Papo Furado by Jairo Lima
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Banca do Antonio Nahud Júnior
Banca do Chico Guedes
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do João da Mata Costa
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Leonardo Neves
Banca do Márcio de Lima Dantas
Banca do Marcos Silva
Banca da Sonia Bierbard


Banca da Sonia Bierbard
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Desmantelo Azul
Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.

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Horas temporais
Sonia Bierbard

Para Jairo Lima

Mergulho nas manhãs
de relâmpago
fisgando
acontecimentos
que anoitecem
poemas
torrenciais
escorrem
pelo corpo
com suas sílabas em revoadas
tingindo de frases
nossa transpiração
seus olhos
num vendaval
paralisam o tempo
já não precisamos
das horas
e suas nuvens
de adivinhação.

( do livro Linguagem Submersa)

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Homenagem pela morte de José Saramago


" Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca".
José Saramago in pag. 26 Ensaio sobre a Cegueira

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Saudades e retalhos
Fátima Quintas

Não faz tanto tempo que convivi com o poeta e amigo Mauro Mota. Parece que foi ontem, tal a vividez com que o conservo na lembrança. Eu era apenas uma adolescente à procura de mim mesma, uma procura que nunca cessou, prossegue com a mesma volúpia, pulsão inerente ao ser. Mas, de repente, cresci. Fiquei diferente. Somaram-se reminiscências. Sou o resultado de um tempo de memória. E recordo. Neste instante acodem-me os versos do poeta pernambucano: "Quero deixar-me longe. Separar-me/ de mim. Abandonar-me. Ser-me estranho./ Parto, mas, onde chego, me reencontro./ Despeço-me de novo e me acompanho".
As metáforas me levam à reflexão. A solidão é apenas física, nunca ontológica. Estamos juntos na multiplicidade dos eus. Em cada pedaço, uma partícula e, em cada partícula, a unidade. Contradição? Não há como fugir dos estilhaços que compõem o lastro existencial, por isso carrego as frações internas, algumas em sintagma, outras singularizadas, uma a uma, a desenhar uma paisagem plena de recortes.
Ando por aí, perseguindo o desejo de defrontar-me com os eus. E eis-me diante de um velho sobrado, desconhecido, anônimo. Olho-o. De novo reavivo imagens do poeta: "A sombra dele escorrega/ defronte, também, há três/ séculos, e escora a sombra de outro sobrado holandês." Estou no bairro de São José, perscruto atentamente o casario longilíneo. O quadro em descompasso me aproxima, não me afasta. Prédios conjugados: alguns relativamente em forma, outros decadentes. Toda decadência tem um quê de dignidade porque se mescla com o mistério das coisas por findar, algo instigante, fantasmático.
Os fragmentos de mim, vejo-os, a exterioridade das paredes em declínio, também as vejo. Há uma fusão no cenário. Tijolos começam a desprender-se do velho sobrado, tão parecido à montagem do meu retrato. Estou em toda a parte e em lugar nenhum, e, no entanto, sou sólida catedral, porque existo, porque sinto, porque hospedo sentimentos universais. As palavras brotam, dispersas, à semelhança dos pedaços que me dividem e me multiplicam. Há um crescimento interior que ganha intensidade e volume à medida que o calendário avança. Já fui ontem, hoje, sou agora, e será que não serei futuro ao concluir esta frase? As minhas circunstâncias mudam, dia a dia os retalhos aumentam e acompanham-me para onde eu vou. O caro poeta tem toda razão. Quem disse que me aparto dos eus? Sou uma sombra no sobrado que me recebe em quietude. Sob a sua proteção, sinto-me companheira de todo o desmonte físico que o acomete. A desconstrução faz parte do próprio mundo. Do meu e do sobrado. O importante é vigiar com atenção os entulhos que se amontoam na caminhada.
A memória me agasalha na lembrança infinda. Mauro Mota indaga: "Que homens e passarinhos aqui germinarão?" A semente que fecunda está dentro de cada um, a alimentar o jardim das ternuras, a adubar emoções que explodem em outras plagas. A humanidade desabrolha ao surgir da alvorada, quando as esperanças renascem, grãos que frutificam a condição humana.
O sobrado sacolejou o meu nicho de saudades. Não sei bem por quê. Nem quero adivinhar. Basta-me compreender o que aparento e o que o sobrado expõe. Do lado de fora, o excesso de visibilidade, do lado de dentro, eu me escondo em frágeis subterfúgios. No fundo, as saudades se avolumam, misturo emoções, retorno à adolescência, à Rua Amélia, à Bento de Loyola - ruas onde morava Mauro Mota -, às conversas ao anoitecer, ao riso generoso, à bondade ilimitada, à fina ironia, ao lirismo, ao romantismo, aos poemas profundos, a uma época que me pertence e que me ajuda a superpor os meus retalhos. Mais uma vez repito versos que ressoam, e ressoam com a força da presentificação. Então descubro que há um só tempo - o que vivo: "Vou em busca do ter-sido./ Desapareço no espaço./ Fico de novo perdido./ Procuro-me, e não me acho".
Viver consiste na intensa procura e na certeza de nunca achar.

» Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras

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Da Economia do Tempo

Sêneca saúda o amigo Lucílio

Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.

Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que nao perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.

E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, nao a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz o sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!

do livro "Sêneca - aprendendo a viver" ediçoes L&PM POCKET

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Passos ilulminados por Zdnek

 
Depoimento publicado no livro: “Zdenek Hampl: Perfis de um artista inovador “, organizado por Arnaldo Siqueira. (2010)

Os caminhos que trouxeram Zdenek Hampl para o Recife, não importam. Importa sim, a sua chegada. Depois de ter circulado pelo mundo e por entre muitas companhias de dança e de teatro, os amantes das artes se viram impulsionados a seguir os seus passos. Era irresistível, pois cada criação sua trazia uma luz própria, um movimento de encontro com a poesia de se estar vivo, como ressaltava o ator americano Rod Steiger.
Foram muitos os seus passos: dança, teatro, sapateado, arte culinária e artes plásticas, que com peças de côco transformadas, compunham novos cenários nas residências de seus novos donos.
Para mim, a chegada de Zdenek foi um espanto. Uma vertigem. Encantei-me primeiramente com seu espetáculo num lugar inusitado: a oficina de cerâmica de Francisco Brennand, onde corpos esguios flutuavam entre esculturas, se esgueiravam pelos músculos pétreos e eróticos. Algo de humano ficava após cada toque, que a iluminação ressaltava, guiando nosso olhar aprendiz de pigmaleão. Foi essa a minha primeira lição do múltiplo artista Zdenek.
Depois desta experiência o tempo passou a ser um elemento mágico que pontuava cada momento em que a sua criação acontecia na cidade e em mim. A lógica do tempo era esmagadoramente raquítica para esta dimensão vertiginosa da dança, desta arte corporificada. Por isso não sei em que ano assisti tal espetáculo, ou quando me tornei sua amiga.
Continuei seguindo seus passos: assisti a todos os espetáculos de dança e teatro que ele dirigia, até o dia em que participei, como atriz, de uma oficina preparatória para um espetáculo infantil que iria representar. Nesta oficina ele me fez espantar comigo mesma. Eu explico: em meio aos trabalhos de conscientização de corpo, através da dança, ele pede a nós, atores, para executar um passo que eu julgava ser possível apenas para bailarinos experientes: cada ator deveria se jogar, na horizontal, nos braços do outro. Nunca tinha feito isso. Estava com medo, achava que não iria conseguir, nem sabia se podia confiar na habilidade de quem iria me segurar. Mas a sua tranqüilidade, sua confiança foi tanta que para minha surpresa, me vi “voando” e caindo como um pássaro dócil nos braços do ator, também estupefato. Isso me fascinou ainda mais. A facilidade com que ele me impulsionou a saltar para o novo, me renovou como artista e pessoa.
Noutro momento eu estava criando e produzindo meu espetáculo “Poesia ao Vivo”, um monólogo de poesia em que finalizava entrevistando uma personalidade cujo trabalho tinha uma poética própria. Foram muitos os espetáculos, muitas as entrevistas, mas a de Zdenek foi comoventemente humana. Foi memorável. Lá estava ele com sua saúde já frágil, a falar da beleza da vida que ele eternizava com suas criações. A reação das pessoas foi outro ponto especial. A sua paixão pela dança e a sua certeza dos passos dados era tamanha, que algumas pessoas da platéia, de idade já avançada, se sentiram compelidas a começarem a dançar e pediram seu conselho. Não me lembro exatamente das suas palavras, mas nunca esquecerei da surpresa e alegria que se estampou no rosto daquela mulher. Mais uma vida tocada, mais uma vida iluminada pela arte.
Por fim, posso agora falar o seu encontro derradeiro. Um encontro que todos teremos, mais cedo ou mais tarde. A morte, disse Carlos Castãneda “é nossa melhor conselheira, pois se ela ainda não nos tocou, ainda temos esperança”. A morte o arrematou de nós. Mas com que sabedoria e leveza ele dirigiu também sua despedida: “quero tudo bem vagabundo”, disse sorrindo para Marcinha, sua mulher. Ele que sabia da exata importância da matéria, que tinha de há muito rompido com a fogueira das ilusões, das falsas alegrias, que sabia que a vida é este presente. Nem passado, nem futuro. A vida está neste instante-já que falava Clarice Lispector. Um suspiro e já passou.
Zdenek deixou-nos um legado de liberdade e sensibilidade eternizados na memória de quem viu suas criações – uma profusão de imagens ingenuamente clássicas, etéreas e leves, como um guarda chuva desencarnado, sem tecido algum. Só uma armação que desconserta pelo inútil, mas que nos comove pela beleza da sua essência.
Assim está em nós, Zdenek Hampl, um homem sem idade, Um homem para quem o tempo tinha a leveza de uma luz.

Sônia Bierbard
Atriz e poeta

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Poema orgânico
Sonia Bierbard

Eu
que não comungo
nas entranhas
eu
não sei
com quantas desistências
represarei
a palavra
líquida
não sei
de quantos eus
necessito para apenas
ser
e quando por fim
chegar a hora
com que voz
saudarei
minha chegada
eu
que não sei
em que corpo
estelar
romperá
o amanhecer
de
mim.

(do livro Linguagem Submersa)

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Saberes de Rilke

Pois arte é infância. Arte significa nao saber que o mundo já é, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente nao achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol. Sem que se fale disso, involuntáriamente. Nunca ter terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude.

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