Papo Furado by Jairo Lima
PAPO SOLTO
JAIRO
QUEM É JAIRO LIMA
CLIQUE E PARTICIPE
LETRAS
IDÉIAS
LINKS
IDÉIAS
******
Beethoven
H. L. Mencken
Beethoven foi um daqueles homens cuja estatura, vista em retrospecto, só parece crescer. Quantos movimentos não surgiram para pô-lo definitivamente na prateleira? Pelo menos uns dez nos cem anos desde a sua morte. Houve um em Nova York, em 1917, lançado por críticos bocós e estimulado pela febre da guerra: pregava que o lugar de Beethoven seria tomado por profetas das novas luzes, como Stravinski. O saldo daquele movimento foi o de que a melhor orquestra da América foi a falência -e Beethoven sobreviveu sem um arranhão. Claro que o século XIX não foi deficiente em grandes músicos. Produziu Schubert, Schumann, Chopin, Wagner e Brahms, para não citar hordas inteiras de Dvofáks, Tchaikovskis, Debussys, Verdis e Puccinis. Nenhum deles nos deu nada melhor do que o primeiro movimento da Heróica.
Aquele movimento, o primeiro desafio da nova música, continua a ser a última palavra. Ê a peça mais nobre de música absoluta já escrita em forma de sonata e é também a mais nobre em música descritiva. Em Beethoven, a distinção entre as duas formas era puramente imaginária. Tudo que ele escreveu era, de certa forma, descritivo, incluindo até as primeiras duas sinfonias, e tudo era música absoluta.
Deve ter sido uma brincadeira dos deuses, a de opor Beethoven, em seus primeiros dias de Viena, ao papa Haydn. Haydn era inegavelmente um gênio e, depois da morte de Mozart, não tinha qualquer razão aparente para temer um rival. Se ele não criou realmente a sinfonia como a conhecemos hoje, pelo menos enriqueceu a forma com suas primeiras autênticas obras-primas -e não com uma ou duas, mas literalmente
com dezenas. As mais complexas harmonias pareciam jorrar dele como petróleo de um poço. Mais ainda, sabia como dominá-las, porque era um mestre da arquitetura musical. Mas, quando Beethoven entrou em cena, o velho Haydn teve de descer um degrau. Era uma gazela contra um touro: com um bramido, o combate terminou.
Os músicos costumam ver neste combate uma mera disputa entre técnicos. Admitem que a habilidade e engenhosidade de Beethoven eram muitíssimo maiores -que tinha um controle mais seguro sobre seu material, mais ousadia e criatividade, um conhecimento muito maior da dinâmica, dos ritmos e dos matizes -, em suma, uma musicalidade tremendamente superior. Mas não foi isto que o tornou tão superior a Haydn -porque este também tinha suas superioridades: por exemplo, seu constante estado de alerta inventivo, sua capacidade
para escrever melhores canções. O que alçou Beethoven acima do velho mestre foi a sua dignidade como homem. Os sentimentos expressos por Haydn pareciam os de um pároco de aldeia, de um corretor da Bolsa ou de um violista carinhosamente enternecido por Kulmbacher. Quando chorava, era com as lágrimas de uma mulher que acaba de descobrir uma nova ruga; quando se mostrava feliz, era com a alegria de uma criança na manhã de Natal. Em contrapartida, os sentimentos que Beethoven punha em sua música eram os sentimentos de um deus. Havia algo de olímpico em suas iras e rosnados; e, quando gargalhava, era com um toque do fogo do inferno.
Literalmente, não há um traço de vulgaridade em toda a sua obra. Nunca é doce ou romântico; nunca derrama lágrimas convencionais; nunca toma atitudes ortodoxas. Em suas passagens mais ligeiras, há a imensa e inescapável dignidade dos velhos profetas. Ele se preocupa, não com as agonias transitórias do amor romântico, mas com a eterna tragédia do homem. Ê um grande poeta trágico e, como todos os grandes poetas trágicos, obcecado pela inescrutável falta de sentido da vida. Da Heróica em diante, raramente desligou-se deste tema. Ele ruge através do primeiro movimento da Dó Menor e chega à sua estupenda declaração final na Nona. Tudo isto era novo em sua época, causando murmúrios de surpresa e até indignação. O passo dado, da Júpiter de Mozart para o primeiro movimento da Heróica, foi perturbador; os vienenses começaram a ficar inquietos em suas primeiras filas. Mas havia um entre eles que não se inquietou, e chamava-se Franz Schubert. Consulte o primeiro movimento da sua Inacabada ou o lento andamento da Trágica e constate como o exemplo de Beethoven foi rapidamente seguido -e com que gênio. Houve um longo hiato depois disto, até que o dia 6 de novembro de 1876 amanheceu em Karlsruhe e, com ele. veio a primeira apresentação da Dó Menor de Brahms. Mais uma VEZ os deuses tinham entrado numa sala de concerto -e entrarão de novo quando nascer outro Brahms, não antes, porque nada pode sair de um artista que já não esteja no homem. O que minimiza a música e todos os Tchaikovskis, Mendelssohns e Chopins? Ê o fato de que é a música de homens vazios.
Bonita, sim, e freqüentemente -à sua maneira. Ê infinitamente engenhosa, profissional e tem certas idéias musicais encantadoras. Mas é tão oca, no fundo, quanto uma bula papal. Ê música de homens de segunda classe.
Beethoven desprezava todos estes artifícios: não precisava deles. Seria difícil pensar em outro compositor, mesmo de quarta classe, que trabalhasse com um material temático de tão pouco mérito intrínseco. Apropriava-se de canções onde as encontrava; construía-as a partir de fragmentos de motivos folclóricos; à falta do resto, contentava-se com uma simples frase ou algumas notas. Via tudo isto como material em estado bruto; seu interesse se concentrava em como usá-lo. Era a este uso que ele emprestava o impressionante poder do seu gênio. Sua engenhosidade começava por onde outros haviam parado. Suas estruturas mais complicadas retinham a clareza abrangente do Parthenon. E, delas. tirou uma espécie de sentimento que nem os gregos poderiam igualar; Beethoven era preeminentemente um homem moderno, sem o menor traço de barbárie. Em sua música havia o alto ceticismo característico do século XVIII, mas ele lhe insuflou o novo entusiasmo, a nova determinação de desafiar e bater os deuses, típicos do século XIX.
Quanto mais envelheço, mais me convenço de que nunca houve um fenômeno tão portentoso na história da música quanto a primeira apresentação pública da Heróica, a 7 de abril de 1805. Os redatores do programa camuflaram a obra com tantas camadas de especulações banais que seus méritos intrínsecos quase foram esquecidos. Seria ela dedicada a Napoleão I? E, se era, a dedicatória seria sincera ou irônica?
E daí? -quero dizer, e daí, para quem não seja surdo? Ela poderia ter sido dedicada a Luís XIV, a Paracelso ou a Pôncio Pilatos, sem fazer a menor diferença. O que a torna digna de discussão, hoje e sempre, é o fato de que, logo na primeira página, Beethoven atirou seu chapéu na arena e proclamou sua imortalidade. Sem concessões, sem pontes fáceis com o passado. A Segunda Sinfonia ficara quilômetros para trás. Nascia uma nova espécie de música, cheia de desafios. Sem introduções melífluas ou conciliatórias; sem rodeios preparatórios
para levar a platéia no bico e dar tempo ao regente para encontrar o seu lugar na partitura. Nada disso. Uma furiosa
colisão da tríade tônica saía do silêncio e, de repente, sem pausa, a primeira exposição do primeiro assunto -amargo,
dominador, áspero, rouco e, curiosamente, belo -com seu impressionante choque contra o elétrico dó sustenido. A carnificina começava cedo; estávamos ainda apenas no sétimo compasso. No 13º e 14º, o incomparável rolar da escala em mi bemol -e o que se seguia era tudo que já havia sido dito, talvez tudo que será dito, sobre como fazer música em grande estilo. Tudo que se fez depois, inclusive por Beethoven,
foi à luz daquele exemplo perfeito. Cada compasso da música moderna honesta tem uma dívida de gratidão para com aquele primeiro movimento.
O resto da Heróica é beethovenês, mas não a sua quintessência.
Diz a lenda que a marcha fúnebre só foi incluída por que era uma época de morticínios por atacado, e marchas fúnebres
estavam em moda. Sem dúvida, aquela platéia da estréia em Viena, chocada e confusa pelos sucessivos desafios do primeiro movimento, deve ter ficado grata pela lúgubre melodia.
Mas, e o scherzo? Outra perversa investida contra o pobre Haydn! Dois gigantes em luta diante de uma orquestra de anões soprando como loucos. Não admira que um sincero vienense gritasse das galerias: "Eu pagaria mais um kreutzer se esta coisa parasse!". Bem, finalmente parou e então veio algo mais tranqüilizador -um tema com variações. Todos em Viena conheciam e adoravam os temas com variações de Beethoven. Ele era, de fato, o mestre dos temas com variações.
Mas havia um coringa entre as cartas. As variações ficaram mais e mais complexas e surpreendentes. Coisas estranhas começaram a acontecer e aqueles exercícios tradicionalmente educados tornaram-se tempestuosos, temperamentais, cacofônicos e trágicos. No final, um áspero e exigente tumulto de acordes -era a Sinfonia em Dó Menor projetando a sua sombra. Deve ter sido uma grande noite em Viena. Mas, talvez, não para os próprios vienenses. Eles tinham ido ouvir "uma nova sinfonia em ré sustenido" (sic!). E o que encontraram no Theater-an-der-Wien foi uma revolução.
******
Entre Deus e o Diabo
Luiz Felipe Pondé
O HABITAT natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Sem esse combate, a alma se dissolve em pequenas manias diárias e fica pequena.
Uma das faces da miséria humana é a vaidade, e a vaidade quer agradar. Como diz a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, hoje todo mundo quer agradar, o professor, o artista, o metafísico. Sua tese é que no fundo deste desejo de agradar está o trauma infantil do desamparo que nos afeta a todos. Ao tentar agradar, buscamos fugir do medo do desamparo. Quando o intelectual é afetado por este desejo, ele se transforma numa máquina de repetição de unanimidades a fim de agradar a opinião pública.
Também morro de medo, como não? Ainda mais hoje, quando agradar é um conceito cientifico na sociedade de mercado. Quando atingida pela unanimidade, a opinião pública torna o ar irrespirável. Segundo a ciência da opinião pública, discordar dela é suicídio.
A partir de sua pequena janela, em seu pequeno apartamento de classe média, onde a televisão reproduz um desses programas alegres de domingo, nossa heroína, a opinião pública, contempla sua criação. Com uma lupa, vasculha o mundo, em busca de um vírus que justifique cientificamente seu medo.
Até o Diabo fica pálido diante dessa moradora de apartamento de classe média, que vasculha o mundo com sua lupa. O Diabo se esconde, sentindo-se finalmente derrotado, com as faces vermelhas de pudor.
Há medos e medos. Há medos que nos engrandecem e medos que nos humilham. O medo de Hamlet nos engrandece: afinal, seria eu, no fundo, uma caveira vazia? Ou seria eu uma alma cega, que, mesmo sendo, no fundo, uma caveira vazia, pressente a presença de seu criador e o persegue arrastando-se pelo chão?
O medo de quem grita nas farmácias em busca de álcool gel nos humilha. Os olhos de um chimpanzé dentro de sua cela no zoológico são mais humanos do que a obsessão de quem lava as mãos a cada segundo.
Tanto o professor, quanto o artista, o metafísico, são obrigados a seguir o roteiro da concepção de vida medíocre da classe média em que só pode ser dito o que "agrega valor à vida". Cuidado! Os olhos da moradora do apartamento enxergam tudo o que se move em sua criação. E nela, todos devem ter seus orçamentos equilibrados.
O professor deve ver diante de si alguém que, por definição, nunca erra, e se preocupar com sua autoestima, o artista deve pintar o rosto do pequeno deus miserável que sonhamos ter dentro de nós, o metafísico, este coitado, vira escravo de um universo que deve estar a nossa disposição a cada segundo resolvendo até nossos crediários.
Confesso: eu não tenho uma concepção de vida, sou um coitado. Vejo a vida como Pepi, a faxineira do romance de Kafka "O Castelo". Pelo buraco de uma fechadura, vejo a vida e seus muitos vultos aos pedaços, arrastando-se pelas paredes. A duras penas pressinto suas formas. Muitas vezes estremeço quando as pressinto mais agudamente.
Já tentei ter uma concepção de vida, mas desisti e hoje, como diz o filósofo romeno Cioran (século 20), eu acho que grande parte dos problemas do mundo advém da praga que é todo mundo querer ter uma concepção de vida. Quando estou diante de alguém que tem uma concepção de vida, recuo assim como quem recua de um predador. A certeza acerca do que seja uma vida plena me apavora. Antigamente apenas alguns poucos eram tomados por esta febre, mas hoje, como vivemos no mundo das grandes quantidades, todos se acham no direito de ter concepções de vida.
A indiferença faria do mundo, talvez, um lugar melhor. Mas sei que isso é difícil de ser compreendido por quem se vê como um agente do bem, a partir de seu pequeno apartamento de classe média, ao som de seu programa alegre de domingo. Quem assim se vê normalmente não tem qualquer piedade.
Nessas horas, sinto saudades de Deus e daquele tipo de santo que vivia o dilaceramento de quem se vê tragado, de um lado, pela graça de Deus, e, do outro, por sua natureza orgulhosa, que se revolta contra os elementos naturais, apenas porque eles lhe são indiferentes.
Há uma luta entre Deus e o Diabo e seu palco é o coração humano, nos diz Dimitri Karamazov, um dos heróis de Dostoiévski. O habitat natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Como Deus é piedoso, dele aprendo a humildade, como o Diabo é infeliz, dele aprendo a vaidade. Ambos são improváveis, por isso merecem nossa fé.
******
Vivendo a diferença
Olavo de Carvalho
Como geralmente se entende por educação superior o simples adestramento para as profissões melhores, conclui-se, com acerto, que toda pessoa normal é apta a recebê-la e que, na seleção dos candidatos, qualquer elitismo é injusto, mesmo quando não resulte de uma discriminação intencional e sim apenas de uma desigual distribuição de sorte. Mas, se, por essa expressão, se designam a superação dos limites intelectuais do meio, o acesso a uma visão universal das coisas e a realização das mais altas qualidades espirituais humanas, então existe dentro de muitos postulantes um impedimento pessoal que, mais dia menos dia, terminará por excluí-los e por fazer com que a educação superior, no sentido forte e não administrativo do termo, continue a ser de fato e de direito um privilégio de poucos.
Esse impedimento, graças a Deus, não é de ordem econômica, social, étnica ou biológica. É um daqueles males humanos que, como o câncer e as brigas conjugais, se distribuem de maneira equitativa entre classes, raças e sexos. É o único tipo de imperfeição que poderia, com justiça, ser invocado como fundamento de uma seleção elitista, mas que, de fato, não precisa sê-lo, pois opera essa seleção por si, de maneira tão natural e espontânea que os excluídos não dão pela falta do que perderam e chegam mesmo a sentir-se bastante satisfeitos com seu estado, reinando assim entre os poucos felizes e os muitos infelizes uma perfeita harmonia, salvaguardada pela distância intransponível que os separa.
O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. No entanto, ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece-a de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.
Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente “falta de experiência das coisas mais belas”. Sob esse termo, entendia-se eu o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é prisioneiro da caverna. Aristóteles, que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas “uma profunda impressão”. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes de impotência de conhecer.
Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos “ritos”. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música - certas músicas - não se pode negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e Castigo) podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberta da caverna e da apeirokalia.
Infelismente, o número dessas vítimas parece destinado a crescer.
Já em l9l8 Max Weber assinalava a perda de unidade dos valores ético-religiosos, estéticos e cognitivos.
O bem, o belo e a verdade afastavam-se velozmente, num movimento centrífugo, e, em decorrência, “os valores mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas diretas e pessoais. Não é por acaso que hoje somente nos círculos menores e mais íntimos, em situações humanas pessoais, é que pulsa alguma coisa que corresponda ao pneuma profético, que, nos tempos antigos, varria as grandes comunidades como um incêndio”.
As duas fortalezas do sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder:
a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideólogica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.
Toda literatura do século 20 reflete esse estado de coisas: primeiro a “incomunicabilidade dos egos”, depois “a supressão do próprio ego”: a “dissolução do personagem”. Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau: o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo , a verdade estúpida e deprimente.
A estética celebra os vampiros, a mote da alma, a crueldade. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é do que o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até a medula. Nessas condições, é um verdadeiro milagre que um indivíduo possa escapar por instantes da redoma de chumbo da apeirokalia, e, outro milagre, que, ao retornar ao pesadelo que ele denomina “vida real”, esses instantes não lhe pareçam apenas um sonho, que não se deve mencionar em público.
Mas nada proíbe um escritor de dirigir-se aos sobreviventes do naufrágio espiritual do século 20, na esperança de que existam e não sejam demasiado poucos. Acossados pelo assédio conjunto da banalidade e da brutalidade, esses podem conservar ainda uma vaga suspeita de que em seus sonhos e esperanças ocultos haja uma verdade mais certa do que em tudo quanto o mundo de hoje nos impõe com o rótulo de “realidade”, garantido pelo aval da comunidade acadêmica e da Food na Drug Administration. É a tais pessoas que me dirijo exclusivamente, ciente de que não se encontram com mais freqüencia entre as classes letradas do que entre os pobres e desvalidos.
******
Cultura de Massa
Jairo Lima
Em um conjunto de ensaios muito conhecido, Apocalípticos e Integrados,Umberto Eco desenvolve uma ampla discussão sobre a cultura de massa (conceito genérico, ambíguo e impróprio, na sua própria opinião), que está longe de haver esgotado os seus problemas. Mas formula indagações e proposições ainda válidas para um debate como o que se propõe este artigo.
Começando por eximi-lo de formular o falso problema de se é bom ou mau existir a cultura de massa, e sim, perguntar, como o próprio Eco: qual a ação cultural possível a fim de permitir que esses meios de massa possam veicular valores culturais.
Logo se vê que o problema é mais filosófico e sério que a simples
História, para usar expressão de Aristóteles, na sua Poética. É de estética, portanto,que se trata. De fortalecer o pensamento, a educação dos sentidos. Neste campo, os recentes e ainda incipientes avanços dos meios tecnológicos contribuem em muito para rever e enriquecer diversos dos temas propostos por Eco e Abraham Moles, entre muitos outros estudiosos do assunto. A chamada cibercultura põe em xeque ou em choque a mídia.
Já não se trata de mero maniqueísmo que oporia os adeptos entusiasmados de uma cultura de massa a nostálgicos elitistas. Nem novos aristocratas contra uma massa heterogênea de burgueses e pobres. O que se observa nos dias atuais é o rumo para um tal estado de coisas em que esses conceitos e outros como coletividade e individualidade sofrem uma transformação evidente, e, dentro disto, a imprópria e genérica cultura de massa.
Sabe-se que um dos divertimentos prediletos de artistas e teóricos, durante boa parte do século vinte, foi profetizar a morte da arte. Mas o que ocorreu foi justamente o inverso: uma superabundância de seus meios e o desenvolvimento de estéticas quase que na quantidade dos indivíduos. Sem que, na maioria das vezes, a arte tivesse nada a ver com isso. Tantos foram os rótulos que essa indústria produziu para as multinacionais do pensamento que poderia perfeitamente se falar de uma era pós-estética, de uma pós-produção, numa época, a de hoje, em que termos como modernidade e originalidade estão passados, sem o caráter adjetivo ou substantivo, que tantos quiseram dar na tentativa de sua hegemonia, mas simplesmente histórico. A própria idéia de História sofre, como vem sofrendo há décadas, alterações significativas.
Deve-se falar no fim da hegemonia da tal cultura de massa. O esgotamento de uma era de passivos, para um período de ativos produtores e intérpretes de arte. Para isso, o próprio funcionamento da mídia vai por assim dizer alterar-se. Até agora os meios estiveram muito aquém. Ou como diz com melhor ciência o filósofo Jacques Bouveresse: A única coisa de que se pode acusar a mídia é de não fazer o que deveria fazer, isto é, informar. Naturalmente, antes de mais nada, isso significa informar-se.
Há uma conhecida blague do escritor Oswald de Andrade, para quem a massa um dia consumiria o biscoito fino que ele dizia fabricar. Concluindo-se o século, a piada não se tornou profecia. Continua sendo uma piada. O trocadilho continuou também incólume. Mas não a massa, nem a cultura que ela representa. A despeito do escritor paulista não haver produzido biscoitos finos (nem no sentido literal, nem no metafórico), nem a massa os ter consumido.
Ambos alimentaram-se de produtos falsos, que começou por estabelecer um abismo entre o estético e o ético, e nesta última falta foi coerente, pois tentaram vivificar uma arte e um pensamento cimentados no engodo mútuo.
Falar do fim da tirania da cultura de massa parecerá estranho apenas a um indivíduo que ignore o que acontece no mundo, à sua volta, ou a um palmo adiante do nariz. Se a ele não for possível ainda vislumbrar ou enxergar um brave new world em que o gosto não seja ditado pela vulgarização (isto é, haja realmente gosto), talvez seja capaz de farejar um outro tempo e espaço, que há muito são engendrados, com a contribuição do avanço das novas tecnologias, quando já não há separação entre produção, difusão e interpretação das obras.
Embora na aparência seja o território da democracia o que fez a cultura de massa foi dissolver as ágoras, e não criá-las. Foi fraturar o coletivo, não afirmá-lo. O indivíduo longe esteve de ter voz. O que surge é um novo sentido coletivo e para o indivíduo. O que se teve até agora foi aquele tipo de "igualdade" atacada por Adorno: A comunicação providencia a igualitarização dos homens através do seu isolamento, existindo num estado de coisas referido por Habermas, que fala na colonização do mundo vivido.
A chamada indústria cultural viveu a serviço dessa pulverização do
medíocre, ou mesmo de uma cada vez mais primária puerilização, com as bênçãos da estupidez togada. Até esgotar-se. Exaurir os seus vazios. Tudo guindado pelo baixo nível de informação (e formação, uma vez que universidades e escolas são também parte da mídia).
Se a cultura de massa, na visão de Eco, é "anti-cultura", o seu esgotamento implica não simplesmente no seu fim, mas numa volta à cultura. Como os poemas de Homero que recuperam a Grécia para a cultura depois de séculos de trevas. Na ressurreição não do indivíduo, mas do homem; não somente do homem, da sua humanidade. Para isso, cumpre aceitar a provocação de René Garrighes,
antevista no Ensaio para fundar uma moral e uma política a partir da poética de J. S. Bach e de Brueghel, o velho. Em um novo classicismo, que se anuncia, obras como as de Bach não devem ser abandonadas aos especialistas. Elas escondem recursos que ainda não foram explorados e que poderiam trazer de volta a confiança ao homem moderno, contribuindo para que ele tenha fé em si mesmo.
1
1
0
0
0
0
0
0
1
0
1
0
0
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
1
1
1
1
1
1
1
1
1
0
0
0
1
0
0
0
1
0
0
0
0
0
0
0
1
0
1
0
1
0
1
0
1
0
1
0
1
0
1
0
1
1
0
0
0
0
0
0
1
1
1
1
0
0
0
0
1
0
1
0
0
0
0
0
1
1
1
1
1
1
1
1
1
0
0
0
1
0
0
0
1
1
1
1
0
0
0
0
PAPO SOLTO
JAIRO