Papo Furado by Jairo Lima
PAPO SOLTOQUEM É JAIRO LIMAJAIRO PARTICIPEFEIRALINKS


Banca do Antonio Nahud Júnior
Banca do Chico Guedes
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do João da Mata Costa
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Leonardo Neves
Banca do Márcio de Lima Dantas
Banca do Marcos Silva
Banca da Sonia Bierbard


Banca do Joca Souza Leão
******
Bye-bye, vuvuzelas
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Fiz um teste. E vi que a maioria das pessoas não se lembra da Copa de 98. Nem onde foi (pra você não perder tempo nem gastar fosfato, digo logo: foi na França, gente boa). Aos poucos que lembravam, perguntei se recordavam de algo importante. “Sim, a cabeçada de Zidane”, responderam de bate-pronto dois dos meus entrevistados. Errado! A cabeçada (ou marrada) foi oito anos depois, na Copa da Alemanha.
Minha conclusão é que daqui a quatro copas, em 2026, quem se lembrar de alguma coisa desta Copa na África do Sul vai lembrar apenas das vuvuzelas. E como, felizmente, a moda não vai pegar, ela será lembrada apenas como a primeira e única copa do zumbido enlouquecedor. Nem da bola, a Jabulani, vão lembrar. Eu não sabia, mas elas têm nome há muito tempo: Telestar, Tango, Azteca, Questra e Tricolore foram nomes de bolas. Quem lembrava?
Algumas coisas desta Copa, no entanto, mereciam não ser esquecidas e, até, tomadas como lição. Quem sabe, poderão ser úteis à seleção brasileira em 2014. Ou mais adiante.
A primeira lição foi dada pelos uruguaios, que se classificaram na peinha de nada, repescados. Ninguém dava nada por eles. Mas fizeram bonito. Jogaram com a velha garra celeste. E Forlán ganhou o prêmio de melhor jogador da Copa. Apesar de perderem pra Alemanha e ficarem em quarto, o povo uruguaio se reconheceu em campo. E teve motivos de sobra para se orgulhar dos seus jogadores. Por isso, os recebeu com festa. Festa justa e merecida.
Muito diferente do que se viu por aqui. A seleção brasileira voltou com o rabo entre as pernas. Envergonhada. E a decepção do torcedor, a meu ver, não foi apenas com a derrota. Mas, também, porque o brasileiro não se reconheceu na sua seleção, não se viu em campo.
Na manhã do dia do jogo com o Brasil, os holandeses foram passear na praia e conversar com jornalistas. Enquanto isso, os brasileiros, proibidos de falar com a imprensa, permaneciam no seu campo de concentração cinco estrelas.
À noite, Sneijder foi lá e fez seus dois golzinhos. Depois, foi celebrar com os companheiros. E bater uma pelada (com suas mulheres e namoradas). Como dizia Neném Prancha, filósofo e roupeiro do Botafogo: se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma. (Essa lição, só Dunga e Kim Jong-il, da Coreia do Norte, não sabiam).
Cada um deve jogar como sabe e gosta. Com seu jeito e temperamento. Assim jogaram, soberbos, os espanhóis. Como jogam no Barça. Toque e posse de bola. Placares magros, nunca mais que dois. Permitiram-se, até, um tropeço, mas num momento em que ainda era possível tropeçar sem ser eliminado, na fase de grupos. E La Fúria Roja finalmente chegou. Viva Iniesta, o craque! Viva Vicente Del Bosque, el maestro! Viva a Espanha!
Pra mim, no entanto, a grande lição desta Copa nos foi dada pelo jovem futebol alemão. No time de Joachim Löw, nove jogadores tinham menos de 22 anos. Não foi por acaso que Mueller, 21, ganhou o prêmio de jogador revelação. O primeiro jogo dele pela seleção alemã foi contra a Argentina, num amistoso, em março deste ano. Garoto abusado. Já na Copa, aos três minutos, meteu logo um gol em cima dos mesmos argentinos. Com todo respeito. E foi o artilheiro alemão.
Enquanto isso, alguém dizia por aqui que não dava pra arriscar. Arriscar o quê, Branca de Neve? Neymar e Ganso estavam simplesmente engolindo a bola. Tivesse Neymar jogando na Alemanha e fosse naturalizado, Joachim, que não é burro, o teria levado pra África na hora. Craque não se dispensa. Como Feola não dispensou Pelé com 17 anos.
O fato é que nós gostamos e sabemos jogar na linha, no ataque, driblando, dando pitu e fazendo gol. Como Julinho, Garrincha, Pelé, Coutinho, Tostão, Romário, Bebeto, Rivaldo e os dois Ronaldo, Fenômeno e Gaúcho.
Beque é bom no time do adversário, pra gente entortar. Beque como treinador? Vade retro, satanás!
P.S.: Ricardo Teixeira falou em renovação. Que tal começar por ele próprio? Mas se começar por Leonardo como técnico, já é um bom começo.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

******

Pano Rápido
Joca Souza Leão
Enviado pelo autor

Primeira-dama

A mãe do escritor Humberto Werneck liga de Belo Horizonte para o filho em São Paulo e dá a
boa notícia: “Humbertinho, seu pai foi nomeado diretor do Zoológico.
Bão, né? Mas teve uma coisa que eu não gostei.”
“Do que, mãe?”
— Ser primeira-dama do Zoológico, ué!

Solução

O primeiranista de Direito Hypólito Fonseca tomou um porre federal na zona, no Bairro do Recife. Dia amanhecendo, pegou um táxi pra Casa do Estudante, no Derby. Quando chegou, verificou que todo o dinheiro que tinha somava míseros dez mil réis. E a corrida tinha dado treze. Apelou pro motorista:
— Só tem um jeito. O senhor dá três mil réis de ré.

Plantar ou criar?

A certa altura da vida, o jornalista e escritor Nilo Pereira resolveu ser fazendeiro.
Comprou uma propriedade no agreste, levou um agrônomo e passaram o dia percorrendo a
gleba a cavalo. De noite, depois do jantar, acenderam os charutos no terraço da casa-grande
e, como o agrônomo permanecesse calado, Nilo lhe perguntou:
“E então, doutor, plantar ou criar?” O agrônomo respondeu:
“Criar”. E só. Nilo tornou a inquiri-lo: “Criar, mas criar o quê?”
O agrônomo respondeu o nome de um animal que, no
Brasil, naquela época, só existia no jogo do bicho:
— Avestruz, que é o único bicho que come pedra.

Biografia

O poeta paraense Jayme Ovalle e o pernambucano Manuel Bandeira estavam atravessando a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, quando Ovalle viu que um carro se aproximava em disparada.
Puxou Bandeira pelo braço:
— Corre, qu’esse aí já nos viu! Você já tem biografia, mas eu, não.

******

Memórias de um publicitário
Joca Souza Leão
Enviado pelo autor

Nem Freud explica

Lançamento da fralda Baby & Baby. A Italo Bianchi caprichou na apresentação da campanha. Maquete de cenário, trilha e locução pré-gravadas. O roteiro do filme, criado por Jairo Lima e o papai aqui, era de um casamento tão original quanto divertido, com cenas ingênuas e bem humoradas.
Padre, noivos, padrinhos e convidados eram todos bebês de fralda. Tudo aprovado pelo cliente, Eduardo Henrique, presidente da ASA, e já em fase de pré-produção. Mas eis que Eduardo liga pra agência na véspera de filmar.
— Contei sobre o filme a minha mulher. E ela o achou incestuoso.
(Vencido o impasse, o comercial fez sucesso de público e crítica).

Rima é rima

A campanha para prefeito do Recife já estava pegando fogo. Candidatos: Lael Sampaio, irmão do ex-governador Cid Sampaio, e Pelópidas Silveira, ex-prefeito e candidato do governador Miguel Arraes. Os layouts da campanhade Lael foram apresentados em grande estilo por Carol Fernandes. Slogan: “Lael. O mais capaz!” Caio de Souza Leão, cunhado de Cid, botou gosto ruim no angu.
— Carol, mais capaz é Arraes. Lael, só se for o mais capel.

Ao vivo

Época da televisão em preto e branco e dos comerciais ao vivo. A Feiticeira, série de maior sucesso na televisão americana, estreia na TV Jornal em horário nobre.
Patrocínio: geladeira Kelvinator. A garota propaganda, Dulce Advíncula, diz com voz macia e pausada um dos primeiros textos de propaganda que eu escrevi: “Kelvinator. A primeira geladeira do Brasil com fecho magnético”. E empurra a porta. “Fecha au-to-ma-ti-ca-mente.” A danada não fecha. Bate e volta. Seguiram-se duas, três tentativas.
Nada. Batia e voltava. No desespero, o assistente de estúdio nem se deu conta de que o comercial era ao vivo. E gritou:
— Dulce!, bate e segura essa merda!

******

A novela brasileira
Joca Souza Leão.

Lê-se pouco no Brasil. No Nordeste, menos ainda. E entre os poucos que lêem, os escritores portugueses são ilustres desconhecidos. Por aqui, Camões e Bocage são personagens de piada, como Juquinha e papagaio. Sabe a última de Camões?
Até a geração de meu pai, ainda lia-se ou, pelo menos, sabia-se quem era Eça de Queiroz. A minha geração já sabia menos. A dos meus filhos, quase ninguém. Fernando Pessoa, na minha juventude, era obrigatório para quem tinha alguma veleidade. Se não literária; cultural. Como eu. A gente até decorava alguns versos. Que me valeram para algumas cantadas. Vive o momento com saudade dele já ao vivê-lo.(...) Eis o momento, sejamo-lo, pra que o pensamento? Se me fazia entender, era tiro em tábua de pirulito.
Com o Prêmio Nobel, Saramago chegou até a freqüentar a lista dos mais vendidos da Veja. Vendidos. Não, necessariamente, lidos. Aliás, certamente, não lidos. Um escritor da dimensão de Miguel Torga, por exemplo, há anos e anos que não era reeditado no Brasil. Enquanto era traduzido para não sei quantas línguas e vendia centenas de milhares de exemplares, mundo a fora. E Torga é um escritor que tem tudo com o Brasil. Aqui editou, pela primeira vez, vários dos seus livros, porque em Portugal era proibido pela ditadura de Salazar. Aqui, no interior de Minas, viveu parte de sua adolescência e juventude. A criação do mundo fala de um Brasil sobre o qual poucos autores brasileiros escreveram tão bem. É só imaginar um Eça escrevendo sobre a vida mineira, numa fazenda de café, nas primeiras décadas do século passado. Um Eça que trata não apenas da burguesia dominante, mas, também e sobre tudo, dos pobres e miseráveis dominados, como um Dostoievsky. Torga se assume inteiro como narrador, na primeira pessoa, biográfico, de estilo próprio, forte, personalíssimo. Que belo escritor.
E o desconhecimento brasileiro não é porque são velhos autores, não. A literatura portuguesa contemporânea ta cheia de grandes escritores jovens e modernos: Mário de Carvalho, José Luis Peixoto, Pedro Rosa Mendes, Gonçalo Tavares, Inês Pedrosa, Valéria Cardoso e por aí vai. No Brasil, mais desconhecidos ainda do que os clássicos. O poeta Jairo Lima pergunta-me quantos por aqui conhecem Mia Couto, na opinião dele um dos maiores escritores contemporâneos do mundo. E que tem apenas cinqüenta anos. Um menino.
Há tempos que se junta teorias para explicar porque no Brasil se lê tão pouco. Para Noel Rosa, o cinema falado é o grande culpado da transformação. Televisão e internet são os vilões mais recentes. Pobreza e analfabetismo funcional, os vilões crônicos, eternos. Mas aqui me refiro à chamada elite brasileira. Econômica e cultural.
Eu acho que o sujeito que passa dois, três meses assistindo a uma novela, não estaria lendo coisíssima nenhuma se não existisse televisão. E o cara que passa horas no computador conversando merda, não existisse internet, passaria horas conversando merda na esquina.
Esse é um exercício que gosto de fazer. Imaginar Shakespeare no Brasil, hoje em dia, escrevendo Romeu e Julieta para a TV Globo. Os marqueteiros, claro, iriam fazer pesquisas de discussão em grupo, com o público-alvo, para saber se Romeu e Julieta deveriam ou não morrer no final. Além da chamada televisão interativa: Se você acha que os dois devem morrer, ligue 0800 3110; mas, se você acha que os dois devem viver, ligue 0800 311. Alguma dúvida? Iria dar “viver” na cabeça. A TV, óbvio, iria estourar de audiência e faturamento. E a humanidade teria perdido uma de suas maiores tragédias. Como acontece com as novelas, daí a cinco, seis meses ninguém lembraria mais nem os nomes dos personagens. Talvez, apenas, dos atores globais. Aquela, em que eles iam morrer, mas aí o padre os salva e os casa no final. Pois é, todo mundo, em todo o mundo, há mais de quatrocentos anos, mesmo sem ter lido, conhece a história de Romeu e Julieta. E não é, apenas, porque não foi Sílvio de Abreu ou Benedito Rui Barbosa quem a escreveu.
Eu só queria ver se um cara desses de televisão tivesse com a mãe na UTI, se ele iria consultar leigos, através de pesquisa ou telefone, para saber qual a melhor terapia pra mãe dele. Então, porque o filho da mãe acha que o povo é dramaturgo? Coitado do povo. É sempre o culpado. É sempre quem se lasca.
É irresistível, nessa altura do campeonato, citar Monteiro Lobato: Um país se faz com homens e livros. E entre os vilões antigos, modernos e crônicos, fico, por hora, com o sambinha de Noel, na voz de Araci de Almeida:
O cinema falado é o grande culpado da transformação.

Joca Souza Leão é publicitário, contista e cronista bissexto.

******

Os mulatos deles
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

“O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual. Psicologicamente, ser brasileiro é ser mulato. Inimigo do formalismo e amigo das variações; deliciando-se em manhas moleironas – menos na defesa do que no ataque. O mulato brasileiro deseuropeizou o futebol. Nós dançamos com a bola”. Sabe quem disse isso, gente fina? Ele mesmo, Gilberto Freyre. Sabe quando? Junho de 1938 (quando o Brasil ficou em 3º lugar na Copa da França). Numa crônica de jornal: O futebol mulato.
Não seria melhor Dunga ter lido Gilberto em vez das frases feitas de Augusto Cury? “Futebol mulato, inimigo do formalismo; deliciando-se em manhas moleironas”. Mas o sargento Dunga fez justamente o inverso. Prendeu os “guerreiros” em campos de concentração cinco estrelas, submeteu-os às técnicas curyanas de “inteligência” multifocal e tome treinos secretos: mais defesa do que ataque. Deu no que deu. Era Dunga II (a primeira foi como jogador), a crônica de uma derrota anunciada.
No primeiro tempo do jogo com a Holanda, a molecada se soltou. Esqueceu Dunga. O passe de Felipe pro gol de Robinho foi gilberteano; mulatamente manhoso, astuto, arredondado, adocicado. Robinho, que tava por ali só despistando, surgiu do nada com ligeireza, agradeceu o presente e, “dando aos pés astúcias de mão”, como no verso do poeta e jogador João Cabral, mandou a Jabulani pro fundo do gol, lá onde o vento encosta o cisco.
Mas, no intervalo, o sargento Dunga enquadrou o pelotão no vestiário. “Não é nada disso”, esbravejou. “Tão rindo de quê? Futebol é coisa séria! Joga-se com raiva, dentes trincados, rangendo. Como na guerra, não é adversário, é inimigo”. E mais um punhado de frases com “patriotismo”, “comprometimento”, “dignidade”, “obediência” e outras babaquices que nada têm a ver com o futebol mulato que se joga (ou jogava) na terra de Mané Garrincha.
Aí, sabe quem foi que andou lendo Gilberto? Joachim Löw, o popular Quincas Catoteiro (que deve ser parente de Milton, meu colega de ginásio no Nóbrega), técnico da Alemanha. Leu, gostou, fez uma seleção com os mulatos deles e um, até, mulato de verdade, mulato nosso, Cacau. Tem polonês, sérvio, checo, tunisiano, turco, uma salada danada. Você viu a cambalhota de Klose, a la Cafu, pra celebrar o gol contra a Argentina? (E pensar que esses caras já cultivaram a ideia de raça pura, hein?)
Mulatos meninos. Quincas levou uma meninada pra África. Levou os gansos e neymares deles, sem medo de ser feliz. E menino sabe como é que é, né? Gosta de correr. E de fazer gol.
Como já citei dois pernambucanos, cito mais um, Nelson Rodrigues, que em 1958, quando a seleção embarcou para a Copa da Suécia, escreveu uma crônica antológica, Complexo de vira-latas: “A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições, e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção”. O que Nelson não podia suspeitar era que, tantos anos depois, um vira-latas de ascendência alemã (Bledorn) pudesse ter complexo de rottweiler.
Garrincha nunca leu nada. Dunga, o vira-latas-rottweiler, diz que leu Maquiavel quando morava na Itália (não é sacanagem, não; ele andou até citando O Príncipe numa de suas sessões de coice na imprensa). Então, para exercitar o italiano, vamos fazê-lo responder mil vezes à pergunta feita (e respondida) por Pier Paolo Pasolini depois da Copa de 70: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. O futebol deles é um futebol de poesia”. (Quando não aparece um Dunga para aniquilar o verso, como diria o poeta Edson Régis — e para citar mais um pernambucano).
Logo mais (15h30min), torço pelo 3º lugar da Alemanha. Pelos meninos mulatos de lá, que sabem rir e dar salto solto no ar. Amanhã, o que der deu. Espanha ou Holanda. Enquanto Dunga embranqueceu o futebol brasileiro, os mulatos deles deseuropeizaram o futebol europeu.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

******

Tiro pela culatra
Joca Souza Leão

Nacionalismo exacerbado, tipo “a pátria de chuteiras”, é prática fascista, típica das ditaduras. Agora, tem muito democrata por aí (eu mesmo conheço uma tulha) gozando com a cara (que é mesmo muito gozada) do Kim Jong da Coreia do Norte, mas que, na época da ditadura militar, exibia orgulhoso um baita adesivo colorido no para-brisa do carro: “Brasil. Ame-o ou deixe-o.”
Eu era contra a ditadura. E os ditadores queriam que o Brasil ganhasse a Copa do Mundo, pra eles dizerem que tinha sido graças a eles (como disseram em 1970). Nessa história, eu estava do lado dos mocinhos, dos patriotas, dos que lutavam pela democracia. Os militares eram os vilões, os bandidos, os kim jongs da parada. Pra ser contra eles, eu e meus amigos torcíamos para que a seleção brasileira perdesse, certo? Quase.
Copa de 74, na Alemanha. Em Brasília, Garrastazu Médici era o general da vez na Presidência da República. Já tinha quase dois anos que eu e minha mulher tínhamos nos mandado daqui (não por falta de amor ao Brasil, como pretendiam os milicos, tanto que voltamos). Morávamos na Inglaterra (onde vivemos por quatro anos).
Pra descolar uma grana, eu tava dando uma de caseiro. Limpava e tomava conta da casa de um armador grego, Sr. Voutira, que tinha ido passar férias em sua terra natal, Salônica, na costa do Mar Egeu. A casa ficava no bairro mais charmoso de Londres, no alto de uma colina que dava para o Hampstead Park. Tinha quatro pavimentos, incluindo sótão e água-furtada. Vários televisores em cores, enormes, os maiores da época. Portanto, a comunidade “brasileña” decidiu logo onde ia assistir aos jogos da Copa: “Na casa de Joca.”
De brasileiros, mesmo, só a gente (Sueli e eu), Solange e Roberto Rosa Borges. Os outros eram “brasileños”, como diziam eles próprios de brincadeira: um casal “uruguajo”, Myrta e Julio; um peruano (“El último inca”, como o apresentava Julio) e uma garota, cantora, das Ilhas Canárias (“La canarita cantante”, como a chamávamos).
As seleções sul-americanas na Copa: Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Ditaduras de cabo a rabo. Nossa combinação era não torcer por nenhuma delas. “Nem que la vaca tussa”, sentenciou Roberto em bom portunhol. Aliás, se ali estávamos, era para torcer contra. Pois, sim!
Nos dois primeiros jogos do Brasil, até que nos safamos bem. O retranqueiro Zagalo arrancou dois empates: zero a zero contra a Iugoslávia e Escócia. Contra o Zaire, o Brasil meteu três. Aí, eu, mesmo, só consegui me segurar nos dois primeiros gols. No terceiro, abri o berreiro: “gooooool!” Os “uruguajos” se livraram logo da agonia: a seleção deles não passou da primeira fase. A da gente, não. Foi em frente. Agonia lenta. E tendo que encarar a Argentina na segunda fase.
Apesar de Perón (que tava morre, não morre) ser presidente eleito, todos nós o tínhamos na conta de caudilho e ex-ditador. Além do mais, torcer pela Argentina, aqui pra nós, era querer demais dos “brasileños”. Liberamos geral. Torcemos pelo Brasil e a torcida valeu: dois a um em cima da Argentina.
Até que a laranja mecânica holandesa nos esmagou, com direito a gol de Cruyff e tudo. Aí, veio a Polônia e jogou a pá de cal. Do quarto lugar brasileiro, em 74, nenhum milico ousou jactar-se. Aliás, nem aqui nem alhures. Todos os ditadores sul-americanos, Pinochet, Bordaberry, Médici e Isabelita (viúva e vice de Perón), dançaram. E com todo o parrapapá que eles tinham armado em torno de suas seleções, indicando técnicos e, até, escalando jogadores, os tiros saíram pelas culatras de suas velhas garruchas.
Na sua crônica política da última segunda-feira, aqui mesmo no JC, disse Ricardo Noblat: “um dos encantos do futebol é que nem sempre vence o melhor”. E nem sempre vence a inteligência, digo eu. Agora, uma coisa é certa, né, Noblat?: “Trocar a beleza por resultados é conspirar contra o amor pelo futebol”.

Joca Souza Leão é publicitário e cronista

******

A cabeça de Dunga
Joca Souza Leão

Você viu na tevê o guru que faz a cabeça de Dunga? Do alto de seu oráculo, disse ele: “Dunga, você é uma estrela viva no teatro da existência.” Dose, né? “Estrela viva.” E “teatro da existência?” Dose pra elefante! (Em homenagem à África, certamente). Acontece que o guru não ficou só nessa, não, tomou gosto e foi em frente: “Quem vive sem riscos triunfa sem glórias.” Aí, meu amigo, Dunga entrou em êxtase, orgasmos múltiplos.
O guru é psiquiatra e chama-se Augusto Cury. Formado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (com todo o respeito), que era privada, mas hoje é pública. Coisa que era privada e vira pública sempre deixa a gente cabreiro. Se o negócio era bom e bem feito, por que danado tiveram que apelar pro Estado? (No caso, o Estado salvador. É sempre assim).
Mas o fato é que o cara é famoso, autor de livros de autoajuda com mais de 11 milhões de exemplares vendidos. Eu, que nem sabia da existência dele, é que sou o leso dessa história. E veja só as pérolas que eu estava perdendo: “Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse-lhe: Não tenho medo de vivê-la”; “Não tropeçamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas pedras”...
Quer mais? Então, lá vai: “Sábio é quem tem coragem de ir diante do espelho da alma para reconhecer os seus erros”... (Desculpe, amigo, mas fico por aqui. Se você tiver a fim de mais, é só futucar o site do homem na internet).
Dunga ficou tão empolgado com Dr. Cury, que o levou pra África. Deixou Ganso e Neymar pra trás. Mas levou o guru. Tá certo. Ganso e Neymar apenas jogam bola. Muita bola, é verdade, mas só. Cury não joga porra nenhuma, mas, em compensação, desenvolveu a teoria da inteligência multifocal, qu’ele tá botando em prática com os meninos da seleção.
Viu como Robinho mudou quando Kaká saiu do jogo contra a Coreia? Recuou. E fez o que Kaká não tinha feito uma única vez: lançamentos. Inclusive, para o golaço de Elano. Pois bem, isso é o que se chama de “inteligência multifocal”. Cada “foco” atua em relação à distância do gol adversário. Com quem ele aprendeu? Tá na cara. Não, tá no Cury (esse bem que podia ser o slogan dele).
E Kaká, hein? Que tal o passe pro gol de Luís Fabiano contra a Costa do Marfim? Foram horas e horas de exercícios “diante do espelho da alma”, reconhecendo os passes errados do jogo contra a Coreia. Essa semana, ele vai ficar diante do espelho, reconhecendo que errou ao aceitar a provocação do marfinense.
Notou como Felipe Melo tá manso? A frase de Cury pra ele: “Os inimigos que não perdoamos dormirão em nossa cama e perturbarão o nosso sono.” E para que não houvesse a menor dúvida, botaram logo um negão da Costa do Marfim pra dormir com ele.
Fora de brincadeira. Dunga pode até ganhar a Copa, e a filha dele
(que confecciona e escolhe a roupa qu’ele usa) ganhar o prêmio de melhor estilista do mundo, que eu não vou mudar de opinião: Dunga é burro! Burro e cafona. Se ganhar, reconheço que a burrice ganhou. E a cafonice, junto.
Notas: 1ª Esta crônica foi escrita antes do jogo contra Portugal; 2ª Em relação à crônica do último sábado, Chico Mendonça protestou: “O Santa Cruz não foi apenas campeão em 57. Mas Supercampeão”. E o pintor Zé Cláudio disse que, ao invés de Saldanha, eu deveria ter lembrado Neném Prancha, autor da frase original: “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma.”

Joca Souza Leão é publicitário e cronista.

******

De Joca Souza Leão
Joca Souza Leão

As histórias aqui contadas têm compromisso com os contadores de história que as contaram. E não, necessariamente, com a História.

Bem de família

José Mindlin era dono de uma das maiores bibliotecas particulares do
mundo, com mais de 40 mil títulos e centenas de obras raras. Na família,
todo mundo gostava de livro. A mulher, Guita, fez até curso de restauração e encadernação. Quando crianças, as três filhas eram muito
elogiadas por suas leituras. O filho caçula, enciumado, protestava:
— Eu também gosto de ler; só
que ainda não sei.

Cliente é cliente
Assistente de atendimento da Denison Propaganda. Meu primeiro emprego com carteira assinada, aos 17 anos. A agência criou uma bela
campanha de lançamento dos lençóis Capibaribe da Coleção Dener, o mais famoso estilista brasileiro da época, início dos anos 70. Layouts
coloridos e bem montados, story-boards dos filmes, spots e jingles finalizados, uma maravilha.
O presidente da Denison, Oriovaldo Vargas, veio do Rio especialmente para a apresentação da campanha. Mais de uma hora de show-off
sem que o cliente, Marcelo Carneiro Leão, interrompesse. Coisa rara, raríssima. No final, Oriovaldo, riso nos lábios, certo da aprovação,
fez a pergunta fatal: “E aí, doutor Marcelo, o que
achou?”
— Não me deu no pau!

Vestido e faniquito

Primórdios da telefonia celular. Campanha da Italo Bianchi para o Alô-Fácil, pré-pago da BCP. Na hora de filmar o comercial, Andréa, do
marketing da BCP, teve um faniquito. Chamou-me para um canto do estúdio e abriu o verbo:
“Não gostei do vestido de Regina Casé. Achei
cafona.” Argumentei: “Mas Regina Casé é Regina Casé. A roupa,
inclusive, compõe o tipo que a tornou famosa e popular. Não dá para imaginála vestida de Lady Di”. Não teve acordo. Fui falar com Antônio César Marra, o produtor: “Vê se dá pra descolar outro vestido.” E lá se foi ele falar com Regina Casé. Meia hora de suspense. Antônio
César volta.
— Regina mandou dizer que também não gostou do vestido da cliente.
(O recado, claro, nunca foi dado. O comercial, rodado sem troca de roupa, ajudou a BCP a conquistar a liderança de pré-pago).

******

Mal de família

Maurilo Valença, boêmio quiném o primo Clávio, chegou em casa às sete da manhã, ainda de porre. A mulher, Alba, não deixou por menos: “Tenha
vergonha! Isso é hora? Tava raparigando, né? Por onde você andava?”
— Neguinha, eu tava num lugar tão bom, mas tão bom, que, se não
gostasse tanto de você, não tinha nem voltado pra casa.

Atendendo a pedidos

O tenente Gabriel era um militar brioso e caxias. Orgulhava-se da farda e
era orgulho da Polícia Militar de Pernambuco. Mas veio a aposentadoria. E o tenente começou a beber bem mais do que se podia chamar de “socialmente”.
A esposa, preocupada, mandou chamar o filho mais velho. “Seu pai tá bebendo demais. Vá lá falar com ele.” O filho foi. “Pai, o senhor tá virando alcoólatra. Já não é mais o senhor, a sua vontade, é o seu organismo que pede a bebida.”
- É ele pedindo e eu dando.

Operário-padrão

O pintor Caribé ganhou uma passagem de avião pro Rio.
Jorge Amado, que já era escritor famoso, ofereceu a casa do
amigo e cronista Rubem Braga pra ele se hospedar. Caribé foi.
Quando saía de manhã, deixava Rubem na rede. Quando voltava,
no final da tarde, o encontrava lá, na mesma rede. E assim
foi por toda a semana.
No dia de voltar pra Bahia, foi agradecer a hospedagem a Rubem que, pra variar, tava deitado na rede.
Agradeceu. Mas não resistiu:
— Caymmi tem fama de preguiçoso. Mas, diante de você, ele é operário-padrão.

******

Aí, João!
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

João não é João. Um é um e o outro é outro. Aquela história de que “João é João” fica esclarecida de uma vez por todas. Foi apenas um surto de esquizofrenia eleitoral. Não são, portanto, uma pessoa em duas. O outro, por exemplo, é impermeável. Este, pelo jeito, não. O outro é dono da verdade, só ele sabe das coisas; de humilde só tem a pinta, porque de fato é arrogante. Este, não. Este, ao que parece, é democrata, sabe ouvir e se sabe mandatário (“indivíduo que recebe o mandato, a tarefa ou o poder para agir em nome do povo”).
Há quase três anos, aqui mesmo no JC, eu quis saber: “E agora, João? A festa acabou. A eleição passou. Você é o cara ou é o poste?” E, entre outras coisas, cheguei a sugerir: “anuncie logo que vai desapropriar e fazer o Parque da Tamarineira”. Pois é, rapaz, até a semana passada, você parecia nos responder alto e bom som, com todas as letras: “Sou o poste”. Mas eis que quem sabe faz a hora. E no Dia Mundial do Meio Ambiente, depois de ouvir a Deus (e não ao dinheiro; como prega a Campanha da Fraternidade) e ao mundo, você desapropriou os mais de nove hectares do Sítio da Tamarineira e anunciou o parque. Vitória da esmagadora maioria. E do bom senso. Do ótimo senso.
Numa crônica do mês passado, perguntei aos cariocas da Realesis, os pretensos empreendedores do tal shopping que queriam construir à custa da devastação da Tamarineira: “O que vocês pensam que são?” E eu mesmo respondi: “Não sei nem quero saber o que pensam. Sei o que são: arrogantes. Julgam-se superiores, acham que nos levam no bico e não nos devem satisfações. Pois, sim!”
Pois, sim, mesmo. E não foi por falta de aviso. Eu já tinha alertado que aqui tem gente com cabelo na venta. Já tinha dito que a santa da casa, Nossa Senhora do Carmo, é forte. Avisado que iam enfrentar uma Procuradoria Geral eficiente e um procurador honesto e combativo. Lembrado que a área era tombada e que o título de propriedade da autoproclamada proprietária era, no mínimo, questionável. E o mais importante de tudo: o povo do Recife não queria um shopping ali. Queria um parque de verdade. Mas eles nem aí. “Vamos fazer e acontecer, vamos fazer assim e assado”. Ignorando solenemente as ações que transitavam na justiça, a anuência da Prefeitura e a vontade da maioria dos recifenses. Como se aqui não existisse justiça, prefeitura nem povo com vontade própria. “Vamos porque vamos.” Agora, vocês sabem pra onde é que vão, né? Ou precisa mandar?
Os cariocas jamais imaginaram topar com uma Virgínia Pernambucano de Mello, que já lutava há mais de vinte anos pela desapropriação e preservação da Tamarineira. Pernambucana. Brava. Incansável. Pesquisando, cascavilhando, descobrindo documentos, botando a boca no trombone, atazanando o juízo dos prepotentes senhores feudais da Santa Casa, que diziam não dever satisfações a ninguém, mas que, quando perceberam que estavam perdidos, foram se chegando. “Nós gostaríamos de mostrar o projeto do shopping à senhora.” “Não quero ver porcaria nenhuma de projeto. Sou contra toda e qualquer coisa que se pretenda construir ali. A Tamarineira tem que ser preservada. Pre-ser-va-da. Dá pra entender ou é difícil?”
Eles avaliaram mal. Pensaram, por certo, que todos os políticos daqui eram como aquele deputado que disse que a Tamarineira era “uma área inútil”. Mas quando os governistas, deputados e vereadores (tirando Luiz Helvécio, que é ex), mandaram embrulhar a Tamarineira pra presente e botaram no colo da Oposição, os oposicionistas agradeceram, abraçaram a causa e até patrocinaram uma ação na justiça. Estou falando de Mendonça Filho, Pedro Eurico, Priscila Krause e Daniel Coelho.
Nós, cronistas e articulistas, engrossamos o caldo. José de Souza Alencar, nosso grande Alex, escreveu diversas crônicas e notas. Rostand Paraíso, o craque de sempre, além dos gols de letra em seus artigos, teve um colóquio generoso e convincente com o jovem alcaide. Juracy Andrade escreveu uma crônica arretada, denunciando a “pastoral imobiliária”. E Arthur Carvalho tratou de “sonhos e devaneios”. O pau cantou. Desde Mário Melo, nos anos cinquenta, aqui mesmo no JC, quando denunciou pela primeira vez a (má) intenção da Santa Casa de acabar com a Tamarineira. Alexandrino Rocha, Amaury Medeiros, Ary Nascimento, Claudia Parente, Clóvis Cavalcanti, Dayse Mayer, Pe. Evaldo Gomes, Geraldo Pereira, Leonardo Dantas Silva, Luiz Delgado, Luiz Otávio Cavalcanti, Marcela Sampaio, Nelly Carvalho, Nilo Pereira, Olbiano Silveira, Othon Bastos, Pedro Jorge de Andrade, Pe. Reginaldo Veloso, Selma Figueiroa, Verônica Almeida, Vital Pessoa de Melo... Ninguém escreveu para defender o nefasto projeto. A favor, nos jornais, só anúncio publicitário.
Viva os Amigos da Tamarineira! Viva o Recife!
Bye, bye-bye, shopping!

******

Maravilha

" Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras de lá de Alagoas fazem seu ofício.Elas começam com uma primeira lavada,molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano,molham-no novamente , voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma,duas vezes. Depois enxáguam ,dão mais uma molhada agora jogando a água com a mão.Batem o pano na laje ou na pedra limpa,e dão mais uma torcida e mais outra , torcem até não pingar no pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa . A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer".

Graciliano Ramos.

******

Minha fã
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Tenho uma fã. Que eu saiba, uma só. Mas tenho. Tem gente que nem uma tem. Eu, mesmo, até outro dia não tinha nenhuma. E só fiquei sabendo que tenho essa porque ela chegou pra mim e disse: “sou sua fã”. E, como Manuel Bandeira diante do seu primeiro alumbramento, “fiquei parado, o coração batendo”.
Tava eu no lançamento de O Girassol, livro de estreia do poeta Garibaldi Otávio, quando encontrei uma amiga que não via há um bocado de tempo. Na saída, combinamos ir ao Bar Central, ali perto do Parque 13 de Maio, por trás da Assembleia, pra tomar um uisquinho e conversar. O bar estava lotado dentro e fora, na calçada.
André Rosemberg tem cara de jornalista (é formado e já exerceu o ofício), poeta, escritor, pintor, professor, psiquiatra, físico quântico, boêmio, André tem cara de tudo no mundo, menos de dono de bar. Mas é. O ótimo Bar Central é dele. Taí um barzinho legal, com umas comidinhas maneiras, diferentes e bem boladas, árabes e judaicas, inclusive, convivendo em boa harmonia com o velho e bom scotch. Os garçons e garçonetes são jovens boas-praças, que nos dão a sensação de que estão curtindo estarem ali, servindo à moçada. É bar pra conversar. Coisa rara. Apesar de frequentado por jovens artistas e músicos, nada de zoada (praga dos novos tempos) de música ao vivo ou amplificada. Tem uma radiolinha-de-ficha jurássica com bom repertório, cujo volume não incomoda ninguém.
Enfim sentados, uisquinhos servidos. Foi aí que a jovem se aproximou da nossa mesa, como se viesse perguntar ou nos dizer alguma coisa. Desistiu no meio do caminho. Meneou a cabeça, como um cumprimento, deu meia-volta e se mandou do bar. A gente ficou sem entender. Não era conhecida nossa. Pela idade, achei que podia ser filha (neta?) de um amigo ou de alguém conhecido. Outro dia, mesmo, fui apresentado a uma moça. Conversa vai, conversa vem, descobri que era minha prima em segundo grau, filha de Tereza, minha prima legítima e querida. Mas essa é outra história.
Já estávamos no terceiro uísque (quer dizer, eu, no terceiro; minha amiga, no segundo), quando a garota, a que vinha falar com a gente e não veio, reapareceu no bar. Vi quando ela chegou. Ficou por ali, na entrada, como quem não queria nada. Mas queria. Mal disfarçava. Não tirava os olhos da gente. Tomava algo, uma caipirosca, acho, e conversava com duas amigas.
“Parece qu’ela agora tomou coragem”, disse minha amiga. E tinha tomado mesmo. Ela chegou e chegou solta. Parou diante da mesa da gente, esboçou um riso maroto e perguntou apontando o indicador pra mim: “Você é quem eu tô pensando?” “Depende de em quem você esteja pensando”, respondi meio sem jeito. “Joca?”, arriscou ela. Levantei e me apresentei. Mas eu estava tão nervoso, que não ouvi quando ela disse seu nome. “Tenho todas as suas crônicas publicadas no Jornal do Commercio de 2009 pra cá, recortadas. E as que foram publicadas antes, peguei pela internet e imprimi. Tenho também tudo que você escreveu para a revista Algomais, Jornal de Ideias, revista Continente e pe360graus”. Foi aí que ela disse: “Sou sua fã”. Pronto. Isso foi tudo. Deu dois beijinhos nas minhas bochechas, provavelmente vermelhas de vergonha, e saiu.
Eu e minha amiga nos entreolhamos em silêncio. Ela estava, desconfio, com uma pontinha de ciúme. Ou mesmo com uma invejinha, mas, aí, “a santa e nobre inveja dos admiradores”, como diria Machado.
O fato é que nunca mais tive notícias da minha fã. Sei que fã de cantor e artista de televisão tem aquela coisa de tietagem, meio histérica. De jogador de futebol, as marias-chuteiras vão aos estádios, centros de treinamento e portas (eu disse “portas”) de concentrações. E fã de quem escreve faz o quê? Não sei. Nem faço a menor idéia. Vai ver é assim mesmo. O silêncio faz parte da magia. É justamente o que faz a diferença entre leitora, admiradora e fã.
Só uma coisa. Minha fã, manda dizer seu nome, por favor. O prenome, pelo menos. Pode ser por e-mail secreto ou carta, pelo correio, sem remetente. Se não, quando minha neta crescer, como é que vou dizer a ela que tenho uma fã, se nem o nome dela eu sei?
Em tempo: O governo do Estado de Pernambuco entregou o Hospital da Tamarineira para a Santa Casa da Misericórdia "gerenciar" em 1883, assim como fez com a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que inaugurou a semana passada. Em 9 de maio de 1924, conforme o Decreto-Lei Nº 1639, o governador Sérgio Loreto dispensou os serviços da SC e o Estado retomou a gestão do Hospital. Hoje, a SC se auto-proclama dona dos mais de 9 hectares (tombados) do Sítio da Tamarineira. O que acontecerá com a UPA daqui a 127 anos? Só Deus sabe!
Hoje, dia Internacional do Meio Ambiente, os Amigos da Tamarineira fazem uma grande festa, a partir das nove da manhã, para celebrar o verde e protestar contra a volúpia da “pastoral imobiliária” (cf. o cronista Juracy Andrade). Viva o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro. Ou podem? Perguntem ao bispo!

******

Se Deus quiser
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com

Coisa boa era acreditar em Deus. Qualquer problema, tinha a quem recorrer. Não para botar a culpa Nele por algo errado, mas, ao contrário, para Lhe pedir socorro, “valha-me Deus!”; manter a esperança, “se Deus quiser!”; rogar proteção, “Deus me defenda!”; e para Lhe reconhecer o feito, “graças a Deus!”.
Naquele tempo se comungava em jejum. E não podia mastigar a hóstia; se mastigasse, ficava com a boca cheia de sangue, sangue de Jesus. Carmem, uma prima de minha mãe, solteirona e carola, foi quem explicou a mim e a Caio, meu irmão, nas aulas de catecismo que antecederam a nossa primeira comunhão: “é sacrilégio”. Sacrilégio. Eita palavrinha danada, impregnada de maldade, crueldade e culpa. A gente não sabia bem o que significava, mas coisa boa era que não podia ser. Agora, o pior de tudo, mesmo, seria o sangue escorrer pela boca na frente de todo mundo. Alguém, por certo, denunciaria aos gritos, dedo indicador apontado para mim: “Aquele menino gordinho mastigou o corpo de Jesus”. E a igreja toda em coro: “Assassino! Assassino!” Por isso, todo cuidado era pouco.
A gente acordava às seis, sem despertador nem nada, e ia direto pro banho sem que precisasse ninguém mandar. Vestia a calça-curta e a camisa bem engomada, sapato Vulcabras, meia soquete no meio da canela e Gumex no cabelo. Duro era ignorar a mesa com o café da manhã já servido e seguir em frente em jejum. Mas se a fé move montanhas, quem dirá uma fomezinha passageira, com hora certa pra acabar. (Mas que fome!).
Missa das sete, na capelinha do Hospital Centenário (hoje, do IPSEP). A gente tinha que chegar às seis e meia pra dar tempo de confessar os pecados e rezar as penitências antes da missa começar. “Fiz coisa feia.” “Sozinho ou acompanhado?”, queria saber o velho frade capuchinho, cuja batina não via água e sabão há séculos. Normalmente era “sozinho”. Mas, se pintasse um “acompanhado”, ele queria saber tudo direitinho: “Com a mão ou como?” “Com menino ou com menina?” Quanto mais se falasse, mais ele queria saber. “Qual a idade dela?” A gravidade do pecado, suponho, dependia justamente dos detalhes. “Sozinho”, por exemplo, valia três ave-marias e três pais-nossos de penitência. Enquanto “acompanhado” não ficava nunca por menos de dez de cada uma, de joelhos. E se mentisse e comungasse, pecado mortal. Ou seja, se morresse, inferno direto, sem escala.
Missa em latim e celebrante de costas para os fiéis. Era assim. O “mistério” da santa missa ficava ainda mais misterioso. Durante a consagração, todos ficavam de joelhos e olhavam para baixo. Era pecado, creio, olhar para o altar. (Uma vez, sem querer, olhei. Por via das dúvidas, não comunguei). Silêncio sepulcral. Ouvia-se unicamente a campainha do sacristão e a voz do frade: “Qui pridie quam pateretur, accepit panem in sanctas ac venerabilis manus suas, et elevatis oculis in coelum ad te Deum, (...) hoc est enim corpus meum”. (Nesse momento, o sacristão caprichava na campainha. E eu ficava arrepiado da cabeça aos pés).

Hoje, recebe-se a hóstia na mão. Naquele tempo, era o celebrante quem a depositava sobre a língua da gente. Eu abria a boca e estirava a língua o mais que podia, para evitar um acidente provocado pelos dentes. Alguém havia me ensinado um truque. Botar a língua pra cima e pressioná-la cuidadosamente contra o céu da boca, para que ela, a hóstia, ficasse lá, colada, sã e salva até se dissolver por completo.
Mas acho que o frade capuchinho começou a me marcar. Ora, se os pecados eram sempre os mesmos, por que a cada confissão ele aumentava as penitências? Implicância. Tipo: “Ou você para de fazer coisa feia ou vai ficar com calo nos joelhos de tanta penitência”.
Para evitar uma artrose prematura da patela (rótula, também conhecida por bolacha do joelho), ao invés de parar com um, parei com o outro. Parei foi de ir à missa.

******

















11000000101000001000100010001000100010001111111110001000100000001010101010101010110000001111000010100000111111111000100011110000

01
02