PAPO FURADO by Jairo Lima
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Banca do Antonio Nahud Jr
Banca do Fernando Monteiro
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Laélio Ferreira
Banca do Marcos Silva
Banca do Pietro Wagner
Banca do Ronald Guimarães
Banca da Sonia Bierbard
Banca da Yerma Magalhães
 

Exercício inútil
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Fala sério! Que danado se passa na cabeça de um candidato em vésperas de eleição? À luz (luz?) de alguns indícios e circunstâncias, fiz o exercício (inútil, reconheço, absolutamente inútil) de perscrutar, para tentar penetrar no âmago de sua mente e especular sobre suas convicções e motivações, nem sempre saudáveis nem minimamente razoáveis ou lógicas, para conquistar votos.
Esta semana, eu tava na cama depois do almoço, curtindo uma gripe daquelas de nariz entupidaço, tosse seca, febre e astenia até na alma, depois de uma noite pessimamente dormida, quando passou a porra de um carro de som por baixo do meu travesseiro. Passou, não. Parou. E ficou lá, repetindo até encher o saco, a todo volume, um jingle insuportável, com o nome e o número de um candidato a deputado, ilustre desconhecido (não sei quem inventou essa asneira de desconhecido ser ilustre, mas o fato é que quando a gente diz ou escreve “desconhecido”, o “ilustre” se oferece para antecedê-lo).
O que se passa na cabeça do sacripanta candidato (ou candidato sacripanta) para azucrinar o juízo do eleitor? Óbvio, pô! Sacanear com a gente. “Como esses sacanas não vão mesmo votar em mim, eles vão ver o que é bom pra tosse...” (e se o cidadão estiver resfriado quiném eu tava, terá, mesmo, sucessivos acessos – de tosse e de raiva).
E as convenções partidárias, hein? São piores ainda. Teve uma aqui perto de casa no final de junho. Mas, quem sou eu pra reclamar? Nas redondezas existem pessoas mil vezes mais incomodáveis. São vários hospitais e escolas, além de milhares de residências (com velhinhos, crianças, bebês e gente talvez mais doente do que eu com meu modesto resfriado). “Então, vamos soltar fogos! Muitos fogos! De estouro, claro. Uma salva de quinze em quinze minutos, durante todo o dia. E quando o candidato chegar, no final da tarde, a apoteose: dez minutos de ininterrupto bombardeio”. Isso, para infernizar a vida dos moradores e de quem trabalha ou estuda por aqui. E em relação aos transeuntes, nada? “Tudo! Vamos estacionar mais de cem ônibus nas cercanias. Isso deve ser o bastante pra dar um nó no trânsito de toda a região. Nossa convenção será inesquecível.” E foi.
Como você vê, é fácil sacar o que se passa na cabeça dessa gente. Outro dia, dei-me à pachorra de contar o número de painéis, um encostado no outro, todos do mesmo candidato, na calçada de uma avenida: 36. Isso, trinta e seis painéis, um colado no outro. É ilegal. Mas e daí? “É a repetição da mensagem que consolida o voto”, diz o capadócio candidato, com impudente convicção.
Aliás, os candidatos (e seus marqueteiros) repetem lendas na esperança de que, com a repetição, se tornem verdades. Uma delas, atribuem a Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do 3º Reich de Hitler (como se vê, os caras tentam se inspirar em gente da melhor qualidade): “De tanto repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade”. Não foi bem isso que disse o nobre colega. Mas, “Uma grande mentira sempre tem certa credibilidade”. Desde que verossímil, pertinente e aderente, obviamente. Pode-se repetir um milhão de vezes que borboleta é ave que ninguém vai acreditar. Todo mundo sabe que “borboleta só é ave na cabeça da mulher”, como diz o frevo de Capiba. Agora, se repetirem por aí que Paulo Maluf passou pelo Mercado de São José e roubou uma porrada de frangos, é verossímil; ele já roubou frango antes (da merenda escolar, lembra?). E por isso mesmo tá inelegível; é, finalmente, reconhecido oficialmente como ficha suja, imunda, podre.
Goebbels era um camarada perverso, mas não era bobo de afirmar uma bobagem como essa de que mentira repetida vira verdade. O rapaz conhecia teoria e prática da comunicação como gente grande.
Daqui a 26 dias, felizmente, acaba o período da propaganda eleitoral e a vida no Recife volta à sonoplastia normal: carrocinhas e bicicletas vendendo CD pirata com o som nas alturas, locutores de lojas fazendo pregão nas calçadas, música ao vivo em bares localizados em bairros residenciais, carros com caixas de som na mala e picapes, na carroceria, alto-falantes em igrejas evangélicas e, claro, carro de som anunciando a mais nova porcaria ao lado da sua casa, com preços de lançamento: “Aproveite!”

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Pano rápido
Joca Souza Leão

Implicância

Graciliano Ramos não tolerava grã-fino metido a culto.
Num evento literário no Rio, um bacana desavisado o chamou pelo microfone para compor a mesa que presidia os trabalhos:
“Gostaríamos de convidar o escritor Graciliano Ramos para vim(sic) sentar aqui conosco”. O velho
Graça não perdoou:
— Diz aí que eu não posso im.

Lenda

O judeu Adolfo Bloch, dono da Manchete, uma das principais revistas de circulação nacional nos
anos 60 e 70, dizia qu’essa história de Deus ter protegido o povo hebreu era pura lenda.
— Se quisesse proteger, tinha mandado a gente pra Suíça. E não pro deserto.

Os dois lados

Quando a Ponte Rio - Niterói foi inaugurada, perguntaram a Max Nunes o que ele achava da obra:
— Por um lado, é muito boa; por outro lado, é Niterói

Companhia

Já contei aqui algumas histórias de Zé Areia, o barbeiro que faturava uma grana extra vendendo bicho
de estimação para os americanos da Base Aérea de Natal durante a IIª Guerra Mundial. Aí vai mais uma.
Zé vendeu uma arara cega. Quando o galego foi reclamar, ele ponderou:
— Míster, essa é uma arara pra fazer companhia. Se o senhor queria uma pra levar ao cinema, devia ter
avisado.

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Tal pai, tal filho
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Tenho dois filhos: João e Joana. João tinha quase quatro anos e, Joana, quase dois. Cheguei em casa do trabalho à noitinha. Os dois estavam molinhos, febris e com um pouco de disenteria. Sueli, mãe cuidadosa e diligente, já tinha ligado pra Hiltinho (Hilton Cunha Jr., pediatra e meu amigo de infância), que tinha prescrito “soro caseiro e observação”.
Como sempre, os dois vieram pra minha cama. Joana com duas chupetas (uma pra chupar, outra pra cheirar) e João trazendo uns livrinhos de história pra eu contar. Não cheguei a contar nem a metade da primeira. Súbito, os dois começaram a vomitar. A diarreia aumentou. E a febre virou febrão.
“Nesse caso – tinha dito Hiltinho – levem os dois direto para o IMIP! E me telefonem de lá.” Sueli entrou debaixo do chuveiro de água fria com Joana e eu entrei com João, até baixar a febre. Partimos para o IMIP com os dois enrolados nas toalhas.
Quando Hiltinho chegou, 15, 20 minutos depois da gente, os dois já estavam recebendo os cuidados médicos preliminares; soro instalado e temperatura sob controle.
Antes de examinar e medicar, Hiltinho mandou colher as fezes pra fazer a cultura em laboratório. “Mas não vamos perder tempo. Vamos começar com o antibiótico imediatamente. Isso é shigella e salmonella das brabas”. (Quando o resultado da cultura chegou, tava lá, com todas as letras: Salmonella enterica e Shigella dysenteriae. Na mosca!). Três dias depois, estavam de alta. Em nenhum hospital pediátrico privado teriam sido mais bem tratados. Nem mais rapidamente curados. Hiltinho tinha sido aluno de Fernando Figueira, o fundador do IMIP, e o tinha como mentor.
Ainda jovem, Fernando Figueira já era professor catedrático de Pediatria da Faculdade de Medicina do Recife (depois, UFPE). Professor visitante nos Estados Unidos e em Paris. Livros e trabalhos publicados. Médico de renome. Tinha uma grande clientela particular; que podia ter sido maior, muito maior. Bastava ter se dedicado apenas e tão somente à medicina privada. Mas fez justamente o inverso. Fez o IMIP. Uma obra enorme, gigantesca, à qual dedicou boa parte de sua vida e de suas energias, até sua morte em 2003, aos 84 anos.
Não há o menor exagero em afirmar que Fernando Figueira salvou – e continua salvando – milhares e milhares (ou milhões?) de crianças pernambucanas pobres ao longo dos 50 anos do IMIP. “Não por caridade, mas como resgate da dívida social que nós, privilegiados, contraímos com nossos irmãos,” dizia ele.
Por isso, quando Antônio Carlos Figueira, filho de Fernando, disse que ia restaurar e ressuscitar o Hospital Pedro II, quase em ruínas, após 28 anos de abandono, ninguém ousou duvidar. Tal pai, tal filho.
Daria menos trabalho, por certo, construir um novo hospital. Vertical. Mais um espigão na cidade. Mas, não. Foi pelo caminho mais difícil. O da restauração arquitetônica minuciosa, supervisionada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Acho que nunca se fez uma obra de restauro tão grandiosa e rigorosa em todo o Norte e Nordeste, em todos os tempos. O resultado é simplesmente monumental, emocionante.
Com o Pedro II (inaugurado em 1861), Antônio Carlos resgatou, também, a paisagem do Recife. E a história da medicina em Pernambuco. “Aqui, os médicos procuravam se qualificar para ganhar a vida, ao contrário do que ocorre atualmente, quando se tenta primeiro ganhar a vida”, disse Carlos Moraes, falando em nome das várias gerações de médicos que ensinaram, estudaram e praticaram medicina nos mais de cinquenta anos do Pedro II como hospital-escola.
Restaurado e moderno, com equipamentos e tecnologia de última geração, o Pedro II está de volta; agora, como hospital-escola da Faculdade de Medicina do IMIP.
Dezenas de empresas, centenas de políticos e milhares de pessoas acreditaram, contribuíram e trabalharam para restaurar e ressuscitar o Pedro II. Mas uma pessoa, apenas uma, sonhou e realizou o sonho: Antonio Carlos Figueira.
No dia em que meus filhos tiveram alta, há trinta anos, tornei-me um modesto contribuinte do IMIP. Até hoje. Até sempre. Depois de mim, meus filhos, meus netos...

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Deu branco
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Todo cronista que se preza (não precisa nem se prezar muito, basta se prezar mais ou menos) prefere não escrever sobre o que todo mundo já falou ou tá falando. Tirando a chamada crônica especializada (política, policial, esportiva), primeira página de jornal (eleições, goleiro Bruno, seleção de Mano Menezes...) geralmente não pauta o cronista. A não ser que ele tenha uma visão do fato absolutamente original, inovadora, fantástica e surpreendente.
Quase todos os cronistas já usaram suas crônicas para se queixar de falta de assunto. Até Machado de Assis: “Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor!”
Como tem feito um friozinho aqui no Recife nesses dias de agosto, bem que eu poderia tentar: “Que frio! Que friozinho arretado!” Pelo menos pra começar. E, depois, ver que bicho ia dar. Aí, poderia falar da fondue de queijo e do vinhozinho que tomamos no terraço daqui de casa outro dia (teve até gente com pulôver), falar da gripe que peguei (e ainda tô com ela, braba), apesar de estar vacinado contra as duas, a suína e a comum.
Às vezes, o branco vai se chegando como quem não quer nada, paira sobre os pensamentos da gente, atormenta um pouco, ameaça e vai embora. Mas outras vezes, não; ele, o branco, chega pra ficar. E se instala logo. Senta bem na sua frente. E fica lhe encarando, olho no olho, com sua brancura cínica e demente. “Daqui não saio, daqui ninguém me tira.” E você não consegue pensar em mais nada. Só nele. No branco. E se juntar com os sintomas da gripe, então, sai de baixo. De Q.I. de macaco, o camarada despenca pra Q.I. de lontra.
Cada um deve ter seus macetes contra o branco. Sobretudo quem escreve e tem dia e hora para entregar seus escritos. Não digo que tenha um manual. Mas um roteirinho de procedimentos que ele conhece de cor e salteado. O contista Dalton Trevisan, mesmo, vai buscar seus personagens e motes nas páginas policiais e de anúncios classificados dos jornais. “Por que não?”, pensei alto. “Se serve para o conto, que dirá para uma modesta crônica?”
Fui ávido atrás dos cadernos Classificados do JC de domingo. Os pequenos anúncios do correio sentimental, mensagens, orações, detetives, massagistas e acompanhantes seriam minha salvação contra o branco, pensei. Não foram. Os motes não deram glosa. Vai ver que o que é bom para o conto não é bom para a crônica. É isso. Uma questão de gênero. Apesar de se permitir a ficção, a crônica, ao contrário do conto, sempre está ancorada na realidade, no cotidiano. Não apenas o mote. Mas o todo. O dia a dia é da sua natureza, do seu conteúdo.
Já quanto à forma (da crônica ou de qualquer outro gênero literário), “deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras (...) fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. A receita é de ninguém menos que Graciliano Ramos, numa entrevista em 1948.
Pra quem pensa que escrever é moleza, recomenda o escritor maranhense José Carlos Brandão: “Vai lavar roupa na beira do rio pra ver se é fácil”.

Em tempo: O Hospital Pedro II foi reinaugurado, após três anos de um trabalho monumental de restauração. (Deveria servir de paradigma pra quem tem a cara de pau de chamar reforma de restauração e de tratar o patrimônio histórico e arquitetônico como se fosse outdoor publicitário). Geraldo Pereira, em crônica aqui no JC, lembrou que o prédio do Pedro II, que é da Santa Casa, quase virou shopping center; “uma mania agora em Pernambuco”. E por falar nisso, o prefeito João da Costa disse, numa entrevista ao JC, que até hoje a Santa Casa não apresentou à Prefeitura os documentos que comprovam a propriedade da Tamarineira.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Pernambuco em Toledo
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

João Cabral de Melo Neto nos contou num poema como encontrou Pernambuco em Málaga. Eu conto aqui, numa crônica, como encontrei Pernambuco em Toledo.
Foi em dezembro de 76. Dezenas de ônibus de turismo, alguns de dois andares, estavam estacionados próximos à estação do trem que nos trouxera de Madri. Súbito, no exato momento em que eu passava por um deles, abriu-se a porta. De dentro, soou uma grande, enorme, gargalhada. Não era “gargalhada de rapariga”, como nos versos de Alberto Caeiro (“Riu do que disse quem não vejo”); era gargalhada de homem. Grave. A plenos pulmões, diria Maiakóvski. Alegre. Mais: esfuziante! Não tive a menor dúvida. “É Pernambuco gargalhando para o mundo”. Duas gargalhadas iguais? Impossível! Mesmo que o mundo fosse grande, dez, vinte vezes maior, não se ouviria duas iguais. Nem parecidas. E aquela, eu, desde menino, conhecia-lhe o dono.
Tentei subir no ônibus. A guia da excursão me barrou. Foi quando a gargalhada soou ainda mais alta. Em vez de exercitar meu modesto portunhol, disse-lhe em inglês: “Didn’t you hear? It’s Pernambuco calling me up.” Ela não entendeu lhufas. Mas me deixou subir. No primeiro andar, só tinha japonês. Subi pro segundo. Lá no fundo, nos últimos assentos, em meio à gente com cara de conhecida, estava ele, o dono da gargalhada: Jorjão. Jorge Carneiro da Cunha. Ele e Rose. Era Pernambuco, com o que tinha de melhor, na Espanha. Em Toledo. Que grande encontro! Que grande abraço! E do riso fez-se o pranto viniciano.
Jorge era o Chefe da Casa Civil do Governo Arraes quando estourou o golpe militar de 64. Foi morar em São Paulo. Gostou do exílio. E se deu bem. Ganhou dinheiro como advogado e cultivou amigos. Muitos. Alguns (como Aluízio Falcão, Euriquinho Andrade, Fernando e Sílvio Jungmann, Garibaldi Otávio, João Alexandre Barbosa, João Guerra, Antônio Carlos Cintra do Amaral e Ivanildo Porto) levou daqui, também exilados; outros (como Paulo Vanzolini, Carlinhos Vergueiro, Carlos Paraná, Carlos Alberto Felizola, Lucio Gregori, Jorge Hori e Marcos Pereira) fez por lá. Há quase dez anos não o via. Nem lhe ouvia a gargalhada.
Cinema de Arte no São Luiz, sábado de manhã, aí pelos anos 60 e tanto. A luz apagou. Alguém tossiu. Eu disse: “Conheço essa tosse.” Minha namorada duvidou: “Era só o que faltava, conhecer tosse...” Por via das dúvidas, tossi de volta. E a tosse, a original, tossiu respondendo. E assim, fomos tossindo. Um tossindo e o outro respondendo; até que descobri onde meu irmão Caio (o dono da tosse) e Sônia estavam sentados. Fomos sentar junto.
Outro dia, eu estava num restaurante italiano na Domingos Ferreira, sentado próximo à porta, quando entraram um casal e um camarada alto e gordo. Não consegui vê-los de frente. Quando me dei conta, já tinham passado pela minha mesa. Achei que conhecia o camarada gordo. Pensei: se chamar pelo nome e ele se virar, ótimo; se não, é porque não é ele. Arrisquei: “Ricardo Jorge! Reconheci você pelas costas”. E ele, antes de se virar: “Joca Souza Leão! Reconheci você pela voz.” Sabe quem é Ricardo? Filho de Jorjão e Rose. Mora em São Paulo desde 64. Durante todo esse tempo, tínhamos nos encontrado poucas vezes.
“A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado nele”, disse José Arcádio, pela pena de García Márquez, antes que a terra de Macondo abrigasse o corpo do primeiro Buendia morto. Sete gerações lhe sucederam.
A gente também não é de um lugar, digo eu, enquanto não é capaz de lhe reconhecer as gargalhadas, as tosses, as vozes e os amigos. Esses, até de costas.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Rabo de conversa
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Às vezes, a gente ouve um rabo de conversa, fica sabendo o começo de uma história, mas não sabe do fim; noutras, fica sem saber o começo, porque, quando se chega, o papo já tá nos finalmente. Não sei o que é pior. Se história sem pé ou história sem cabeça.
Outro dia, fui visitar meu amigo Chico Mendonça no Hospital Português. Caminhando. Quando passei na pracinha que fica logo depois do Spettus, na Agamenon, um técnico em telefonia (acho eu), trabalhava no alto de um poste. Em baixo, segurando a escada, o colega lhe anunciou em alto e bom som: “Rapaz, minha sogra é de lascar. Sabe qual foi a última da coroa?” Com uma introdução dessa, eu não podia perder. Estanquei na hora. Pra minha curiosidade não dar muito na vista, agachei e refiz os laços dos tênis. “A desgraçada caiu dentro da caixa d’água. Quando minha esposa veio pedir ajuda para tirá-la de lá, não resisti: ‘Bota a velha pra quarar, minha filha!’” – e deu uma gargalhada daquelas, a la Jorge Carneiro da Cunha.
No elevador do Edifício Zykatz, no Cais José Mariano, onde trabalhei por quase dez anos, ouvi a seguinte conversa entre dois homens de paletó e gravata, na faixa dos quarenta anos. “Soubeste de Paco?” “Não! O que houve?” “Ele pegou a sacana da mulher dele em flagrante com o vizinho.” “E daí?” E daí que os dois homens saíram do elevador no primeiro andar, deixando a história sem final (tipo: continua no próximo capítulo, no Dia de São Nunca). Não tive dúvida. Pedi a Edson, o ascensorista, para, quando os homens descessem, perguntar sobre o desfecho do caso. No final do expediente, fui cobrar de Edson. “E aí?” “E aí que Paco se deu bem; mandou a mulher embora e casou com a irmã dela, seis anos mais nova.”
Por conta de um rabo de conversa, o pintor José Cláudio me disse que achava que tinha salvo uma vida. Aliás, uma, não; duas. Uma ia ser assassinada. E a outra, a do assassino, ia penar na cadeia.
Zé pegou um táxi no centro da cidade para ir ao dentista, Romildo Souza, em Piedade. Quando estava na metade do caminho, o motorista, um homem já entrado nos sessenta, cara saudável e bem afeiçoado, atendeu o celular com voz pausada e mansa: “Você sabe muito bem que só há um jeito de um homem limpar a sua honra”. E desligou o telefone. A história ia ficar por aí, sem começo nem fim, se Zé não tivesse percebido a gravidade do que acabara de escutar. E deu a deixa: “Tá com algum problema, amigo?” Era tudo que o motorista queria e precisava ouvir, para contar sua história desde o princípio.
“Desculpe, mas eu sinto que posso confiar no senhor. Estou em vésperas de cometer um desatino. Tenho um romance com uma moça desde que ela tinha dezesseis anos; hoje está com vinte e oito. Ela sempre soube que eu era casado. Dei-lhe tudo do bom e do melhor, nunca lhe faltou nada. Casa, comida, roupa lavada; até um carrinho, comprei pra ela outro dia. Agora, veio com uma conversa de que quer casar e ter filho. Aí tem! E um homem não pode ser traído e deixar por isso mesmo.” Zé o interrompeu: “Quem foi que deu ao outro tudo do bom e do melhor? O senhor, que comprou o que deu a ela, ou ela, que lhe deu os melhores anos de sua juventude?” O motorista ficou em silêncio. Zé continuou: “A vida está lhe dando a oportunidade de agir como um homem de verdade. Não perca essa chance. Retribua parte do que você recebeu. Procure saber o que ela precisa para ser feliz. Dê o enxoval do casamento, a casa que ela mora e tudo mais que o senhor possa dar.” Silêncio absoluto. No final da corrida, o motorista se recusou a receber: “Se alguém aqui deve alguma coisa, sou eu que devo ao senhor”.
Os jornais não noticiaram o casamento da moça. Mas, também, não estamparam em manchete: “Taxista mata a amante e é preso”.
Quem disse que em briga de homem e mulher não se deve meter a colher?

Joca Souza Leão é publicitário e cronista

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Casa-grande & burrice
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Derrubaram a casa-grande do Engenho São Bartolomeu, em Jaboatão. Derrubaram, não. O dono derrubou. E Dr. Marcos Albuquerque disse que considerava a demolição “um crime”.
Dr. Marcos é professor de História e chefe do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco. Ele pode dizer o que pensa. Eu, não. Corro o risco de ser processado, como já fui. Ou melhor, continuo sendo; das quatro ações movidas contra mim, duas continuam rolando há quase quatro anos (simplesmente porque eu disse o que pensava: pintar imóveis históricos como se fossem outdoors publicitários é crime comparável ao de pichação). Não deveria, portanto, dizer mais o que penso. Mas digo. Concordo com Dr. Marcos: a demolição da casa-grande do Engenho São Bartolomeu foi um crime! Nessa casa, Dona Rita de Cássia de Souza Leão Bezerra Cavalcanti criou o Bolo Souza Leão, oferecido a Dom Pedro II e Dona Tereza Cristina em 1859 (conforme História dos Sabores Pernambucanos, de Maria Lectícia Cavalcanti, editado pela Fundação Gilberto Freyre o ano passado).
Foi-se a casa-grande. Ficou parte da senzala. A ignorância foge de tombamento como o diabo foge da cruz. Qualquer pessoa minimamente informada – não precisava nem ser culta –, saberia que o tombamento do conjunto, casa-grande, senzala e ruínas de um engenho do século XVII (1636), valorizaria a sua propriedade. Além do valor comercial, somar-se-ia o valor histórico. Mas ganância misturada com ignorância dá uma combinaçãozinha desgraçada. “Vamos derrubar logo essa porcaria, antes que tombem.”
E sabe pra que o cidadão derrubou a casa? Construir galpões, disse ele. Isso. Construir galpões. Numa propriedade de não sei quantos hectares, esse foi o único lugar que o cara encontrou para construir galpões. Poderia ganhar dinheiro com os dois, a casa-grande e os galpões (esses, longe da casa, evidentemente). Mas o gênio empreendedor preferiu ganhar com um só. E assassinar a história.
Nos anos setenta, aluguei um carro com um casal de amigos e viajamos por quase toda a Grã-Bretanha: Inglaterra, País de Gales e Escócia (menos Irlanda, porque o IRA, na época, tava com a gota serena, explodindo bomba a torto e a direito). Um mês na estrada. No Lake District, em Wales e nas Highlands, nos hospedamos única e exclusivamente em casas-de-fazenda: bed & breakfast (cama e café-da-manhã). As fazendas em plena atividade.
Em Gales, ficamos numa casa do século XIII, construída com blocos de pedra aparentes, abundantes nas pedreiras da região. Aliás, tudo por ali era construído com aquelas pedras escuras. Até cercas de demarcação de propriedades, pequenas pontes e beiradas de estradas. Como nos filmes do Rei Artur e seus Cavaleiros da Távola Redonda. O dono da casa (e da fazenda, consequentemente) nos disse, com seu senso de humor galês: “Hospedo como um cortês e ganho dinheiro como uma cortesã, na cama”.
Alguns fazendeiros nos confessaram ganhar mais com suas camas do que com os negócios da fazenda. E outros admitiram ser um bom complemento, sobretudo nas entressafras de suas lavouras e criações.
Mas ninguém precisa ir tão longe. No interior de São Paulo, Rio e Minas, as casas restauradas de velhos engenhos, usinas e fazendas estão se transformando em belas hospedarias. E as casas-grandes dos barões do café, em hotéis de cinco, seis estrelas. Enquanto isso, a gente aqui joga uma pá de cal na história.
Sabe o que disse Einstein no dia em que tirou aquela foto estirando a língua? “Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira”.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Bye-bye vuvuzelas
Joca Souza Leão

Fiz um teste. E vi que a maioria das pessoas não se lembra da Copa de 98. Nem onde foi (pra você não perder tempo nem gastar fosfato, digo logo: foi na França, gente boa). Aos poucos que lembravam, perguntei se recordavam de algo importante. “Sim, a cabeçada de Zidane”, responderam de bate-pronto dois dos meus entrevistados. Errado! A cabeçada (ou marrada) foi oito anos depois, na Copa da Alemanha.
Minha conclusão é que daqui a quatro copas, em 2026, quem se lembrar de alguma coisa desta Copa na África do Sul vai lembrar apenas das vuvuzelas. E como, felizmente, a moda não vai pegar, ela será lembrada apenas como a primeira e única copa do zumbido enlouquecedor. Nem da bola, a Jabulani, vão lembrar. Eu não sabia, mas elas têm nome há muito tempo: Telestar, Tango, Azteca, Questra e Tricolore foram nomes de bolas. Quem lembrava?
Algumas coisas desta Copa, no entanto, mereciam não ser esquecidas e, até, tomadas como lição. Quem sabe, poderão ser úteis à seleção brasileira em 2014. Ou mais adiante.
A primeira lição foi dada pelos uruguaios, que se classificaram na peinha de nada, repescados. Ninguém dava nada por eles. Mas fizeram bonito. Jogaram com a velha garra celeste. E Forlán ganhou o prêmio de melhor jogador da Copa. Apesar de perderem pra Alemanha e ficarem em quarto, o povo uruguaio se reconheceu em campo. E teve motivos de sobra para se orgulhar dos seus jogadores. Por isso, os recebeu com festa. Festa justa e merecida.
Muito diferente do que se viu por aqui. A seleção brasileira voltou com o rabo entre as pernas. Envergonhada. E a decepção do torcedor, a meu ver, não foi apenas com a derrota. Mas, também, porque o brasileiro não se reconheceu na sua seleção, não se viu em campo.
Na manhã do dia do jogo com o Brasil, os holandeses foram passear na praia e conversar com jornalistas. Enquanto isso, os brasileiros, proibidos de falar com a imprensa, permaneciam no seu campo de concentração cinco estrelas.
À noite, Sneijder foi lá e fez seus dois golzinhos. Depois, foi celebrar com os companheiros. E bater uma pelada (com suas mulheres e namoradas). Como dizia Neném Prancha, filósofo e roupeiro do Botafogo: se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma. (Essa lição, só Dunga e Kim Jong-il, da Coreia do Norte, não sabiam).
Cada um deve jogar como sabe e gosta. Com seu jeito e temperamento. Assim jogaram, soberbos, os espanhóis. Como jogam no Barça. Toque e posse de bola. Placares magros, nunca mais que dois. Permitiram-se, até, um tropeço, mas num momento em que ainda era possível tropeçar sem ser eliminado, na fase de grupos. E La Fúria Roja finalmente chegou. Viva Iniesta, o craque! Viva Vicente Del Bosque, el maestro! Viva a Espanha!
Pra mim, no entanto, a grande lição desta Copa nos foi dada pelo jovem futebol alemão. No time de Joachim Löw, nove jogadores tinham menos de 22 anos. Não foi por acaso que Mueller, 21, ganhou o prêmio de jogador revelação. O primeiro jogo dele pela seleção alemã foi contra a Argentina, num amistoso, em março deste ano. Garoto abusado. Já na Copa, aos três minutos, meteu logo um gol em cima dos mesmos argentinos. Com todo respeito. E foi o artilheiro alemão.
Enquanto isso, alguém dizia por aqui que não dava pra arriscar. Arriscar o quê, Branca de Neve? Neymar e Ganso estavam simplesmente engolindo a bola. Tivesse Neymar jogando na Alemanha e fosse naturalizado, Joachim, que não é burro, o teria levado pra África na hora. Craque não se dispensa. Como Feola não dispensou Pelé com 17 anos.
O fato é que nós gostamos e sabemos jogar na linha, no ataque, driblando, dando pitu e fazendo gol. Como Julinho, Garrincha, Pelé, Coutinho, Tostão, Romário, Bebeto, Rivaldo e os dois Ronaldo, Fenômeno e Gaúcho.
Beque é bom no time do adversário, pra gente entortar. Beque como treinador? Vade retro, satanás!
P.S.: Ricardo Teixeira falou em renovação. Que tal começar por ele próprio? Mas se começar por Leonardo como técnico, já é um bom começo.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

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Pano rápido
Joca Souza Leão

Primeira-dama

A mãe do escritor Humberto Werneck liga de Belo Horizonte para o filho em São Paulo e dá a
boa notícia: “Humbertinho, seu pai foi nomeado diretor do Zoológico.
Bão, né? Mas teve uma coisa que eu não gostei.”
“Do que, mãe?”
— Ser primeira-dama do Zoológico, ué!

Solução

O primeiranista de Direito Hypólito Fonseca tomou um porre federal na zona, no Bairro do Recife. Dia amanhecendo, pegou um táxi pra Casa do Estudante, no Derby. Quando chegou, verificou que todo o dinheiro que tinha somava míseros dez mil réis. E a corrida tinha dado treze. Apelou pro motorista:
— Só tem um jeito. O senhor dá três mil réis de ré.

Plantar ou criar?

A certa altura da vida, o jornalista e escritor Nilo Pereira resolveu ser fazendeiro.
Comprou uma propriedade no agreste, levou um agrônomo e passaram o dia percorrendo a
gleba a cavalo. De noite, depois do jantar, acenderam os charutos no terraço da casa-grande
e, como o agrônomo permanecesse calado, Nilo lhe perguntou:
“E então, doutor, plantar ou criar?” O agrônomo respondeu:
“Criar”. E só. Nilo tornou a inquiri-lo: “Criar, mas criar o quê?”
O agrônomo respondeu o nome de um animal que, no
Brasil, naquela época, só existia no jogo do bicho:
— Avestruz, que é o único bicho que come pedra.

Biografia

O poeta paraense Jayme Ovalle e o pernambucano Manuel Bandeira estavam atravessando a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, quando Ovalle viu que um carro se aproximava em disparada.
Puxou Bandeira pelo braço:
— Corre, qu’esse aí já nos viu! Você já tem biografia, mas eu, não.

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