****** A mão do homem na natureza José Carlos L. Poroca
"A humanidade é podre" - alguém já falou. Pode ser exagero e quero crer que nem tudo está perdido. Prefiro acreditar que as novas gerações - as gerações de Vitória, Diego, Sofia, Caio e Olívia - estão vindo com carga total e com pensamentos e comportamentos diferentes dos seus antepassados, casos perdidos, eu inclusive. Quero crer que, na atualidade, existam pessoas que tenham passe livre pelo menos para o purgatório, pois ainda não viraram a casaca, não venderam o voto ou a alma e nem entraram em negociatas. É uma minoria, é bom frisar. Ainda há os que, na luta pela sobrevivência se vêem obrigados dizerem o 'sim' quando queriam dizer o 'não', e vice-versa. Estes não vão para o céu, mas podem ter a pena abrandada.
Há casos que, nem com a melhor da boa vontade, dá para impedir a ida ao inferno. Quando digo 'inferno', estou falando daquele que, como nos ensinaram, arde, é feio, queima e é eterno. Volto, por exemplo, a esses casos de pedofilia praticados por religiosos - e não é só na igreja católica, diga-se de passagem. Vejo-o como um caldeirão grande, cheio do produto que descomemos. Todas as vezes em que alguém resolve dar uma mexidinha no caldeirão, o (mau) cheiro aparece. E o "aroma" não é dos melhores, convenhamos. Agora, por exemplo, um não sei o quê do clero teve o desatino de vir a público dizer que casos de pedofilia na igreja não deviam ser divulgados. Novo mau cheiro.
Os seres humanos são engraçados. ("engraçado" é a forma educada que encontrei para não dizer outra coisa). Os anos passam e os humanos não perdem a pose e nem o mau costume. Interferem na terra, no ar e no mar. E como se já não bastasse, vem interferindo na fauna. Querem a todo custo que os animais fiquem à sua imagem e semelhança. Estragaram os macacos, os poucos que restam. Acabaram com os papagaios, os que ainda restam. Agora, ficam ensinando hábitos nada recomendáveis a outras espécies e, coitadinhas, estas vão sofrendo processo de mutação para ficarem parecidas com o bicho humano como se isso fosse grande coisa, como se representasse uma evolução.
É o caso do sapo, por exemplo. O sapo, pelo que se sabe, jamais teve outras pretensões, além de ser príncipe. Gostava de cantar, de coaxar, de dar uns pulinhos aqui e ali. O sapo apreciava a água, fruto da sua origem, antes de adquirir a forma definitiva. Com as mudanças que o mundo dá, o sapo cresceu os olhos, desistiu da boa vida e decidiu entrar na moda. "Vou imitar o bicho homem!" - falou. Conseguiu. E mal. Resolveu copiar o humano. Algumas espécies de batráquios estão nascendo com narizes compridos. Sabe quem copiaram? - Pinóquio. Não houve engano. Os sapos narigudos vêem os de nossa espécie como mentirosos. Será que a fama de uns se generalizou e passou a ser vista como referencial único? Se a resposta for "sim", estamos fritos. E mal pagos.
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É tudo casca José Carlos L. Poroca
Quem conhece um pouco a teoria de Darwin, fica sabendo que algumas espécies sofreram mutações para se adaptar à natureza. Nos seus trabalhos o cientista chamou o processo evolutivo de seleção natural das espécies, para justificar a tese de que a fauna e a flora mudam para sobreviver. É claro que estou simplificando e que o darwinismo não se resume apenas a isso. É complexa e colide com outras teorias. Ainda hoje não conseguir entender certas questões do mundo científico de Mr. Darwin, o que não é nada de mais, porque também nunca consegui entender outros mistérios. O da Trindade é um deles.
Na teoria do naturalista britânico há outro ponto que ainda não se encaixou na minha cachola. Estou me referindo àquele em que ele diz que os agentes devem ser capazes de produzir cópias de si próprios e essas cópias devem ter igualmente a capacidade de se reproduzirem. Se o grau de interpretação está próximo da média, significa que eu, Zé, posso produzir um Zezinho e este poderá reproduzir vários Zezinhos. Dúvida: de que forma? Ou, com todas essas experiências que andam fazendo, ainda há possibilidade de nos tornarmos ovíparos?
A outra questão, a da seleção natural, para mim, continua sendo mais confusa, a que defende a 'escolha' dos indivíduos pelo ambiente. E quando se diz que essa seleção destrói e não cria, a minha pobre cuca começa a expelir fumaça provavelmente por excesso de informações que não se encaixam ou que provocam curto-circuito. O que vejo por aí é o inverso do que diz a teoria e posso até ir ao limite do exagero, quando observamos o que acontece pelo mundo em pleno Séc. XXI, após duas guerras mundiais e após 'n' conflitos entre tribos, grupos, raças, etc.
Lembrei-me de um fato ocorrido há anos, envolvendo euzinho, um causídico e o diretor da empresa onde defendia o leite das crianças e o "mel" do pai.... das crianças. Estávamos discutindo as pendências judiciais. A cada questionamento que se fazia, o profissional em direito dava respostas com palavras bonitas, utilizando termos técnicos a cada três palavras, tentando mostrar um conhecimento muito além do que se desejava. O mesmo profissional, quando abria a boca, a sua voz era ouvida a 500 m de distância. Terminada a reunião, ficamos eu e o diretor na sala, quando escutei a síntese: "Zé, é tudo casca; miolo, ó!" - mostrando o dedo polegar voltado para baixo.
O exemplo contraria a Teoria de Darwin. A casca vem sendo a bola da vez, nos últimos anos. Teste: ligue o rádio ou a tevê. Os miolos se transformaram em atributos de pouco valor, são elementos que nada representam no mundo atual. E quando surge alguém com casca aparentemente mais consistente, centenas, talvez milhares, quem sabe milhões de casquinhas passam a lamber os pés de algo que não tem consistência e que se deteriora com a mudança de temperatura ou com um aperto mais forte.
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O Nordeste é aqui José Carlos L. Poroca
Desconheço o currículo escolar atual, mas presumo que geografia foi mantida como disciplina obrigatória do primeiro grau. Quando estudante, tive excelentes professores e destaco dois: Hilton Sette e Manoel Correia de Andrade. Se, à época, tivesse um pouco da compreensão do que representava ser aluno dos dois mestres, teria sido melhor aluno. Como o relógio e o calendário só seguem numa direção, sobrou o orgulho de ter recebido aulas de dois excepcionais experts e o privilégio de poucos de ter como auxílio os livros de autoria dos próprios professores.
Confesso que geografia não era o meu xodó. Ainda hoje fico questionando o tempo perdido para decorar as capitais dos países e o nome do maior lago do mundo. Estou imaginando que tudo isso integrava um histórico elaborado por técnicos burocratas. Verdade que estávamos atravessando um período de exceção, onde certos valores foram colocados de lado e outros passaram a ter destaque e realce maiores. Falava-se, aos cochichos e olhando para os lados, que livro tal ou professor tal entraram na lista negra. Pode ser - e tenho poucas dúvidas - que equívocos foram cometidos.
O estudo da minha região, por exemplo, nunca foi realçado na própria região e, por dedução, nas outras regiões do Brasil. Hoje vejo que o Nordeste não gosta do Nordeste, é a minha impressão, ou, dizendo melhor, o nordestino tem vergonha do Nordeste. Prefere as belezas, o linguajar e as 'maravilhas' do Sul (leia-se Rio e São Paulo). O nordestino mantém o mesmo costume da época monarquista, quando o poder se concentrava na cidade do Rio de Janeiro: se vier de lá, é bom; se o imperador ordenou, é preciso cumprir.
O Nordeste, no restante do Brasil, é uma região à parte, habitada por 'paraíbas' e 'baianos'. Quando morei em São Paulo, ia a São Bernardo do Campo pelo menos uma vez por mês, a negócio. Conversando com uma senhora do alto escalão de uma empresa multinacional italiana que começa com a letra 'F', ela disse não ter gostado do carnaval da minha terra, se queixando do som excessivo e da quantidade de trios elétricos na rua, coisa e tal. Estranhei, pois, à época, os trios eram exclusivos de outra capital. Após mais dois dedos de conversa, descobri que ela havia estado em Salvador. Em síntese, Paraíba, Bahia, Pernambuco e adjacentes, para a dita cuja, era uma coisa só: Bahia.
Na semana que passou, recordei dos tempos de estudante, após declarações de famoso (e poderoso), falando algo como "sair do Nordeste e ir para o Brasil". Fiquei em dúvida se o Nordeste integrava realmente o território nacional. Cheguei a pensar algumas situações: a) preciso retornar aos bancos escolares pelo desconhecimento geográfico das regiões; b) sou um estrangeiro e não sabia; c) o Nordeste é um apêndice do Brasil e ainda pertence a Portugal; d) o Nordeste foi dividido e passou a ser, de fato e de direito, o Brasil B. Após algumas consultas e ainda meio atordoado, confirmei: sou nordestino e (ainda) brasileiro. Não preciso sair do Nordeste para colocar os pés no Brasil.
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Fuleiragem José Carlos L. Poroca
Gosto da palavra fuleiro. Se não conhecesse a sua origem, diria que o tom anfrancesado é bom para os ouvidos. Gosto do fuleiro porque lembra, na rima, sanfoneiro e inzoneiro. Sanfoneiro lembra Luiz Gonzaga, que, por sua vez, remete ao Nordeste, ou seja, da terra. Inzoneiro é uma das minhas preferidas – já confessei - e é a cara do Brasil, como já disse Ary Barroso na sua “Aquarela...”. Aliás, inzoneiro vem de inzona que significa embuste, sem contar, e já contando, que as duas últimas sílabas explicam, em quatro letras, como anda a terra de Ary. Gosto do adjetivo fuleiro e mais ainda do substantivo fuleiragem. Esta reflete, ainda que indiretamente, o que podemos chamar de estado de coisas do País. Se os nossos colonizadores tivessem sido holandeses, espanhóis ou ingleses, não existiria a certeza que estaríamos em outra, mas certamente não teríamos essa fuleiragem para justificar isso ou aquilo, até pela falta de palavra. O vocabulário exerceu forte influência sobre os modos e modas da sociedade colonizada que nasceu a partir da chegada das naus portuguesas em nosso solo pátrio. Pátrio e gentil. A combinação de raças, climas e costumes deu origem a um produto que está se deteriorando com o passar dos tempos, com tendência a ficar pior. A fuleiragem é como uma fruta que requer cuidados especiais. A corrente de ar, o mau olhado, a iluminação e a má orientação interferem no produto. Para ilustrar o exemplo, imagine a banana, que representa – apenas representa - a fruta da nossa terra. Se for de boa qualidade, mas se não forem observadas regras para sua conservação, sofrerá influências no sabor, na cor, na consistência. Se usado elemento pernicioso para melhorar o gosto, corre-se o risco de sair uma banana com gosto de abacate ou de jiló. E não quero entrar no mérito das pragas, que prejudicam sensivelmente a qualidade da fruta e que podem fazer com que ela tenha um único fim: o lixo. As frutas (brasileiros) e o bananal (Brasil) estão contaminados. Para onde quer que se vá, a fuleiragem está em algum canto, escondida ou não. Outro dia, uma senhora foi assaltada dentro de uma delegaci, sob os olhares de policiais que estavam ali a serviço. Quer fuleiragem maior? Não é fuleiragem, não; é bandidagem crônica. A bandidagem – já que se tocou no assunto – está à solta, pintando e bordando, agindo como grupo empresarial que atua em vários segmentos para não correr risco de interferência no lucro e no preço da ação. A bandidagem, ilegal e imoral, está presente nas ruas, nos coletivos, nos parques, nas comunidades carentes e nas comunidades de alto poder. A bandidagem é fuleira e se comporta como se a fuleiragem já tivesse sido institucionalizada através de decreto ou de medida provisória. Os fuleiros não estão nem aí para a legalidade. Estão c......... e andando para a lei e para a ordem. E a sociedade se mantem indiferente, sempre em cima do muro, com a falsa ilusão de que isso ou aquilo só acontece com os outros. Se alguém acha que há exagero, observe o comportamento e as ações desses grupos que invadem (e quebram) prédios públicos, terras, etc. O que é isso, minha gente: bandidagem ou fuleiragem?
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Carlitos e Severino José Carlos L. Poroca
Após a passagem dos 30 – é o meu caso – a gente começa a adquirir alguns hábitos; uns feios, outros bonitos, alguns esquisitos. Consolidei uma mania que já tinha aos 20: ler dois ou três livros de forma simultânea. Pego um, passo para o outro, a seguir para o terceiro, volto ao segundo, sem ordem de preferência ou critério pré-estabelecido. O hábito (ou mau costume) permanece. Recentemente, paguei e levei dois: um sobre Chaplin, outro sobre João Cabral de Melo Neto. Pelo que sei sobre os dois criadores, não há, a priori, relação entre si, a começar pela música. O inglês adorava música, era apaixonado por ópera e tocava violino; o poeta dizia detestar música e só abria exceção para a música flamenca. Leio os dois e estou no finalzinho do primeiro (“Chaplin – Uma Vida”), fruto de um trabalho excepcional de um psiquiatra norte-americano, autor de várias obras de psiquiatria. Mergulhou a fundo. Envolveu-se durante anos em pesquisas e consultas a materiais do final do século XIX/começo do século XX. Pode se deduzir que foi tarefa árdua no exame de jornais, livros, documentos, registros hospitalares, etc. Iniciava a montagem de pedras para mostrar a ligação entre a infância do ícone da comédia e o que foi transportado para os seus filmes. Trouxe à tona dois fatos que, salvo engano, jamais foram divulgados: a) Chaplin sofria de dislexia e era incapaz de ler mais de duas palavras por vez; b) a mãe, Hannah, foi, além de atriz e cantora, uma dama da vida difícil, contraindo sífilis no exercício da profissão. Sempre fui admirador de Chaplin e colocava-o num degrau a mais nos da sua época. O que me impressionava era como alguém com a sua origem chegou àquele patamar, numa época em que não existia tevê, internet, etc. O livro do Dr. Weissman dá muitas dicas, esclarece e evidencia laços, explicando que, em muitos casos, a luz pode acender. O que ele não diz - e nem poderia - é que a luz chapliniana só acende uma vez a cada xis milhões. O outro – “Poemas para ler na Escola” - é da especialista em literatura Regina Zilberman, sobre a obra de João Cabral. Impressionante é a palavra que chega neste momento para demonstrar a admiração pela beleza e qualidade dos poemas “Cão sem Plumas”, “A Educação pela Pedra” e “Tecendo a Manhã”. Não são únicos. “O Morte e Vida Severina” é hors-concours e fico na dúvida se devo dizer felizmente ou infelizmente: continua atual. Os Severinos da primeira década do Século XXI estão aí, hoje com nomes mais sofisticados e mais americanalhados. Os vagabundos – sem a conotação de malandragem – também. São os que, como o personagem chapliniano, estão à margem do sistema, mas conservam a expectativa de que um dia as coisas vão melhorar. Os Severinos e os Carlitos vão estar sempre em algum lugar, às vezes em encostas perigosas que não resistem a chuvas, outras vezes na estrada em busca do sol, que, diz a lenda, nasceu pra todos.
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O horror à espreita Dellanno Rios
2666" traz o elogiado Roberto Bolaño em sua melhor forma. Livro mais extenso do escritor chileno tem como pano de fundo a insolúvel onda de assassinatos de mulheres em Juárez, México
Em 2004, quando foi lançado no mercado editorial de língua espanhola, "2666", do chileno Roberto Bolaño, foi celebrado como a retirada em grande estilo de um dos gigantes de nosso tempo (Bolaño falecera um ano antes, aos 50 anos, vítima de uma severa enfermidade hepática). Nos EUA, onde a tradução de "2666" apareceu há dois anos, o livro foi visto como a confirmação do talento e do potencial de vendas de seu autor. Inusitado best seller: os norte-americanos preferem autores que escrevem, originalmente, em inglês. A obra ganhou dezenas de resenhas elogiosas, foi considerada livro do ano pela revista Time e conquistou o National Book Critics Circle Award (EUA) e o espanhol Prémio Salambó. Além disso, em 2009 foi o livro mais roubado nas livrarias portuguesas.
O assombro que se tem com a tradução de "2666" por Eduardo Brandão não é o de ver que espanhóis, latino e norte-americanos estavam corretos ao aclamar o livro. A surpresa está na forma do escritor de contar suas histórias. É que ela trai críticos e resenhistas, impossibilitados de definir, com precisão, o romance. O leitor não consegue antecipar quase nada se acessar o livro por meio de seus comentadores. Desafiador, Bolaño exige o confronto direto.
A história
Quando já tinha adivinhado sua sorte, Roberto Bolaño confiou a seu editor e seus herdeiros que "2666" fosse dividido em partes e assim comercializado. A obra é um romance formado por outros romances (cinco planejados, quatro e meio executados). O fim desta divisão, diz a lenda, se basearia na esperança do escritor de, assim, ver garantido o sustento futuro de sua família. Último pedido traído. Os editores tomaram a corajosa decisão de lançar "2666" em um único volume, monolítico.
A opção de Bolaño por publicar o romance em partes não deve ser vista como mera aposta editorial. De fato, os romances são aparentemente independentes, ainda que costurados por personagens reincidentes, por temas que reaparecem e se intensificam. Contudo, percebeu-se que há partes mais sólidas e mais autônomas que as demais. Publicado da forma como Bolaño pediu, era bem possível que "2666" se corrompesse, que umas fossem reeditadas e outras, quem sabe, se perdessem.
As histórias
Difícil imaginar, numa possível divisão de "2666", a separação de "A Parte dos Críticos" e "A parte de Amalfitano". As duas primeiras partes guardam parentesco, inclusive, estilístico. É o romance em sua forma mais conhecida, novecentista, na transição do romantismo ao realismo. A primeira apresenta a história de quatro críticos de Benno Von Archiboldi, escritor alemão recluso, do qual pouco se conhece e de quem nenhuma foto jamais foi vista. A busca por detalhes da vida de Archiboldi leva três dos críticos a Santa Teresa, um duplo ficcional da Ciudad de Juárez, no México. É o cenário de uma longa e misteriosa série de assassinatos de mulheres jovens (números oficiais contam perto de 400 casos; a população fala em 5 mil). A segunda parte acompanha a decadência, gradual e irrefreável, de um professor universitário chileno, que acaba se fixando em Santa Teresa com a filha, Rosa.
Flertando com o romance policial de linhagem mais hardcore, "A Parte de Fate" mostra o confronto do jornalista Oscar Fate com os crimes da cidade. Marcada por uma "descritivismo" metódico, "A Parte dos Crimes" se apropria da linguagem oficialesca dos relatórios médicos. Por fim, "A Parte de Archimboldi" traz uma biografia (possivelmente falsa) do escritor.
O mal
A crítica tem sido quase unânime ao descrever "2666" como uma obra que trata, fundamentalmente, do mal. O leitor, no entanto, deve se surpreender com a sutileza de Bolaño, em descompasso com o estardalhaço da crítica. Mal estar maior que a descrição das mortes é o provocado pelo estado de tensão que o escritor impõe a seu leitor. "2666" provoca uma expectativa nauseante. Como se a desgraça, o horror, fosse irromper no próximo parágrafo, no espaço entre as linhas. Ao frustrar a expectativa, Bolaño comprova sua maestria e põe nossos nervos em frangalhos.
ROMANCE "2666" Roberto Bolaño 856 PÁGINAS 2010 CIA. DAS LETRAS TRADUÇÃO: Eduardo Brandão
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Olimpíadas 2012 - Novas modalidades José Carlos L. Poroca
Há um estado brasileiro que sempre produziu excelentes poetas, cronistas e grandes contadores de histórias. Também produziu pescadores de primeira, que se confundem com os contadores, reais e de ficção. Não quero afirmar para evitar xingamentos de qualquer ordem, mas já ouvi dizer que o fato da terrinha ficar longe do mar (a praia mais próxima fica a cerca de 400 km da Capital) proporciona esse clima de ajuntamento de pessoas, surgimento de fatos inusitados, inclusive os de aparecimento de óvnis, visitas de seres de outros mundos, etc.
Numa dessas, surgiu o assunto olimpíadas e da necessidade de se criar novas modalidades. Não para beneficiar ou privilegiar esse ou aquele, mas com o propósito de trazer atratividade e modernidade, já que raramente surge um esporte novo e, quando surge, a burocracia só perde para as que existem quando se quer renovar uma licença, solicitar um alvará, requerer um nada consta. No Brasil, claro. Pelo estado etílico avançado – a cerveja e a cachaça foram as únicas responsáveis -, saiu um documento que será encaminhado ao Comitê Organizador. São eles:
• ARREMESSO NAS CUECAS E MEIAS – o nome do ‘esporte’ é provisório, até porque não tem nada de arremesso. Os atletas ficarão diante de uma mesa com cédulas de dinheiro. O que conseguir colocar o maior número na cueca (ou meia) num tempo determinado, leva medalha. Comentou-se que o Brasil deve levar as medalhas de ouro e prata. O dinheiro não é verdadeiro, é de brincadeira, para evitar vexames
• PARKOUT – Já existe, mas não está oficializado. A proposta brasileira é uma adaptação mais prática, mesmo com os riscos que oferece. Os ‘atletas’ que conseguirem sobreviver com um salário mínimo no maior período receberão as medalhas. Estima-se que as provas começarão e encerrarão em menos de uma semana. Brasileiros e indianos são os mais cotados.
• ARREMESSO DE CUSPE – outra modalidade ainda não oficializada e nem precisa explicar quem sai vencedor. Países com grande número de desdentados são os favoritos. O Brasil pode ganhar uma medalha. A China também está no páreo.
• LEVANTAMENTO DE COPOS – o Brasil tem poucas chances. As medalhas devem ficar entre os europeus. Os russos não ficarão sem uma.
• EQUILÍBRIO DE NARIZ – parece ser fácil, mas não é. Os ‘atletas’ colocarão uma bola de pingue pongue no nariz. Os que ficarem mais tempo com a bola sobre a parte superior do nariz subirão o pódio. Também nesta modalidade o Brasil é forte candidato e poderá ficar com as três medalhas, pela quantidade de pinóquios existentes no País.
A proposta foi assinada por todos e ficou em poder de Xando, que se incumbiu de encaminhá-la na próxima segunda ao Comitê. Alguém acredita que chegará ao destino?
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Humor engraçado José Carlos L. Poroca,
De início, antes que haja algum questionamento, a casa informa que o autor deste texto não tem a menor vocação para humorista ou comediante. É um fracasso na arte de contar piadas e afins, mas aprecia a boa anedota, quando contada por pessoas que tem vocação para tal. E não há escola, faculdade de primeira linha, eimibiei ou pós-graduação que consiga ensinar a matéria. É dom. O sujeito pode ser um iletrado, mas vai saber contar uma piada, uma história, um caso, enfim, e a narração vai levar um jeito engraçado, especial. Ao contrário, o indivíduo sem esse dom pode receber ensinamentos, técnicas de empostação, orientações sobre como parar ou acelerar, mas, se não tiver o que muitos chamam de “it”, o ‘causo’ vai ficar mal contado, sem graça. O pior: dependendo da platéia, o piadista ou narrador vai se achar o tampa. Tampa de vaso. Muitas vezes, a gentileza associada à educação pode dar a falsa sensação de que fulaninho agrada. Há, também, os casos em que aquele que quer ser o engraçado detém o poder, é o chefe, coisas assim. Certamente para marcar ponto, o riso ‘sincero’ virá – sempre que for invocado. Não podemos esquecer que o xeleléu vai estar sempre disposto a oferecer um ombro amigo, um sorriso, uma gargalhada – de acordo com o cliente, perdão, de acordo com a necessidade do chefe ou patrão. Por isso, a colocação ‘humor engraçado’ soa falso. Li em algum lugar e fiquei me perguntado: pode haver humor sem graça? O humor precisa ser engraçado, é condição sine qua non. É o humor simples, caracterizado pela pantomima (Harold Lloyd, Buster Keaton, Chaplin – como bons exemplos) ou pela narração inteligente e sutil, com ou sem gestos. Falta ao Brasil de hoje o humor que se viu nos tempos da chanchada, com destaque – e sem saudosismo desnecessário - para os impagáveis Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, expoentes da comédia brasileira. O humor atual é extraído de fatos que, na sua maioria, não tem nada de engraçado. Personagens e assuntos que precisavam ser tratados com seriedade são automaticamente transportados para o terreno das galhofas ou colocados no palco de comédias. Não vou e nem quero entrar no campo das negociatas, dos conchavos, do toma-lá-dá-cá e do troca-troca sem fim, que se transformaram em papéis mais valorizados que as Letras do Tesouro Nacional, com uma diferença: não tem lastro, limites e prazo de vencimento. Tudo é escracho. O País, quando tem a oportunidade de ficar bem na fita, se mete a fazer o papel que não lhe cabe e que não lhe cai bem, seja pela falta de vocação ou porque não fez o dever de casa. O País precisa – aí sim – cuidar dos problemas internos, que não são poucos, antes de se meter a apoiar regimes totalitários e dar um ombro – e mais alguma coisa – a ditadores, comediantes de quinta categoria. Se continuarmos insistindo nessa tecla, além da vaia, pode vir o choro e o pedido da devolução do dinheiro do ingresso.
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Até tu, Joaquim? José Carlos L. Poroca
Tinha ligeira inclinação para o desenho. Os mais próximos sabiam. Cheguei a pintar algumas telas, mas, felizmente, desisti no meio do caminho: não era a minha praia. Optei por ver, ouvir e apreciar os quadros. Sabendo dessa minha suposta vocação, uma vizinha, professora do ensino fundamental, pediu-me para reproduzir em folhas de cartolina figuras de personagens da nossa história, em cinco ou seis desenhos: D. Pedro I, Duque de Caxias e Tiradentes. Não consigo lembrar os demais. O desenho do alferes foi o que deu mais trabalho.
Se o fato tivesse ocorrido nos dias atuais, pensaria duas vezes antes de aceitar a tarefa, principalmente, em relação ao personagem que sempre foi visto como um dos pioneiros da luta pela independência do Brasil. Já conhecia alguns fatos que não se encaixavam na história oficial, no período em que morei em Belô, mas, confesso, não tive interesse no assunto. Agora, graças a um trabalho sério do professor André Figueiredo Rodrigues,um paulista de Guarulhos (SP), tive a oportunidade de conhecer o que não se conta nas escolas.
O trabalho do professor André transformou-se no livro A Fortuna dos Inconfidentes e através dele é possível saber que o currículo escolar omitiu fatos importantes que precisavam ser do conhecimento de todos os brasileiros. Aproveito o momento para dizer que não estou defendendo Portugal, pois entendo - como sempre entendi - que colonizador foi, é e será sempre colonizador. O papel do colonizador, sem exceções, é o de tirar o máximo que for possível da terra colonizada. A história comprova que o nosso país não fugiu à regra.
Volto ao livro. Nele, fica-se sabendo que os inconfidentes não eram uns coitadinhos; pelo contrário, eram, na sua maioria, pessoas de posses. O alferes Joaquim José da Silva Xavier tinha o soldo de militar, mas era rico, dono de sítios, gado, sesmarias e escravos. Adquiriu o direito, sob várias formas, de explorar 47 pontos de mineração. Para "completar o orçamento", exercia o ofício de agiota, emprestando dinheiro a juros nos patamares abusivos que bancos e financeiras praticam hoje. Os inconfidentes tinham planos bem maiores e a libertação de Portugal facilitaria a vida de quase todos os envolvidos e - quem sabe? - fazê-los mais ricos.
O livro do professor André Rodrigues é obra séria. Mostra a tentativa - a verdadeira história - de se criar em Minas uma espécie de prorrogação das Capitanias Hereditárias, envolvendo outros personagens. A bibliografia é extensa e a quantidade de documentos examinados mostra o afinco como se dedicou na obra. Acho pouco provável que o professor leia este texto, mas, imaginando tal hipótese, estou sugerindo que ele, ou outro, faça trabalho idêntico para contar as verdadeiras histórias que envolvem a Independência do Brasil, a instauração da República, a Guerra do Paraguai, a Libertação dos Escravos, a renúncia de JQ, etc.
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La Traviata José Carlos Poroca
Inusitado. É um clip de 3min 52seg num mercado da Philadelphia. Os artistas infiltrados no meio do povo no mercado, cantando a Traviatta. A humanidade seria muito melhor se pudesse fazer compras sempre num ambiente desses. Vejam se não é mesmo emocionante e arrebatador.
Imagine mais de 30 membros da Companhia de Opera da Filadélfia, no meio do povo em um mercado, como transeuntes comuns, que, de repente, começam a cantar La Traviata.
Deixe carregar o vídeo, para visualizá-lo sem interrupções.
http://www.youtube.com/watch?v=_zmwRitYO3w
• É, Poroca, talvez a humanidade melhorasse, sim, ou pelo menos piorasse menos. Pelo menos nunca se ouviu dizer que a torcida do Verdi matou a pedradas dois torcedores de Puccini, e o maestro teve que deixar o teatro sob forte escolta policial.
JL
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