PAPO FURADO by Jairo Lima
Cancão de fogo (teatro)
Ilustríssimos Senhores (teatro)
Lampião no inferno (teatro)
Livro das árias e das horas (poesia)
Livro da Sétima - danças (poesia)
Fortuna crítica
Entrevista a Lívio Oliveira
Fábulas pós-modernas
Versos a granel
Cantiga do vinho
Jairo Lima

agora que o vidro fino do ar
está em Teu lugar
como o murmúrio de um sol ausente

agora que entre mim e o elo de Tua mão
se interpõe uma antiga canção
e um caminho de ventos
e tua Ausência pesa como um deus
a quem negaram febres e incensos

agora que só restam as garras da memória
para me manterem preso ao Teu nome
faz desta dor cravada em minhas horas
uma porta que me leve ao Teu agora

pássaro da noite, ateu,
se em teus poderes cabe
a glória de esquecer
o que te roubou a tarde
no esplendor do teu ninho

faz desta dor uma taça
para uma urgência de vinhos

******
Chegada
Jairo Lima

e então?
É você esta que vejo entre flocos de nuvens brancas
que posso afastar com um dedo?

E aquela serpente lenta, arqueada em desafio,
estendida em curvas mansas, esta serpente é teu rio?

Desço mais

vejo tuas casas alegres subindo e descendo encostas
e teus edifícios magros
como crianças franzinas com suas facas entre os dedos
ou como pequenas lâminas que se erguem contra o sol
mas não conseguem dete-lo:

em sua arrogância ingênua
se dissolvem na paisagem
e nem aos pássaros fazem medo

e em fitas de asfalto tremulante vejo carros e ônibus e gente de brinquedo

aqui do alto não me pareces mal
gosto de ti, e gosto mais ainda de algo indecifrável
que está no teu ar transparente e carnal
o que te vejo, mais do que cidade, é luz queimante
que me introduz sem segredos, por limpas veias de ventos,
em teu encanto cegante e brutal

toco teu solo e o estampido das turbinas te anuncia:
Natal 

******

Fevereiro
Jairo Lima

Correm por aqui notícias
de que os ventos hão de repetir os seus gemidos
e que um mar tremente, em febre, em força, em fúria
há de ter, em suas garras de espuma, o sangue do sol amanhecido

essas são coisas que aqui me dizem
e eu te digo

este mar, que assusta gaivotas,
cujas asas recurvas servem a outros mares recurvos de abrigo,
aqui é só água deitada sob o nada
mesmo quando os ares sopram brisas acalmadas
e o sol, caída a tarde, inventa a noite e os seus círios

a terra é branca e dura
e ergue-se em ondas que, de tão lentas,
se vêem paradas entre mansas madrugadas e incendiados poentes

este reino é de águas mornas e areias acamadas
que o vento arrasta, levanta e esmaga com os dentes

******

Grande hotel
Jairo Lima

Pequeno, limpo, acanhado,
Empurra, com relutância, o vento de suas esquinas
E ali se posta, calado

Não reparei se consegue espiar o mar;
Acho que não;

Não o vi, saudoso, como quem avista navios
Nem assombrado como quem se ofusca
No espelho branco do chão

Antes o vejo como menino ingênuo e pacato
Ou como velho e doce professor aposentado
A pastorar a decadência sem fim das horas de torpor
Que escorrem pelos becos escaldantes
Triturando os ossos da tarde e bebendo o seu suor.

Os seus corredores, no entanto, espantam
De tão jovens e caiados

Ali não se ouvem vozes,
Não ressoam passos e nem se lembra a dor
Das cortinas queimadas na explosão
Diária do sol

Vai chamar Humphrey Bogart, menino,
Aquele ali, de costas, em frente à porta
Do elevador. 

******

No bar
Jairo Lima

Chegaste a mim não como lume
Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

E eu te vi.
Te vi como se vê mares e dunas
Como coisas que são sem oráculos nem seitas
Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
E parecia que contigo aquela noite estava feita

Te vi coxas, riso, ombros e mãos
Perdidos entre afago e maldição

Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
Se colam, se penetram, se invadem;
Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
Destruindo colheitas

Aquela noite só prometia suores
Conquistados a cada beijo
Os latifúndios do desejo
Eram cada vez maiores

(-----------)

Vim de longe
Em hora incerta
Vim de lunas
Vim de céus perfurados de estrelas
Vim de amores submersos em dores e desfeitas
Para que celebrasses a consagração bizarra
Que faz a carne virar pão
O sangue virar vinho
E a cama virar mesa
Onde a fome dispõe as suas facas
Para cortar as carnes e sugar a seiva

(-----------------)

******

Farol bar
Jairo Lima

Eu ontem comemorei
Minha hora mais aflita
Bebendo cerveja fria
Comendo filé com fritas

******

A hora anunciada
Jairo Lima

De outra vez
traga-me
o trem noturno
que vara as trevas
confiado tão somente
no brilho do seu trilho

traga-me o sol
facho
o leite de pendente luna
mas venha só
e embrulhe seus presentes
em papel crepom
fita verde ou encarnada
para que o imprevisto
de tua chegada
seja calmo como um lago
sem ventos
lento, calado, lento
como coisa anunciada

para que esse trem, esse sol e essa luna
pareçam coisas simples
pareçam coisas tuas

para que essas luzes
amordaçadas
no papel de presente
se tornem previsíveis
e marquem, simplesmente,
o dia, a hora, o minuto,
de tua chegada

ou ainda
como se o tempo
saltasse sobre as asas da noite
e lhe cravasse os dentes


******

Noturno
Jairo Lima

Galos verdes
gatos plácidos
quietas sementes de luna
brotam brandas
pele azul acidez do espaço

pálios brónzeos limpos traços
astro flácido
galos verdes trinos vários
vaga serpente de aço
vozes brancas rosas rubras
verde amarelo azul
mormaço

verde (chão) azul (espaço)
varandas de fria luna
silêncios súbitos
verde azul azul espaço
galos
gatos galos gatos galos
crinas azuis
verdes mormaços
pálios pátios

tropel cansaços
traços brancos
galos verdes gatos plácidos
quietas sementes de luna
brotam brandas
pela azul acidez do espaço

******

Futuro
Jairo Lima

Quem vai para o futuro sem saudades
não deixa marcas na carne
do tempo ido
nem se compraz em fantasmas
como se cada dia tivesse renascido

quem vai para o futuro sem saudades
vai desfazendo a teia da memória
essa espiã do tempo
vai mastigando os próprios nervos
indo só porque se vai
sem pressa, sem vontade,
assim como nascendo

sem suores noturnos sobressaltos
sem deuses nem guias
assim sem agonia
sem misticismo, sem fé
assim se vai para o futuro sem saudades

se vai só pelo ir
sem volúpia de caminhos e chegadas
se vai porque o sangue
escava suas minas sem perguntas
e se tem que ir

******

Amaretti di Saronno
Jairo Lima

Vi à luz da lâmpada fluorescente
a embalagem pálida
do amaretti di saronno
com os seus sonhos de mares e de naves

vi com que coragem se anuncia
antica fabbrica
infância à deriva na luz atemporal do lume imprevisível
que não diz de muitos dias tardes

tocada pelo vento
a vela então se abre
e reconduz o rótulo do amaretti di saronno
antica fabbrica
à condição de ave

******

Rimbaud
Jairo Lima

era uma mulher sem nexo
mas com filhos
de olhos duros vidros
aspeados
por sobrancelhas de pó enegrecido

era um sol deslembrado de sombras
e de mundos amanhecidos
e eu dizia aos seus olhos pequenos e incompassivos
que rimbaud já foi rimbaud
e eu não precisava de pedras nem de vidraças
para escrever um livro
nem de tetas negras ou deserto infame
nem de calvários para purgar meu sangue
ali, naquela hora afastada
eu ouvia sorrindo o seu gemido
e lhe negava o verso que implorava
e, como o dia apaga da noite os vestígios,
eu esmagava, um a um, os acordes que conduziam a lembrança de suas dores
para o olvido

******

A foto que eu vi
Jairo Lima
A Fernando Monteiro

vi o sangue e o pus de Anna Akhmátova
celebrados em duras taças de granito
e ali estava um corpo de suores
feito poema
transformado em mito
ou salmo de escárnio e maldições ferozes
ou ainda em memória de gritos

vi a grande mordaça cujo número é vinte e dois
jogada inútil num monte de pó
para que um canto, uma blasfêmia
fosse buscar sua têmpera
nas próprias fornalhas do sol

ah, estes clarões de sangue
como iluminam
e rasgam
as rimas, os risos, os guizos
a sensibilidade em febre, assustada
de minúsculos passarinhos
que negam o trovão da Grande Mágoa
e se entretêm em cantar pequenas insolências
ritmadas
em versos ruiz

vi, de fato, a foto ensangüentada
enclausurada num sacrário ateu
e vi escrito em suas carnes devastadas
queste parole di colore oscuro
que dante um dia no inferno viu

******

Tia
Jairo Lima

Com pelos de cachorro
minha tia enchia
almofadas para alfinete
pensando utilizá-las algum dia
(se o pelo for de cachorro
o alfinete não enferruja,
dizia)
não sei de que vale esta ciência
não sei de que vale esta ciência hoje em dia
sei apenas
que eram vivas almofadas
que eram vivas almofadas da minha tia

******

Certidão
Jairo Lima

Constato
que o verdadeiro cristão
é o que tem em cada face
uma escoriação

******

Apocalipse
Jairo Lima

Os justos herdarão os clamores dos injustiçados
e vestirão togas negras
sob o fogo dos desertos

e serão juízes
tristes e severos
de querelas milenares
e decidirão
a causa dos fantasmas
e olharão desconfiados
os deuses
que cheios de evasivas
explicarão seus desígnios
e seus evangelhos
aos que sobreviverem
sem mérito

e logo se erquerão
do poente ao levante
hordas de magistrados
de capelo e martelo
de cabeças empoadas
pelo pó da terra estéril

e à noite aos luares sorrirão enviezado
sob a luz verde do frio
e meditarão por toda a eternidade
em cada parábola contada nas noites insones
que anteciparam o dia dos vulcões em lava
dos raios e dos trovões

******

Poeminha antigo
Jairo Lima

Em estado de amor
veio à janela
branca, branca, virou tela
em sua moldura de paus

só que o tempo
impiedoso
de moças e telas
fez ver que já era tarde
pra surgirem tais visagens
nas janelas da cidade
de sete portas
sete chaves
mas sem janelas

morre, moça, enquanto és bela
que janelas
sois
e tardes
já não há nesta cidade

morre, morre, enquanto és bela

******

Fica bem dizer assim?
Jairo Lima

Poema
lapidado
não vale a pena
poema
lapidado
é lápide
de poema

******

Faca
Jairo Lima

Além do coração somente o coração
além da veia pulsante só o pulsar da veia
além do sangue vermelho só o vermelho sangue
faca/faca
sem silêncios esperas ou sombras de fantasmas
faca/faca
a faca total
que se compraz no espelho do seu aço
diante desta faca nada é imortal
tudo é entranhas e medo
nesta faca sem profetas
nesta faca que não se anuncia
a não ser quando cava a sua mina de sangue
vermelho/vermelho
esta faca que faz medo
esta faca sem bainha
esta faca mata deus

******

Monólogo do unicórnio
Jairo Lima

Um ou dois?
eis a questão
um
(sem dúvida)
chama mais
a atenção

******

Ofício
Jairo Lima

Calma
não quero emocionar ninguém

faço poemas de página
porque grandes sagas
provocam alvoroço
e me obrigam a atravessar um pátio
uma cozinha
um pequeno corredor
uma sala nua
um corredor maior que olha para a rua
até chegar a uma sala
onde uma secretária
me empresta um grampeador

portanto, calma,
não quero emocionar ninguém

******

Lírica
Jairo Lima

De noite toquei pandeiros
por ti
de noite acendi luzeiros
por ti
de noite vaguei no ermo
da escuridão mais escura
cavalguei cavalo negro
venci o medo por ti

pastos raros de cristais amanhecidos
conheci
o hálito da noite desenhou-me azul na pele
e me perdi

percorri sete reinos
ouro
prata
safira
cristal
topázio
ametista
rubi

outeiros pontes outeiros
meu caminho para ti

invenção das minhas noites
vi que eras para mim
deixei que o sol nascesse
desinventei tua história
guardei luzes e pandeiros
e vi que o amor que eu te tinha
era o meu amor por mim

******

Maria da Paz
Jairo Lima

Maria só tem um filho
a quem chama de Pelé
quer vê-lo louro e bonito
com uma bola no pé

(Maria da Paz passa fome
não quer saber de Vivaldi)

De noite ela vai pra cama
com o soldado da guarita
descançam na cabeceira
revólver, sabre e marmita

Pra viver melhor a vida
talvez gostar de Vivaldi
Maria da Paz precisa
das balas do seu soldado

Mas o soldado de Maria
não luta por ela, não
goza seu corpo e lhe nega
revólver, sabre e facão

E ela vê, depois do gozo,
ele estirado ao seu lado
nu é menino dormido
sonhando sonhos de farra
duplamente desarmado

E assim a vida não muda
apesar de tanta luta
na colchão com seu soldado

******

Violino
Jairo Lima

e me descobri no Recife com saudades do Recife
e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de ver Angra dos Reis nos retratos
e umas histórias sobre a usina atômica

e quiz versos de fogo contra o fogo da usina
e rimas de mel para o seio das colinas

e a esta angústia veio somar-se outra
que me deu de lembrar a infância dos sábados
criança não traquina
a que a réstia do sol da telha de vidro do quarto vinha coçar a narina

e a esta angústia veio somar-se outra
que me veio indefinida das meninas que amei
e mi vi com saudades de um violino que jamais toquei
e que vendi na caixa para um músico da sinfônica
por cento e vinte mil reis

******

Cantiga de menino com fome
Jairo Lima

Menino ninguém te ama
menino ninguém te quer
menino filho de homem
e mulher

menino feito na noite
entre cantigas de grilos
cadê milharal bonito
que teu pai te prometeu?

cadê cantigas de mãe
para embalar os teus gritos?
cadê o toque de sinos
que teu pai te prometeu?

olha que orgasmo aflito
gerou teu corpo franzino
cadê matéria bastante
pra te construir, menino?

minha mãe tinha um roçado
que nossa senhora deu
meu pai - chuva - foi embora
e meu roçado morreu

menino sai desta vida
menino sai na TV
menino pra que tens olhos
e essa cara de vivo
se já já tu vais morrer?

de um osso fiz um boi
de um outro caminhão
botei o boi no cercado
fui embora do sertão

ai seu eu fosse cigano
fugia em noite de lua
ia pra terra de um conde
primo carnal do meu pai
onde os bois morrem de velhos
nos currais de la condessa
e o sol espia sem raiva
os dourados milharais

que eu sou primo do conde
protegido da condessa
vim de longe muito longe
em galeota de velas
que encalhou noutra era
e se enredou no destino
de ser menino
de ser menino

******

Da lua
Jairo Lima

Tecida em gelo
e cozida nos panos da noite
a lua aparece clara
em sua mortalha de luz

Cheia de si
(visagem que se intercala
nos escuros do céu)
comanda ventos e almas
horóscopos e marés

Cenarizando o mundo
em branco e prata
a luz propõe enredos
de ações dramáticas
lunáticas

Posta no céu a lua
as pessoas ficam nuas
e dançam estáticas
a coreografia exata
dos vegetais

Foi numa noite de lua
que se inventaram as amadas
feitas de um tênue, branco ectoplasma
inexato, impreciso
que a luz do sol desfaz
retomando o ritmo previsível
e simétrico
dos olhos e dos mamilos

******

A hora certa
Jairo Lima

a hora certa
não é a hora do rádio
não é seis e trinta e oito
nem oito e quarenta e seis
a hora certa
é aquela em que o tempo abre o regaço
e nos aninha
numa almofada de cetim lavada
com alfazemas e jasmins
nessa hora
a gente é dono de tudo
o que há entre o não e o sim

******

Angústia metafísica
Jairo Lima

E este apocalipse que não chega?
Não se entrega tarefa assim tão grave
a um bando de bestas.

******

Os panos
Jairo Lima

a taça magra
o vinho insone
em pé
o pão deitado
pleno de si mesmo
a faca o gume
a carne
o incenso diário
dos temperos
a liturgia dos panos
sobre a mesa
o relógio expectante
que impõe silêncio aos seus aços

(o tempo aguarda
o ritual da fome)

ainda longe
o corcel da hora pasta os seus ponteiros
e espera que nódoas e migalhas
sobre a toalha
autorizem a cavalgada
que envelhece rebocos e azulejos

******

Palavra
Jairo Lima

A linha azul do mar é semre azul e linha
e os luzeiros do céu são luzeiros e mais nada
nada além de si é a curva piedosa as colinas
e neste dia em que me sinto orfão da metáfora
ofereço à poesia o timbre impercutido da palavra gasta
que a si mesma se basta
que se propõe sintaxes provisórias
e que expõe exata
nua
dicionariamente
suas sementes silábicas
velhas palavras primitivas
onomatopaicas
o grito primevo o vagido
a articulação vocálica do riso
o hálito entrecortado do suspiro
a palavra no leito geminal do sentido
unívoca
serena
imodulada

******

Latim
Jairo Lima

Inventarei um latim
só para mim
só para dar um ar de nobreza decadente
a uma certa nobreza decadente
que há em mim.

Inventarei um latim
que sirva de armadilha e isca
a decapitados anjos barrocos
que sorriem degolados
num velho céu azul
de telão de opereta
e giram feito carrapetas
ou helicópteros desgovernados

(hoje estão todos escondidos
como grilos
nos escuros das igrejas).

Pra todas estas coisas velhas
que desconfio belas
hei-de inventar um latim
que tenha sílabas ferinas
como o tinir das campainhas
que me espantavam
na hora da elevaçao

católico não serei não
mas hei-de ter meu latim

******

Velório
Jairo Lima

Era um filme engraçado
de gordo e magro, não sei
era quarta-feira santa
e havia certa altivez
nos campanários e nos bichos
insetos carnívoros
roiam-lhe o rosto
desgosto nas chagas em ruína
urina
sob a manhã hipotética
apoplética
sopra vida em deus de barro
canário
solto nos trinos
divino gozo, divino
eras cinzas quaresmais
e no retângulo da sala
inscrevia-se o morto
chorado desgosto
picadeiro aflito
exibindo gemidos
de viúvas
era tarde e a cena admirava
aos que comiam bolacha
com café e amargura
e cadê a televisão
pra perguntar à viúva
como ela via
a apatia
e se saía
no jornal das oito
a notícia deste dia
a agonia da hora
e agora
os minutos
perdiam sentido
e minavam gemidos
pelo reboco da sala
onde só o coração
de jesus
posava
com olhar indiferente
à gente da casa
mas a hora mais aflita
ainda estava por vir

senhor são serafim
atendei aos miseráveis
agora
e afastai aquela hora
da nossa morte amém

a carne cortada em postas
ao som de um sino grave
era benzida
rezada
e comida pelo padre

afasta de mim este cálice
de sangue coagulado
ultrajado
senhora das ladainhas
virgem santa, virgem minha
ave maria
santinha
que subiu aos céus
agarradinha ao meu esposo

lamento
que estes gritos se percam
pra dentro dos muros
e deles não fique registro
suplício
maior suplício
é morrer
e perder
nem que seja
a visão destas paredes
da sala
e essa luz que alumia

que morto não tem valia
maior suplício é perder

******

Povos
Jairo Lima

Os povos vermelhos
inventam deuses irados
cheios de raios trovões
de fúria incandescida
(estes são os povos
dos apriscos)

os povos azuis
inventam deuses compassivos
que com eles se perdem nos caminhos
(estes são povos tresmalhados)

os povos verdes
não inventam deuses
que inventem medos e culpas
(estes são mais divertidos)

******




11000000101000001000100010001000100010001111111110001000100000001010101010101010110000001111000010100000111111111000100011110000
FOLHA DE ROSTO
JAIRO LIMA
LINKS
CONTATO
ANTOLOGIA