Chapeuzinho Vermelho Jairo Lima
Numa bela tarde ensolarada de Natal (1) uma bela mocinha de sociedade, usando um belo chapeuzinho vermelho, adentrou (2) no shopping para comprar preservativos e um livro de Paulo Coelho. Após sair da farmácia, dirigia-se à livraria quando avistou uma velha Intelectual-de-Shopping sentada no chão frio do mall arrodeada de livros. - Vovó, admirou-se a mocinha, vc deve ser uma intelectual. - Não se precipite, queridinha, todo ser humano usa o intelecto portanto tenho dúvidas se existem mesmo intelectuais, ensinou. A mocinha, ainda mais admirada com tão profunda inteligência, perguntou: - E como se chama então uma pessoa que vive cercada de livros? - Isto é relativo. Livros são apenas papeis pintados. Não estou bem certa de que existam livros. - E shopping, existe? - Shopping é um comércio e comércio tem também no Alecrim (3) e lá não se chama shopping. Tudo é relativo. Aí a mocinha queimou feio (4). - Ora, porra, e se eu puxasse uma peixeira e lhe cravasse no peito, isto também seria relativo? - Claro, meu amor, se um jornalista perguntasse ao Tarso Genro, após o meu assassinato, se estava aumentando a violência no shopping ele diria que não, que está tudo dominado, sendo o meu passamento um pequeno e normal efeito residual das tensões sociais. E acrescentaria: vamos abrir um inquérito para apurar se o suposto homicídio ocorreu mesmo no suposto shopping e foi praticado por uma suposta mocinha com um suposto chapéu vermelho que ia comprar um suposto livro do suposto escritor Paulo Coelho. Tudo, tudo é relativo. Deixa que aí a mocinha se emputeceu e puxando uma peixeira afiada (5) cravou-a até o cabo no coração da velha Intelectual-de-Shopping que estrebuchou, enrijeceu, suspirou e morreu. Imediatamente chegou o pessoal da limpeza que recolheu o corpo, lavou o sangue, aspergiu bom-ar e deixou tudo limpo como antes. Aí a Justiça concedeu a nossa heroina o status de refugiada política, considerando o móvel ideológico do crime. E ela fundou uma ONG que só no ano passado recebeu 3 bilhões de reais do governo.
Moral da história: Uma coisa é certa: crime é relativo mesmo.
Notas: 1) A cidade, não a festa. 2) Expressão obrigatória na crônica esportiva e policial, como é o caso deste trágico relato. 3) Bairro de Natal. 4) Antigo provérbio potiguar. 5) Não é verossímil que uma mocinha de sociedade saísse de casa armada com uma peixeira, mas deixa pra lá.
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O velho sábio chinês Jairo Lima
Certo dia, quase à hora de abrirem-se as portas do shopping, apresentou-se ao segurança um velho sábio chinês que lhe falou deste modo: - Diz-me, jovem ocidental, porque te pões a guardar uma porta fechada?(1) Se ela não franqueia o acesso a quem quer sair ou entrar, porque te interpões entre ela e os que, como eu, se avizinham do shopping? - Esta é uma questão, grande Mestre, sobre a qual não me é dado comentar, pois tenho por obrigação indeclinável obedecer aos meus superiores. A estas palavras o velho sábio se inclinou profundamente diante do segurança, juntou as mãos sob a barbicha que lhe adornava o queixo e rezou antigas orações. Neste momento se ouviu enorme estrondo de mãos batendo na porta metálica entre gritos desesperados de socorro. -Abram, sou um intelectual(2), passei a noite trancado no shopping e estou morrendo de fome. O segurança mais que depressa levanta a ruidosa porta e um Intelectual-de-Shopping , exânime e ensangüentado, lança-se nos seus braços e desfalece. Diante disto, o sábio chinês nem se toca, cofia a barba e sorrateiramente se esgueira para dentro do shopping vazio, sem que o segurança perceba. E lá dentro vive vinte profícuos anos de meditação e recolhimento (3).
Moral da história: Para o sábio mais vale um Intelectual-de-Shopping com fome do que dois na praça da alimentação.
Notas:
(1) Vejam só a onda do malandro.
(2) Notem que ele não acrescenta “de shopping” , prática, de resto, comum e compreensível entre os Intelectuais-de-Shopping, sempre em busca de respeito e admiração, embora para o Segurança, note-se também, isto não faz a menor diferença: intelectual é tudo a mesma merda.
(3) Como ninguém percebeu? O pessoal achava que ele era motoboy do China-in-box.
Corpus da pesquisa:
Cardápio do China-in-Box Tourist Guide Descubra os encantos da China Porta Aberta de Vicente Celestino, gravação RCA Victor 78 rpm Press release da Globo sobre a nova novela (sic) Caminhos da China. Best-seller Construa o seu mundo em qualquer parte do mundo de Edmund O'Brien.
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Parábola do Filho Pródigo Revisitada. Jairo Lima
Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: -Pai, dá-me a parte da herança que me cabe. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para um shopping e ali dissipou sua herança em lanchonetes, butiques, jogos, cinemas, lan-houses, self-services, livrarias e outras devassidões. Um dia, saudoso, foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando o seu pai o viu, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: - Pai, torrei a grana e estou na pior. Já não sou digno de tua consideração. Mas o pai disse: - Que nada, você arrasou na Ana Maria Braga, filho, e estou muito muito satisfeito com a bufunfa que investi em você. Disse então aos servos: - Ide depressa ao shopping e trazei o melhor hamburger, roupas das melhores etiquetas, bebidas, mulheres e sapatos de marca. Pois este meu filho vivia anônimo e se tornou celebridade; estava perdido e pela mídia foi encontrado! E começaram a festa. Seu filho mais velho estava na biblioteca. Quando voltava ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: - É teu irmão que voltou e teu pai organizou a maior farra. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai: - Há tantos anos eu te sirvo, sou estudioso, sério, culto e nunca me deste um Logan para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que se tornou um Intelectual-de-Shopping, devorou teus bens frequentando encontros de escritores, vernissagens de dondocas, blogs de futilidades culturais e se tornando curador de bienais, e para ele fazes esta festa! Mas o pai lhe disse: - Filho, tu és esforçado e sério, tens quinze livros escritos, doutorado, currículos de duzentas páginas, os cambau, mas não és famoso nem apadrinhado. Mas teu irmão, que mal sabe ler, vai ser entrevistado no Jô Soares e aparecer no BBB. Então, fica na tua, Mané. E vê se não me torra o saco!
Moral da história: Em terra de shopping quem tem Lacoste é rei.
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Rebelião no shopping Jairo Lima
Encontraram-se no mall de um grande shopping center uma cigarra, uma formiga e um Intelectual-de-Shopping . Por ali se apresentava também, numa banca colorida, um domador com o seu circo de pulgas. Ora, ao ver o minúsculo trio os olhos do domador brilharam de cobiça. E ele resolveu incorporar a cigarra a formiga e o Intelectual-de-Shopping ao seu liliputiano show. Logo ume pequena multidão se formou, todos portando lupas alugadas pelo esperto comerciante, para ver o inusitado espetáculo. As pulgas, como de praxe, saltaram. A cigarra, como de praxe, cantou. A formiga, como de praxe, fez acrobacias num barbante que figurava um galho de árvore. A platéia delirava. Até que o Intelectual-de-Shopping, como de praxe, declamou. Então a multidão, enfurecida e entediada, rompeu em altos brados: dá-nos, Domador, as pulgas, as cigarras e as formigas. Mas afasta este outro ser minúsculo e desprezível do nosso show.
Moral da história: Shopping não é lugar para intelectual.
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Pequena fábula exemplar à maneira do Zaratustra de Friedrich Nietzsche Jairo Lima
Um dia um elefante afastou-se do seu circo, e do picadeiro do seu circo, e foi-se para o shopping center. Lá desfrutou de restos de lanche e pipocas sem se cansar durante largos anos. Variaram, porém, seus sentimentos e um dia contemplando os corredores apinhados de gente veio-lhe a saudade da pátria e de suas savanas e desejou de novo a ampla e silenciosa solidão dos descampados. Foi então que dele se aproximou um Intelectual-de-Shopping e falou-lhe mais ou menos desta maneira. Grande animal, que podes ver sem inveja até um mall demasiado grande, que seria dos teus dias se não tivéssemos te acolhido generosamente em nosso bioma? Todos os dias acercavamo-nos de ti, tomavamos-te o superfluo e te enchiamos de guloseimas. E assim, besta e homens, nos divertíamos. Abençoa-me, pois, olho afável e revela ao meu espírito incansável na busca da mais profunda verdade a fábula em cujo contexto te inseres. Ao que o doce paquiderme retrucou: Ora, não conheces, por acaso, a fábula do elefante e da formiga? É a ela que pertenço. Não, respondeu o Intelectual-de-Shopping, e como estudioso insígne da cultura não posso me contentar com tua declaração, pois ao espírito perquiridor só a demonstração convence e sacia. Seja, pois, exclamou o elefante. E, levantando a majestosa pata, esmagou o nosso herói que se transformou numa poça de sangue e de vísceras que logo foi recolhida e lavada pelo pessoal da limpeza. E a grande paz retornou ao shopping.
Moral da história: Lê com afinco e vontade para que nenhuma fábula te escape.
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O farmacêutico. Jairo Lima
Quis o destino, que tudo comanda e dispõe, que um Farmacêutico e um Intelectual-de-Shopping se encontrassem no mall de um grande shopping center. Logo que avistou o Farmacêutico, o Intelectual-de-Shopping dele se aproximou exclamando: - Agradeço aos deuses que te puseram no meu caminho, ó homem sensato. Aqui está o meu último poema experimental para que o leias. O Farmacêutico desdobrou respeitosamente o papel que lhe apresentavam e leu o poema sem proferir palavra. Em seguida, enrolou a xerox como se fora um manuscrito do mar morto e o devolveu ao Intelectual-de-Shopping dizendo: - Agora que li o teu poema experimental, ó iluminado, prova do meu remédio experimental. E entregou-lhe um pequeno frasco com uma poção esverdeada. O Intelectual-de-Shopping bebeu a droga, caiu morto e foi retirado do mall pelos funcionários da limpeza.
Moral da história: Quem com experimentalismo fere, com experimentalismo será ferido.
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A raposa e o shopping Jairo Lima
Passeando (deambulando) pelo shopping, um intelectual-de-shopping viu uma uva verde sobre uma frondosa raposa, num dos cantos mais afastados, longe das praças de evento e de alimentação. - O que faz esta uva fora da praça de alimentação?, perguntou o intectual -de-shopping, com ar severo, para a raposa. - Ora, respondeu a Astuciosa, não seria mais estranho encontrar uma raposa num shopping? - Tudo normal, tudo dominado, falou o intelectual de shopping, e retirou-se preocupado, triste, deprimido, exclamando: - Uvas fora da praça de alimentação! Onde é que este shopping vai parar?
Moral da história: multiculturalismo serve para raposas, mas não para uvas.
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Parábola edificante. Jairo Lima
Dois músicos se encontraram na praça de eventos de um shopping. O primeiro tocava violino e o segundo pandeiro. -Que é que você veio fazer aqui? - Vim tocar as partitas de Bach pra violino no shopping para provar que não sou elitista. E você? - Vim tocar meu pandeiro no shopping para levar minha arte à elite. Nisso entrou um intelectual de shopping - entrou na conversa, claro, pois ele já estava no shopping - e falou, embevecido: - Fundam-se, fundam-se! Aí o segurança, que era um homem do povo, pegou os três e os expulsou do shoppping.
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O elefantinho e a formigona Jairo Lima
Ora, um dia no shopping uma formiga falou dessa maneira para o Elefante. - Chefia, dá para se retirar do recinto? O lugar que você ocupa serviria para uma colônia de esforçadas formiguinhas. - Em que tanto vocês se esforçam? - Ora, a gente procura alimento, leva para o formigueiro que fica num cantinho do muro do shopping, come, dá comida à Rainha, retira os elefantes da área e phode a rainha que gera mais formiguinhas. Já você vive de lembranças, pensamentos e mitos, ocupando o espaço dos mais produtivos. Chega de tirar onda de animal superior, genial, capacitado a perceber a psique e os surtos comportamentais. - Tem razão, falou o Elefante. E se retirou tão cabisbaixo e pensativo que, sem sentir, esmagou cento e vinte e nove formiguinhas, inclusive a que tinha acabado de falar com ele.
Moral da história: Formigas podem ser predadoras de elefantes. Mas, há sempre o inseticida.
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Duchamp e as moscas Jairo Lima
Ao fim de penosa labuta a Moça da Limpeza preparava-se para verter o conteúdo do enorme saco preto do lixo no depósito principal do shopping, quando ouviu um pavoroso clamor que se aproximava. - Pare em nome de Duchamp! A Moça, muito assustada voltou-se tão abruptamente que despejou todo o conteúdo do saco no chão imaculado e brilhante. - Deixe como está, deixe como está, berrava o Intelectual-de-Shopping . Você acabou de criar uma instalação. Isso que jaz aos seus pés é pura arte, não se mexa, não se coce, não se atreva. - ??? - Usar lixo na arte tem um significado estético e ético. Você criou uma grande obra num momento específico. A Moça foi na onda do ready made, deixou o lixo onde estava, a carniça tomou conta, moscas sorriam e voavam e aí o administrador, vendo aquela milacria, mandou botar o lixo no lixo e a Moça no olho da rua.
Moral da história: shopping não é bienal e quem disso não cuida acaba mal.
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O Lobo e a Ovelha Jairo Lima
Ora, bem ao pé da escada rolante havia uma fonte cujo repuxo, muito alto e esquio, criava marolinhas na água azul do pequeno lago de paredes de mármore do shopping. Lá, um impetuoso lobo bebia da água azul e clorada, fazendo com os beiços e a língua aquele som nauseante que só os lobos e Jack Nicholson sabem produzir porque não tiveram mães que lhes ensinasse a se comportar à mesa. Nisso, acercou-se uma mansa ovelha que, guardando distância prudente do temível predador, pôs-se também a beber. Deu-se o estresse clássico, com o lobo xingando a ovelha de poluidora dos ares, das terras, das fontes, dos mares. Ora, respondeu timidamente a ovelha, estou apenas utilizando um recurso natural que está a disposição de todos os viventes. Observe, disse o lobo com implacável retórica, que esta é uma fonte artificial de shopping, não podendo pois ser confundida com um recurso natural. Tá bom, falou a ovelha, conciliatória, e dirigindo-se à uma mesa, chamou o garçom e pediu uma água mineral com gás. A história terminaria aí se o temível predador não se dirigisse à tímida ovina*, exclamando: Desculpe, querida, mas por uma questão de identidade cultural, postura ideológica e consistência intelectual, vou ter que devorá-la. Dá licença? E já ia escancarando a bocarra quando a lanuda pediu-lhe, com um gesto de mão, que esperasse um pouco e, abrindo o seu notebook wireless escreveu um artigo para o caderno de cultura do seu jornal. Clicou no send, sorriu para o lobo, baixou a cabeça e foi devorada sem pressa, como num ritual.
Moral da história: Como diz a moça da limpeza, Jornalista-Cultural-de-Shopping e Intelectual-de-Shopping bebem na mesma fonte. E a gente é que tem que dar conta da bagunça.
* A mulher do ovino. Tá certo?
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Foucault no shopping Jairo Lima
Ora, um grupo alegre de Intelectuais-de-Shopping reunia-se próximo à praça da alimentação quando um deles, subitamente acometido de uma terrível dor, vai ao chão e roga, aos gritos, que os companheiros chamem uma ambulância para conduzí-lo a um hospital. Mas logo se levantam vozes discordantes:
- Foucault merece ser ouvido nesse quesito! brada um.
- Você merece respeito como Intelectual-de-Shopping, mas para discutir a reforma da medicina precisa de um pouco mais de conhecimento.
A esta altura o pobre Intelectual-de-Shopping que jazia no chão começa a sangrar pelo nariz e a vomitar sangue. Mas a interessante polêmica prosseque.
- É preciso que vc saiba, companheiro que hospitais e presídios são instituições de mesma natureza, destinados, exclusivamente, a retirar de circulação os não-sujeitos que são vistos como nocivos à sociedade.
- Você é um não-sujeito, camarada! Qualé? Te liga, porraloka.
- Além disso, persisto em ver nos doentes seres humanos e cidadãos - irmãos e semelhantes.
E o nosso Intelectual-de-Shopping agoniza entre as doutas citações, e num último e inútil brado de socorro morre e é levado para o caótico mundo exterior pela turma da limpeza. Cessa a polêmica e a paz volta a reinar no shopping.
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