PAPO FURADO by Jairo Lima
Banca do André Laurentino
Banca do Antonio Nahud Jr
Banca do Fernando Monteiro
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Laélio Ferreira
Banca do Marcos Silva
Banca do Pietro Wagner
Banca do Ronald Guimarães
Banca da Sonia Bierbard
Banca da Yerma Magalhães
 

A platéia que aplaude
François Silvestre

Quando você fala mal dos corruptos, os corruptos lhe aplaudem. Porque eles não se sentem elencados. E assim o fazem os ladrões, os burocratas e os picaretas de todas as tonalidades.
Cada um se sente o observador da carapuça do outro. E conserva o cocuruto descoberto.
Quando você fala mal dos eleitores venais, o mundo vem abaixo de tanta palma. Ninguém se acha vendedor do próprio voto. Mesmo com a quitanda exposta ao sol da praça, escangalhada no furdunço do mercado.
Quando você se inclui no rol da patifaria, recebe a solidariedade cândida e generosa dos colegas.
Tem mais mentira num carro de som, que passeia sem pedir licença nas veredas dos meus ouvidos, do que num romance do realismo mágico.
Tá na praça. Tá na igreja. Tá no palanque. Tá no banco. Tá na loja. Tá no palácio. Tá no tribunal. Tá no blog. Tá no jornal. Tá na televisão. Tá no alpendre da minha casa. A mentira é a sombra que nos segue. E quando falta a luz de fazer sombra, ela se incorpora feito tatuagem.
A mídia é o ancoradouro da frota que alça aos ventos o miasma de intestinos podres. Panarício social. Quando abre uma fresta ao sarjar da crítica, escancara a janela toda ao pus do carnicão.
Viva o tempo da mentira. Todos os tempos também o foram. Mas anteontem era o tempo da mentira carroçável. Ontem, o tempo da mentira analógica. Hoje é o tempo da mentira digital. Basta estirar o dedo. E mantê-lo estirado. Haverá sempre alguém que o mereça.
O nazareno silenciou sobre a verdade ante a provocação de Pilatos. Os políticos silenciam sobre a mentira ante a provocação da história.
Certa vez, no Jeca, cruzamento da Ipiranga com São João, Mário Quintana disse que a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer. Depois essa frase virou verso de um poema que consta da sua obra. Ele era assim. Fazia poesia numa conversa banal, com a mesma naturalidade com que uma criança monta e desmonta o universo.
Será que as verdades da nossa história simplesmente deixaram ou se esqueceram de acontecer?
Será que o nosso poder público é uma verdade que só acontecerá no futuro? Em que futuro? Longe? Perto?
Não peço que mintam menos. Pelo contrário. Estou me abastecendo de mentira política para exercitar minhas mentiras literárias. E escrever romances.
Indispensável na literatura, a mentira é a melhor verdade. Esquecida na política, a verdade é a pior mentira.
Foi pra isso que duas gerações se deixaram consumir de exílio, tortura, morte, censura? Foi pra isso?
Foi pra isso que morreram, sob tortura, operários, estudantes, intelectuais, religiosos? Velhos e adolescentes. Foi pra isso que desapareceram corpos que nunca mereceram o enterro comum dos mortos?
Foi pra isso? Pra essa democracia beiçola de caçuá? Té mais.

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A era Lula.
François Silvestre

Publicado no “Novo Jornal” de Natal RN

Não adiantar espernear. Lula configurou uma era, queiram ou não. Diferentemente de JK, está empenhado na feitura do sucessor. Não é o mesmo Lula de São Bernardo, nem da Praça Craveiro Lopes. O Lula do Paço Municipal era outro; que se preparava para ser o exterminador do futuro e ninguém sabia. Só ele e Golbery do Couto e Silva. Nem o cardeal Paulo Arns, conhecedor das conversas do general com o metalúrgico, conseguiu decifrar o Lula daquele tempo. Nem Lula se conhecia.
Como estava dizendo, JK não se interessou pela sorte das eleições de sua sucessão. E esse desinteresse acabou por destruir as aspirações de voltar à presidência. E desaguou na pior de todas as ditaduras, que fez da de Vargas uma imagem pífia.
A desculpa de que Lott não venceria Jânio nem com o empenho de Juscelino, não procede. Mesmo sendo verdadeira a assertiva. O problema residia na escolha de um bom candidato. JK sabia da impossibilidade de ganhar com Lott. Mas poderia ganhar com outro. Inclusive fazer uma aliança com a UDN e impedir a candidatura de Jânio, que era mal visto pelos udenistas não lacerdistas. Lacerda bancou a chapa janista, na convenção. Teve dificuldade. Se o governo dá uma mãozinha, o candidato seria outro. E outro seria o resultado.
Mas JK queria voltar, em 65, como candidato da oposição. Seria imbatível. E praticamente abandonou a campanha. Ele e Lacerda pagaram com preço da morte política.
Lula faz diferente. Aprendeu com a História. Não quer devassa do seu governo feita por governo adversário. Aposta todas as fichas na eleição de Dilma.
A sorte de Lula, no futuro, fora do seu controle, dependerá de Dilma. Ela não me parece uma pessoa conformada em ser a costela de Adão. Leva jeito de dar rasteira até na serpente. Quando estiver naquela cadeira, nêgo se segure. A velha e surrada luta da criatura contra o criador.
Se eu estiver errado, também dependerá dela a sorte de Lula. Precisará fazer um excelente governo, sob pena de jogar nele o desgaste de um governo ruim. E aí será o paraíso desmascarado que expulsará Lula para o ocaso em Node, ao oriente do Éden. Se houvesse bolsa família quando Lula era garoto, em vez de metalúrgico teria sido apenas um cachaceiro de botequim. E o Brasil não teria a era Lula. Essa lição de Laurence Nóbrega é um achado.
Nossa estabilidade social é sustentada na esmola. Um mendigo faz mal a si mesmo. Uma nação mendicante faz mal à humanidade. Nunca sairá da pré-humanidade.
E aceita viver sem educação, sem saúde, sem segurança, sem cultura. As alternativas são desanimadoras. É o passado se oferecendo como opção. Na disputa, não há futuro. É o presente não convincente contra o passado que não convenceu.
Lula aposta no futuro que ele pensa ter edificado matando Getúlio, sepultando Jango e pondo flores no jazigo de Juscelino. Té mais.

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Traquinagem e adivinhação.
François Silvestre

Publicado no “Novo Jornal” de Natal RN

O engenheiro Ângelo da Costa, vulgo Costa de Luiz Lino, disse certa vez que descobrira a minha real ideologia. Após assistir a alguns capítulos do “Bem Amado” de Dias Gomes, que a televisão popularizou, Costa não teve mais dúvidas. “Você é um Esquerdista Cervejista”. Pronto. Tava aí a definição mais próxima da verdade que mereceu minha ideologia. Analogia da jenipapança.
Dia desses, ele me telefonou para lembrar uma lição do matuto, meu tio, Zé Suassuna de Alencar. “Seu Zé me disse, numa tarde distante de Umarizal, que a adivinhação é prerrogativa dos velhos e a traquinagem é direito das crianças”. Repetiu o texto integral: “velho que não adivinha tá bom de morrer e menino que não traquina precisa de médico”.
Tudo para falar de festas e dores da velhice. Foi dito que a única alternativa para a velhice era a morte. Portanto, não é apenas saudável gostar de ser velho. É o único jeito de adiar a despedida. Como definiu a mulher do filósofo: A vida é um demorado adeus.
Quanto mais demorar melhor. Só que a alegria apressa o tempo. E o sofrimento o alentece. Taí a encruzilhada. Se for feliz, o tempo voa. Enquanto a dor amarra os ponteiros.
Duas horas numa festa não dura cinco minutos. Dois minutos sob tortura atravessa o século.
Dos tempos da traquinagem, cada criança carrega consigo um baú de lembranças. E elas se grudam feito tatuagem no matulão da memória.
Não há velho que não carregue uma criança para esticar as rugas do peito. Que o faz, na ante-sala do sono, sentir o cheiro de uma mareta de açude. Cá no sertão. Nas cidades, as lembranças são outras. Se bem que lembrança de menino é como casa de avó; só existe uma. E todas estão no mesmo endereço.
Das traquinagens experimentei todas. Ou quase todas. Das imitações dos adultos, das mentiras cadentes, das safadezas e ritos que inventam prazeres e descobrem o sexo.
Mas havia o confessionário para purgar as culpas. Tudo até a Sexta-Feira. Semana de sacanagens. No Sábado, a confissão. O padre alemão, geralmente reprimido, demorava perguntando os detalhes das bronhas ou do troca-troca. No Domingo, o corpo de Cristo. A hóstia feita de finíssima película de trigo, que se dissolvia na língua antes do sabor atingir o paladar.
À saída da igreja, o corpo leve. E a promessa feita diante da imagem da Conceição de que aquela seria a última penitência paga. Não pecaria nunca mais. Como era bom carregar o corpo maneiro. Só faltava voar.
Segunda-Feira, pela manhã, os primeiros encontros com a turma da bola de meia e das gaiolas. Discussões, palavrões. Na Terça-Feira, o corpo com saudade do peso. Voar uma ova.
O banho da tarde já cobrava o trabalho da mão. Fazer o quê? Era preciso arranjar assunto para o confessionário. Té mais!

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Meu candidato.
François Silvestre

Publicado no “Novo Jornal” de Natal

Esperei o debate para ouvir os pretendentes e escolher o meu candidato. Mas antes de falar sobre a escolha, devo tecer alguns comentários.
Será “pussive” que num há uma gramaticazinha “dispunive” pros candidatos ou assessores nesses tempos goolgosos do assassinato diário da nossa pobre “fulô do Lácio”?
Dilma aprende português com Lula. Serra aprende com Mão Santa. Marina aprendeu tarde, faz estágio com Gabeira. Plínio esqueceu.
Dilma mentiu, Serra mentiu, Marina disse num disse e Plínio tirou sarro. Saudade de Brizola, Maluf, Jânio, Montoro, Requião, Covas. Debate era aquilo.
Não acredito no PSDB, nem PT, nem PV, nem Psol. O DEM ainda vive? O PMDB é uma alcatéia. Foram-se PSD, PTB, UDN, PCB e PDC. Antigos e mortos.
No Brasil, a seriedade nunca foi companheira dos partidos políticos. Nem dos ditos ideológicos. Partido político, no Brasil, é como o papasebo; põe no ninho que encontrar. Nunca faz o próprio ninho.
Cada dia que passa consolida a convicção de que o Senado é uma instituição obsoleta, inútil, trancadora do processo legislativo e balneário de políticos “cansados” das “obras” feitas nos seus estados. Que levam consigo parentes e empresários ricos nos penduricalhos das suplências. O sistema unicameral é uma exigência dos novos tempos.
E não é de agora não. Já era assim nos tempos de Rui Barbosa e Pinheiro Machado. Uma tenda de califas no acampamento de Brancaleone. Só haverá reforma política confiável com a extinção do Senado.
Mas voltemos ao meu candidato. Ele disse que só vamos trabalhar doze dias no ano. Mas não falou em férias.
Disse que vai para a cadeia quem arrancar mata pasto. Mas não falou em aroeira.
E ao fim do governo dele, ninguém possuirá mais de um hectare de terra. Cajuais da Serra tem 3,9 hectares. Meu latifúndio vai perder mais de dois hectares. Esse candidato é doido varrido. Gente de juízo, como eu, gosta de doido. Num é coleguismo não. Voto nele.
Plínio de Arruda Sampaio. Será parente de Cassiano? E transformar aquela belíssima casa de Nova Cruz, onde a Prefeita dona Joanita despachava na janela, num Comissariado do Povo.
Plínio é o único jovem dessa campanha. O resto tudo é velho. São velhas e enrugadas as promessas. O Lula das manifestações de São Bernardo e dos comícios da Praça Craveiro Lopes não existe mais. Sobrou o Lula dos encontros secretos com Golbery do Couto e Silva, para minar ou destruir o trabalhismo getulista. Esse era o pavor da UDN. Os udenistas não tinham medo de Stalin, temiam Getúlio. Borravam-se de medo do caudilho populista. Lula nasceu em Brasília. Pois foi lá onde ele lançou pela primeira vez um olhar inteligente sobre si mesmo. Não é essa a lição de Marguerite Yourcenar? Aprendeu a técnica mineira da política. Não precisa mentir. Basta não dizer a verdade. Té mais.

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François Silvestre escreve a ópera de Patu
Jairo Lima

Li Esmeralda – Crime no santuário do Lima - de um fôlego. Melhor: de dois fôlegos, já que uma viagem interrompeu a leitura que retomei avidamente ao retorno. E acho que esta é a experiência por que passarão inapelavelmente os que, como eu, se embrenharem na prosa vertiginosa desta novela de François Silvestre.
Como na feira de Caruaru alí “de tudo o que há no mundo (...) tem pra se ver” 

Desde apelo de vingança no leito de morte:

Compi, o figlio, qual d'un Dio,
compi allora il cenno mio
Sino all'elsa questa lama
vibra, immergi all'empio in cor,
vibra, immergi all'empio in cor!*

Até o tesão fulminante que não respeita o espaço sagrado de um santuário:

Invano un Dio rivale
s'oppone all'amor mio
non può nemmen un Dio,
donna, rapirti a me,
non può rapirti a me!*

Ou o juramento solene de vingança transferido de mãe para filha:

ma rimaneva la maledetta
figlia, ministra di ria vendetta!...*

Tem ciganos, vendettas, paixões fulgurantes, tragédia, juramentos, danças, facas, facas, facas, arrebatamento, machismo, buena dicha, fogueiras, altares e a impetuosidade lírica de Il Trovatore, a ópera “cigana” de Verdi.

Chi del gitano i giorni abbella?
La zingarella!*

E, no livro, a zingarella é a arrebatadoramente bela cigana Esmeralda, pivô da tragédia
.
A ópera se encena no santuário do Lima, em Patu, RN, e conduz a trama num continuum de paixão e drama.

Se o freguês quiser.

Se não quiser, não faltarão outros ingredientes, menos épicos mas não menos exóticos e estimulantes. E, certamente, mais populares.
Imagine o leitor destas linhas o consórcio improvável de uma Agatha Christie, criminóloga, e um Jorge Amado, bocetólogo emérito, e terá uma idéia do que o espera nas 249 páginas desta narrativa plena de mistérios e sacanagem da braba.

De um lado Aghata, intricando os fios, cosendo para descoser mais adiante, adiantando pistas insuspeitas, construindo um detetive fora do estereótipo do gênero: tímido, deselegante, desengonçado, fedorento de suvaco e raparigueiro de hábito e convicção. Um Hercule Poirot do semi-árido. Mas que, do seu ancestral belga, traz o desprezo pela pesquisa de pistas no local do crime; a investigação toda construída na observação psicológica e no raciocínio abstrato.

De um outro lado, o lado Amado, se assim posso dizer, o livro é um grande painel de bocetas, pau duros, trepadas, punhetas, esporros, gala, gala, gala tanta e em tal profusão que ...
A história se passa num mundo onde o Viagra amargaria o seu único insucesso mercadológico no Planeta.

Ali não há espaço para o prosaico. Ninguém lê um livro, lava uma roupa, compra um litro de feijão, troca um dedo descompromissado de prosa com a vizinha ou simplesmente toma tento na massaranduba do tempo. Não.

Ali mulher dá e homem come. 

E nada de beijinhos. Em toda trama só há um beijo. Na mão da cigana Esmeralda. Neste universo em que só o Padre é, obviamente, pedófilo e ama os coroinhas, não há tempo para sussurros líricos, noites enlunadas, dálias, suspiros, íntimas confissões.
Do jeito que os gregos gostavam de fazer em suas tragédias. Com menos boceta, é claro, mas com a mesma e feroz determinação.
Eu, de mim, gostei. E recomendo.

Homem é homem, deus é deus, cão é cão. E François é o cara.

* Do libreto de Il Trovatore de Giuseppe Verdi

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O animal gratuito.
François Silvestre

(Publicado no Novo Jornal de Natal RN)

A principal conseqüência da abolição da escravatura não foi de natureza social, mas antropológica. Deu ao negro uma condição que era apenas do branco e do índio. Isto é, após a Lei Áurea o negro passou a ser também gratuito.
Integrou-se ao conjunto da conceituação de Otto Lara Resende.
A partir daí o único animal humano exposto à venda é o eleitor. Procura-se uma lei de lata para ele.
Mas há um problema: o eleitor não quer a abolição da sua escravatura. A eleição é a feira onde ele se põe à venda. E esse negócio tem muitas faces ou variadas relações de troca.
Há o que se vende por uma passagem, uma receita médica, uma catraca de bicicleta, um terno de time, uma conta de luz, um bujão de gás. Esse é o venal que nem sempre entrega a mercadoria. Isto é, nem sempre vota no comprador. Ou vende várias vezes o mesmo voto. Dizem os próprios que o voto vai para o último que comprar. Por isso é de bom alvitre deixar para comprá-lo na véspera ou no dia. O “líder” municipal é peagadê nesse balcão. As madrugadas da véspera viram uma feira livre, de motos e carros, dentre compradores e fiscais dos já comprados.
Há o vendedor de “boiada”. “Líder municipal”, que vende o pacote.
Há o que se vende por uma benfeitoria aparentemente de interesse público, porém de utilidade pessoal. O calçamento de uma viela onde há cinco casas e todas pertencentes ao mesmo proprietário. Um poço em terreno público, próximo apenas de um único sítio. Um poste com luminária que clareia somente a mansão da esquina. Esse é o venal nobre. Não há cheiro do zinabre nas mãos.
Há o venal por emprego. Esse tem várias faces. O emprego pode ser para ele próprio ou para outrem do seu interesse. O carente de emprego nem sempre tem prestígio suficiente ou acesso ao candidato. Vale-se da força de um padrinho; que pode ser um cabo eleitoral, um “líder” comunitário ou até mesmo um figurão da vida social.
Há o leitor barato; que se vende pela simpatia do candidato, pela vaidade de ser lembrado, pelo discurso bonito ou até pela crença das propostas. Tô nesse time. Mas confesso que o meu voto vale tão pouco, que se eu tivesse necessidade, o venderia por um pão doce com caldo de cana. Ou por uma tapioca do Chapinha, com mate gelado, dos tempos da fome na Casa do Estudante.
Não tiro a razão dos vendedores de voto. Não. Eles são a cara da nossa democracia cidadã. Da nossa legislação de faz de conta. Dos nossos paladinos públicos e privados.
Salvar o que resta das matas, pra quê? Da cultura, pra quê? Da dignidade, pra quê? É preciso manter a patifaria para garantir o emprego dos moralistas. Catedrais da hipocrisia.
E quem nada puder fazer de útil pela vida pública, que o faça na privada. Té mais.

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De Ricardo Lemos

Caro François;

Boa noite e bom frio de agosto, coisa rara e boa.
Já te disse o quanto gostei de Esmeralda. E gostei tanto que indico, reendico
e adotei como presente para amigos e leitores exigentes por esse país afora.
Tenho espalhado Esmeralda com muito prazer e uma ponta afiada de orgulho.
Mas o bom é que os que recebem aderem ao espalhamento e assim vai Esmeralda
espalhando nosso sertão. Agora mesmo, de partida para uns dias em SP levo dois
no matulão. Ambos a pedidos e como encomendas recomendadas com o peso e
o valor de presentes do dia dos pais.
Deu trabalho pra achar. Na Siciliano, depois de correr olho nas prateleiras, recorri
a atendente que afirmou haver em estoque. Não achando, recorreu ao computador.
E confirmando o estoque zero estranhou e disse;
- ...estranho. Era para ter; a moça trouxe muitos da última vez.
Respondi que adorei a informação e acho que ela não entendeu, porque sai mais
satisfeito do que se tivesse achado. Fui achar na Banca da Afonso Pena e trouxe
os últimos. Senão ia o meu mesmo...
Bote Esmeralda na rua, amigo, que é mercadoria fina, rara e deliciosa.
Mas vou te deixar em paz, torcendo pro Sr. parir logo outro mimo pra nós.

Abraços e inté a cerveja que nos devemos - com o mestre Lau, de preferência.

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A falsa promessa.
François Silvestre

Publicado no “Novo Jornal”

Uma das bobagens litúrgicas mais pomposas do catolicismo é aquela promessa feita no ato do casamento. “Amar até que a morte nos separe”. Já foi dito que a morte não separa ninguém, quem separa é a vida. Porém não é aí que está a falsidade da promessa. Ninguém pode prometer o que não possui. E ninguém tem controle ou posse dos sentimentos. A ninguém foi dada a escolha dos afetos. Nem sua duração ou intensidade.
Lembra a origem romana das obrigações contratuais. E o casamento é um contrato. Seja profano ou religioso.
A primeira regra contratual ou cláusula de obrigação tem no “pacta sunt servanda” sua sustentação. Isto é, após o contrato você vira servo do que foi pactuado. Cláusula rigorosa que não alcança alterações da realidade, aquelas que não consultam a vontade do pactuante.
Ora, ninguém pode se obrigar a cumprir acerto de prestação futura, cuja realidade seja modificada sem a interferência dos contratantes. Isso é comum nas obrigações contratuais das colheitas, por exemplo. Ou que dependam de imperativos naturais, sociais ou econômicos.
Foi por isso que nasceu a cláusula circunstancial do “rebus sic stantibus”. Onde o cumprimento do contrato de prestação futura ou sucessiva depende da manutenção das condições postas à época pactuada ou da obrigação estabelecida.
Ao trazermos essa assertiva para o campo do casamento, contrato especialíssimo, cai como chapéu em cabeça de bêbado a inevitável comparação.
Alguém pode prometer amor eterno? E se prometer, pode cumprir? O amor da manhã nem sempre é o da tarde. Há quem ame até à morte a mesma pessoa? Há. Mas isso está no campo das possibilidades. Não na certeza do contrato. E pode acontecer sem necessidade da promessa. Nem das igrejas. Ou dos cartórios.
O maior pilar de sustentação das igrejas cristãs não é a fé, nem a caridade, nem a piedade. O que as sustenta é a culpa. É em torno da culpa e da administração dela que vivem as igrejas católicas e evangélicas. Sem exceção. Umas negociam a salvação da alma. Outras, a melhoria do corpo. Todas a vender lotes no céu. E a bolsa de valores oscilando na esperteza entre as ações e valorizações das prebendas que estabelecem a redução das culpas pela troca de indulgências.
Chega à memória a cena de Giovanni Mastai Ferretti, o Pio IX, escondendo sob a sotaina o menino judeu expropriado da família, para ser transformado num padre sem vocação. E em decorrência, num homem infeliz.
A culpa produz medo e o medo gera infelicidade. As igrejas e seus próceres sabem disso. E apostam na infelicidade das pessoas para vender abrigo na fé.
Agem como os consultores políticos e empresariais, que tomam os relógios dos clientes para lhes informar as horas.
Tava falando de quê? De pacto. Ih, acabou o espaço. Té mais.

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Ficha suja, cara limpa.
François Silvestre

Não sei de onde se tirou essa história de ficha limpa da sociedade. Todo mundo agora é paladino da ética. É tanta pureza e limpeza que chegam a ofuscar os olhos dos santos.
Não há político ficha suja que tenha chegado ao poder por conta própria. Todos chegam lá e lá permanecem por obra e graça de todos nós.
Quem fez de todos eles os donos do poder? Nós. Sociedade e “povo” somos os avalistas da ficha suja. Somos os seus patronos. Fomos nós que colocamos e mantivemos no poder Adhemar de Barros, Moisés Lupion, padre Godinho, Antônio Carlos Magalhães, Zé Sarney, Jáder Barbalho, Collor, Renan, Jereissati, Mão Santa, Roberto Jeferson, Zé Dirceu, Paulo Maluf.
A primeira ficha suja é do eleitor. Ingênuo ou venal. A cidadania de meia-sola e democracia de meia-tigela.
Todo mundo tira uma lasquinha. Mecânicos de carro, de eletro-doméstico, pedreiros, profissionais liberais, comerciantes, industriais, religiosos, taxistas, autônomos, flanelinhas, empregados domésticos. Onde anda a ficha limpa?
Nas igrejas, balcões de fazer grana. Nos jornais, o interesse político partidário escancarado. As televisões frutos de concessões pela via do tráfico de influência. Indústria e comércio sob suspeita do comprador e vigilância da sonegação. Nem os rótulos merecem crédito. Os estudantes ingressam nas faculdades de olho no mercado. A cara limpa do nosso aprendizado matou a vocação. Os provedores da ética, no serviço público, motivam-se pelo contracheque.

Essa gente que comanda o poder é a outra face da nossa cara. Somos cúmplices. E hipócritas.
Lembram da promotora pública que era o terror da delinqüência? Na vida privada retirava crianças de um abrigo de adoção para torturá-las em sua casa. Aquele promotor que era a encarnação de São Francisco? Após a descoberta de sujeiras na biografia, sumiu. O pastor que proibia os fiéis de irem ao cinema, pois tudo era coisa do demônio, foi apanhado num esquema brabo de pornografia. Todo moralista carrega uma penumbra que esconde os defeitos apontados nos outros.
Agora, é a “sociedade como um todo”, essa expressão cretina, que vira puritana. Aqui, ó.
Cá, na paquidermia, quem é o responsável pelos vinte e cinco anos de poder do trio iraquitim? Quem os elegeu? Nós. Eu votei em todos eles. Posso cobrar pureza com pose de autoridade moral? Não posso. Posso fazer autocrítica. Um governo eficiente faria em quatro anos o que eles não fizeram em vinte e cinco.
Tenho lido e ouvido sermões éticos de gente que não resiste a uma oportunidade. Mas os moralistas são exigentes e ventosos. Ao cobrarem pureza os buracos do nariz viram boca de trombone. Tudo falso, sonso, mentiroso.
A expressão “falso moralismo” é uma redundância. Não há moralismo honesto. É uma deformação da moral.
O Brasil só tem ficha limpa na geografia! Té mais.
 
******

Meu irmão e mestre Jairo
.

Uma delícia o seu texto sobre versões, agressões e variações de obras alheias, principalmente na música erudita. Recentemente sacanearam o Dicionário do Folclore de Cascudo. O que já era ruim, ficou pior. Mas me permita, sem data vênia, meter a colher onde não fui chamado. No texto em que você dá uma aula sobre as vulgarizações que tem sofrido o Bolero de Ravel, chama os incautos de filisteus. Sem procuração da Filistéia, nas costas da Palestina, ouso lembrar que essa adjetivação nasce de uma sacanagem semântica do judaísmo, convalidada por não menor patifaria do cristianismo. O filisteu era um povo como outro qualquer. E tal qual qualquer povo, um armazém de qualidades e defeitos. Fizeram menos mal à humanidade do que seus detratores da Judéia. Talvez por falta de oportunidade, mas isso não exclui o fato histórico. Com o abraço do tamanho da beleza simples do Bolero de Ravel.

O irmão, François.

P.S: Essa irmandade não é templária.

• Grande François, foi maus, meu irmão, mas o fato é que eu não sabia do que estava falando. E agora você me esclareceu. Na verdade, li esta palavrinha, no sentido pejorativo que lhe atribuí naquele texto, na adolescência, num livro chamado "Mentiras Convencionais da Nossa Civilização" de um caba chamado Max Nordeaux e entendi que filisteu era todo mundo que gostava de dupla sertaneja, josé sarney, pintura de preto velho, igreja universal e  paulo coelho. Fui leviano e porisso te devo uma cerveja com gosto de pamonha, ou melhor duas, estupidamente geladas.

JL


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Jairo, fale com
o intelectual do lúpulos, porque estão botando milho no lugar da cevada. E a gelada tá com gosto de pamonha.

Abraço de François.

É phoda: tu, que és um operário da literatura, ser engabelado por um intelectual do lúpulos qualquer. Ainda bem que é gosto de pamonha, pior se fosse de ração de galinha. Argh!

JL


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