lima
Constato que o verdadeiro cristão é o que tem em cada face uma escoriação
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Apocalipse Jairo Lima
Os justos herdarão os clamores dos injustiçados e vestirão togas negras sob o fogo dos desertos
e serão juízes tristes e severos de querelas milenares e decidirão a causa dos fantasmas e olharão desconfiados os deuses que cheios de evasivas explicarão seus desígnios e seus evangelhos aos que sobreviverem sem mérito
e logo se erquerão do poente ao levante hordas de magistrados de capelo e martelo de cabeças empoadas pelo pó da terra estéril
e à noite aos luares sorrirão enviezado sob a luz verde do frio e meditarão por toda a eternidade em cada parábola contada nas noites insones que anteciparam o dia dos vulcões em lava dos raios e dos trovões
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Poeminha antigo Jairo Lima
Em estado de amor veio à janela branca, branca, virou tela em sua moldura de paus
só que o tempo impiedoso de moças e telas fez ver que já era tarde pra surgirem tais visagens nas janelas da cidade de sete portas sete chaves mas sem janelas
morre, moça, enquanto és bela que janelas sois e tardes já não há nesta cidade
morre, morre, enquanto és bela
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Fica bem dizer assim? Jairo Lima
Poema lapidado não vale a pena poema lapidado é lápide de poema
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Faca Jairo Lima
Além do coração somente o coração além da veia pulsante só o pulsar da veia além do sangue vermelho só o vermelho sangue faca/faca sem silêncios esperas ou sombras de fantasmas faca/faca a faca total que se compraz no espelho do seu aço diante desta faca nada é imortal tudo é entranhas e medo nesta faca sem profetas nesta faca que não se anuncia a não ser quando cava a sua mina de sangue vermelho/vermelho esta faca que faz medo esta faca sem bainha esta faca mata deus
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Monólogo do unicórnio Jairo Lima
Um ou dois? eis a questão um (sem dúvida) chama mais a atenção
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Ofício Jairo Lima
Calma não quero emocionar ninguém
faço poemas de página porque grandes sagas provocam alvoroço e me obrigam a atravessar um pátio uma cozinha um pequeno corredor uma sala nua um corredor maior que olha para a rua até chegar a uma sala onde uma secretária me empresta um grampeador
portanto, calma, não quero emocionar ninguém
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Lírica Jairo Lima
De noite toquei pandeiros por ti de noite acendi luzeiros por ti de noite vaguei no ermo da escuridão mais escura cavalguei cavalo negro venci o medo por ti
pastos raros de cristais amanhecidos conheci o hálito da noite desenhou-me azul na pele e me perdi
percorri sete reinos ouro prata safira cristal topázio ametista rubi
outeiros pontes outeiros meu caminho para ti
invenção das minhas noites vi que eras para mim deixei que o sol nascesse desinventei tua história guardei luzes e pandeiros e vi que o amor que eu te tinha era o meu amor por mim
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Maria da Paz Jairo Lima
Maria só tem um filho a quem chama de Pelé quer vê-lo louro e bonito com uma bola no pé
(Maria da Paz passa fome não quer saber de Vivaldi)
De noite ela vai pra cama com o soldado da guarita descançam na cabeceira revólver, sabre e marmita
Pra viver melhor a vida talvez gostar de Vivaldi Maria da Paz precisa das balas do seu soldado
Mas o soldado de Maria não luta por ela, não goza seu corpo e lhe nega revólver, sabre e facão
E ela vê, depois do gozo, ele estirado ao seu lado nu é menino dormido sonhando sonhos de farra duplamente desarmado
E assim a vida não muda apesar de tanta luta na colchão com seu soldado
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Violino Jairo Lima
e me descobri no Recife com saudades do Recife e a esta angústia veio somar-se outra que me deu de ver Angra dos Reis nos retratos e umas histórias sobre a usina atômica
e quiz versos de fogo contra o fogo da usina e rimas de mel para o seio das colinas
e a esta angústia veio somar-se outra que me deu de lembrar a infância dos sábados criança não traquina a que a réstia do sol da telha de vidro do quarto vinha coçar a narina
e a esta angústia veio somar-se outra que me veio indefinida das meninas que amei e mi vi com saudades de um violino que jamais toquei e que vendi na caixa para um músico da sinfônica por cento e vinte mil reis
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Cantiga de menino com fome Jairo Lima
Menino ninguém te ama menino ninguém te quer menino filho de homem e mulher
menino feito na noite entre cantigas de grilos cadê milharal bonito que teu pai te prometeu?
cadê cantigas de mãe para embalar os teus gritos? cadê o toque de sinos que teu pai te prometeu?
olha que orgasmo aflito gerou teu corpo franzino cadê matéria bastante pra te construir, menino?
minha mãe tinha um roçado que nossa senhora deu meu pai - chuva - foi embora e meu roçado morreu
menino sai desta vida menino sai na TV menino pra que tens olhos e essa cara de vivo se já já tu vais morrer?
de um osso fiz um boi de um outro caminhão botei o boi no cercado fui embora do sertão
ai seu eu fosse cigano fugia em noite de lua ia pra terra de um conde primo carnal do meu pai onde os bois morrem de velhos nos currais de la condessa e o sol espia sem raiva os dourados milharais
que eu sou primo do conde protegido da condessa vim de longe muito longe em galeota de velas que encalhou noutra era e se enredou no destino de ser menino de ser menino
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Da lua Jairo Lima
Tecida em gelo e cozida nos panos da noite a lua aparece clara em sua mortalha de luz
Cheia de si (visagem que se intercala nos escuros do céu) comanda ventos e almas horóscopos e marés
Cenarizando o mundo em branco e prata a luz propõe enredos de ações dramáticas lunáticas
Posta no céu a lua as pessoas ficam nuas e dançam estáticas a coreografia exata dos vegetais
Foi numa noite de lua que se inventaram as amadas feitas de um tênue, branco ectoplasma inexato, impreciso que a luz do sol desfaz retomando o ritmo previsível e simétrico dos olhos e dos mamilos
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A hora certa Jairo Lima
a hora certa não é a hora do rádio não é seis e trinta e oito nem oito e quarenta e seis a hora certa é aquela em que o tempo abre o regaço e nos aninha numa almofada de cetim lavada com alfazemas e jasmins nessa hora a gente é dono de tudo o que há entre o não e o sim
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Angústia metafísica Jairo Lima
E este apocalipse que não chega? Não se entrega tarefa assim tão grave a um bando de bestas.
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Os panos Jairo Lima
a taça magra o vinho insone em pé o pão deitado pleno de si mesmo a faca o gume a carne o incenso diário dos temperos a liturgia dos panos sobre a mesa o relógio expectante que impõe silêncio aos seus aços
(o tempo aguarda o ritual da fome)
ainda longe o corcel da hora pasta os seus ponteiros e espera que nódoas e migalhas sobre a toalha autorizem a cavalgada que envelhece rebocos e azulejos
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Palavra Jairo Lima
A linha azul do mar é semre azul e linha e os luzeiros do céu são luzeiros e mais nada nada além de si é a curva piedosa as colinas e neste dia em que me sinto orfão da metáfora ofereço à poesia o timbre impercutido da palavra gasta que a si mesma se basta que se propõe sintaxes provisórias e que expõe exata nua dicionariamente suas sementes silábicas velhas palavras primitivas onomatopaicas o grito primevo o vagido a articulação vocálica do riso o hálito entrecortado do suspiro a palavra no leito geminal do sentido unívoca serena imodulada
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Latim Jairo Lima
Inventarei um latim só para mim só para dar um ar de nobreza decadente a uma certa nobreza decadente que há em mim.
Inventarei um latim que sirva de armadilha e isca a decapitados anjos barrocos que sorriem degolados num velho céu azul de telão de opereta e giram feito carrapetas ou helicópteros desgovernados
(hoje estão todos escondidos como grilos nos escuros das igrejas).
Pra todas estas coisas velhas que desconfio belas hei-de inventar um latim que tenha sílabas ferinas como o tinir das campainhas que me espantavam na hora da elevaçao
católico não serei não mas hei-de ter meu latim
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Velório Jairo Lima
Era um filme engraçado de gordo e magro, não sei era quarta-feira santa e havia certa altivez nos campanários e nos bichos insetos carnívoros roiam-lhe o rosto desgosto nas chagas em ruína urina sob a manhã hipotética apoplética sopra vida em deus de barro canário solto nos trinos divino gozo, divino eras cinzas quaresmais e no retângulo da sala inscrevia-se o morto chorado desgosto picadeiro aflito exibindo gemidos de viúvas era tarde e a cena admirava aos que comiam bolacha com café e amargura e cadê a televisão pra perguntar à viúva como ela via a apatia e se saía no jornal das oito a notícia deste dia a agonia da hora e agora os minutos perdiam sentido e minavam gemidos pelo reboco da sala onde só o coração de jesus posava com olhar indiferente à gente da casa mas a hora mais aflita ainda estava por vir
senhor são serafim atendei aos miseráveis agora e afastai aquela hora da nossa morte amém
a carne cortada em postas ao som de um sino grave era benzida rezada e comida pelo padre
afasta de mim este cálice de sangue coagulado ultrajado senhora das ladainhas virgem santa, virgem minha ave maria santinha que subiu aos céus agarradinha ao meu esposo
lamento que estes gritos se percam pra dentro dos muros e deles não fique registro suplício maior suplício é morrer e perder nem que seja a visão destas paredes da sala e essa luz que alumia
que morto não tem valia maior suplício é perder
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Povos Jairo Lima
Os povos vermelhos inventam deuses irados cheios de raios trovões de fúria incandescida (estes são os povos dos apriscos)
os povos azuis inventam deuses compassivos que com eles se perdem nos caminhos (estes são povos tresmalhados)
os povos verdes não inventam deuses que inventem medos e culpas (estes são mais divertidos)
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