Deu na Folha
Ler sem entender
A notícia de que 23,5% dos acompanhantes de pacientes do Hospital das Clínicas de São Paulo que declararam saber ler e escrever são incapazes de compreender instruções simples relativas ao uso de um medicamento preocupa, mas não chega a surpreender. Foi justamente a constatação de que a alfabetização formal significa muito pouco para a vida prática que levou a Unesco a criar e depois reformular o conceito de analfabetismo funcional. Desde 1978, o braço da ONU para a educação considera funcionalmente alfabetizado o indivíduo inserido de forma adequada em seu meio e que é capaz de desempenhar tarefas em que a leitura, a escrita e o cálculo são usados para o seu próprio desenvolvimento e o de sua comunidade. No papel faz sentido, mas computar esse tipo de situação, especialmente em censos, não é trivial. A solução encontrada foi utilizar substitutos mais objetivos, como os anos de instrução formal. É uma aproximação grosseira, mas que tende a funcionar com grandes populações. O IBGE, por exemplo, considera analfabetos funcionais os brasileiros maiores de 15 anos que tenham menos de quatro anos de estudo. Por esse critério, nosso índice chega a 21%. O problema surge quando se utilizam esses números em comparações com outros países. Como a definição de alfabetismo funcional pressupõe a boa integração da pessoa a seu meio e esta varia de acordo com nacionalidade, classe social etc., não se estabeleceu nenhum critério uniforme. O Canadá, por exemplo, só considera funcionalmente alfabetizado quem tenha mais de nove anos de escolaridade. Mais do que isso, as nações desenvolvidas já começam a substituir a noção de alfabetismo funcional pelo desempenho de amostras da população em provas que avaliam as habilidades em áreas específicas e comportam gradações. Nessas condições, 48% da população do Canadá estaria em nível de conhecimento abaixo do adequado. Essas considerações dão bem a medida do fosso que o Brasil ainda precisa transpor.
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Olho muito tempo o corpo de um poema Ana Cristina Cesar
olho muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não seja corpo e sentir separado dentre os dentes um filete de sangue nas gengivas
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Meio covarde Ivan Ângelo
Eu devia ter dezesseis, dezoito anos no máximo. Teresa era uma vizinha nova e falada. Não eram necessários muitos motivos para uma moça ficar falada naqueles anos 50, mas Teresa conseguiu reunir quase todos: decote, vestido justo, batom vermelho, sardas, tempo demais na janela, marido noturno e bissexto, muito bolero no toca-discos e, motivo dos motivos, corpo em forma de violão, como se dizia. Entre a minha casa e a dela havia um muro. Na época da antiga vizinha, velha, feia, engraçada, amiga que eu visitava sempre, costumava pular nosso muro para encurtar caminho. Ela não se importava e eu era quase uma criança. Agora, olhando disfarçadamente a nova vizinha, eu ficava pensando como seria bom pular o muro outra vez. Mas para essas coisas sou meio covarde.
O muro ficava na área do tanque de lavar roupa. Do lado de lá, ela cantava com uma voz sensual, inquietante. Meu pai não gostava, sabe-se lá por quê. Minha mãe também não, pode-se imaginar por quê. Talvez os motivos dele e dela convergissem para o mesmo ponto, embora diferentes, ponto que era o meu motivo para gostar tanto daquele canto. A voz ficava equilibrando-se em cima do muro: "Meu bem, esse seu corpo parece, do jeito que ele me aquece, um amendoim torradinho". Dava para ouvir minha mãe murmurar: "Sem-vergonha". O "torradinho" era quase um gemido rouco, talvez ela cantasse de olhos fechados. De vez em quando umas calcinhas de renda eram penduradas no varal. Minha mãe não suportava aquilo. Eu tinha vontade de espiar por cima do muro para ver o que ela estava fazendo, mas para essas coisas sou meio covarde.
Não era casada - a suspeita era geral. Mulher casada procura as vizinhas, apresenta o marido, pede uma xícara de arroz emprestado. A independência de Teresa insultava a comunidade solidária de mães, avós e filhas, sempre se socorrendo com um molhozinho de couve, uma olhadinha no bebê, um trocadinho para o ônibus. Os homens tinham pouco que fazer naquele quarteirão: meninos jogando bola na rua, adolescentes trabalhando como office-boys ou balconistas de dia e estudando à noite, maridos trabalhando de dia e relaxando à noite com uma cervejinha — todos desejando Teresa. Quando eu voltava do colégio, perto da meia-noite, via-a no alto do alpendre, esperando o marido, o amante: o homem. Eu olhava, ela fumava, eu passava, ela ficava. Com a repetição Teresa já me sorria, mas eu desconfiava do ar zombeteiro dela e nunca acreditei no sorriso. Tinha vontade de enfrentá-la e perguntar, bem atrevido: está rindo de mim ou pra mim? Em casa, na frente do espelho, ensaiava o tom, mãos na cintura. Quando vinha no bonde, de volta do colégio, planejava: hoje eu falo. Mas nunca consegui. Sou meio covarde para essas coisas.
Uma noite ela assoviou. Usava-se naqueles anos um assovio de galanteio, de homem para mulher, um silvo curto logo emendado num mais longo, fui-fuiiiu, que podia ser traduzido em palavras, e até era às vezes, quando a pessoa queria ser mais discreta, ou quando estava contando que assoviaram para ela, e nesse caso a garota falava: fulano fez um fui-fuiu pra mim. As mulheres às vezes usavam o assovio para imitar com certa graça o jeito cafajeste dos homens, e foi o que Teresa fez naquela noite. Tomei coragem, voltei, abri o portão, subi as escadas, parei na sua frente no alpendre. Ela vestia um penhoar azul e sorria da minha ousadia. Eu pretendia parecer desafiador, seguro, dono da situação, mas o sorriso dela não indicava nada disso. Teresa disse com malícia que o marido estava para chegar, não seria bom encontrar-me ali. Concentrei-me no papel tantas vezes ensaiado, respondi que seria ótimo se ele chegasse, que assim eu poderia explicar que ela havia assoviado, que eu havia subido para tomar satisfações, que não sou palhaço... Não creio que a representação tenha sido muito boa: ela continuava sorrindo. Recostou-se na amurada, usando a luz do alpendre como uma atriz num palco, e sua voz quente convidou: "Ele não vem hoje. Quer entrar um pouco?" Deveria ter sido mais prudente e recusado, mas para essas coisas não sou covarde.
Entrei, conversamos sobre o meu futuro e o passado dela. Vem cá ver minhas fotos, me disse, e eu a segui até um quarto pequeno onde havia uma grande cama, um guarda-roupa, uma mesinha com um abajur. Senta, ela disse. Apanhou no guarda-roupa uma caixa e mostrou-me fotografias de quando era mocinha, cartas apaixonadas de antigos namorados, retratos deles ou de outros com declarações de amor nas costas e uns versos dedicados a ela pelo namorado atual. "Ele não é meu marido, não." Eram sonetos copiados de Camões, palavra por palavra. Amor é ferida que dói e não se sente. Busque amor, novas artes, novo engenho. Alma minha gentil que te partiste. "Eu não gosto muito dele, mas gosto que ele me ame assim. Os meus namorados sempre me amaram muito." Tive ciúmes deles e vontade de contar a ela que os sonetos eram de Camões, mas para essas coisas sou meio covarde.
A roupa que Teresa vestia nem sempre estava onde deveria estar. Conversar em cima de uma cama, recostar, mudar o braço de apoio, apanhar coisas para mostrar, buscar conforto são movimentos que podem impedir um penhoar azul de cumprir seu papel, mesmo que a pessoa não queira. Quando chegou a hora de falarmos de nós, disse-lhe que seus olhares e sorrisos me pareciam zombaria e me deixavam encabulado. Que tinha vontade de perguntar a ela "o quê que há?", em tom de briga. Que tinha só dezessete (ou dezoito?) anos. Ela falou que me achava muito sério para minha idade, muito bonitinho também, que quando ouvia barulho de bonde depois das onze corna para o alpendre para me ver e que às vezes me olhava por cima do muro. Tive vontade de contar que sonhava muito com ela. Mas para essas coisas sou meio covarde.
Quase de manhã, pulei o muro que dava para minha casa. Ela me disse que voltasse outras vezes. Era perigoso e eu deveria ter recusado. Mas para essas coisas não sou covarde.
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Primeira aventura de Alexandre Graciliano Ramos
Naquela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária.
— Vou contar aos senhores... principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha.
Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho:
— Conte, meu padrinho.
Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se .na rede e perguntou:
— Os senhores já sabem porque é que eu tenho um olho torto?
Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira.
— Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto de cacetear ninguém.
Seu Libório cantador e o cego preto Firmino juraram que estavam atentos. E Alexandre abriu a torneira:
— Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária?
— Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo.
Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava:
— Hoje é isto. Você se lembra do nosso casamento, Alexandre?
— Sem dúvida, gritou o marido. Uma festa que durou sete dias. Agora não se faz festa como aquela. Mas o casamento foi depois. É bom não atrapalhar.
— Está certo, resmungou mestre Gaudêncio curandeiro. É bom não atrapalhar.
— Então escutem, prosseguiu Alexandre. Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando unhas com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:
— "Xandu, você nos seus passeios não achou roteiro da égua pampa?" E eu respondi: — "Não achei, nhor não." — "Pois dê umas voltas por aí, tornou meu pai Veja se encontra a égua." — "Nhor sim." Peguei um cabresto e saí de casa antes do almoço, andei, virei, mexi, procurando rastos nos caminhos e nas veredas. A égua pampa era um animal que não tinha agüentado ferro no quarto nem sela no lombo. Devia estar braba, metida nas brenhas, com medo de gente. Difícil topar na catinga um bicho assim". Entretido, esqueci o almoço e à tardinha descansei no bebedouro, vendo o gado enterrar os pés na lama. Apareceram bois, cavalos e miunça, mas da égua pampa nem sinal. Anoiteceu, um pedaço de lua branqueou os xiquexiques e os mandacarus, e eu. me estirei na ribanceira do rio, de papo para. o ar, olhando o céu, fui-me amadornando devagarinho, peguei no sono, com o pensamento em Cesária. Não sei quanto tempo dormi, sonhando com Cesária. Acordei numa escuridão medonha. Nem pedaço de lua nem estrelas, só se via o carreiro de Sant'lago. E tudo calado, tão calado que se ouvia perfeitamente uma formiga mexer nos garranchos e uma folha cair. Bacuraus doidos faziam às vezes um barulho grande, e os olhos deles brilhavam como brasas. Vinha de novo a escuridão, os talos secos buliam,as folhinhas das catingueiras voavam. Tive desejo de. voltar para casa, mas o corpo morrinhento não me ajudou. Continuei deitado, de barriga para cima, espiando o carreiro de Sant'lago. e prestando atenção ao trabalho das formigas. De repente. conheci que bebiam água ali perto. Virei-me, estirei o pescoço e avistei lá embaixo dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro. A princípio não pude vê-los direito, mas firmando a vista consegui distingui-las por causa das malhas brancas. — "Vão ver que é a égua pampa, foi o que eu disse. Não é senão ela. Deu cria no mato e só vem ao bebedouro de noite." Muito ruim o animal aparecer .àquela hora. Se fosse de dia e eu tivesse uma corda, podia laçá-lo num instante. Mas desprevenido, no escuro, levantei-me azuretado, com o cabresto na mão, procurando meio de sair daquela dificuldade. A égua ia escapar, na certa. Foi aí que a idéia me chegou.
— Que foi que o senhor fez? perguntou Das Dores curiosa.
Alexandre chupou o cigarro, o olho torto arregalado, fixo na parede. Voltou para Das Dores o olho bom e explicou-se:
— Fiz tenção de saltar no lombo do bicho e largar-me com ele na catinga. Era o jeito. Se não saltasse, adeus égua pampa. E que história ia contar a meu pai? Hem? Que história ia contar a meu pai, Das Dores?
A benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas costas do animal:
— Foi o que eu fiz. Ainda bem não me tinha resolvido, já estava escanchado. Um desespero, seu Libório, carreira como aquela só se vendo. Nunca houve outra igual. O vento zumbia nas minhas orelhas, zumbia como corda de viola. E eu então... Eu então pensava, na tropelia desembestada: — "A cria, miúda, naturalmente ficou atrás e se perde, que não pode acompanhar a mãe, mas esta amanhã está ferrada e arreada." Passei o cabresto no focinho da bicha e, os calcanhares presos nos vazios, deitei-me, grudei-me com ela, mas antes levei muita pancada de galho e muito arranhão de espinho rasga-beiço. Fui cair numa touceira cheia de espetos, um deles esfolou-me a cara, e nem senti a ferida: num aperto tão grande não ia ocupar-me com semelhante ninharia. Botei-me para fora dali, a custo, bem maltratado. Não sabia a natureza do estrago, mas pareceu-me que devia estar com a roupa em tiras e o rosto lanhado. Foi o que me pareceu. Escapulindo-se do espinheiro, a diaba ganhou de novo a catinga, saltando bancos de macambira e derrubando paus, como se tivesse azougue nas veias. Fazia um barulhão com as ventas, eu estava espantado, porque nunca tinha ouvido égua soprar daquele jeito. Afinal subjuguei-a, quebrei-lhe as forças e, com puxavantes de cabresto, murros na cabeça e pancadas nos queixos, levei-a. para a estrada. Ai ela compreendeu que não valia a pena teimar e entregou os pontos. Acreditam vossemecês que era um vivente de bom coração? Pois era. Com tão pouco ensino, deu para esquipar. E eu, notando que a infeliz estava disposta a aprender, puxei por ela, que acabou na pisada baixa e num galopezinho macio em cima da mão. Saibam os amigos que .nunca me desoriento. Depois de termos comido um bando de léguas naquele pretume de meter o dedo no olho, andando para aqui e para acolá, num rolo do inferno, percebi que estávamos perto do bebedouro. Sim senhores. Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo — e agora a pobre se arrastava quase no lugar da saída, num chouto cansado. Tomei o caminho de casa. O céu se desenferrujou, o sol estava com vontade de aparecer. Um galo cantou, houve nos ramos um rebuliço de penas. Quando entrei no pátio .da fazenda, meu pai e os negros iam começando o ofício de Nossa Senhora. Apeei-me, fui ao curral, amarrei o animal no mourão, cheguei-me à casa, sentei-me no copiar. A reza acabou lá dentro, e ouvi a fala de meu pai: — "Vocês não viram por aí o Xandu?" — "Estou aqui, nhor sim, respondi cá de fora" — "Homem, você me dá cabelos brancos, disse meu pai abrindo a porta. Desde ontem sumido!" — "Vossemecê não me mandou procurar a égua pampa?" —"Mandei, tornou o velho. Mas não mandei que você dormisse no mato, criatura dos meus pecados. E achou roteiro dela?" — "Roteiro não achei, mas vim montado num bicho. Talvez seja a égua pampa., porque tem malhas. Não sei, nhor não, só se vendo. O que sei é que é bom de verdade: com umas voltas que deu ficou pisando baixo, meio a galope. E parece que deu cria: estava com outro pequeno." Aí a barra apareceu, o dia clareou. Meu pai, minha mãe, os escravos e meu irmão mais novo, que depois vestiu farda e chegou a tenente de polícia, foram ver a égua pampa. Foram, mas não entraram no curral: ficaram na porteira, olhando uns para os outros, lesos, de boca aberta. E eu também me admirei, pois não.
Alexandre levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando:
Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.
• Durante muitos anos Chico Anisio, no seu programa Chico City, na Rede Globo, utilizou estes admiráveis personagens de Graciliano. Sem jamais citar a fonte, ao que eu saiba. Quem tem mais de 40 lembra o Coronel, Terta, Pedro Bó, e certamente ignora a origem do famoso quadro do programa.
JL
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A mula de padre Ascenso Ferreira
Um dia no engenho, Já tarde da noite Que estava tão preta Como carvão... A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo Amanheceu morto na mata Com o peito varado Pela canela do Pé-de-Espeto! — O cachorro de Brabo Manso Levou, sexta-feira passada, Uma surra das caiporas! — A Mula de Padre quis beber o sangue Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão A gente falava de assombração! Lá em baixo a almanjarra, A rara almanjarra, Gemia e rangia Oue o Engenho Alegria É bom moedor...
Eh Andorinha! Eh Moça-Branca! Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira Os bois ruminavam E as éguas pastavam Esperando a vez De entrar no rojão... Foi quando se deu A coisa esquisita: Mordendo, rinchando, As pôpas e aos pulos Se pondo de pé Com artes do cão, Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna! — Sustenta o laço, Maracanã! E a besta agarrada Entrou na almanjarra, Tocou-se-lhe a peia Até de manhã ...
E depois que ela foi solta Entupiu no oco do mundo! Num abrir e fechar d'olhos A maldita se encantou...
De tardinha. Gente vinda Da cidade Trouxe a nova De que a ama De seu padre Serrador Amanhecera tão surrada Que causa compaixão!
Na noite tão preta como carvão A gente falava de assombração
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Não Chamo Um o Maior e Outro o Menor Walt Whitman
Não chamo um o maior e outro o menor, Quem quer que preencha o seu período de tempo e lugar é igual a qualquer outro.
Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons calçados e um bordão colhido nos bosques. Nenhum dos meus amigos busca descanso em minha cadeira. Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia, Não conduzo homem algum à mesa do jantar, biblioteca ou casa de câmbio, Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher, para o alto de um outeiro Minha mão esquerda prende-vos pela cintura, Minha mão direita aponta em direção de continentes e estrada aberta.
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Homeopatia e preconceito Marcus Zulian Teixeira
Posturas preconceituosas de ambas as partes dificultam o diálogo entre racionalidades médicas distintas, impedindo que pacientes se beneficiem
Em todas as épocas, incomodados com posturas preconceituosas dos seus pares, pensadores e cientistas definiram esses julgamentos formados sem maior conhecimento dos fatos: "O preconceito é uma opinião não submetida à razão" (Voltaire); "Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito" (Einstein). Apesar de a ciência ser uma área do conhecimento que busca estudar os fenômenos e seus princípios, devendo isentar-se de preconceitos para cumprir o seu ideal, o "orgulho científico" entorpece a mente dos pesquisadores, fazendo-os desprezar aquilo que desconhecem. A história da humanidade está repleta de exemplos em que determinadas teorias consideradas "polêmicas" perante o modelo científico de uma época tornaram-se leis inquestionáveis no futuro, em vista do aperfeiçoamento dos métodos de investigação. Infelizmente, duas matérias publicadas no caderno Ciência deste jornal ("Descobridor do HIV defende a polêmica memória da água" e "Pesquisa rendeu Prêmio Ig Nobel a francês", 30/6), exemplificam o preconceito científico dos autores, que ironizam os recentes estudos do pesquisador Luc Montagnier (Prêmio Nobel de Medicina em 2008), que trazem novas evidências à teoria da "memória da água", endossando as "ultradiluições homeopáticas". Transmitindo aos leitores visão parcial dos fatos, os autores questionam o "brilhantismo" do ganhador de um Prêmio Nobel, a "qualidade científica" de suas publicações e a sua "capacidade de juízo". Como o currículo do pesquisador torna essas críticas inócuas, ressaltamos que outras pesquisas, não citadas nas matérias, evidenciam a "atividade biológica"" das "ultradiluições homeopáticas". Madeleine Ennis (farmacologista britânica) publicou estudos multicêntricos no periódico "Inflammation Research" (1999, 2001 e 2004), que confirmam os resultados da pesquisa de Jacques Benveniste publicados na revista "Nature" (criticada nas matérias). Apesar do viés "anti-homeopatia", a pesquisadora declarou-se surpresa com os resultados, que não puderam ser explicados pela farmacologia. Outros modelos, citados em revisões no periódico "Homeopathy" (em 2009 e 2010), mostraram a atividade biológica das preparações homeopáticas. A "memória da água" também foi estudada em modelos físico-químicos, tendo suas pesquisas publicadas em revisão no periódico "Homeopathy" (2007). Como exemplo, Louis Rey constatou a "informação" das ultradiluições homeopáticas no estudo da termoluminescência das substâncias ("Physica A", 2003). Contrapondo o movimento contracultural homeopático, que despreza a importância da pesquisa em geral, defendemos a fundamentação científica dos pressupostos homeopáticos, buscando uma linguagem comum que aproxime ambos os paradigmas e permita a prática de uma medicina integrada. No entanto, posturas preconceituosas de ambas as partes dificultam o diálogo entre racionalidades médicas distintas, impedindo que os pacientes se beneficiem com a união ética e consciente dessas opções terapêuticas.
MARCUS ZULIAN TEIXEIRA, doutor em medicina, é médico homeopata e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP. E-mail: mzulian@usp.br .
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Amarela Antonio Prata
Toda palavra é um juízo de valor. Por trás de “correto”, por exemplo, está a idéia de que a linha é mais digna que a curva, que há mais virtude na certeza que na dúvida. Da mesma forma, “errado” coloca o andar sem rumo – errância – como indigno, de pouco valor.
A palavra “covardia” sempre me intrigou, por seus dois significados. Denota tanto a violência que o forte comete contra o fraco quanto a timidez existencial que impede de intervirem os que presenciam a violência. Não é injusto pôr em carrascos e testemunhas o mesmo rótulo?
No domingo retrasado, na rua Bolívar, em Copacabana, por volta do meio dia, dois policiais torturaram um morador de rua. No domingo retrasado, na rua Bolívar, em Copacabana, por volta do meio dia, pedestres assistiram calados à tortura. Um dos pedestres era eu.
Assistindo à cena, parado na calçada oposta, ao lado de uma senhorinha com sacolas do supermercado, um sujeito de sunga e regata, vindo da praia e uma garota saindo da farmácia, com uma caixa de pasta de dentes nas mãos, entendi que os dois sentidos da palavra covardia são os lados da mesma moeda: dois pólos, positivo e negativo, sem os quais a corrente da maldade não viaja da intenção ao ato. Só pode existir a covardia do carrasco se a covardia das testemunhas permitir.
Para torturar o morador de rua, os policiais usavam uma arma amarela, que parece um revólver de brinquedo. Chama-se Taser e de brinquedo não tem nada. Quando disparada a distância, lança dardos presos a fios. Os dardos dão um choque, capaz de derrubar um adulto e deixá-lo imóvel por alguns segundos. Evita, assim, que seja necessária uma bala de chumbo para desarmar um bandido. Ok. O problema é que a Taser também funciona sem os dardos: seu cano, encostado ao corpo, dá choques elétricos.
Lembro-me das matérias em jornais, faz um ou dois anos, quando as polícias de alguns estados brasileiros estudavam a adoção da tecnologia. Muito bom que haja uma alternativa à arma de fogo, diziam os otimistas. Muito ruim que haja uma alternativa ao fio desencapado, alertaram os realistas.
Ao condenar as testemunhas com a mesma pena dos verdugos, a palavra “covardia” as transforma em cúmplices. Tirando-as da posição de espectadores passivos e lhes dando a responsabilidade pelo ato que está a ser cometido, lhes traz o dever e a possibilidade intervir. A palavra tem em si, portanto, o fardo e a benção da modernidade. Fardo por dizer que, haja o que houver à nossa volta, é de nossa responsabilidade. Benção por sugerir, simultaneamente, que mudar o mundo está em nossas mãos.
Enquanto um policial dava choques no homem e fazia perguntas, o outro revirava seus pertences com o bico do coturno, espalhando as sacolas plásticas, o cobertor cinzento e um amontoado de miudezas sob a marquise, onde ele se protegia da garoa.
O barulho de matraca da pistola amarela, tec,tec,tec,tec,tec, como a ignição de um fogão que demora a acender, era abafado pelos gritos do mendigo, recebendo descargas na parte de trás das coxas e nas costas. Mais ainda, era abafado pelas vozes na minha cabeça: “Vai lá!”, dizia-me uma delas. “Você que teve pré-natal e fralda descartável, você que estudou em escolas privadas e freqüenta mostras de cinema, você, com lentes de contato e livros na estante, você, que veio de uma família estruturada e caminha em direção a um restaurante: vai ficar aí, parado?” Outra voz, a voz covarde, me dizia: “esquece. Não é o caso de peitar dois policiais, ainda mais sendo paulista, no Rio de Janeiro. E se te jogarem no camburão? Se te derem choque com a arma amarela?” A voz corajosa insistia. “É seu dever! E é pouco provável que te batam. Você sabe bem que, desde a redemocratização, a tortura deixou de ser aplicada aos de lentes de contato e livros na estante e ficou restrita aos do outro lado da rua, sob a marquise.”
Olhei a senhorinha, ao meu lado. “Alguma ele aprontou”, disse ela. Então abaixou a cabeça e saiu andando, agarrada a essa frágil certeza trazida pela responsabilização da vítima: afinal, se quem apanha merece, o mundo tem sentido, não vivemos no caos e na barbárie e pode-se voltar para casa com as compras do supermercado. Eu abaixei a cabeça e saí na direção oposta, levando como única certeza a consciência de que devia ter agido, mas tive medo e não fiz nada.
Covardes. Covarde.
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Contra o esquecimento Dellano Rios Enviado por José Carlos Poroca
Nem a morte garantiu ao sociólogo Gilberto Freyre (1900 - 1987) a sacralização dos clássicos. Se hoje é difícil encontrar um pensador da cultura sério que ouse dizer que sua obra é prescindível, Freyre está longe de ser um autor intocável. E ainda provoca reações apaixonadas, de adesão e rejeição.
À diferença de outros autores polêmicos, Gilberto Freyre municiou como ninguém seus detratores. Não bastasse serem controversas suas teses sobre a formação cultural brasileira, sobretudo em "Casa Grande & Senzala" e "Sobrados e Mucambos", o sociólogo jamais evitou tocar justamente nos pontos mais criticados. E, para escândalo dos analistas mais rigorosos, Freyre falou do sexo, de raças, dentre outros ninhos de vespa intelectuais, recorrendo às próprias memórias, colocando-se como protagonista e/ou partícipe daquilo que irritava seus rivais. Publicação exemplar nesse sentido é "Tempo Morto e outros tempos" (1975), composto a partir de trechos do diário mantido pelo escritor entre 1915 e 1930, cobrindo todo o período de sua formação intelectual - da paixão pela literatura, passando pelos estudos nos EUA e alcançando as primeiras obras. Trinta e cinco anos depois, aparece o que seria a continuação (ou atualização) daquele material.
Solidificação
"De menino a homem" é o primeiro volume de material inédito em livro de Gilberto Freyre lançado em 15 anos (o último foi "Novas conferências em busca de leitores"). Que ainda haja sobras valiosas no baú de Freyre não é de impressionar. O caderno de fotos do novo livro lembra o quanto o escritor tinha consciência do valor de sua produção, pessoal e pública. Contudo, assombra o fato desse texto específico ter ficado tanto tempo guardado.
Se em "Tempo Morto" Gilberto Freyre falou de sua formação, pessoal e intelectual, dos acertos e equívocos que a conhecida vaidade e a verve polemista do autor não permitem esconder, neste "De menino a homem" o autor revista o momento posterior, quando sua obra toma corpo, torna-se robusta e fixa os pilares sobre os quais irá se sustentar por mais meio século.
Aqui não se trata de diários, mas de um texto produzido já na maturidade, evocando os acontecimentos de um intervalo de pelo menos 40 anos.
São pouco mais de 120 páginas de recordações. A elas, somam-se fac-símiles de documentos mencionados no texto, um caderno de fotos que cobre igual período ao do que é narrado e 11 artigos breves, publicados na imprensa brasileira. Nestes, Gilberto Freyre fala de personalidades que marcaram sua trajetória, de familiares como seu irmão Ulysses, de interlocutores do meio artístico, caso dos escritores Manuel Bandeira e José Lins do Rego e do referencial maestro e compositor Heitor Villa-Lobos.
Peito aberto
No livro, o tom de Freyre já é o do autor consagrado. Assim, o personagem que emerge da coleção de episódios rememorados não surpreende. Na verdade, confirma a imagem que tradicionalmente se tem do autor.
O sexo tem presença marcante e magoa o leitor puritano (sobretudo nas passagens em que o escritor fala sem rodeios, nem alardes, de suas experiências homossexuais, na Europa). Porém, quando escreveu "De menino a homem", o autor parecia estar cansado da polêmica gratuita (ou pelo menos como motor de discussão). Lê-se um Gilberto Freyre notadamente melancólico, evocando uma série de episódios que se seguiram à Revolução de 30, quando ele, então opositor dos "revolucionários", se viu obrigado a deixar o País. Freyre não se dói tanto pelas agruras que passou fora do Brasil (a fome esteve no cardápio de seus males), mas pelo sofrimento infligido aos pais, que, em Pernambuco, tiveram sua casa destruída e os pertences afetivos saqueados.
MEMÓRIAS "De menino a homem" Gilberto Freyre R$ 59,00 256 PÁGINAS 2010 GLOBAL
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E.Books ganham do papel
Amazon diz que venda do Kindle já é maior que a de publicações de capa dura
Claire Cain Miller
A semana que passou foi histórica para o universo dos livros - se é que eles existirão no futuro. A Amazon.com, uma das maiores vendedoras de livros dos EUA, anunciou que, nos últimos três meses, as vendas de livros para o seu leitor eletrônico Kindle, ultrapassaram as de livros de capa dura.
Neste período, a Amazon afirma ter vendido 143 livros Kindle para cada 100 de capa dura, inclusive aqueles que não foram editados para o Kindle. O ritmo da mudança também está acelerando, segundo a Amazon. Nas últimas quatro semanas, as vendas subiram: 180 livros de formato digital para cada 100 de capa dura. A Amazon tem 630 mil livros Kindle, uma pequena fração dos milhões vendidos no site.
Os amantes dos livros, que lamentam o fim dos de capa dura com seu peso e seu cheiro de antigo, precisam encarar a realidade, observou Mike Shatzkin, fundador e diretor executivo da Idea Logical Company, que assessoras as editoras de livros na mudança para a versão digital.
"Este dia era esperado, um dia que tinha de vir", acrescentou. Ele prevê que numa década, menos de 25% de todos os livros vendidos serão em versões impressas. A mudança na Amazon é "espantosa, considerando que vendíamos livros comuns há 15 anos, e os livros Kindle há 33 meses", afirmou o diretor executivo, Jeffrey P. Bezos
No entanto, o livro impresso não está absolutamente em extinção. As vendas de todo o setor subiram 22% este ano, segundo a Associação Americana de Editoras.
Os números não incluem os livros Kindle gratuitos, 1,8 milhão dos quais foi publicado originalmente antes de 1923 (de domínio público, porque os direitos expiraram). A Amazon não apresenta uma comparação entre as vendas de livros de papel e eletrônicos, mas acredita-se que as vendas dos livros de papel ainda superam as dos eletrônicos.
A grande surpresa, segundo Shatzkin, foi que o dia chegou durante o primeiro período em que o Kindle enfrentava uma grave ameaça competitiva. O iPad da Apple, que começou a ser comercializado em abril, é vendido como um aparelho para leitura, e tem sua própria loja de livros digitais. Entretanto, as vendas do Kindle também cresceram em todos os meses do trimestre, segundo a Amazon.
A Amazon recebeu a ajuda de uma explosão de vendas de livros digitais em geral. Segundo a Associação Americana de Editoras, as vendas de livros eletrônicos quadruplicaram este ano até o final de maio.
A Amazon informou que suas vendas superaram esta taxa de crescimento. Um dos motivos pelos quais as vendas do Kindle se sustentaram é que os proprietários de iPads e de outros aparelhos móveis de leitura compram livros Kindle, que podem ler no computador, em iFones, iPads, e telefones BlackBerry e Android. Mas, com exceção dos livros gratuitos isentos de direitos autorais, os proprietários do Kindle precisam comprar ou baixar conteúdo via Amazon. "Toda vez que eles vendem um Kindle, ganham um cliente", disse Shatzkin.
Alguns analistas do setor afirmam que muitas pessoas não consideram o iPad um dispositivo para leitura como o Kindle, e acham imprescindível ter os dois. Os últimos números relativos às vendas da Amazon são "uma clara indicação de que o iPad é um complemento do Kindle, e não um substituto", disse Youssef H. Squali, diretor-gerente da Jefferies & Company do setor de pesquisa da Internet e de novas mídias.
A taxa de crescimento das vendas do Kindle triplicou depois que a Amazon baixou o preço do aparelho no final de junho, de US$ 259 para US$ 189, informou a Amazon. Isto aconteceu pouco antes de a Barnes & Noble baixar o preço de seu leitor eletrônico Nook de US$ 259 para US$ 199.
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Fumaça sobre os espelhos Fernando Monteiro
De onde vem a estranha representação que nós, ocidentais, fazemos do Oriente
"Amamos o que não conhecemos, o já perdido." Esse verso é do poema O nosso, de Jorge Luis Borges. O autor de Ficções constata que amamos "o bairro que foi arredores", os antigos "que não nos decepcionarão mais" (porque são "mito e esplendor") - assim como amamos o Oriente que, "na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro".
Deixando de lado o amor do desconhecido/perdido, creio que o verso sobre o amor do Oriente - "que não existe para o afegão" - serviria de perfeita epígrafe para qualquer texto cujo foco se centre nos amantes da ficção que é o "Oriente".
Se os afegãos - e persas e tártaros etc. - não tomam sequer conhecimento de que são isso para nós, ocidentais, que representação estranha é essa, que nos fazemos, de um Oriente "inexistente"? Estará a ocidente - o Oriente -, nas nossas loucas cabeças?
Logo depois do 11 de setembro da queda das Torres Gêmeas, mundialmente submergimos num mar de imagens e "informações", com e sem aspas, sobre essa ficção das ficções, segundo Edward W. Said, no seu já clássico Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente (Companhia das Letras, tradução de Tomás Rosa Bueno, 2001). A tese está muito bem exposta no livro do professor da Universidade de Columbia - que se recomenda como leitura ainda pertinente. Outros títulos também continuam úteis, nesta hora do Irã na berlinda atômica e de Israel de armas apontadas para todo mundo, gritando "fogo!" em estilo nazista - mesmo contra um barco de ajuda humanitária com olho em Gaza.
Ingleses
Certamente que foram os ingleses, desde sempre, os mais sensíveis ao apelo da região - fazendo do assunto oriental uma espécie de Idéia-mãe de todos os estranhamentos. Ou pelo menos aqueles ingleses do tipo do "sonhador acordado", a respeito do qual Thomas Edward Lawrence (1888-1935) escreveu magistralmente. Ele queria se referir a algumas mentes oxfordianas típicas, de eruditos em vários campos, todos vitorianos - de geração ou de espírito - e que formaram entre os "sonhadores acordados" nas suas camas confortáveis, mas dispostos a trocá-las pelo chão rude das tendas, no desconforto do deserto e à volta de ruínas circulares que confundem os tempos.
Wilfrid Scawen Blunt, Richard Burton - não o ator de Cleópatra, mas o escritor e diplomata inglês que foi cônsul em Santos, na segunda metade do século 19 -, Charles Montagu Doughty, David George Hogarth e Saint-John Philby (do ramo britânico mais recente) se tornaram autores obrigatórios do orientalismo como disciplina e até como poética. Da linhagem francesa, não se pode ignorar a obra de Antoine-Isaac de Sacy, Renan, Caussin, Louis Massignon, Maxime Rodinson e Gerard de Nerval, o "poeta do Oriente". Há toda uma biblioteca, em várias línguas, reunindo desde estudos severos - de história e antropologia - até cadernos de anotações de arqueólogos e viajantes a sonhar com uma "nova Ásia" surgindo naquela época em que idéias ainda podiam ser novas.
Edward W. Said desconfia de quase todas elas e, no seu livro, mantém o leitor prevenido contra os "orientalistas". Dentre os ingleses, ele só "livra a cara" de Scawen Blunt, anti-imperialista realmente sincero: "Esses peritos no Oriente trouxeram as suas obsessões e as suas mitologias particulares, as quais foram estudadas, em escritores como Doughty e Lawrence, com considerável energia. Cada um deles - Wilfrid S. Blunt, Doughty, Lawrence, Bell, Hogarth, Philby, Storrs - acreditava que a sua visão do Oriente era individual, criada a partir de um encontro intensamente pessoal com a região, com o Islã e com os árabes, e cada um deles exprimia um desprezo geral pelo conhecimento oficial sobre o Oriente... Mas, em última análise, todos - salvo Blunt - exprimiam a hostilidade e o medo tradicionais do ocidental em relação ao Oriente."
Sonhos & pesadelos
Lawrence se lançou à ação animado pela ilusão particular que se fazia sobre o seu Oriente. Sonhava inscrever a sua vontade "no céu, entre as estrelas: por isso tomei nas mãos estas ondas de homens"... E os enviei contra as duas Torres de Orgulho.
Tomo a liberdade de associar - retoricamente - o sonho inscrito no verso de Lawrence (na dedicatória de Os sete pilares da sabedoria) com o cenário trágico do World Trade Center não porque exista qualquer tipo de ligação entre as duas torres da soberba e os altos pilares lawrencianos de outros tempos, mas porque os "orientes" continuam os mesmos, através dos acontecimentos das duas épocas. A de Doughty - modelo de T. E. Lawrence, como estudioso - foi aquela do colonialismo imperialista, cuja política "descompressiva" (no que diz respeito pelo menos à Inglaterra) partiria da Conferência do Cairo, em 1921.
Desse encontro de especialistas, o Colonial Office acataria as sugestões de "criação" dos reinos árabes do Iraque e da Transjordânia, saídos da régua e do compasso dos orientalistas convocados por Winston Churchill. Lawrence da Arábia funcionou como "ministro plenipotenciário" nessa ocasião, e eu tenho aqui comigo o original da carta - datada de 26 de fevereiro de 1921 - na qual o octagenário Wilfrid Blunt o exortava a defender, na capital do Egito, a "causa da vida de ambos" contra as distorções imperialistas.
É um documento que ainda impressiona pelo tom de Blunt - mais de um xeique bedu do que de um velho inglês escrevendo da biblioteca de Newbuildings Place. A carta - que faz parte da nossa coleção desde o ano passado (quando a adquiri do alfarrabista londrino Julian Browning) - basicamente refere a mesma "causa" que ainda nos obriga a lançar vista sobre o passado, para tentar entender o presente e que se passa lá, ainda agora, uma região que pode vir a determinar o futuro que nos resta. Confundida, tal causa jaz entre acontecimentos remotos e não tão remotos das décadas de 1920, de 1930, de 1950... e desta primeira década do século 21.
Dentre os primeiros, há que recuperar os fatos da "queda" da família hachemita, herdeira do xerifado de Meca e bandeira da Rebelião Árabe conduzida pelo príncipe Feisal e por Lawrence. Foi dela - isto é, do rei Hussein (pai de Feisal) - o aval religioso, de quem detinha o poder pelo menos teocrático, sob o jugo do império turco-otomano... Esse tipo de poder que não continuou prevalecendo na sagrada Meca - junto com a titulação da família descendente direta do Profeta - quando o trono foi usurpado, em 1926, pelo "estrangeiro" Ibn Saud, sultão do distante Neged. Isso aconteceu quando a exploração do petróleo começava a mudar a face do Oriente e sua significação resta meio oculta na dobra das atuais disputas que - sem maiores explicações - "simplificam" a posição de Osama Bin Laden como opositor do reinado dos sauditas descendentes do homem que teve o seu "Lawrence" no espião e orientalista "Kim" Philby. (Ou seja, a presença de tropas norte-americanas no coração da Arábia explicaria apenas uma parte da questão mais do que política ou tribal - porque envolve também os valores religiosos negligenciados pela linhagem, recente, dos filhos de Saud, príncipes do jet-set e muçulmanos educados muito longe da Caaba).
O que aconteceu no Hedjaz entre 1916 e 1918 - e que se vê no filme Lawrence da Arábia apenas como pano de fundo da aventura pessoal do agente inglês - nos interessa e representa uma das cenas preparatórias dos conflitos que hoje vivemos. Por isso, urge desfiar, fio após fio, os nós da tapeçaria que vem desabar no meio das nossas salas, via CNN (e outras), em choque de forças antagônicas que se sucede à Guerra Fria e nos exibe a "lógica" terrorista maturada no estômago de avestruz do tempo. É a face nova, de diferenças mais do que políticas e de conflitos inortodoxos, do ponto de vista militar, na ultrapassagem dos modos da guerra clássica - e pela forma de encarar a vida e a morte (a qual nos é apresentada, simplificadamente, como um dos aspectos do pensamento "arcaico" em disputa contra a modernidade).
Esse é, de certa maneira, o substrato do tema do orientalismo tomado como o estudo da (subjacente) oposição entre o sagrado e o profano, a visão "de transcendência" - que permeia tudo, no Oriente - e a tabula rasa em nome do mercado, que é a nossa principal doença, talvez desde aquela Roma, pragmática ao extremo, que foi os EUA da antiguidade, como nos ensina Terry Jones no admirável Roma e os bárbaros (infelizmente ainda não traduzido no Brasil). Também o romeno Mircea Eliade merece ser revisitado. O mestre de religiões comparadas - e fundador da cadeira, na Univerdade de Chicago - tem sua palavra a dizer sobre o vazio da alma do homem ocidental contemporâneo, no fundo das estantes empoeiradas da Biblioteca de Nova York, ao fim do corredor de ciências sociais e bem além da seção de economia & informática. Seus livros nos ensinam sobre a perda: não temos mais contato com os mitos formadores, nem uma fé que nos console - e também demonstram o quanto arruinamos a natureza, não só nos mares poluídos pelo óleo alimentador do modelo de consumo desenfreado.
Não é possível viver (bem) no mundo em que tudo é redutível à visão de Mercado - e só nos libertaremos dessa prisão mental de falsos Midas se amputarmos os rígidos dedos de ouro do Capitalismo-robô das cinzas. O Ocidente enfrenta, talvez, a forma final da decadência, atrás de modernas muralhas de Jericó, rachadas para sempre. Esta visão só é possível, plenamente, desfazendo-se todas as ilusões que já nos criamos sobre todos os "Orientes" elaborados pela fumaça sobre os espelhos.
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Deu no Bom Dia Brasil da Globo
Pesquisa revela que os brasileiros estão lendo mais Levantamento da ANL aponta que os brasileiros leem 1,9 livros por ano. Os dirigentes do setor comemoram, mas dizem que dá para melhorar.
Um dia na vida de Ulisses. Um dia na morte de Quincas. Quem gosta de ler sabe: é possível ir da Irlanda de James Joyce até a Bahia de Jorge Amado só correndo a prateleira.
É um mundo imenso, cada vez mais lido e vivido pelos brasileiros. O aumento no número de livrarias confirma essa boa notícia que apareceu em uma pesquisa, que será divulgada nesta terça-feira (27) pela Associação Nacional de Livrarias. Essa pesquisa também traz algumas surpresas, como o estado brasileiro com mais livrarias por habitante. Veja na reportagem de Walace Lara.
A leitura é de alguém que começa a descobrir o prazer das palavras. Estamos lendo mais. Esta é uma das principais conclusões de uma pesquisa inédita da Associação Nacional de Livrarias (ANL). O levantamento mostra que no país existem 2.980 lojas – 11% a mais do que havia em 2006. Os dirigentes do setor comemoram, mas dizem que dá para melhorar.
“O nosso índice ainda é muito baixo. Ainda é 1,9 livros ano lido por habitante ano. Isso é muito pouco e muito aquém de países latino-americanos. Na Argentina, se lê em torno de cinco. No Chile, três. Na Colômbia, se lê 2,5 livros por anos”, declara Vitor Tavares, presidente da ANL.
Um dos motivos para o índice não ser mais alto é a falta de livrarias em pequenas e médias cidades. Hoje, a maior parte está concentrada nos grandes centros. A região Sudeste é a que tem o maior número de lojas. O estado de São Paulo tem mais que o dobro do segundo colocado, o Rio de Janeiro.
Destaque para a Bahia com o maior número de livrarias no Nordeste. É o sexto colocado no país, empatado com Santa Catarina. Curiosa é a situação de Roraima que tem apenas 25 livrarias. Parece pouco, mas, proporcionalmente, o estado do Norte tem a melhor média nacional.
Parte do sucesso nacional pode ser atribuída à venda de produtos diferenciados, como CDs e DVDs. Além disso, os ambientes foram modernizados. “Você tem várias outras opções dentro de uma livraria, desde um bom café, um espaço para leitura, para troca de ideias, reunião com amigos. Então, isso é uma renovação muito boa”, comenta a empresária Iêda Freitas Santos.
A pesquisa também traz outra boa notícia. Um ambiente voltado para o público especial é cada vez mais comum nas livrarias. Não é à toa. Os títulos infantis e juvenis são os mais vendidos. Crianças e adolescentes são os principais clientes das grandes e pequenas livrarias.
“O infantil é 100% leitor. Não tem uma única criança que os olhos não brilham quando você coloca um livro perto dela”, afirma Samuel Seibel, dono da livraria.
É a mesma sensação observada por quem possui apenas uma única livraria e que, segundo a pesquisa, forma o maior grupo do mercado. É o caso de Ângela e Denize. O fascínio em desenvolver a leitura era tanto, que elas abriram uma livraria, dedicada apenas ao público infanto-juvenil.
“A gente acredita realmente que o livro é capaz de transformar as pessoas, transformar o mundo, formar uma consciência crítica, formar cidadãos, pessoas melhores”, aposta Maria Ângela Prado de Melo Aranha, dona de livraria.
“Eu estou tão acostumada a ler. Desde pequenininha, eu já aprendi. Então, eu adoro, eu acho que você viaja muito nos livros”, comenta Victória Naomi Zynger, de 11 anos.
A maioria das livrarias (56%) não faz vendas pela internet. Ou seja, são aquelas lojas bem tradicionais, em que o dono conhece praticamente todos os clientes, que vão até lá para comprar um livro e principalmente para bater um papo.
****** Museu imaginário Calvin Falcão Klein
Quando lemos imagens – de qualquer tipo, pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas, encenadas – atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa. Ampliamos o que é limitado por uma moldura para um antes e um depois e, por meio da arte de narrar histórias, conferimos à imagem estática uma vida infinita e inesgotável. André Malraux, que participou como soldado, romancista e ministro da vida cultural e política na França do século XX, argumentou com lucidez que, ao situarmos uma obra de arte entre as obras de arte criadas antes e depois dela, nós, os espectadores modernos, tornávamo-nos os primeiros a ouvir aquilo que ele chamou de canto da metamorfose – ou seja, o diálogo que uma imagem trava com outras imagens, dispersas no tempo e no espaço. No passado, diz Malraux, quem contemplava o portal esculpido de uma igreja gótica só poderia fazer comparações com outros portais esculpidos, dentro da mesma área cultural. Nós, ao contrário, temos à disposição incontáveis imagens de esculturas do mundo inteiro que falam para nós em uma língua comum, de feitios e formas, o que permite que nossa reação ao portal gótico seja retomada em mil outras imagens. A esse precioso patrimônio de imagens reproduzidas e incorporáveis, Malraux chamou museu imaginário.
****** Ficha suja, cara limpa. François Silvestre Enviado pelo autor
Não sei de onde se tirou essa história de ficha limpa da sociedade. Todo mundo agora é paladino da ética. É tanta pureza e limpeza que chegam a ofuscar os olhos dos santos. Não há político ficha suja que tenha chegado ao poder por conta própria. Todos chegam lá e lá permanecem por obra e graça de todos nós. Quem fez de todos eles os donos do poder? Nós. Sociedade e “povo” somos os avalistas da ficha suja. Somos os seus patronos. Fomos nós que colocamos e mantivemos no poder Adhemar de Barros, Moisés Lupion, padre Godinho, Antônio Carlos Magalhães, Zé Sarney, Jáder Barbalho, Collor, Renan, Jereissati, Mão Santa, Roberto Jeferson, Zé Dirceu, Paulo Maluf. A primeira ficha suja é do eleitor. Ingênuo ou venal. A cidadania de meia-sola e democracia de meia-tigela. Todo mundo tira uma lasquinha. Mecânicos de carro, de eletro-doméstico, pedreiros, profissionais liberais, comerciantes, industriais, religiosos, taxistas, autônomos, flanelinhas, empregados domésticos. Onde anda a ficha limpa? Nas igrejas, balcões de fazer grana. Nos jornais, o interesse político partidário escancarado. As televisões frutos de concessões pela via do tráfico de influência. Indústria e comércio sob suspeita do comprador e vigilância da sonegação. Nem os rótulos merecem crédito. Os estudantes ingressam nas faculdades de olho no mercado. A cara limpa do nosso aprendizado matou a vocação. Os provedores da ética, no serviço público, motivam-se pelo contracheque.
Essa gente que comanda o poder é a outra face da nossa cara. Somos cúmplices. E hipócritas. Lembram da promotora pública que era o terror da delinqüência? Na vida privada retirava crianças de um abrigo de adoção para torturá-las em sua casa. Aquele promotor que era a encarnação de São Francisco? Após a descoberta de sujeiras na biografia, sumiu. O pastor que proibia os fiéis de irem ao cinema, pois tudo era coisa do demônio, foi apanhado num esquema brabo de pornografia. Todo moralista carrega uma penumbra que esconde os defeitos apontados nos outros. Agora, é a “sociedade como um todo”, essa expressão cretina, que vira puritana. Aqui, ó. Cá, na paquidermia, quem é o responsável pelos vinte e cinco anos de poder do trio iraquitim? Quem os elegeu? Nós. Eu votei em todos eles. Posso cobrar pureza com pose de autoridade moral? Não posso. Posso fazer autocrítica. Um governo eficiente faria em quatro anos o que eles não fizeram em vinte e cinco. Tenho lido e ouvido sermões éticos de gente que não resiste a uma oportunidade. Mas os moralistas são exigentes e ventosos. Ao cobrarem pureza os buracos do nariz viram boca de trombone. Tudo falso, sonso, mentiroso. A expressão “falso moralismo” é uma redundância. Não há moralismo honesto. É uma deformação da moral. O Brasil só tem ficha limpa na geografia! Té mais.
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Direita, esquerda, centro Fernando de Barros e Silva
Há no Brasil uma direita escandalosa e disposta a se escandalizar com tudo. Sua representação é mais midiática do que propriamente política. E o lulismo tem a ver com uma coisa e outra. Ao mesmo tempo em que o êxito do governo (e, em particular, de Lula) inibiu a emergência de uma opção de direita puro-sangue à sua sucessão, também desinibiu, pela mesma razão, o ressentimento ou às vezes o ódio de setores que se julgam ameaçados pela nova ordem. A base social dessa direita, para quem o mundo virou de ponta-cabeça, não são exatamente os detentores da riqueza extrema, que vão muito bem e talvez daqui a pouco tenham saudade. Nem, é claro, a massa pobre, que já esteve em situação pior e sentirá a falta de Lula. A direita estridente, cínica ou raivosa, fala a (e por) setores de uma certa alta classe média, que teve seus sonhos ou pretensões de exclusivismo azedados pela emergência da "nova classe média". Em termos políticos, a figura um tanto folclórica de Indio da Costa é um sintoma do que restou à direita, imobilizada diante de um presidente que parece ter apresentado o país a si mesmo. Lula, afinal, faz um governo de comunhão nacional. Se a direita grita sua impotência, a esquerda nunca pareceu tão satisfeita. O lulismo anestesiou a intelligentsia, cooptando boa parte dela. Inverteram-se os papéis clássicos: temos hoje uma direita apocalíptica e uma esquerda integrada. Nesse ambiente, o campo de discussão crítica ficou estreito e está contaminado pelo sectarismo de uma polarização algo artificial. Direita e esquerda ganham lastro na vida real quando vêm acompanhadas do prefixo "centro". Centro-direita, centro-esquerda -é por aí, distante das extremidades, que a política entre nós caminha (ou patina). Discute-se a "ampliação" do Bolsa Família, a "revisão" da política cambial etc. As brigas intelectuais, por isso, podem soar ridículas. Como se, sem perceber, todos ali fossem só "radicais de centro".
****** No grau inferno Ruy Castro
A Secretaria Nacional Antidrogas, órgão do governo federal, quer criar uma agência para pesquisar os "efeitos medicinais" da maconha. Se trabalhar direito, será uma decepção para os usuários da erva: a maconha "medicinal" não viria para ser fumada -mesmo porque esta tem todos os males do tabaco e mais alguns. A lista de mazelas provocadas pela maconha fumada, estabelecida por médicos da Universidade de Oxford e citada na Folha ("Tendências/Debates", 22/10) pelos doutores Ronaldo Laranjeira e Ana Cecília Marques, inclui dependência química, bronquite crônica, insuficiência respiratória, risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade, depressão, episódios psicóticos, leseira, apatia e baixa do rendimento escolar ou profissional. Donde, se provadas as qualidades terapêuticas da maconha-embora ninguém tenha conseguido até hoje descobrir sua superioridade em relação às substâncias tradicionais-, seu uso deveria se dar em forma de gotas, pomada, supositório ou o que for, e não enrolada, queimada e tragada. Sem contar que, depois de amplamente vitoriosa em banir o fumacê, a sociedade não poderia aprovar a volta ao espaço público de gente soprando fumaça sobre inocentes e passivos circunstantes. A secretaria faria melhor se concentrasse seus esforços numa guerra que o Brasil se arrisca a perder: contra o crack, a pior droga já inventada. E a mais covarde. Os traficantes, mais práticos e profissionais, e beneficiando-se da tolerância com que o Brasil encara a maconha, puseram no mercado a craconha -a maconha enriquecida com fragmentos de pedras de crack. Fulaninho, 15 anos, pega um baseado com seu fornecedor e, sem saber que ele veio premiado, fuma o crack. Com algumas tragadas, estará dependente. E no grau inferno.
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De Jorge Castañeda
A inércia geográfica, econômica e demográfica da América do Sul levou o Brasil a ter um papel de maior liderança do que antes. Isso aconteceria com ou sem o governo Lula. O fato de Lula estar fazendo um governo bom internamente faz com que o peso natural do Brasil se exerça de maneira mais clara na região. Porém, tudo o que Lula tentou fazer fora do âmbito interno só resultou em fracassos. Tratou de obter um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, não o obteve. Tratou de priorizar a Rodada Doha e não conseguiu nada. Tratou de ser um ator central para que se lograsse um acordo em Copenhague e não só não o alcançou como o Brasil em parte foi responsável para que isso não acontecesse. Tratou de se apresentar como protagonista num acordo nuclear com o Irã, mas sua mediação foi rechaçada pelo mundo inteiro, exceto pela Turquia e pelo próprio Irã. Mas creio que mais importante é o fato de que Lula se absteve de mediar ou resolver conflitos que estão mais perto do Brasil. E há tantos. Os de Uruguai e Argentina, de Colômbia e Venezuela, de Peru e Chile, de Colômbia e Nicarágua, de Chile e Bolívia e o de Equador e Peru. Conflitos próximos abundam, e o Brasil não exerceu nenhuma liderança em nenhum desses casos. Tampouco se apresentou para ajudar em problemas internos de outros países da América Latina. Salvo parcialmente no caso da Bolívia, e isso o fez para defender os interesses da Petrobras. Suas aspirações de potência mundial fracassaram, e ele não mostrou interesse de atuar como legítima potência regional. Lula faz um governo muito bom internamente, mas coleciona fracassos e erros no âmbito externo.
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De Flo Menezes
O fato de Chopin ser "palatável para um senso comum" pode tornar sua obra presa fácil para um entendimento vulgarizante e limitador.
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Enviado por François Silvestre
Meu irmão e mestre Jairo. Uma delícia o seu texto sobre versões, agressões e variações de obras alheias, principalmente na música erudita. Recentemente sacanearam o Dicionário do Folclore de Cascudo. O que já era ruim, ficou pior. Mas me permita, sem data vênia, meter a colher onde não fui chamado. No texto em que você dá uma aula sobre as vulgarizações que tem sofrido o Bolero de Ravel, chama os incautos de filisteus. Sem procuração da Filistéia, nas costas da Palestina, ouso lembrar que essa adjetivação nasce de uma sacanagem semântica do judaísmo, convalidada por não menor patifaria do cristianismo. O filisteu era um povo como outro qualquer. E tal qual qualquer povo, um armazém de qualidades e defeitos. Fizeram menos mal à humanidade do que seus detratores da Judéia. Talvez por falta de oportunidade, mas isso não exclui o fato histórico. Com o abraço do tamanho da beleza simples do Bolero de Ravel.
O irmão, François.
P.S: Essa irmandade não é templária.
• Grande François, foi maus, meu irmão, mas o fato é que eu não sabia do que estava falando. E agora você me esclareceu. Na verdade, li esta palavrinha, no sentido pejorativo que lhe atribuí naquele texto, na adolescência, num livro chamado "Mentiras Convencionais da Nossa Civilização" de um caba chamado Max Nordeaux e entendi que filisteu era todo mundo que gostava de dupla sertaneja, josé sarney, pintura de preto velho, igreja universal e paulo coelho. Fui leviano e porisso te devo uma cerveja com gosto de pamonha, ou melhor duas, estupidamente geladas.
JL
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Da nação potiguar
Foto: Marcos pastorando Joel.
Marcos Silva e Joel Carvalho (foto) apresentarão canções que compuseram em parceria desde fins dos anos 60. O espetáculo DA NAÇÃO POTIGUAR contém algumas das músicas que integram o cd com o mesmo título, em fase de finalização. Esperamos por todos vocês no campus da UFRN, Praça da Reitoria, Natal (RN), dia 27 de julho/2010, terça feira, 16 horas.
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Os pés José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br Enviado pelo autor
A podolatria é um tipo de fetiche cujo desejo se concentra nos pés. Não está nos dicionários, mas o seu significado pode ser encontrado nas mentes dos podólatras e milhares de vezes na Internet. Também lá, é possível saber que o podólatra se excita ao tocar, lamber, cheirar, beijar e massagear os pés de outra pessoa. Acho a mania, digamos, esquisita. Vamos voltar no tempo. Imagine pessoas descalças andando por tudo quanto é chão e pisando em terra, grama e bosta. Continue imaginando e estimule a cena de alguém beijando e lambendo os pés dessa pessoa no final do dia. Haja amor. Se isso não bastasse, volto a defender a arte e o dom da Mãe Natureza, quase perfeita ao criar pés, mãos e outros membros do humano. Houve falhas, já comentei, nos braços e no nariz – mas já é outra história. Começar um texto com os pés talvez não seja uma boa idéia e há dúvida se é de bom gosto. Prefiro dizer que foi proposital para lembrar de um sujeito que não gostava de usar meias, achava desnecessário. Não era sinal de pobreza, pois tinha grana para calçar meias a cada quinze segundos e jogá-las fora após o uso. A mania não abalaria o seu orçamento, nem de longe. Posso dizer que era um pé quente. Aventurou-se como banqueiro (banqueiro de banco, de grana), foi gostando da brincadeira e não parou mais: o seu banquinho se tornou o maior do País. E continuou não usando meias. Quem o conheceu, chegou a dizer que não gostava de meias e muito menos de sapatos. Quando estava no gabinete, tirava o pisante e ficava com os pés em contato direto com o piso. Cláudio, p. exemplo, sofre com os seus. Aliás, sofre com uma parte dos pés: as unhas, que vivem constantemente encravadas, obrigando-o a fazer tratamento (dos pés, claro), pelo menos uma vez por mês. A coisa é tão séria que, em algumas ocasiões, não pode calçar sapatos; em outras, até andar ficou difícil. Nunca perguntei, mas taí um cara que não devia ter nenhuma vocação para a podolatria. Aliás, ver pés ou figuras de pés deve ter, para ele, o mesmo significado de quem sofre com os dentes e precisa ir ao dentista: só o cheiro assusta. Esse negócio de pé é complicado. Vi, na web, vários tipos de pés femininos: lindos, como os da Ana e da Fernanda; feios, como os da Jennifer e da Carolina – estes só devem receber sapatos; sandálias, jamais. Na verdade, quero confessar, não tenho nada contra os podólatras. O que eu queria desde o início e não sabia por onde começar era falar sobre a temperatura dos pés. Existem pés quentes, como os do banqueiro, e os frios. Estes, naturais, podem ser encontrados com mais intensidade na Europa oriental. Os por vocação, trazem a fama decorrente de praga, feitiço, simpatia ou defeito de fabricação, como ficou comprovado com Mick Jagger. Não é único. No Brasil, temos um, famoso e poderoso, conhecido de canto a canto do País. Já fizeram até um filme sobre ele, mas o assunto ‘pés frios’ não ganhou um segundo na fita. Na próxima, contarei como surgiu o esfriamento dos seus pés.
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De Steven Pinker
Na década de Darfur e do Iraque e logo após o século de Stálin, Hitler e Mao, afirmar que a violência está diminuindo pode parecer algo entre a alucinação e a obscenidade.
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Te orienta, Rousseau
Os confrontos pré-históricos eram mais frequentes e matavam porcentagens muito maiores da população. Se as taxas de letalidade verificadas entre os "bons selvagens" fossem aplicadas ao século 20, os óbitos excederiam 2 bilhões.
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Poema ao Sol Faraó Amenófis IV
"Tu és belo no céu... oh! Sol vivo! Quando te levantas a leste enches todas as terras com tua beleza, porque és belo, és grande e brilhas acima da Terra. Teus raios beijam os povos e tuas criações. Tu és deus e nos seduziste a todos. Tu nos impuseste os liames de teu amor, e, ainda que longe, teus raios atingem a Terra e, ainda que alto, teus passos marcam o dia. Dás alento e fazes viver tudo o que criaste; quando a criança nasce lhe dás a palavra e crias tudo o de que ela precisa para viver. E para terminar tuas obras, criaste as estações: o frio no inverno e o calor no verão. Criaste o céu longe e alto para por ele subir e observar tua criação. Vives mergulhado no teu brilho fulgurante, oh Sol! Que te levantas e que desapareces para voltar. Bendito sejas tu, que sobes no céu e que fazes brilhar o horizonte! Bendito sejas tu, deus sublime da paz! Sol, quando te levantas no céu em todas as manhãs em tua beleza incomparável acima da Terra, beijas com amor todos os povos que criaste. Tu és deus, tu és Rá! Estás longe, mas teus raios fertilizam o sulco do arado e germinam as plantas depois que beijas a terra. Tu nos deste o inverno refrescante e o verão que nos traz o fruto e a vida. E os camponeses, que colhem os alimento dos homens, levantam as mãos para ti... rezam quando te levantas, ao deixares o leito noturno."
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Preâmbulo de Zaratustra Friedrich Nietzsche
Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo: “Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho. Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te. Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza. Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir. Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande! Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria! Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”. Assim principiou o caso de Zaratustra.
Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira: “Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem? Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?” Zaratustra respondeu: “Amo os homens”. “Pois por que – disse o santo – vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora, amo a Deus; não amo os homens. O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”. Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”. “Nada lhes dês – disse o santo. – Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha. E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”. “Não – respondeu Zaratustra; – eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”. O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão? Não vás para os homens! Fica no bosque! Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”. “E que faz o santo no bosque?” – perguntou Zaratustra. O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro. Assim louvo a Deus. Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”. Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”. E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas. Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”
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Manipulação da História Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Controlar o passado ajuda a dominar o presente, a legitimar tanto as dominações como as rebeldias. Ora, são os poderosos dominantes Estados, Igrejas, partidos políticos ou interesses privados - que possuem e financiam veículos de comunicação e aparelhos de reprodução, livros escolares e histórias em quadrinhos, filmes e programas de televisão. Cada vez mais entregam a cada um e a todos um passado uniforme. E surge a revolta entre aqueles cuja história é "proibida". A partir dessa observação, Marc Ferro, diretor de estudos da École dês Hautes Études em Sciences Sociales de Paris, examina a elaboração do discurso histórico através de vários países, várias épocas, vários regimes, insistindo principalmente na História "institucional" que tem a função de glorificar a pátria e legitimar o Estado. Legitimar a dominação. A preocupação de tornar o passado asséptico e de deixar a História sem problemas evidencia-se através do livros didáticos, em primeiro lugar, sobre os quais têm poderes de pressão não só os governos mas os vários segmentos da sociedade sobre os quais os governos se apóiam, além dos interesses comerciais das editoras. Mas a limpeza do passado também se processa de outras formas: as histórias em quadrinhos, a televisão, o cinema. Quanto a este, Marc Ferro faz uma brilhante análise dos reflexos da ideologia dominante sobre o cinema norte-americano e do tratamento dado pelo cinema polonês à Segunda Guerra Mundial. A manipulação do passado esta bem longe de se limitar aos livros didáticos. Fruto desta e de outras limitações, surge a contra-história, a história dos dominados, dos que não tem voz - ou então a contra-história dos recém-chegados ao poder. No primeiro caso Marc Ferro cita os chicanos nos Estados Unidos, entre outros; no segundo, a reelaboração da História nos países africanos, onde, como observa o autor, o discurso só muda de sinal: os discursos da história eurocêntrica são os mesmos, em sentido contrário. Elaborar a História a partir de uma só fonte cheira a tirania ou impostura. É próprio da liberdade deixar que várias tradições históricas coexistame até se combatam. Mas a reelaboração da História pode contar com uma alternativa à História Institucional: é a memória coletiva, a memória das sociedades, que precisa ser pesquisada através de suas manifestações: as festas, as tradições populares, como o Autor faz ver no capítulo sobre a Espanha. "Esta História sobrevive intacta e autônoma, ou melhor, enxertada e continua muito viva apesar de todas as negações da História oficial e erudita. Ela não é veiculada à maneira de uma contra-história, mas se justapõe à História institucional". Estes, e muitos outros aspectos da versão histórica são focalizados neste livro fascinante, fecundo de sugestões, polêmico, brilhante.
LIVRO: A manipulação da História no Ensino e nos meios de comunicação AUTOR: Marc Ferro EDITORA: IBRASA
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Amandora Geraldo Barboza
A terra secadora de roupa limpa Lavada e amada como Amanda e Dora Quando dão A Dado, Dedé e Duda Dedos, amantes e amigos Que a terra lhe deu
Secas da paixão dos homens Fugiram à sina de Teresa de Ávila E ávidas e livres Varreram do mundo a vida vã
E os homens Em seu pequeno mundo Como a quina plantada Na esquina árida da vida São amargos Mas, dão vida à sina De Amandas e Doras.
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Deu no Herald Tribune
O "jeitinho" indiano Anand Giridharadas
Esta é uma fábula sobre dois veículos indianos –o Jaguar e o jugaad. O primeiro é um dos melhores carros do mundo. Era um produto estritamente britânico e hoje é propriedade da Tata Motors da Índia. O XJL Supersport, que pode custar até US$ 100.000 (em torno de R$ 200.000) vem com um motor de 510 cavalos, assentos que massageiam, iluminação variável, disco rígido e cortinas traseiras elétricas. Depois tem o jugaad, que não é em nada parecido com um Jaguar. Para começar, é ilegal: um caminhão construído de peças, como uma colcha de retalhos, nos barracos do Norte da Índia, longe da vista dos fiscais. Partes de jipes velhos são cortadas e soldadas e combinadas com tábuas de madeira para formar um chassis. Depois, a estrutura recebe um motor comumente usado para bombas de irrigação. Sinos de verdade e apitos podem ser acrescentados como adornos e as rodas são pintadas a mão. O caminhão dá aos moradores das aldeias da Índia uma carona barata: US$ 0,10 por uma viagem de meia hora com algumas dúzias de pessoas. A lógica do negócio é tão atraente que os jugaads passaram a fazer parte de dotes. O caminhão pode ser desconhecido, mas a cultura por trás dele agora é moda de gerenciamento. Jugaad, não como nome, mas como verbo subitamente é tema de firmas de consultoria como McKinsey e empresas como Best Buy nos EUA. O verbo “jugaad” de gíria híndi, traduzido para os gerentes significa fazer algo como o veículo jugaad. Ou seja, ser inovador face à escassez de recursos –uma fórmula vencedora para tempos de turbulências econômicas. Gurus de gerenciamento citam criações de muito baixo custo na Índia como inspiração: o eletrocardiograma de US$ 800, o filtro de água de US$ 24, o carro de US$ 2.500, o inversor de eletricidade de US$ 100, a lâmpada solar de US$ 12. Esses exemplos, contudo, representam apenas uma faixa do que é jugaad. É mais do que uma inovação frugal; o jugaad é uma forma de vida, aqui como em outros lugares, que anteciparam importantes movimentos do século 21, desde a tecnologia aberta até a fusão cultural. Anos de observação da Índia permitem-nos evocar alguns princípios, muitos deles úteis fora do mundo empresarial. Criatividade fatalista A Índia não é um país fácil; ser fatalistamente criativo é transcender suas dificuldades. É irritar-se diariamente contra a forma que as coisas funcionam; resistir à tentação idealista de mudar tudo isso; e lutar em vez disso por sucessos e soluções em meio às limitações. Por exemplo, na Índia é comum as pessoas não terem troco. Pequenas empresas raramente têm moedas e notas de 10 e 50 rúpias, necessárias na maior parte das transações. Elas resolvem o problema com açúcar, à maneira jugaad. Uma farmácia pode lhe dar um chiclete Orbit em vez de 5 rúpias; um amigo recentemente recebeu três chocolates Cadbury e uma revista Tehelka quando um operador de pedágio não conseguiu encontrar 25 rúpias. Você talvez possa ouvir os ecos do espírito do jugaad no idealismo carreirista da geração Y no Ocidente. Aqueles cujos pais formaram barricadas, sonhando com uma nova ordem, parecem muito mais dispostos a trabalhar em um projeto de microcrédito do Citibank hoje –fatalistas diante do sistema como um todo, mas criativos em seu meio. Humanismo de mercado O Jugaad, como caminhão e estilo de vida, envolve um capitalismo diferente da filosofia de mercado que informa o Ocidente –e que prefigurou as novas e interessantes direções que o capitalismo está assumindo hoje. Muito antes do movimento local decolar, o jugaad aconselhava um capitalismo cara a cara, no qual você conhece as pessoas que produziram os produtos que você compra, no qual você casou seus filhos com famílias que emprestaram dinheiro a você e rezou junto com seus clientes e fornecedores. Muito antes de Wall Street sinalizar os perigos do capitalismo da realidade virtual, o jugaad desconfiava do que não podia ver. Ele estimulou o capitalismo tangível do pequeno empresário, que precisa sobreviver em um mercado em mutação, não de empresas do tamanho do governo que são grandes demais para falir. E muito antes dos empresários sociais descobrirem o “investimento de impacto”, o jugaad fomentou um capitalismo humanista que apagava a linha entre serviço comunitário e lucro, no qual criadores de instituições não sentiam a compulsão ideológica de escolher entre os dois. Fonte qualquer O taxi amarelo e preto de Mumbai, um exemplo de jugaad, era uma resultante do conhecimento coletivo antes da Wikipédia e uma fonte aberta antes do Firefox. Os taxis, sedãs Padmini com design da Fiat fabricados no meio do século passado, não foram atualizados em décadas. Seu fabricante saiu de cena. Mas na Índia do jugaad, isso significa que uma pessoa pode ser mecânica de Padmini, fornecedora ou decoradora. Os taxis de Mumbai estão cheios de experimentos: luzes azuis, hastes de metal, tomadas de energia, imagens de santos que tocam música, enormes auto-falantes, minúsculos ventiladores, rádios controlados por interruptores. Hoje, enquanto esses taxis dão lugar a novos Hyundais e similares, o espírito prossegue com os telefones celulares: diferentemente do Ocidente, onde você precisa contatar a Vodafone e só a Vodafone para questões de conectividade ou a Nokia e somente a Nokia para problemas com o aparelho, nas ruas da Índia e no mundo em desenvolvimento, uma em cada três lojas é de um especialista em telefonia celular. Eles apertam seu aparelho com chaves de fenda e canetas, recarregam seu crédito e respondem perguntas em nome da empresa para a qual não trabalham. E/ou Certa vez perguntaram a A. K. Ramanujan, falecido folclorista indiano, se havia uma forma especialmente indiana de pensar. Sua conclusão foi que os ocidentais se sentiam melhores com verdades aplicadas universalmente a todos os casos, enquanto os indianos resistiam ao universal, preferindo soluções específicas para cada situação. Esse é o jugaad filosófico: uma abordagem aos dilemas humanos que rejeita a escolha ou um ou outro. No âmbito da mudança social atual, os indianos parecem sentir menos necessidade do que a maior parte do mundo de rotular e se definir. Eles ficam satisfeitos com a mistura de identidades à moda do caminhão do norte da Índia fabricado no barraco. Jovens nas cidades atualmente buscam o amor romântico, em desafio ao casamento arranjado. Mas frequentemente não se importam com os pais tentando arrumar casamentos paralelamente. Podem cheirar cocaína e massagear os pés dos pais na mesma noite, sem ver contradições. Os indianos gays também aplicam o jugaad navegando em uma sociedade que é hiper globalizada na superfície e conservadora nos seus interstícios. Como me disse Parmesh Shahani, autor de “Gay Bombay: Globalization, Love and (Be)longing in Contemporary Índia” (Mumbai gay: globalização, amor e pertencer à Índia contemporânea”, os indianos gays são diferentes do resto do mundo ao preservarem o contato com os pais, avós, tios e tias mesmo circulando em um universo gay. Eles circulam facilmente das reuniões de negócios da família para boates gays e para casamentos de primos. “Não é o caso de ‘vamos ter nosso próprio gueto no Castro e tudo vai ser ótimo’”, disse ele. “Eles preferem o caminho difícil de negociar, diariamente, com uma quantidade tremenda de jugaad, a rede complicada de relacionamentos que os envolve”.
Tradução: Deborah Weinberg
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Banhos Ruy Castro
Uma pesquisa feita em dez países por uma empresa internacional de consultoria descobriu que o brasileiro é o povo que mais toma banho no mundo. São 19,8 banhos por semana -2,8 por dia!- contra pífios 8,4 dos russos, 7,9 dos japoneses, 7,7 dos franceses, 7,4 dos americanos, 6,1 dos alemães e dos italianos, 5,6 dos britânicos, 4,9 dos chineses e 3 dos indianos. Com todo o respeito. Grande coisa. Sem precisar formular questionários, preencher tabelas ou dar um único telefonema sobre a incidência do chuveiro nos hábitos dos brasileiros, cheguei quase a esse mesmo resultado em meu livro "Carnaval no Fogo", de 2003, embora restringindo-o aos cariocas. "Numa estimativa realista", escrevi, "pode-se garantir que um carioca adulto toma mil banhos por ano -performance que, em outros continentes, muitos cidadãos levam a vida para igualar". "Parece um exagero de banhos, mas não é", eu continuava. "Equivale a 2,73 banhos por dia, média inferior à que os nossos indígenas praticavam em dias úteis". Ou seja, errei por 0,07 -o que é insignificante dentro da famosa margem de erro. E como fiz isto? Apenas observando a mim mesmo e a alguns mais próximos e a outros nem tanto. O carioca toma uma chuveirada de manhã, outra ao voltar do trabalho e, não raro, aplica-se uma terceira antes de dormir. Uma das razões para essa assiduidade é que, entre a decisão de entrar no banho e o efetivo banho, o carioca tem pouca roupa para tirar. Boa parte do povo aqui passa o dia de sunga ou de bermuda, inclusive eu, sem perda da compostura ou do decoro profissional. E, com os franceses tão bem na fita, fica sem efeito a história, dada por verídica, de que Jean-Luc Godard, o cineasta da nouvelle vague, tomou um banho após completar "Acossado", em 1959, e só voltou a tomar outro depois de rodar "Pierrot le Fou", em 1965.
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Pesquisa factual tornava Freyre muito mais que ensaísta, diz FHC
Leia a seguir a entrevista de Fernando Henrique Cardoso sobre a obra de Gilberto Freyre e a sua participação na Flip. Por solicitação do ex-presidente, a entrevista foi feita por escrito. (FABIO VICTOR)
Folha - No recém-lançado livro de memórias "De Menino a Homem", Gilberto Freyre faz uma deferência ao sr. ao criticar o "submarxismo sectariamente ideológico" dos sociólogos da USP, com a ressalva: "O que de modo algum inclui um marxista do tipo de Fernando Henrique Cardoso". Como foi a troca intelectual e o contato pessoal entre Freyre e o jovem sociólogo FHC?
Fernando Henrique Cardoso - Tive pouquíssimos contatos diretos com GF. Recordo-me de haver feito uma visita a ele em sua casa em Apipucos [Recife], creio que na época em que eu fazia uma pesquisa sobre o empresariado nacional. Ou seja, no começo dos anos 60. O outro encontro foi em um almoço, talvez na Folha, com várias outras pessoas [em janeiro de 1979, numa reunião de colaboradores da página "Tendências/Debates"]. Surpreendi-me ao ler a referência a mim na reportagem sobre o livro recém-publicado. Imagino que ele deva ter lido algum trabalho meu e, francamente, "submarxista sectariamente ideológico" nunca fui mesmo.
O sr. integrou uma corrente que se opunha a Freyre. Em que momento exato descolou-se desse grupo e percebeu a importância e o alcance das ideias dele?
Na conferência que farei na Flip direi que Freyre nunca foi apenas um "ensaísta", expressão dita com desprezo, como era usual. Tinha uma metodologia não quantitativa, que lhe dava espaço para interpretações subjetivas, mas sempre procurou embasar suas análises em um conjunto factual impressionante extraído de fontes escritas e de entrevistas. Nós, os sociólogos das novas gerações, eu inclusive, deixávamos de lado esse aspecto de seu trabalho para insistir na romantização de algumas de suas interpretações que, de fato, não tinham base para se sustentar. As poucas vezes que escrevi sobre GF tratei de qualificá-lo melhor, reconhecendo seu pioneirismo em muitos campos, sem deixar de reconhecer o lado menos consistente de algumas de suas interpretações.
O sr. definiria Freyre como um antirracialista? Como imagina que ele se posicionaria em relação às cotas para negros em universidades?
Freyre certamente não seria um "racialista", isto é, não acreditaria que as diferenças entre as raças devessem preponderar como critério para atribuir vantagens ou desvantagens às pessoas. Ele era um apologeta da miscigenação e, em suas análises sobre a contribuição dos brancos, negros e indígenas para a formação do Brasil, insistia em que os portugueses já tinham seu sangue misturado com o sangue negro e berbere. Considerava que a "inferioridade" atribuída aos negros era consequência da ordem social escravista e não do fato de serem negros. Não seria cego, entretanto, às políticas afirmativas, pois as distorções da escravidão terminaram por limitar as oportunidades dos negros até hoje. Teria, contudo, imagino, restrição a cotas com base em diferenças puramente raciais, mesmo se definidas a partir de identidades autoatribuídas. Dito isso, GF incorria frequentemente em qualificações raciais, às vezes pejorativas, como no caso de algumas sobre judeus ou mesmo da valorização de alguns contingentes raciais negros em comparação com outros.
Como a obra de Freyre afetou os seus estudos sobre escravidão no Sul do Brasil -estudos que de certo modo rejeitavam parte das teses dele?
Afetou a partir das próprias razões para a escolha do objeto de análise: no Sul o escravo trabalhava mais nas charqueadas, quase como um operário, e não nos latifúndios; mais vivia nas cidades do que só no campo. Não por acaso, houve um certo processo de mobilidade social, dada a integração relativamente mais fácil do negro urbano ao mercado de trabalho. Ao analisar este processo verifiquei que, a despeito disso, a discriminação e o preconceito vigiam. Nunca aceitei, por isso, a ideia (que não foi formulada propriamente nestes termos por GF) da existência de uma democracia racial entre nós. Embora tampouco seja certo homogeneizar as relações raciais no Brasil com as vigentes, por exemplo, nos EUA.
Qual a pertinência da homenagem a Freyre neste momento histórico específico? A organização da Flip avalia que "com a crescente atuação do Brasil no cenário internacional (...), a escolha de homenagear o autor que primeiro analisou a constituição da sociedade brasileira sob perspectiva positiva promete incentivar acaloradas discussões em Paraty". Concorda?
Dizer que Gilberto foi o primeiro a ter uma visão positiva sobre o Brasil é um exagero. Acho que José Bonifácio tremeria na tumba e mesmo alguns outros políticos e pensadores. Só para citar mais um: o conde de Afonso Celso. Terá sido o primeiro, na década de 1930 (e mesmo antes, com seus estudos acadêmicos) a romper com o evolucionismo cientificista, com o corporativismo e com ideias de determinismo geográfico e biológico que começaram a preponderar nos anos 1920 e chegaram ao auge dos anos 30 em diante, com Oliveira Vianna. As razões de primazia apontadas já o são de sobra para homenageá-lo.
Uma nota publicada há poucos dias no jornal "O Globo" informou que a Petrobras desistiu de patrocinar a Flip porque o sr. faria a conferência de abertura, o que foi negado pela organização e pela petrolífera. O sr. foi informado de algo? Considera que a política pode contaminar a sua participação no evento?
Só sei o que vi nos jornais. Comuniquei que se fosse verdadeira a informação, embora honrado pelo convite, poderiam sentir-se desobrigados dele, dado que manter a Flip é mais importante do que uma eventual participação minha. O convite foi reafirmado. Quanto a imaginar que eu poderia me aproveitar do momento para "contaminar politicamente" o evento, a opinião, se verdadeira, é fruto da pobreza de espírito e do desconhecimento de minha atitude como intelectual que não confunde o plano analítico com o volitivo.
****** Sobre uma “nova versão” do Bolero, de Ravel, que circula na Internet Jairo Lima
Foto: Maurice Ravel
Poucos compositores eruditos tiveram a má estrela de ter uma de suas obras tão derespeitada quanto o coitado do Ravel (mais do que ele só o desinfeliz do Vila-Lobos, que deve girar interminavelmente em sua sepultura enquanto a mundiça faz e desfaz do seu trabalho). Motivo: O tema do bolero é extremamente popular e aí todo filisteu pôe-se logo a fazer "arranjos", coisa sabidamente desaconselhável em música erudita,a menos que o autor do arranjo seja melhor do que o autor do original, o que as vezes acontece, mas é muito difícil. Entretanto, quando Beethoven, por exemplo, cria as suas variações sobre temas de Mozart e Haendel, a obra resultante é de Beethoven e não dos autores do tema. Assim, quando você ouve o oratório ”Judas Macabeus” de Haendel, você está ouvindo Haendel; e quando você ouve as magníficas variações para piano e violoncelo sobre temas deste mesmo oratório (Beethoven, opus WoO 45), você está ouvindo Beethoven. Simples, né? Agora, veja: o Bolero de Ravel é um tema simples, marcado por um ritmo hipnótico, implacável. Então, onde está a "jogada" da obra? Justamente na exposição reiterada (18 vezes) deste tema sobre diferentes e nunca repetidas nuances cromáticas. E é justamente isto o que o tal “arranjo” destrói, mela, joga no lixo. Ou seja, o filisteu quando decide "arranjar”, mantém indevidamente o nome de Ravel na obra, cuspindo no prato em que está comendo. A razão é conferir qualidade “erudita” à mixórdia que ele preparou em sua própria cozinha pop. E aí tome Ravel para justificar abordagens kitschs da obra, como naquele abominável e choroso filmezinho francês (Retratos da Vida) de má memória, ou no tal por do sol de João Pessoa, feito para comover uma platéia pop desinformada e ansiosa por compartilhar uma emoção estética “superior”. Aprenderam, crianças? “Versão” ou “arranjo” de música pertence ao arranjador, não ao criador original, pois arte é forma, brother, e quando você criar sua própria concepção de uma obra de Picasso, pelamordedeus não ponha o nome do pobre catalão nos seus rabiscos. Falou?
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Um começo do caralho Jairo Lima
“Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev
Não veio ainda, Piotr? – indagava, em 20 de maio de 1859, um senhor que aparentava uns quarenta anos de idade, saindo sem chapéu à porta da hospedaria da estrada.
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Existe uma Estética Homossexual? José Castello
A comparação entre uma série de obras literárias, às quais se soma o inédito "O Pombo-Torcaz", de André Gide, põe em dúvida o argumento . Gide em 1900. Conto inédito "O Pombo-Torcaz" se baseia num amante que, segundo o escritor, "arrulhava quando fazia amor" Assim como a homossexualidade não existe — o "homossexual" é só um personagem inventado pela psiquiatria do século 19 —, é no mínimo temerário falar de uma estética homossexual. Se existem apenas as relações homoeróticas, e não os personagens imaginários que o senso comum arrola no clichê do "terceiro sexo", preferir as relações com o mesmo sexo não define ninguém. Essa impossibilidade se reafirma na leitura de O Pombo-Torcaz, delicado conto que o francês André Gide escreveu no verão 1907 e que só reapareceu um século depois. No texto, publicado agora no Brasil, Gide conta a noite memorável que passou com um jovem chamado Ferdinand Pouzac, em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse. O "pombo" do título é Ferdinand, apelidado assim por "arrulhar" quando fazia amor. Com sua ética protestante e seus conflitos interiores, André Gide (1869-1951) se esforçou para produzir uma explicação "natural" para a homossexualidade, da qual nunca afastou seus ideais religiosos. Em um livro como Corydon (1924), ele apresenta a pederastia (no sentido grego, de amor entre um homem mais velho e um jovem) como um ramo da pedagogia e a homossexualidade como um fenômeno biológico. O esforço para tornar aceitável o amor homossexual levou-o a fundar uma ética naturalista e biológica, que percorre toda a sua escrita. Ética segundo a qual o amor (seja ele qual for) é, antes de tudo, uma manifestação da natureza. Ética que bane de cena o desejo e a subjetividade, e que está presente também no conto que agora se publica. Menos dogmático que Gide, o furioso Oscar Wilde (1854-1900) lustrou sua vida sexual com o verniz do desafio, do vício e da decadência. Ao mostrar quão efêmera é a beleza, um relato como O Retrato de Dorian Gray reafirma um vínculo entre a homossexualidade e o "estilo" — seja ele nobre ou doentio. O amor homossexual não passaria, nesse caso, de uma afetação, como o esnobismo ou o pedantismo — que estão sempre presentes nos escritos do inglês. Em carta ao amigo Robert Ross, escrita dois anos antes de morrer, ele se arrepende dessa posição. Mas, em vez de avançar rumo à aceitação de si, recua. Escreve: "Eu teria alterado a minha vida se admitisse que o amor uranista era ignóbil". De fato, uma sombra negra percorre toda a obra de Wilde — sinal do vínculo entre a homossexualidade e o vício, que nunca conseguiu desfazer. Efeitos e estéticas muito diferentes foram obtidos no século 20 pelos autores da literatura beat americana, sobretudo por William Burroughs (1914-1997), autor de Almoço Nu, livro inspirado na temporada de sexo livre que passou em Tânger, no Marrocos. Ao lado de poetas como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, Burroughs trata a homossexualidade não como uma questão biológica, tampouco como uma afetação, mas sim como uma perigosa e excitante viagem interior. Politizada pela contracultura, essa viagem se tornou não só marginal, mas contestadora. Por isso, em suas mãos, a estética homossexual assume tons violentos, de grande força política, atitude que o leva para uma espécie de "pansexualismo". Antes dele, um autor como Marcel Proust (1871-1922) via as práticas homossexuais como uma espécie de maldição. Algo que, de alguma forma, se ligava à asma que, desde cedo, o infernizou. Em uma reversão, Proust fez da homossexualidade uma versão mundana da elevação espiritual, que ele encenou com sua vida reclusa. Repetiu, de certa forma, a herança dos poetas franceses Arthur Rimbaud (1854-1891) e Paul Verlaine (1844-1896), para quem a paixão homossexual que os uniu (e os separou) foi, sempre, um trafegar à beira do abismo; posição que se reflete na poesia que escreveram.
UMA FORMA DE VIOLÊNCIA
No século 20, um autor como o brasileiro Lúcio Cardoso (1913-1968) tratou a homossexualidade como um doloroso atestado de incompreensão. "Médicos, professores do futuro; exponho-me nu aos vossos olhos de certeza", escreveu, sintetizando sua posição de rejeitado. Místico e autodestrutivo, Cardoso via a homossexualidade não como uma realidade biológica, tampouco como uma ética; nem como afetação, ou uma "viagem"; mas como uma forma de violência. Visão que o aproxima de dois outros artistas do mesmo século, o escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990) e o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Para Arenas, a homossexualidade — vivida sempre às escuras, nos parques, nas vielas — se torna uma bandeira política contra Fidel Castro. Nas mãos de Pasolini, ela se transforma em uma afirmação de desejos arcaicos (e "populares") e de uma verdade que nem sempre é saborosa. Ao morrer assassinado brutalmente em uma praia de Ostia, com o rosto desfigurado e a postura de um santo, Pasolini, de alguma forma, fechou uma estética de revolta e da luta, na qual o homossexual aparece como uma espécie de arauto do futuro. Hoje, nas telenovelas, a estética homossexual se afasta também da doença (o que é positivo), mas se aproxima do modismo — o que, de fato, corresponde à forte expansão da indústria gay. As narrativas homossexuais ganham no vídeo, assim, um ar um tanto chique — como uma nova grife. Muitas estéticas são construídas em torno das relações homoeróticas; todas tentam enquadrar e disciplinar a esfera do desejo, que, em vez disso, é sempre singular e ingovernável. Supor que o amor homossexual é sempre o mesmo é tão ingênuo quanto imaginar que as relações heterossexuais, só porque se repetem entre parceiros de sexos opostos, se equivalem. Todos sabemos que, sob a estética oficial do vestido de noiva, do casal perfeito e dos filhos saudáveis, esconde-se uma infinidade de variações do amor. E que é nessas particularidades, nesses desvios do singular, que as relações amorosas são sempre vividas. Por isso — e o livro de Gide é só mais uma prova dessa impossibilidade — se torna cada vez mais difícil pensar em uma estética homossexual. Os amores, homossexuais ou heterossexuais, não comportam modelos. É na singularidade e na invenção, e não na repetição de fórmulas eróticas e estéticas, que eles revelam sua potência.
José Castello é jornalista e escritor, autor de A Literatura na Poltrona, entre outros.
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Pausa Sônia Bierbard in Linguagem Submersa
Todas as horas se passaram anoitecendo poemas
um estranhamento inunda meu olhar transbordando ausências: momentaneamente não sou estendo no tempo o passo inaugural
trago preso um clarão desvairado relâmpago desnudo que liberta o grito latejante
escuto o rumor ensangüentado pelas vidas que perdi levanto este corpo inútil dou voz a este espasmo musical e salvo-me deste descompasso que silencia o sonho
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