****** Franco Maria Jasiello João da Mata
Poetas do Ryo Grande do Norte
“quem trincará a coragem da manhã nos dentes”
Assim como a delicadeza de uma memória guardada no fundo d´alma as palavras e os gestos fazem lembrar um grande colega de credo e amor pela arte. FMJ era um homem elegante e culto. Um gentleman e bibliófilo.
… um poeta Ítalo / natalense (de coração) e de tantas contribuições para a nossa cultura. Tradutor do grego – traduziu entre outros -, a minha amada Safo do trono incrustado de ouro;
“ As estrelas ao redor da bela Lua escondem seu luminoso rosto quando cheia, em seu triunfo de prata, resplandece sobre toda a Terra”
Certa vez me ofereceu os dois belos volumes da “Arte e Sociedade nos Cemitérios”, do Clarival do Prado Valadares. Sempre encontrava com ele nas livrarias e teatros. Dizia-me, o bom livro no Brasil tem tiragem pequena e é preciso comprar logo.
Escreveu um belo prefácio para a 2ª edição do livro “Dante Alighieri e a tradição popular no Brasil”, do Cascudo; Jasiello comenta do sepultamento vertical com os pés para cima descrito por Cascudo e comprovado por ele na Lombardia. Daí a superstição de não colocar calçado emborcado.
A memória, o arquétipo junguiano, a matéria dos costumes, é preservada através dos símbolos. Dante é a voz do povo que Cascudo transporta para os nossos costumes.
Nesse livro, escreve Franco: Cascudo é etnográfico, historiador, crítico, mas acima de tudo POETA, ARTISTA (grifo nosso).
FMJ também era um apaixonado pela nossa cultura e tradições populares. Não perdia uma semana do folclore no mês de agosto (que conseguiram acabar). Uma vez estava sendo apresentada ao uma lapinha com um menino recém-nascido e sem roupa. Jasiello sofria junto comigo com aquela encenação tão real para uma representação do nascimento do menino Deus.
Um grande poeta laureado escreveu inúmeros livros de poesias. Do livro “As estações náufragas” (Achiamé, 1981, RJ), selecionei o poema Ininterruptus como demonstração do grande e erudito poeta que foi FMJ.
Ininterruptus
O navegar primeiro em nossa pele. A preamar das línguas o remanso dos dedos.
O veleiro depois em nosso porto. A maresia da espera o entardecer da água.
A hora lenta de ancorar-me é essa, contra a lua nascente penetro teu corpo decrescente aumento em teu respiro sou onda em teu gemido.
As palavras se quebram, se repartem.
Em ti refluo. Em mim flutuas
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Mostra de Cinema Jean Rouch Por João da Mata
O grande ciclo dos ritos sigui, entre os Dogon do Mali
Maravilhoso filme documentário num ritual que só acontece a cada sessenta anos. Para conseguir filmar teve que ter a autorização da Raposa Pálida. A bebida é feita de milho. Longo ritual cosmogônico para liberar a palavra e a morte. Toda história é registrada nas paredes das cavernas e lajedos. Os homens / ermeitas dormem em buracos no chão. Os meninos são fantasiados e participam do grande ritual. Longas tomadas em caminhadas de leste a oeste. Grande elenco num filme inprescindível e dificil de ver novamente. Cansativo e importante. O filme todo tem mais mais de três horas . O que vimos tem 128 minutos. O ciclo dos ritos Yenendi, entre os Songhay do Niger Por João da Mata Três filmes separados por vinte e cinco anos. Belos filmes Yenendi significa refrescar. A aldeia é seca e é feito um longo ritual para chover. Para isso é preciso negociar com os Deuses. Dongon é o temido deus do trovão. Rouch resolveu fazer esse filme e entrar definitivamente no mundo do cinema depois que um raio matou muitas pessoas na região do Niger. A música ritual tocada em cabaças e a preparação do líquido que será derramado na terra para fazer chuva é fielmente documentado num filme maravilhoso e raro. O Espírito do mal baixa na mulher. A sereia é domada. A arvore recebe água e a chuva se faz num dos grandes filmes de Rouch.
A Caça ao leão, do Gaos (Niger)
A caça ao leão com arco. Uma obra prima do cinema etnográfico. Talvez a obra prima do Jean Rouch. Melhor filme do festival de Veneza 1965. Foram precisos sete anos para realizar o filme. Belo roteiro, música e ritual. O Americano (leão) foi o último da família a ser capturado. A longa preparação do veneno que vai ser colocado na flecha. A preparação dos caçadores e a reza que ajudará a matar o leão. Desgraça Boto! O veneno da mulher é mais forte. Não se deve matar o leão zangado. Ao matar o leão é preciso liberar sua alma e o caçador alisa a cabeça da fera para concluir o ritual longamente preparado com armadilhas e flechas que não serão reutilizadas.
Três grandes filmes
O primeiro filme “A invenção do cine- transe junto aos Songhay- Niger” narra de forma muito fiel a uma seção de transe de mulheres/ cavalos que recebem o espírito ao som dos tambores (cabaças) monocórdios tocados repetidamente acompanhados por violinos de arco. Filme longo e bastante cansativo podia ser reduzido.
O segundo filme do dia foi o “Niger- França, ida evolta, ou a etno– ficção ao avesso”. Petit à Petit. Uma deliciosa comedia de um africano que vem a Paris para olhar os prédios e encomendar um projeto que vai ser levado á sua cidade. O prédio será o mais alto e abrigará suas várias esposas. Em Paris ele aproveita para fazer etnografia de campo em cenas muito bem urdidas e hilárias. Em Paris o rio é preso e as pessoas são feias.
Ao voltar à sua Niger junto com o amigo na companhia de duas mulheres e um malandro de rua para tocar a sua fábrica não mais se adapta ao capitalismo que compra barato e vende caro. As mulheres trazidas de Paris não se adaptam e o malandro vai embora. Belo filme com os mesmos atores do excelente “Jaguar” (exibido na terça feira)
O ultimo filme foi o melhor de todos. Ritos funerários dos Dogon, no Mali. O primeiro filme narra um funeral com muita festa e lutas.
O segundo Funeral “A dama de Ambara” é deslumbrante. Um cortejo de mascaras e danças encomendam o morto num rito que representa todas as etapas da vida e a não possibilidade da união do casal Raposa Pálida ( entidade muito forte entre os povos Mali) e sua gêmea. A dança pulando a vagina é empolgante. O texto é um lindo poema.
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O Bar do Lourival e o Carnaval. João da Mata Costa
Hoje não tem Carnaval, faleceu o Lourival O bar do Lourival comemora mais um carnaval, com muita alegria e grande orquestra. Em se tratando de Natal uma glória. Lourival e seu bar histórico, também longevo numa cidade tão transitória. Lourival não está presente, mas a sua família dá conta do recado. Lourival é sinônimo de boemia e de bom convívio de poetas, jornalistas e seresteiros. A cerveja é quente para o meu gosto. O caldo de mocotó estava ótimo. Depois no frevo, só cerveja em lata. Piorou. Antes de começar tocar a orquestra, toca um rapaz o seu violão eclético. Percebe-se a sua predileção por Roberto Carlos. Um outro colega chega e toca a sua gaita. Conheço todos, mas não sei os nomes. Na mesa ao lado da minha tem um colega há muito aposentado da UFRN. Com ele está a rainha do carnaval do Lourival. Simpática, torce o pé quando subiu ao palco no meio da rua. Dança pulando numa perna só. A platéia inicial mais parece o bar do coelho. A idade é avançada e a alegria não é menor. A musica? A mesma de sempre. Parece que nada mudou. As grandes marchinhas das décadas de 30 e 40 do século passado. O rei momo do Lourival passa para dançar com algumas columbinas soltas Sinto uma certa tristeza com aquelas músicas. Um fila de cadeira no meio-fio vai lentamente tomando conta da rua. Depois não passa na avenida. A rua é tomada. Muitos amigos presentes. O carnaval é mesmo democrático. A média de idade diminui. A animação é contagiante. Ao redor dos foliões muitas barraquinhas vendendo churrasquinhos e outros comes-e-bebes. A cerveja continua quente. A minha amiga Lourinha me empresta uma máscara para tirar aquela do dia-a-dia. Danço um frevo. Me abraça o meu amigo pintor aquariano. Ao lado, Odaires. De longe aceno para o Reinaldo. Mijar, naqueles baheirinhos químicos. A orquestra pára muitas vezes. Será porque os foliões não agüentam. Quando encaixo um passo, mais uma pausa. È hora de ir embora e tomar uma cerveja bem gelada em outro lugar. O carnaval do Lourival é uma brasa, mora! Nem pude comprar a camisa. Quando cheguei já não havia. Vou ficar só com a lembrança das músicas e com a certeza de que no próximo ano será tudo igual. Evoè, Lourival.
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Festa de São João no Interior João da Mata Costa Enviado pelo autor
O dia era de São João - meu xará. A festa começava boquinha da noite e a lua ia reinar majestosa. Só ela foi testemunha. Para chegar naquele lugar era muito longe. A noite cobria tudo, e as labaredas pretas qual línguas compridas pareciam monstros assustadores. Seus personagens eram formados de comboios imensos. A luz ali ofuscava e o som era ensurdecedor. Ninguém para consultar. A chegada a um posto policial foi um alívio. Teve que confessar estava perdido. O caminho era outro e o trevo do mapa não era o da sorte. Retornar tudo de novo. Melhor voltar para casa. Mas você não é de desistir fácil. Algo o empurrava para aquele lugar longe. Poderia ser o final de tudo. O perigo pairava. Finalmente chegou a um lugar onde se ouvia um som. Será que é aqui? Mas parece um castelo guardado por homens armados até o pescoço. Entrar logo e tomar um whisky para relaxar. A sensação de solidão não diminuiu. Papo de irmão é sempre igual. Você não visitou mamãe? Ela teve um tremendo pesadelo com você. E a canjica? Branquinha como a neve! O guardião do castelo achando é bom. Só assim eles conhecem o meu feudo. Grande coisa. Não esqueça que tudo é política. E o outro conversa: o mensalão * está até lá em casa. Não dar para ser mais original? E os bêbados, que seria uma festa sem eles?! Trocando as pernas pede mais uma cerveja. Olha pro céu amor. Anunciar a lua era um sinal. Banhado em águas escocesas alguém vem dar os parabéns. Será que é porque é o meu dia! Esse só aparece nas festas. A outra dançando sozinha. Não, não estou com vontade de dançar. Uma outra acena de longe. Como pode casada com aquele maracatú. E a festa não é de são João? Changê! Essa quadrilha sim não aquela outra. Cara agressivo. Até na festa. Um amigo chama para conversar e apresentar a namorada nova. È bonitinha, mas parece que fez um monte de plásticas. É hora de voltar. Novo suplício junino. Enfrentar aquela estrada de novo. Tudo parece ermo e distante. A sensação de solidão aumentou. E haja andar. Ali uma placa de Nísia Floresta. Deve ser por aqui. Sempre soube que Nísia ficava perto de Natal. Depois de muito andar mais um posto. Que seria sem um posto. Estacionar aqui. E agora? Farol alto, farol baixo. Os documentos, por favor. Meia hora para achar. O senhor bebeu? Não, só um pouquinho. O chapéu de palha e de cangaceiro denunciava. Com menor hálito o padre se embriagou. Para onde o senhor está indo? Para Natal, outra bandeira. Não era a estrada correta. Nenhuma razão. Ficar de quarentena. “Eu fiquei tão triste. Eu fiquei tão triste naquele são João”. Por sorte tinha uma edição do Dom Quixote no banco de trás e o guarda deixou retornar. A gente faz cada associação.E tome estrada preta. Como a noite esticou aquela estrada.!!!
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Calou-se a cotovia Potyguar João da Mata Costa
“Já fui gente hoje sou um bregueço”
Caros Colegas,
Ainda em estado de choque tento escrever algo sobre minha querida Dona Militana. A mulher da roça também era uma grande cantora de romances antigos escondidos na memória dos tempos ancestrais.
Dona Militana Salustino foi junto com Chico Antonio os maiores artistas populares do RN. Guardiães de uma memória que não deixa herdeiros.
Chico Antonio teve Mário de Andrade que o projetou para o Brasil e o Mundo. Ei, Ei Ei … boi Tungão
Dona Militana felizmente encontrou Deífilo Gurgel. Maravilhoso e antológico são os discos gravados pelo selo Nação Potiguar do Dácio/Candinha. O CD triplo Cantares de Dona Militana e belo encarte, com as participações do mestre Salustiano tocando a rabeca pernambucana. Eusébio Macambira e o sanfoneiro Luizinho Calixto. Participação erudita da Orquestra Sinfônica do RN com regência de Osvaldo D’Amore, e a pianista Dolores Portela tocando o cravo responsável também pelas partituras dos romances.
Dona Militana trouxe a memória esses romances que remontam à idade média. Era o maior patrimônio vivo da nossa cultura. Pena que só foi descoberta tardiamente nos anos 90 do século passado. “Bem que eu te disse Juliana!” ….
Assisti algumas vezes comovido ao seu cantar tosco e maravilhoso. Guardo com ela um foto de meu álbum biográfico.
Uma cantriz cachimbeira guardiã de um patrimônio que ainda dará muitas teses acadêmicas e livros.
Meus sentimentos e agradecimentos
PS: O sepultamento de Dona Militana aconteceu às 14 horas deste ultimo domingo em São Gonçalo do Amarante, sua terra querida
Ela faleceu em sua residência, no bairro Santa Terezinha, em São Gonçalo do Amarante.
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Cartas a Nora Barnacle / James Joyce João da Mata Costa
“ Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. FP
No dia 10 de junho de 1904 Joyce conhece Nora Barnacle e se apaixona momentaneamente No dia 16 de junho Joyce passeia com Nora e experimenta momentos de beleza e transcedência, suas célebres epifanias . Por esse motivo o escritor escolheu esse dia como o dia de Bloom, o Bloomsday. Dia em que transcorre toda a ação do Ulisses. As famosas cartas de Joyce a Nora foram publicadas pela Massao Ohno, com tradução da Mary Pedrosa. Cartas muitas vezes picantes e que revelam um outro lado do escritor genial que iria revolucionar a literatura com seu Ulisses, em 1922. Um livro de amor. Um livro que também é uma homenagem a Nora. Selecionamos duas dessas cartas ( trechos) para comemorar o Bloomsday2010. 7 de Setembro de 1909 Minha Norazinha silenciosa. Dias e dias se passaram sem carta tua, mas creio que pensaste que eu já teria embarcado. Partimos hoje à noite. Lá para o fim da semana ou no domingo havemos de estar juntos, espero. Agora, minha Nora querida , quero que releias e tornes a reler tudo que te escrevi. Há uma parte feia, obscena e bestial, e há uma parte santa e espiritual: tudo junto sou eu. E Penso que agora compreendes o que sinto por ti. Não vais mais brigar comigo, vais, querida? Estou cansado hoje, caríssima, e gostaria de dormir em teus braços, não fazer nada, mas somente dormir, dormir em teus braços. .... Como vai ser longa a viagem de volta, mas que glória vai ser nosso primeiro beijo. Não chores, querida, quando me vires. Quero ver-te de olhos brilhantes e lindos. Qual será a primeira coisa que me dirás, imagino? La nostra bella Trieste!* Tu me amas, não é verdade? Agora vais acalentar-me no teu peito e abrigar-me e talvez ter pena de mim por meus pecados e loucuras e guiar-me como a uma criança. Naquele peito amigo estar eu queria. (que é tão amigo e belo de verdade!) Onde ia ficar a salvo da ventania. Devido à amarga austeridade Naquele peito amigo estar eu queria." A Nora Barnacle Joyce 22 de dezembro de 1909 Rua Fontenoy, 44, Dublin. Nora, minha querida Remeto pelo correio (expresso e registrado, com valor declarado) um presente de Natal*. É a melhor coisa (mas afinal muito modesta) que posso oferecer em retribuição ao teu amor fiel, verdadeiro e sincero. Pensei em todos os detalhes nas noites de insônia, ou nos carros em disparada ao redor de Dublin. Acho que o presente acabou ficando bonito. Entretanto, mesmo que vá causar somente breve rubor de prazer em teu rosto no primeiro momento em que o vires, ou se fizer teu coração amoroso, terno e leal dar um súbito salto de alegria, eu me sentirei muito, muito bem recompensado de todos os meus cuidados. Talvez este livro, que agora te envio, sobreviva a nós ambos, a mim e a ti. Talvez os dedos de algum rapaz ou moça (filhos de nossos filhos) virem reverentes estas folhas de pergaminho, quando os dois amantes cujas iniciais estão entrelaçadas na capa tenham há muito desaparecido da terra. Nada há de restar, então, minha querida, de nossos pobres corpos humanos movidos pela paixão; e quem poderá dizer onde vão estar as almas que em seus olhos contemplavam uma a outra. Eu pediria que minha alma fosse espalhada no vento, se Deus me deixasse apenas soprar suavemente, para sempre, em redor de uma flor azul escuro, estranha e solitária, numa sebe agreste de Aughrim ou Oranmore. Jim. * O presente que ele Joyce enviou a Nora era manuscrito encadernado do livro "Música de Câmara" Em Trieste, norte da Itália, onde vive uma quadra importante de sua tumultuosa vida. Nessa cidade nasce a sua filha Lúcia e é em Trieste que Joyce começa a escrever O Retrato do Artista quando Jovem. Lá leciona Inglês e conhece o escritor de Senilidade, Ítalo Svevo
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Paramiologia João da Mata Costa
“Parece-me, Sancho, que não há rifão que não seja verdadeiro, porque todos eles contêm sentenças consagradas pela experiência, mãe de todo o saber (Dom Quixote de Miguel de Cervantes) A paramiologia é um dos assuntos mais férteis da literatura popular. A sabedoria do povo na forma de ditos seculares que remontam à idade média. O Dom Quixote de la Mancha é um rico manancial de paramiologia, onde abundam os rifões, provérbios, frases proverbiais, anexins e outros tipos de parêmias. O Sancho Pança e sua mulher Tereza Pança falam muitos rifões. O Quixote também, apesar de reclamar do Sancho sua proverbial sabedoria. No prefácio à edição do Quixote em 5v pela José Olympio, Cascudo escreve sobre esses provérbios que encantam gerações e estão muitos presentes na nossa cultura e nas falas dos nossos pais e avós. É lamentável a fala do senhor Ivan Lessa ( BBC / Estadão “Do infinito besteirol dos ditados populares”) que conhecesse um pouco mais a cultura brasileira não diria asneiras e receberia o conselho do Quixote (parafraseando) : - Nunca interpretes arbitrariamente o que a sabedoria popular diz como fazem os ignorantes que têm presunção de ter grandeza. Excertos de Paramiologia do Quixote: 1-As sentenças ou máximas contém uma sabedoria popular Mas vale bom nome que muita riqueza (Sancho II, 33) Eclesiastes VII, 2 2-Provérbio Sempre ouvi dizer: Quem canta seus males espanta (I, 22) Virgílio - Georgica I, 293 (citado por Cascudo in obra cit.) 3- ADÁGIO [...] cumprindo-se o adágio de que às vezes paga o justo pelo pecador (I, 7) Una golondrina sola não hace verano (I, 13), Uma andorinha só não faz verão Uma andorinha só não faz primavera Em português e espanhol medieval e clássico é comum a sinonímia verão e primavera. Conselhos de Dom Quixote a Sancho Pança, antes que seu escudeiro fosse governar a ilha baratária. -Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de ter grandeza. -Anda devagar, fala pausadamente, mas não de forma que pareça que te escutas a ti mesmo, porque toda afetação é má.
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Robert Burns (1759/ 1796) João da Mata Costa
Poeta da Despedida e do Haggis
“Esse valor do elemento exótico, tão claro no caso provinciano de Burns, é evidente em altos níveis”. FP, Idéias Estéticas. Robert Burns é um dos maiores poetas em língua inglesa do setecentos. Um poeta pré - romântico muito cultuado no seu país natal, a Escócia. Tomei conhecimento do poeta e vi como ele era querido quando da minha viagem a esse país maravilhoso e frio há 15 anos atrás. Poeta nacional da Escócia sua obra é composta de poemas, canções e baladas. Na Escócia é possível comprar seus livros a um preço bem baixo. Em Edimburgo (Edinburgh pronuncia-se edimbráh) adquiri as obras completas do poeta num belo livro de capa dura ilustrado com oitenta belas ilustrações em preto. “ The Complete Illustraded Poems, Songs & Ballads of Robert Burns. Chancellor Press first published in 1990. Outro belo livro do autor é sua biografia ilustrada escrita pelo Ian Grimble – Robert Burns- Lomond Books. No Brasil esse poeta ainda é pouco conhecido. Existe uma tradução de 50 poemas do poeta realizada por Luiza Lobo e publicada pela editora Relume Dumará. Em dos mais belos poemas de Álvaro de Campos /Fernando Pessoa; Passagem da Horas, o poeta – grande leitor de Robert Burns- escreve de quando lia Burns em dias tristes. Parte desse poema foi musicado por Francis Hime no belo disco “A Música em Pessoa” “Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver, .... “Adeus, amor, eu vou partir, ouço ao longe um clarim…”. Quem nunca ouviu esse verso? Ele é parte de uma das canções mais famosas do mundo e faz parte da trilha sonora do belo filme “A Ponte de Waterloo” de 1940 dirigido por Mervyn LeRoy e estrelado por Robert Taylor, C. Aubrey Smith, Maria Ouspenskaya e Vivien Leigh. Poucos sabem que essa canção é uma versão adaptada de um poema do poeta Robert Burns “Auld lang syne” (“Aos tempos passados”) e recebeu no Brasil uma versão muito popular dos compositores Alberto Ribeiro e João de Barros “o Braguinha”. Veja abaixo o texto original e a versão dos compositores brasileiros. Essa bela canção também aparece no filme Guga Din de 1939 dirigido por George Stevens baseado em Rudyard Kipling e estrelado por Gary Grant, Douglas Fairbanks jr. e Victor Maclaglen. O filme narra as aventuras vividas por três soldados ingleses na luta contra os nativos hindus em Tantrapur. Eles são ajudados e salvos pelo jovem Gunga Din ( Sam Jaffe). Filme inspirado em um poema de Rudyard Kipling foi refilmado em 1962 por John Sturges com o título ''Os três Sargentos''.
Auld Lang Syne Robert Burns
Should auld acquaintance be forgot, And never brought to mind? Should auld acquaintance be forgot, And auld lang syne! Chorus. For auld lang syne, my dear, For auld lang syne. We'll tak a cup o' kindness yet, For auld lang syne. And surely ye'll be your pint stowp! And surely I'll be mine! And we'll tak a cup o'kindness yet, For auld lang syne. For auld, …. We twa hae run about the braes, And pou'd the gowans fine; But we've wander'd mony a weary fit, Sin' auld lang syne. For auld, ...
Valsa da Despedia Old long Since. Compositor: Robert Burns
Versão de Alberto Ribeiro e João de Barros “o Braguinha”
Adeus amor Eu vou partir Ouço ao longe um clarim Mas onde eu for irei sentir Os teus passos junto a mim Estando em luta Estando a sós Ouvirei a tua voz. A noite brilha em teu olhar A certeza me deu De que ninguém pode afastar O meu coração Do seu. Então na terra Onde for Viverá o nosso amor. A luz que brilha em teus olhar A certeza me deu De que ninguém pode afastar O meu coração Do teu. No céu na terra Onde for Viverá o nosso amor.
Ouça aqui a versão de Auld Lang Syne
http://www.youtube.com/watch?v=eG3afAIi6IQ&feature=player_embedded# Haggis
O Haggis é o prato típico da Escócia. Uma espécie de pudim salgado feito com miúdos de ovelha. Muito gostoso e muito apreciado pelos escoceses. Robert Burns escreveu um belo poema em homenagem a essa guloseima que caracteriza a nação escocesa.
Address to A Haggis
Fair fa' your honest, sonsie face, Great chieftain o' the pudding-race! Aboon them a' yet tak your place, Painch, tripe, or thairm: Weel are ye wordy o'a grace As lang's my arm. The groaning trencher there ye fill, Your hurdies like a distant hill, Your pin was help to mend a mill In time o'need, While thro' your pores the dews distil Like amber bead. His knife see rustic Labour dight, An' cut you up wi' ready sleight, Trenching your gushing entrails bright, Like ony ditch; And then, O what a glorious sight, Warm-reekin', rich! Then, horn for horn, they stretch an' strive: Deil tak the hindmost! on they drive, Till a' their weel-swall'd kytes belyve Are bent like drums; Then auld Guidman, maist like to rive, Bethankit! hums. Is there that owre his French ragout Or olio that wad staw a sow, Or fricassee wad make her spew Wi' perfect sconner, Looks down wi' sneering, scornfu' view On sic a dinner? Poor devil! see him owre his trash, As feckles as wither'd rash, His spindle shank, a guid whip-lash; His nieve a nit; Thro' blody flood or field to dash, O how unfit! But mark the Rustic, haggis-fed, The trembling earth resounds his tread. Clap in his walie nieve a blade, He'll mak it whissle; An' legs an' arms, an' hands will sned, Like taps o' trissle. Ye Pow'rs, wha mak mankind your care, And dish them out their bill o' fare, Auld Scotland wants nae skinking ware That jaups in luggies; But, if ye wish her gratefu' prayer Gie her a haggis!
Saudação a um Haggis Versão de Luiza Lobo
Boa sorte a tua cara digna feliz, Grande capitão dos pudins! Acima de todos assume teu posto, Tripas, miúdos ou pança: Bem mereces uma tão longa prece Como meu braço A gemente travessa já preenches, Teu travesseiro qual um morro distante. Teu pregador consertaria um moinho Se preciso fosse, E por teus poros destila um orvalho Qual gostas de âmbar Vede o camponês a faca secar E com ágil rapidez te cortar! trinchando as entranhas em jorros brilhantes, Como uma barragem; E ai, oh, que gloriosa visão e que Odor rico e penetrante! Então, colher por colher, trincham e espetam: Me salva-se quem puder, e lá se atiram, Até que as bem recheadas panças ficam Roliças qual tambores; E o velho Anfitrião, a explodiir, Uma prece recita. Há quem diante do rgout francês, Ou do olio, que faria uma porca enjoar, Ou um fricasse que a faria vomitar, Com todo o seu desprezo, Que zombeteiro e desdenhoso desfaça De um tal jantar? Pobre diabo! Vê-lo com seu refugo, Frágil como um mirrado junco, A perna fraca qual uma chicotada, Punho fino qual noz; Lançar-se na enchente ou campo sangrento- Como é incapaz! Mas vede o camponês, alimentado de haggis, A terra tremula estremece a seus pés, Ponde na sua mão forte uma navalha E ele a fará assoviar; E pernas, braços, cabeças cortará Como topos de cardo Oh, pobres, que do homem vos ocupais, E distribuis seu quinhão de alimento, A velha Escócia não quer pratos pestilentos, Espirrando em travessas; Mas, se quiserdes seu agradecimento, Daí- lhe um bom haggis
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