****** Versos de alto risco
Antologia poética Antonio Nahud Júnior será lançada em Natal na Academia de Letras
O mais novo livro do poeta Antonio Nahud Júnior revela sua essência na epígrafe do também baiano Waly Salomão: “Eu era um mar de melancolia / um coração pedra-bruta / um mundo sem alegria / ó doce loucura que me acontece / ó língua de fogo que me entontece”. A atitude desencantada, que oscila entre o mal e seu remédio, não fecha, mas abre caminho para uma poesia que, sem pretender roçar a verdade, mas também sem desprezá-la, se coloca a meio passo entre sonho e fato, entre derrota e espera, entre encantamento e desilusão. Fazendo parte da Coleção Selo Letras da Bahia, da Secretaria de Cultura da Bahia/Fundação Pedro Calmon, “Livro de Imagens” tem tiragem de mil exemplares e foi inicialmente distribuído em bibliotecas e escolas públicas da rede baiana de ensino. Depois de Salvador, Aracaju, Belo Horizonte, Recife, Lisboa e Sintra, será lançado em Natal no próximo dia 30 de julho, às 18h, na Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL). Celebrando um dos poetas favoritos do autor, o alemão Rainer Maria Rilke, que em 1902 lançou obra com título semelhante, o livro conta com prefácio de Diógenes da Cunha Lima e capa do artista plástico Moisés Ribeiro - inspirada em Max Ernst. Com 226 páginas e 124 poemas, “Livro de Imagens” mapeia toda uma trajetória poética. Portanto, livros esgotados como “O Aprendiz do Amor” (1993) ou “Caprichos” (1996, publicado somente em Portugal), estão presentes, ao lado de inéditos. Selecionado para publicação por uma comissão de intelectuais e escritores baianos, a obra comemora os 25 anos de literatura do autor, numa carreira iniciada na adolescência. Mesmo não firmando compromisso com correntes poéticas, os versos do poeta dão forma a uma lírica densa, pautada em angustiadas reflexões sobre temas - como a passagem do tempo ou a solidão - que são uma via para o autoconhecimento. Os poemas de “Livro de Imagens” foram elogiados por Jorge Amado, Hilda Hilst, Vicent Franz Cecim, Hélio Pólvora, João Silvério Trevisan e Caio Fernando Abreu, entre outros nomes sólidos da literatura brasileira, e lembram o famoso claro-escuro de Tiziano, estratégia usada pelo pintor italiano para traduzir a existência de uma “visão absoluta”. Nós vemos, mas não vemos, ou seja, quando vemos – no mesmo momento e para que isso seja possível – não vemos. O contraste é a matéria da visão. É nesse claro-escuro que Antonio escreve. Nessa meia-luz, nesse lusco-fusco surge o espaço para a palavra lúdica que, sem pretender resolver, aponta; sem ambicionar a clareza, ainda assim ilumina. Em conseqüência, é uma poesia de alto risco, que deve ser lida com intensidade. Como diz o próprio Antonio Nahud Júnior, “escrevo para provocar e causar reações”. Escritor, poeta, jornalista e agente cultural, Antonio Nahud Júnior nasceu no sul da Bahia, nas terras do sem fim do grapiúna Jorge Amado, e passou a maior parte de sua vida viajando. O primeiro livro deste escritor nômade foi publicado em 1993, “O Aprendiz do Amor”. No Brasil, morou no Rio de Janeiro, São Paulo e atualmente na capital potiguar. Na Europa, em diversos países por mais de dez anos. Fez amigos importantes, do escritor Paul Bowles a atriz Florinda Bolkan, do poeta Hilda Hilst ao diretor teatral Gerald Thomaz, e tem matérias estampadas nos principais jornais do Brasil, Portugal e Espanha. Cultivando versos, divide o tempo entre a criação literária, viagens à trabalho e o blog “Cinzas e Diamantes”.Com oito livros publicados, Nahud entrevistou cerca de duzentas celebridades artísticas, entre os quais quatro prêmios Nobel de Literatura – José Saramago, Camilo José Cela, Gunter Grass e Doris Lessing -, entrevistas estas que podem ser lidas em “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003). Também tem contos, poemas, crônicas, ensaios e artigos publicados em Espanha, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e França.
SERVIÇO
Lançamento: “Livro de Imagens”, de Antonio Nahud Júnior
Datas: 30 de julho, sexta-feira, às 18h
Local: Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL)
Preço do livro: R$ 25,00
Número de páginas: 226
Outras informações: (084) 3216-2300 (manhãs) (084) 9641-2705
OPINIÕES
“La poesia de Antonio Nahud Júnior es todo um desafio a la imaginación, um regalo para los sentidos. Brillante y extravagante. Es dúctil, cromática, igual de sabrosa em la evocación lírica que en el testimonio social “ (Manuel Puig, 1988)
“A literatura de Antonio Nahud submerge o leitor num mundo intrépido de terror e tremor, de beleza indescritível e de uma fascinante prospecção filosófica sobre o tempo, a morte, o amor, o horror, o sexo, a busca” (Caio Fernando Abreu, 1990)
“A cada dia os versos de Antonio Nahud Júnior purificam ainda mais as palavras abandonadas da nossa língua portuguesa ávida de imagens e ritmos” (Hilda Hilst, 1992)
“A poesia sempre foi um gênero fundamental. Uma das características dela é conservar coisas que de outra maneira se perderiam. Como já não usamos baús, as coisas se guardam nos poemas. A imaginação lúdica do bom poeta grapiúna Antonio Júnior é fértil no seu baú de miudezas densas” (Jorge Amado, 1993)
“Gosto muito do que Antonio Nahud Júnior escreve. Acho sua literatura excelente. Ele é um dos meus. Como o Glauco Mattoso e o Roberto Piva dizem, tão carinhosamente, acho que tenho coragem em gostar de escritores que abordam temas malditos ou noir” (Leila Miccolis, 2001)
“Os recursos poéticos de Antonio Nahud Júnior são sutis, beirando sempre uma prosa de indignação contra seu tempo, quase como um vômito” (João Silvério Trevisan, 2002)
“Os versos de Antonio Nahud Júnior são sempre aliciantes, instigantes, inteligentes. O autor continua em busca de algo que pode ser grande” (Hélio Pólvora, 2002)
“É por nós, generosamente, que ele cruza oceanos, contempla as paisagens, sem hesitar penetra em labirintos, ausculta cavernas, desvela horizontes, revela territórios reais e poéticos, se expõe Face a Face com geografias desconhecidas e interroga o humano em Diálogos reveladores, sempre, por onde passa”
(Vicente Franz Cecim, 2005) “Antonio Nahud Júnior é um peregrino dos mistérios do eu“ (José Inácio Vieira de Melo, 2006)
ALGUNS POEMAS
(01)
sou um cântico esmagado dentro do silêncio um cigano uma estrada imunda até a lua eu sou a lua um retrato em um bar numa longínqua madrugada um fósforo de faíscas púrpuras um tubarão em oceanos nunca mergulhados um deserto escarlate uma chuva generosa uma chuva de seiva – fácil, única uma carta que não sabe onde você mora não encontra o diáfano caminho que guarda palavras em todas as línguas todas as preces interrogando: “que aconteceria se eu voltasse, se você voltasse?”
(02)
escuto o silêncio. é coisa para doidos, como esperar a nudez de um amanhecer cinzento ou seguir em transe uma abelha de flor em flor. a música do silêncio-jazz. para não extinguir a esperança do inominável mistério. mistério meu, que muito quero. aceitando tudo, vomitando tudo. aproximo os ouvidos: não existe terra, não existe céu. tão somente a vida é lenda. escuto, escuto o silêncio-jazz.
(03)
vou por onde acaba o nascimento, por entre pressentimentos. a inquietação – como roer a arte, a vida, deus? – é protagonista de minha história comum de minha história em mim que me persegue e foge conflito por dizer que vivo que consigo ver enquanto chove nesta escuridão lisboeta de dezembro e caminho à margem do tejo constelação líquida de muitas águas vivendo ao sabor de uma conversa abstrata enquanto se fala e volta a esquecer o essencial
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De Marina Elali ao Boa Tarde RN Antonio Nahud Júnior
A estrela sobe
A excelente cantora Roberta Sá disputa o Prêmio da Música Brasileira 2010, na categoria de Melhor Cantora de MPB, ao lado das divas baianas Maria Bethânia e Nana Caymmi (Nana nasceu no Rio de Janeiro, mas faz parte da baianíssima família Caymmi). Com sete indicações, Maria Bethânia lidera a disputa com os álbuns “Encanteria” e “Tua”. O prêmio de Melhor Cantor de MPB será disputado por João Bosco, Ney Matogrosso e Zé Renato. A cerimônia de entrega dos prêmios acontecerá no dia 11 de agosto, no Teatro Municipal do RJ, com homenagem a Dona Ivone Lara, numa noite que promete reunir uma constelação de artistas. O PMP (antigo Prêmio TIM) está completando 21 anos e divide-se em 16 categorias.
O voto de Gullar
Prestes a completar 80 anos e a lançar um livro inédito de poesia, “Em Alguma Parte Alguma”, um dos grandes poetas contemporâneos, Ferreira Gullar, ganhador do Prêmio Camões e merecedor do Nobel, confessa em recente entrevista à Folha de São Paulo que a tranqüilidade associada à velhice, realmente, não se aplica a ele. Preservando intacto há mais de 50 anos o espírito crítico que faz dele um dos principais, e mais controversos, pensadores do Brasil, o maranhense Gullar é um dos opositores do governo Lula – “é um farsante, não merece confiança”, diz – e conclui a entrevista anunciando que votará em José Serra: “Pelo que sei, ele fez um ótimo governo em São Paulo. Foi excelente ministro da Saúde. Se não votar nele, vou votar em quem?”.
Falta paixão, Marina Elali
Por acreditar que música de qualidade não condiz com popularidade, a maioria dos jovens cantores apela, se jogando no descartável, desenhando o destino de carreiras badaladas e curtíssimas. Quando fogem à regra, é um acontecimento. É o caso da cantora Marina Elali. Ela tem se esforçado para desenvolver uma trajetória honesta, mas escorrega na elaboração forçada, sem paixão, direcionando-se para um beco sem saída: o estrelismo fake “Made in Broadway”. Aconteceria o mesmo se uma cantora norte-americana bancasse a musa do samba. Ou seja, puro artifício. A moça tem uma boa voz e é belíssima, mas precisa se reinventar, pulsar o swingue nordestino no sangue – não deve esquecer que é neta do admirável compositor Zédantas. Não adianta viver de ilusões, acreditando na mídia do Rio Grande do Norte que diz insensatamente que ela é sucesso em todo o Brasil. Todos comentam sobre os valiosos recursos financeiros investidos no ofício da artista, no marketing publicitário de anos a fio. Mas nem tudo está perdido. Marina Elali precisa urgentemente encontrar o seu caminho, navegar em águas potiguares, arrancar do coração o talento camuflado em vedetismo hollywoodiano. Só assim será uma cantora de fato.
Um cafuçu no Mister Mundo
O significado do termo cafuçu, usado pelos gays, é o homem rústico, o bofe da padaria, o camponês, o entregador de pizza, rapazes atraentes e simplórios que não sabem da beleza deles. É o garotão natural, nunca o que está na moda. Porém, o anonimato da formosura cafuçu tem os dias contados. Um deles, o ex-pescador gaúcho Jonas Sulzbach, foi escolhido para representar o Brasil no Mister Mundo, vindo da distante Ilha dos Lobos, no litoral do Rio Grande do Sul. Ele já posou para o site The Boy, do portal Terra, e apareceu em ensaios para diversas revistas, inclusive a gay australiana DNA Magazine. Radicado em São Paulo, o rapaz de 23 anos comprova que o potencial gaúcho é sempre colírio para os olhos.
Fiasco
À primeira vista, parece forçado analisar um telejornal com base em critérios estéticos. O público está mais interessado no conteúdo do qual emerge o que se acredita ser a “verdade”. É uma análise evidentemente ingênua: não se pode dissociar competência profissional e informação pública. Essa falta de garra, num amadorismo inconcebível para um veículo da Rede Bandeirantes, é visível na revista eletrônica “Boa Tarde RN” (TV Potengi). Apresentei um programa de variedades até dezembro do ano passado, o “Fina Estampa”, na Bahia. Sei que não é nada fácil, erros acontecem, mas o telespectador não merece o golpe baixo do amadorismo. Além de falhas constrangedoras, “Boa Tarde RN” se equivoca na escolha da âncora Marina Leiros. Ela atropela as palavras, fala rápido, tem vocabulário limitado, colocações redundantes nas entrevistas, voz anasalada, costuma cruzar os braços em cena (demonstrando insegurança) e, por fim, conta experiências pessoais (viagens, lua-de-mel etc.) numa revista de TV dita séria. Um fiasco. Alguns desses problemas estão relacionados com o uso inadequado do trato vocal, e podem ser solucionados com uma reeducação especializada no uso da voz.
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Baobá de Natal inspira balé em São Paulo
Mais célebre das obras de Antoine de Saint-Exupéry, "O Pequeno Príncipe" já resultou em centenas de adaptações. Deu origem a livros, filmes e peças de teatro. Agora é a vez da obra em versão coreografada pela Cisne Negro Cia. de Dança, uma das mais premiadas do Brasil. No espetáculo "Baobá", que entrou em cartaz semana passada, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, o tradicional grupo de dança partiu da história do pequeno habitante do asteróide B612 para criar um espetáculo que tem dança, texto e trilha original. Mas tudo teve início em Natal, onde em 2009 a coreógrafa Dany Bittencourt se encantou com o baobá, trocou idéias com o poeta Diógenes da Cunha Lima e partiu disposta a levar em cena todo o material recolhido. Parte desse material - as fotografias de Fred Filho retratando folhas e flores do Baobá natalense - foi utilizado como elemento cênico. As letras do espetáculo são de Eduardo Ruiz, as músicas de Miguel Briamonte e as coreografias de Dany Bittencourt. A direção de José Possi Neto, que havia trabalhado com a companhia em 1988 ("Romance Velho"), transportada a história de Exupéry para o Brasil. Aqui, ele encontrará um príncipe negro, guardião das florestas, e o enredo ganha tons de lenda sobre a sustentabilidade do planeta. Apesar da temporada voltada para o público adulto, “Baobá” pretende ter especial apelo entre crianças e jovens e adquire contornos educativos. Convidado de honra, o presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras esteve presente na estréia, dia 2 de julho, recebendo agradecimento especial da equipe da Cisne Negro no folder do espetáculo. "Eles pegaram a principal lição de Saint-Exupéry, que é mostrar a importância da responsabilidade no amor e na amizade, e a ampliaram com a responsabilidade em relação ao planeta, num manifesto sobre sustentabilidade", diz o poeta. O espetáculo, que fica em cartaz até o dia 11 de julho, será exibido a seguir na Tailândia e em vários países europeus. Segundo o diretor José Possi Neto e a diretora da Cisne Negro, Hulda Bittencourt, esse trabalho construído com profissionalismo e paixão será também visto em Natal, em janeiro do próximo ano. Eles confessaram que se sentem em dívida com a capital potiguar, já que a idéia do espetáculo nasceu nesta cidade.
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Formosura comentada Antonio Nahud Júnior
Diversos sites, blogs, revistas, jornais e programas de tevê já colocaram em pauta a belezura de alguns jogadores da Copa 2010. Com tanta testosterona em campo, em todas as enquetes – com mulheres, gays e até hetéros – os craques Cristiano Ronaldo e Kaká são disparados os ídolos da vez. Mas a minha opinião é outra. O português tem um corpão atraente, mas o rosto vulgar e a vaidade de uma afetação repulsiva. Kaká, insosso que dói, lembra mauricinhos mimados encontrados as pencas em qualquer shopping. Sexy? Nem fechando os olhos e usando a imaginação. Na verdade, a nossa seleção jamais seria campeã de beleza. Só se salva o goleiro Júlio César, um tanto brucutu, mas encantador justamente por isso. Alexandre Pato, que não jogou por estar contundido, foi uma grande perda como elemento estético. A sua formosura é imbatível. O mulherio e a torcida gay ficaram desolados com a sua ausência. E como gosto se discute, deixo aqui meu ranking dos mais bonitões da Copa na África: Georgios Samaras (Escócia, atacante, 25 anos, 1,93m); John Heitinga (Holanda, zagueiro, 27 anos, 1,80m); Carlos Bocanegra (Estados Unidos, zagueiro, 31 anos, 1,83m); Didier Drogba (Costa do Marfim, 32 anos, 1,88m); Ján Durica (Eslováquia, zagueiro, 29 anos, 1,87m).
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Jorge Amado: um coração simples Antonio Nahud Júnior
Houve uma época em que fui severo em relação ao contador de histórias Jorge Amado, trocando-o por escritores que faziam da linguagem uma prática experimental. Coisas da busca pessoal de um jovem escritor. Eu renegava a linguagem popular sem pretensão desse narrador que, traduzido em quase todas as línguas vivas, ocupa lugar significativo no universo literário contemporâneo. Felizmente nunca fiquei preso a uma verdade indiscutível e atualmente costumo ter genuínas reflexões sobre a beleza da literatura amadiana. Ao assistir ao documentário de João Moreira Salles sobre a vida e obra do autor de “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1966), fiquei enternecido ao recordar sua forma despojada de ser: fita do Senhor do Bonfim no pulso, camisa florida semi-aberta, sorriso aberto e olhar cândido, sem deixar de criticar com voz dengosa e matuta as leis arcaicas, as elites, os políticos e a falta de memória dos brasileiros. Recordei-me do tempo em que freqüentava a sua encantadora casa no Rio Vermelho, em Salvador; da sua carta gentil saudando o meu livro de estréia, “O Aprendiz do Amor” (1993); do nosso afável reencontro no Cassino do Estoril, em Portugal. Diante de mim, um homem simples, amável e generoso, sem as vaidades bestas da maioria dos escritores que conheci ao longo da vida. Descobri Jorge Amado aos onze ou doze anos de idade na biblioteca paterna. Porém, era leitura rigorosamente proibida para menores. Mas enfrentei a censura, exigindo argumentos sólidos que me impedissem de ler a tal coleção de capa vermelha. Papai foi duro, alegando se tratar de um escritor de putas, bêbados e vagabundos. Ainda mais interessado, na calada da noite, às escondidas, entreguei-me ao deleite de conhecer o tal universo profano do nosso Honoré de Balzac. Terminei por constatar o romantismo e a sensualidade de sua criação, permeada por outros denominadores comuns, tais como o realismo, a proeminência das personagens de extratos sociais explorados, o humor e o nacionalismo. O que essa literatura perde em rigor lingüístico ganha em vitalidade e fantasia. Massacrado por boa parte da crítica especializada, a história literária do escritor baiano foi marcada por poucas e boas. “Capitães da Areia”, publicado em 1937, apreendido pela polícia e queimado em praça pública, só retornou às livrarias no final da ditadura Vargas, em 1944. Também foram queimados por determinação da Sexta Região Militar 1.694 exemplares de “O País do Carnaval” (1931), “Cacau” (1933), “Suor” (1934), “Jubiabá” (1935) e “Mar Morto” (XXX). “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), cujo cenário é a região cacaueira sul baiana, provocou a ira dos ilheenses que passaram a tratar o seu autor como persona non grata (situação que mudaria com o sucesso da telenovela global de 1975, e o proveito turístico vindo dele). Eram freqüentes as afirmações de que não era um grande escritor e que explorava os clichês da Bahia para alavancar a venda dos seus livros. Mas não conseguiram sufocar o talento do mestre grapiúna que revelou ao mundo a força da Mata Atlântica, o perfume do cacau, as ruas do Pelourinho, os terreiros de candomblé, jagunços, coronéis, marinheiros, boêmios, poetas cachaceiros, mães-de-santo e uma irresistível galeria de sedutores demônios femininos: Gabriela, Malvina, Glória, Maria Machadão, Teresa Batista, D. Flor, Tieta e tantas outras. Nascido em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna, desde sua infância Jorge Amado já conhecia a disputa, de forma sangrenta, pelas terras dos frutos de ouro. Estudando em Salvador conheceu estivadores, prostitutas, menores abandonados, entre outros marginalizados. Escritor da Geração de 30, enveredou por uma narrativa de cunho social, retratando injustiças sociais. Sua obra alia o lirismo à crítica social, caracterizando-se pela singeleza da linguagem e pelo tom coloquial, de fácil comunicação com o público. Mas Jorge Amado parecia não se dar conta da sua fama e importância. Por tudo isso - vida e obra tão especiais -, não deve ser esquecido. É indiscutivelmente um dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século 20. Não é por acaso que vendeu mais de 20 milhões de exemplares dos seus livros num país, no caso o Brasil, onde pouco se lê. Salve, Jorge!
www.cinzasdiamantes.blogspot.com
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Traduzindo a relevância cultural
O escritor e jornalista baiano Antonio Nahud Júnior estréia coluna de arte e cultura na revista eletrônica “Versátil News”, coordenada por Toinho Silveira. Com oito livros publicados e vasta trajetória jornalística – entrevistou quatro prêmios Nobel de Literatura, entre eles, José Saramago -, ele pretende nesta coluna renovar a tradição da informação cultural, numa releitura de vanguarda, opinando com coerência e bom humor, destacando artistas inspirados, resgatando o melhor do passado e testemunhando momentos-chave da arte potiguar, brasileira e mundial. Tudo para valorizar o papel do artista e sua relevância para a cultura contemporânea. “Traduzir para o leitor o milagre artístico é um grande desafio. Vou apostar no diálogo frutífero entre o universo pop e maravilhas transgressoras. Para tal, levo nos neurônios anos de leituras de três publicações fundamentais para a minha formação cultural: o The New York Times, o caderno Babélia do jornal El País e a revista francesa Le Magazine Littéraire”, diz o poeta Nahud.
Serviço: www.versatilnews.com.br
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Retraro do artista no norte do país.
Costumando embaralhar gêneros como ficção, ensaio, crônica e poesia, num jogo permanente com a própria linguagem literária, a escrita de Antonio Nahud Júnior é destaque esta semana no jornal “Alto Madeira”, sediado em Porto Velho e um dos mais expressivos de Rondônia. Beirando os 100 anos de atuação ininterrupta, esse periódico estampa uma longa entrevista (cópia anexada) onde o autor de “Se Um Viajante Numa Espanha de Lorca” navega em confissões poéticas. Enriquecendo a matéria, uma introdução semi-biográfica do escritor, box com cinco poemas inéditos (todos escritos em Natal), análise significativa sobre o blog “Cinzas & Diamantes” e, por fim, fotografias do entrevistado com José Saramago, Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, Nelida Piñon, Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles. “O ofício de escrever combate desencantos e desencontros. Leva a caminhos de descobertas e aventuras. Mas é uma paixão muitas vezes inglória. Um incentivo desses é dos mais amáveis, garante que continuar escrevendo vale muitíssimo a pena. Sinto-me honrado, comovido. O curioso é que conheço quase todo o Brasil, faltando apenas dois ou três estados, e Rondônia é um deles”, conta Antonio Nahud Júnior.
Serviço: Jornal “Alto Madeira” www.altomadeira.com.br www.cinzasdiamantes.blogspot.com
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Fogueira de paixões Antonio Nahud Júnior
Sou noveleiro de plantão, mas não tive paciência para acompanhar “Viver a Vida”. Manoel Carlos merece crédito pela coragem de colocar no horário nobre um assunto que a maior parte das pessoas teme ou insiste em ignorar: como vivem, neste país ainda com pouca informação e preparo, os cerca de 30 milhões de pessoas com deficiência. Mesmo dando voz a esses abnegados cidadãos, a trama parecia autoajuda, não emocionava, o luxo era excessivo e vários atores se perderam ao longo do caminho. Sendo assim, “Passione”, escrita por Sílvio de Abreu, estreou às pressas com a ingrata missão de estancar a sangria de audiência. Abreu é experiente, humorado, tradicional, sem a pretensão de inovar ou revolucionar a linguagem dos folhetins. Ele define a sua nova telenovela como um thriller, numa narrativa que pode ser considerada próxima a de "A Próxima Vítima". A idéia surgiu quando escutava a canção “Malafemmena”. Ela fala de um homem simples e honesto apaixonado loucamente por uma mulher ordinária e sem caráter. Aí começou a história de Totó e Clara, ou seja, Tony Ramos e Mariana Ximenes. O título é infeliz, de uma mesmice apelativa, lembrando perfume feminino adocicado barato, mas o espetáculo promete: ágil, divertido, romântico e com elenco de luxo. Tudo começa com a abertura ao som de Lenine e imagens do trabalho de Vik Muniz realizado com sucata: um emaranhado de pneus, porcas e parafusos se redesenha, graças aos efeitos da computação gráfica, para fechar o nome Passione. Ele é um dos artistas plásticos contemporâneos mais festejados. A direção talentosa de Denise Saraceni passeia com segurança entre a paulicéia e os campos toscanos. Pena que a beleza das seqüências na Toscana contraste com a patética mistura de italiano e português na boca dos personagens.
A diva Fernanda Montenegro, protagonista máxima, rouba a cena como a magnata Bete Gouveia, numa composição elegante, contida e inspirada. Em diálogos marcados pelo humor escrachado, brilha Irene Ravache como uma nova rica cafona, brilha Vera Holtz como uma esforçada suburbana. Os veteranos Cleyde Yáconis e Elias Gleiser comovem. Embora fatigado da temática em torno de italianos, já mostrada à exaustão nos folhetins de Benedito Ruy Barbosa, o núcleo spaghetti tragicômico é delicioso: Tony Ramos, Aracy Balabanian, Leandra Leal, Daniel de Oliveira e Emiliano Queiróz. Uma falha na escalação do elenco está na presença antipática de Carolina Dieckmann, sua mocinha Diana é repetição de tudo o que ela já fez sem nenhum resultado especial. Até o frescor de sua beleza está se esvaindo rapidamente. Taí uma criatura que devia fazer sociedade com Deborah Secco e mudarem de profissão. Kayky Brito é outro bonitinho chato de galocha. Já o atraente Rodrigo Lombardi não tem estofo para deixar de ser coadjuvante. Estão lhe dando corda, mas pode se enforcar a qualquer momento. Para compensar, o entretenimento tem Larissa Maciel como a tímida e complexada Felícia, Cauã Reymond como um campeão de ciclismo e o carismático Marcelo Anthony numa composição sutil quase feminina (ou não é proposital?). Por fim, justiça seja feita, a dupla de trapaceiros Mariana Ximenes e Reynaldo Gianecchini merece aplausos. Inspirando-se na star Bette Davis, a pérfida Clara de Ximenes usará e abusará do Totó de Tony Ramos. O pobre ingênuo será devorado pela paixão desmedida, absolutamente sincera. Portanto, “Passione” se apresenta recheada de poder, amor à primeira vista, canalhices, mães abnegadas, filhos desaparecidos, ambição, gente de caráter duvidoso, vinganças, golpes baixos, melodrama, dissimulados, algozes, vítimas. Clichês? Óbvio. Novidades? Quase nenhuma: talvez a bigamia do surpreendente Bruno Gagliasso e a ninfomania da sofisticada Maitê Proença (quem lembrou Silvana Mangano em “Teorema” acertou no alvo). Mas, sem dúvida, uma trama de ingredientes imbatíveis, de sucesso, provocando as mais diversas emoções. Afinal, o prazer em constatar a dualidade humana garante bom entretenimento. E depois, não tenho nada contra clichês. Clichês só se tornam clichês porque são muito repetidos e se são tão repetidos é porque funcionam.
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O fabuloso destino de Hilda Hilst na Casa do Sol Antonio Nahud Júnior
Ainda me lembro do sorriso de Hilda Hilst (foto, 1930-2004). Um sorriso enigmático que interroga e que responde. Um sorriso invulgar que me ocorre tão nítido, tão límpido, tendo como cenário os jardins exuberantes da Casa do Sol, um sítio a 11 quilômetros de Campinas. Eu costumava visitá-la nos finais de semanas dos primeiros anos dos 90. A poeta habitava aquele claustro desde 1966, abrindo mão da intensa vida de convívio social para se dedicar exclusivamente à literatura. Tal mudança foi influenciada pela leitura de "Carta a El Greco" (1956), do escritor grego Nikos Kazantzakis, que defende a necessidade do isolamento para se aprofundar na complexidade da própria escrita. É uma residência despojada, estilo andaluz, com pátio interno central. Rodeando a construção, uma variedade de árvores, entre elas a figueira centenária que era a preferida da escritora. “Sou poeta”, confessei com certo pudor no nosso primeiro encontro. “Ser poeta é algo elevado, difícil...”, respondeu rindo com extravagância. Desde então, nos tornamos íntimos. Enamorado por sua inteligência incomum e comportamento liberal, deixava-me embalar pela voz rouca de dicção perfeita lendo Ovídio, Petrarca, John Donne, Shakespeare, Jorge de Lima, Oscar Wilde e, por fim, Henri Michaux. À noite, víamos a telenovela do horário nobre global, acompanhados por um excitante uísque escocês e intermináveis gracejos de saudável loucura. Estive ao seu lado durante a feitura de “Do Desejo” (1992), numa movediça e fugaz satisfação. Nada esgotava o seu arsenal de palavras, num consciente delírio verbal que explodia todas as fronteiras do dizer.
A dramaticidade da Casa do Sol se confundia com prospecções filosóficas sobre o tempo, a morte, o amor, Deus. Suas paredes intensas, rosadas, manchadas e úmidas, respiravam a solidão compartilhada e a grandeza da vivência escrita, protegendo o fabuloso destino de sua moradora, uma das protagonistas fundamentais da paisagem literária brasileira do século 20. Fotografei Hilda dezenas de vezes em sua sozinhez, registrando a anatomia de um corpo idoso, flácido, de rugas em tom acobreado. Onde a formosura da juventude lembrando Ingrid Bergman ou Jeanne Moreau? Avançada para a sua época, ela foi musa de artistas, poetas – Vinicius de Moraes chegou a se apaixonar por ela – e milionários. Era encantadora, livre, generosa, lúcida, sarcástica, queixosa, íntegra, culta, melancólica e apaixonada por cães. Embora tenha alcançado ampla notoriedade pessoal, mastigava o estigma de não se considerar popular, acessível, ambicionando ser lida, estudada, discutida. Numa estratégia escandalosa, chamou a atenção para a sua obra por meio de suposta adesão ao registro pornográfico. Filha de família rica do interior paulista, confessou-me episódios terríveis de sua trajetória em busca do inefável, passando por contínuos dissabores e problemas. Pois a sociedade burguesa exige o meio-termo, o disfarce, nunca quem milita contra a hipocrisia reinante.
O deslumbre desconcertante do texto hilstiano mistura gêneros e linguagens, sempre babélico, refinado, irreverente, polifônico, múltiplo. Numa busca literária mística, sua visão é de angústia e, ao mesmo tempo, de êxtase. Com fervoroso amor pela originalidade, registra um intenso trabalho de linguagem e de musicalidade, um imaginário poético no qual questionamentos metafísicos se mesclam com fatos cotidianos. Sou leitor fiel de Hilda Hilst, sem nunca me esquecer dos momentos rutilantes que passamos juntos. Hildinha, num dia infeliz, deixou de falar comigo por ciumadas, conspirações, calúnias, coisas tolas de parasitas que sobreviviam de sua solitude. Fiquei abatido, sofri, mas sabia que tinha que ser assim, já havia acontecido com outros freqüentadores da Casa do Sol. Ao morrer, não me espantei, pois a sua morte estava anunciada há décadas. Essa grande poeta morria a cada instante desde muito antes de conhecê-la. A bela senhora apenas saía do corpo ao encantamento, rumo ao enigma. Mudava-se para Marduk, o planeta reservado aos poetas, como acreditava. Mas o embevecimento diante da sua criação crescerá à medida que as gerações futuras consigam apreender a transgressão da sua linguagem complexa, tentadora e relevante. Chegará o tempo em que sua imagem pública excêntrica deixará de predominar sobre o conhecimento da sua literatura.
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Os deuses e os mortos: a saga dos plantadores de cacau Antonio Nahud Júnior
Recordados como saudosos heróis ou sanguinários vilões, os coronéis - como eram conhecidos os grandes proprietários de fazendas da época de ouro do cacau - não são frutos da ficção engenhosa de Jorge Amado, Adonias Filho ou Euclides Neto. Libertinos, violentos, desalmados, sagazes, impiedosos ou ambiciosos? Com certeza tudo isso. No entanto, esses lendários e rudes homens que desbravaram o sul da Bahia, no final do século 19, enfrentaram desafios homéricos, lutando contra a natureza bruta, conhecendo a fartura e fazendo história. Pela posse de terras, utilizaram o trabalho honesto, a dominação pela força e regras acima das leis. Instigaram caxixes e tocaias, crimes abomináveis, mas começaram pobres e sem instrução, subindo na vida pegando no facão, na espingarda papo amarelo, alimentando-se de carne seca, farinha e rapadura; embrenhando-se na floresta hostil, onde a desmatavam e implantavam a monocultura em meio a Mata Atlântica; morando em casebres e dormindo em redes, antes de atingir as pompas do coronelismo.
Em “Terras do Sem Fim” (1942) e “Tocaia Grande” (1984), celebrados romances de Jorge Amado, encontramos a descrição deste processo de ocupação, da luta pela terra, da disputa entre vizinhos. Foi a partir desse clima de contendas e desconforto, em meio ao perigo, aos índios, animais selvagens e doenças, que surgiu a personalidade mítica dos destemidos coronéis. Através deles e de milhares de humilhados ou massacrados, que não tiveram a mesma sorte, vilas e cidades nasceram para a glória da região dos frutos de ouro, como eram conhecidas as amêndoas do cacaueiro. Os coronéis transformaram esses lugares em palco para seus mandos, se fazendo obedecer, elegendo representantes políticos, usurpando propriedades, manipulando as autoridades e, quando isto não saciava sua cobiça, mandavam jagunços assassinar os pequenos cacauicultores em emboscadas, ou muitas vezes esses acossados acabavam trabalhando para os próprios perseguidores, e conseqüentemente perdiam as suas roças. Temidos, às vezes admirados, eram ativos participantes da vida social grapiúna (*), líderes legitimados pelo voto, quase sempre conquistado pela força do dinheiro, das armas ou do domínio das instâncias públicas – como a justiça, a polícia e a cobrança de impostos. Ao longo do tempo, tornaram-se também comerciantes, juntando as duas principais atividades da exploração do cacau.
Eles não tinham limite de gastos: bebiam champanhe francês nos bares como aperitivo, perdiam fortunas na jogatina, freqüentavam cabarés, acendiam charutos com notas de quinhentos mil-réis e bancavam luxuosamente prostitutas estrangeiras. Sinônimo de prosperidade, seus palacetes eram sobrados faustosos e mobiliados com requinte europeu. Viviam no mais alto estilo. Os trabalhadores, vindos dos sertões da Bahia e de Sergipe, ficavam assustados com tudo o que viam: da exuberância da natureza à violência da conquista. Eram oprimidos de todas as formas: no salário que mal recebiam e tinham que devolver quando compravam, a preços extorsivos, gêneros de primeira necessidade no barracão do dono da fazenda; nas jornadas excessivas de trabalho; na ausência de serviços básicos, como educação e saúde.
A fama de Ilhéus e Itabuna correu mundo. Junto com ela chegaram imigrantes, principalmente turcos e libaneses, que sobreviviam como mascates, indo de fazenda em fazenda vendendo de tudo, e imprimindo a culinária árabe como uma das características da região cacaueira baiana. Os navios aportavam cheios de aventureiros em busca de riqueza fácil. Outros se deslocavam em animais ou mesmo em longas caminhadas, todos à procura do lucro certo, transformando a sociedade grapiúna em um misto de sotaques. No auge da lavoura do cacau, o sul da Bahia chegou a ser responsável por 40% da atividade financeira do Estado, num lucro inegável. Hoje, os coronéis, ex-deuses, são relíquias do passado e o cultivo do cacau passou da opulência à decadência. Porém, a saga dos plantadores de cacau dificilmente será esquecida, graças aos populares romances do itabunense Jorge Amado a aventura de uma pequena região se tornou conhecida em todo o Brasil e no estrangeiro, numa narrativa sedutora que relembra riquezas fundadas em episódios sangrentos, atentados e arruaças.
Antonio Nahud Júnior é escritor e jornalista. Nascido em Ilhéus, mora no Rio Grande do Norte.
(*) Grapiúna significa aquele que nasce no sul da Bahia. A designação tem origem tupi, sendo corruptela de igarapé-una (igarapé, pequeno rio; una, preta) ou de igaraúna (igara, canoa; una, preta) com a queda da vogal e a contração das sílabas gara.
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O castelo de Rilke Antonio Nahud Júnior
Majestosa edificação de grande estatura, cujas dimensões, estética e imponência despertam admiração, à beira do mar Adriático, quase inacessível, o Castelo de Duíno sobrevive ao esquecimento. O príncipe italiano Carlo Alessandro e o seu mordomo argentino José Gustavo são os mais recentes moradores deste monumento artístico e cultural imortalizado nos versos de Rainer Maria Rilke (1875 - 1926), que viveu nele de 1910 a 1912, então propriedade de sua amiga e mecenas princesa Marie von Thurn und Táxis. Deslumbrado com “As Elegias de Duíno” (1912-1923), obra em que o poeta austríaco revela a influência do pensamento filosófico de Sören Kierkegaard, visitei o famoso castelo-personagem nos primeiros anos deste novo milênio. Fabuloso, mesmo sem o açoite de ondas em fúria ou fantasmas de contos góticos, surpreendi-me ao perceber no alto de uma rocha, as ruínas de outro castelo, tal e qual eu guardava na imaginação. Portanto, há dois castelos em Duíno. Do mais velho se comenta dos cultos lunares ritualizados pelos druídas; fala-se também que teve como hóspede no século 14, o autor de “A Divina Comédia” (1304-1321), Dante Alighieri, considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como “il sommo poeta” (o poeta supremo).
Situado a uns vinte quilômetros da cidade italiana de Trieste, o Castelo de Duíno tem como atração um museu conservando a memória dos tempos de glória. De uma antiga torre, vê-se o caminho que leva da fortaleza a praia de Sistiana, trajeto que era percorrido diariamente por Rainer Maria Rilke durante sua longa estadia. Poeta hermético cujos poemas traduzem a angústia de um ser inadaptado, Rilke acumulava às suas circunstâncias vitais o fato de ser homossexual em uma sociedade especialmente repressiva. Em Duíno escreveu também os poemas que compõem a obra “A Vida de Maria” (1913), os quais o compositor alemão Paul Hindemith viria a musicar. Trabalhando com os limites sensoriais da existência, da melancolia, a sua poesia traduz o fundamento da busca de ser. Para ele, a poesia não podia ser senão mística, no sentido em que a existência humana só poderia encontrar a sua salvação através da linguagem poética, aspirando ao plano da totalidade, ou seja, a de uma dizibilidade absoluta e redentora. As "Elegias" apresentam a morte como uma transformação da vida em uma realidade interior que, junto com a vida, formam um todo unificado. A maioria dos sonetos canta a vida e a morte como uma experiência cósmica. Ainda hoje me lembro do impacto da primeira leitura destes versos: “Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível”.
Propriedade de família nobre, muito antiga, de origem Bergamasco, os Torre e Tasso, o Castelo de Duíno se aproxima dos mil anos de existência, destacando-se durante séculos com uma intensa vida social, artística e cultural ao receber Marcel Proust, Valéry, Einstein, a atriz Eleonora Duse e outras gigantes. Durante a Primeira Guerra Mundial, bombardeado e arruinado, posteriormente renasceu das cinzas. Atualmente, além de lugar de literárias peregrinações, é negócio turístico-empresarial alugado para seminários ou celebrações de casamentos. Os visitantes se encantam com “Rocca Degli Usignoli”, um superficial espetáculo de luzes e sons. Seguramente não é um castelo de contos-de-fadas, mas se tornou imortal por sua história, pelos versos de Rilke, pela visão privilegiada do Adriático.
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